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TRAGICOMÉDIA PETEBISTA
12/10/2007 00:00:00Imprimir / Indicar p/ Amigo



Samuel Celestino

(Foto do Baú)


Publicada no Jornal "A Tarde", em 07 de janeiro de 1981

Um Senhor saltou na Bahia com uma missão muito especial. Investigar o que de errado havia a atormentar a sigla do PTB, investido de poderes delegados pela tagarela Ivete Vargas, proprietária do trabalhismo getulista, conforme direito reconhecido pelos tribunais. Veio e, de repente, se embriagou com os encantos do verão-janeiro e com os mágicos feitiços do dengue baiano. Não há nada, constatou ele, o partido é forte e fará o futuro governador do Estado, E caiu de amores pelo PTB daqui.

Do Rio, Ivete Vargas estrilou, desautorizou o seu emissário, reuniu a cúpula do partido e encaminhou ao Tribunal Superior Eleitoral o processo de destituição da comissão provisória do PTB baiano. Sequer esperou o relatório do observador e arrumou uma frase de efeito que, aliás, não é muito do seu estilo:

- É melhor não ter nada organizado do que uma sigla de araque.

O que há? Satanás pregando quaresma? Quem sabe dona Ivete tomou jeito. O PTB é um estranho partido que consegue confundir imagens e, ao mesmo tempo, ser oposição e governo. Oposição, frise-se, por insistência exclusiva da sobrinha-neta de Getúlio Vargas, não que de fato o seja. Governo porque carrega, como estigma, o made in Planalto, carimbo aposto pelo ministro Golbery do Couto Silva, para o desespero de Leonel Brizola que chorou e, diante das câmeras de TV, lascou a sigla num quadro digno de ser assistido por Janete Clair.

O PTB da Bahia, se de fato existe, transcende à compreensão dos simples mortais. Surgiu forte, com um grupo político representativo e sério, liderado por Josaphat Marinho, Waldir Pires e outros. Mas depois da derrota de Brizola no Tribunal, das lágrimas diante das câmeras, da criação do PDT para representar o que Brizola chama “verdadeiro e legítimo trabalhismo herdeiro de Vargas”, todos desembarcaram da canoa, que ficou com Ivete. Surgiu, então, no teatro, em cena de apenas um ato, o Sr. Osório Villas Boas, que imaginou poder fazer alguma coisa com o Partido Trabalhista Brasileiro.

O pano desceu rápido, Osório saiu de cena e hoje ri muito quando se lembra dos seus diálogos com a dona Ivete. O partido ficou, então, mais uma vez à deriva e dele políticos, jornalistas e eleitores se esqueceram.

Novamente, de repente, porque esta é uma história com muitos de repente, apareceu o Sr. Cícero Alves de Almeida, irmãos do deputado do PDS João Alves de Almeida, constituiu uma comissão provisória, organizou um núcleo, montou escritório, mandou imprimir papéis e envelopes com as cores preto, vermelho e branco do PTB e começou a trabalhar. Por cortesia política, compareceu à convenção do poderoso PDS e deu início à filiação partidária, com fichas que saíam das mãos de vereadores do PDS e constituiu algumas comissões no interior. Os demais partidos de oposição não levaram o PTB baiano a sério. Presentearam-lhe com a alcunha de “filial do PDS”, mas o trabalho prosseguiu.

Até aparecer, de novo, Ivete Vargas anunciando a destituição da comissão provisória, alegando adesismo e chamando-o de sigla de araque.

Uma gíria muito própria para entender este partido como um todo, nacionalmente, e não só a comissão provisória baiana.

Não é, como se vê, uma história triste, porque é possível rir com a encenação trabalhista, embora não sendo comédia. É uma tragédia política, com leve sabor tropical, de um partido que um dia foi forte e empolgou grande parcela do eleitorado brasileiro.

 
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