Terça, 07 de Fevereiro de 2017 - 16:40

Luis Ganem: Se vacilar, o tiro sai pela culatra

por Luis Ganem

Luis Ganem: Se vacilar, o tiro sai pela culatra
Foto: Reprodução

Você acredita que vídeos musicais de artistas baianos visualizados em plataformas de internet podem alavancar uma carreira artística? E isso acontecendo, a partir de quantos views (visualizações em inglês) pode-se considerar o vídeo um sucesso musical? Pois essas perguntas – no caso aqui apenas perguntas – foram motivo de questionamento em uma mesa de conversa sobre música quando o assunto entrou nos chamados fenômenos midiáticos e citei, como referência atual, a música 'Me Libera Nega' de MC Beijinho.

A partir da minha alegação, um dos componentes da mesa questionou a mesma – usei a forma afirmativa na conversa – dizendo que discordava do meu ponto de vista e que eu estava redondamente enganado. E a coisa não parou por aí. Nitidamente incomodado com o fato, o reclamante deu como exemplo de que a minha afirmativa não se sustentava, o fato de que um artista que o mesmo tinha produzido, que já tinha chegado a quase 20 mil views, era mil vezes melhor que o MC e, mesmo assim, não tinha acontecido nada. Bem, pelo visto a pessoa achou – ao menos foi essa a impressão que tive – que vinte mil visualizações era um número razoável para alguém fazer sucesso.

Daí fiquei imaginando o que tem passado pela cabeça das pessoas que atualmente trabalham com artistas, em achar que é só fazer um vídeo cantando ou algo parecido e largar na rede mundial, que ele acontece.

Como forma de poder dar uma luz aos meus pensamentos, voltei ao começo do axé, lá nos idos dos anos oitenta. Lembro que, naquela época, qual fosse o artista, o primeiro passo da gravadora ou do empresário era lançar uma ou duas faixas de trabalho no formato single – minidisco de acetato com duas faixas – e daí, gostando-se ou já sendo o artista um sucesso nacional, se comprava a bolacha – forma de se referir ao disco cheio – para ouvir as outras obras do seu ídolo.

Hoje, do mesmo jeito, as mídias eletrônicas estão aí como uma forma moderna de single. Mas PELO AMOR DE DEUS! Isso não significa, só pela facilidade de acesso a quem quer que seja, que lançar uma música e promovê-la no modelo “vai ouvir mesmo não querendo” – quando você recebe a música no seu WhatsApp e tem que abrir – vai fazer com que ela se torne um sucesso.

O pior é que tem gente que pensa, e tem certeza, que basta lançar algo nas mídias para que o sucesso apareça. Claro, é fato que hoje, com a mudança no formato de se comprar uma obra musical, a melhor forma de se mostrar algo é mesmo pelo WhatsApp ou pelas redes, mas daí o princípio de algo audível ou não, funciona igual aos primórdios: se for bom se ouve; em não sendo, se guarda. Não vou dizer que se joga fora, pois, obras musicais sendo sucesso ou não, servem como arquivo de consulta.

Pior ainda é quando o postulante acha que colocando uma estrela de primeira grandeza pra dividir a faixa de trabalho com ele, tem o mesmo certeza que o empurrão vai ajudar ao mesmo a galgar o Olimpo dos deuses da música, só que não.

Mesmo assim, antes que algum desavisado postulante a estrela saia por aí atirando mensagem com sua música para todos os lados, convém pensar duas vezes, pois nem sempre o tiro acerta o alvo, ou pode ser que saia pela culatra.

Em melhor dizendo e trazendo para a linguagem musical: se ligue pois a emenda pode sair pior que o soneto.

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