O presidente Itamar Franco se inquietou mais do que devia com as críticas a ele formuladas por Paulo Maluf e Leonel Brizola, que se inserem numa despropositada precipitação do processo sucessório. Ontem, sem mais nem por que, voltou ao assunto ao falar à imprensa, e, numa estranha imagem, disse que o tema sucessão agora atrapalha e é tão perigoso como fósforo e tanque de gasolina. O tanque de gasolina deve ser ele, que está em fase irritadiça a ponto de perder tempo com respostas, permitindo que Paulo Maluf faça tréplica e estabeleça um contraponto, ombreando-se ao presidente da República.
A precipitação sucessória ganhou espaço demasiado na mídia em razão da importância a ela dada por Itamar Franco. Os parlamentaristas, em desvantagem na campanha do plebiscito, aproveitaram-se para propagar o fato, demonstrando os malefícios que o presidencialismo acarreta ao despertar ambições em momentos inadequados, portanto impróprios. Se Itamar se irritou, e não escondeu o seu descontentamento, errou. Porque, a partir de agora, vai ter muito o que se irritar na medida em que, queira ou não, ninguém mais vai segurar o processo. Muito menos ele, que faz um governo frouxo, quase omisso, sem planos e projetos.
Se se estabelece um vazio no governo em função da ausência de grandes temas que atraiam as atenções dos segmentos melhor situados, da classe política e da opinião pública de maneira geral, a tendência natural é preencher esse vazio com especulações, sobretudo projetando-se expectativas de poder. As candidaturas nascem assim. Maluf e Brizola fazem seu jogo. Procuram transformar-se num diferencial em relação ao que aí está e, no caso, nada melhor do que dizer que “o governo Itamar acabou”, que “o governo é incompetente”, que “o governo é omisso”. Assim como os parlamentaristas, com justas razões, alardeiam que se o sistema fosse parlamentar e Itamar primeiro-ministro, de há muito ele teria caído porque, num sistema de gabinete, um governo se sustenta na medida em que tenha projetos e que esses projetos sejam da confiança da população e do Parlamento.
As críticas, portanto, que o presidente tem recebido são, pois, conseqüência do vazio de poder que se estabeleceu. Do estado de letargia nacional, do desânimo. Com poucos meses, o governo Itamar Franco envelheceu e fez dissipar as esperanças que vieram das ruas acompanhadas do grito “fora Collor”. Se ninguém está gritando “fora Itamar” é porque isso significaria o estraçalhamento institucional. É um andor que o País vai ter que carregar, mas o santo vai ouvir, antes do tempo, os rumores sucessórios. Mesmo achando que isso significa palito de fósforo e tanque de gasolina.
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Sucessão – Não é só a nacional. Também nos bastidores arde a sucessão baiana. O PSB constituiu uma comissão para se encarregar de um projeto: convencer Waldir Pires a abandonar o PDT e mudar-se, com seu grupo, para a legenda. Waldir está mal dentro do PDT. Brizola tirou-lhe os espaços acionais e, sempre que pode, não poupa críticas ao deputado baiano.
O PSB, além desta comissão constituída durante uma reunião realizada no início da semana, está também pensando em outro possível candidato ao governo baiano. Quer João Durval Carneiro no partido. O prefeito de Feira de Santana pode ficar sem legenda, porque o seu PMN arrisca-se a ficar, dentro em breve, inviabilizado com a nova legislação eleitoral, a ser aprovada até junho. Como se observa, todos esses lances são sucessórios.