Inspirado em 'tio brigão', Robson Conceição foge de confusão: 'Gosto de brigar no ringue’
Foto: Tiago Dias/ Bahia Notícias

O ano de 2018 será decisivo para o boxeador baiano Robson Conceição. Ele pretende acumular as vitórias necessárias para se credenciar à disputa do cinturão da categoria super pena (até 58,9 kg) até o início do próximo ano. Medalha de ouro nos Jogos Olímpicos Rio-2016, o pugilista vai subir no ringue pela sexta vez na carreira profissional no próximo dia 16. Ele vai encarar o hondurenho Jayro Duran. Invicto, Robson tem um cartel de quatro nocautes e uma vitória por decisão dos juízes. Já Duran acumula 11 vitórias, sendo dez por nocaute, e quatro derrotas. A reportagem do Bahia Notícias acompanhou Robson Conceição numa manhã de treino com sparring na Academia Champion, de Luiz Dorea, ex-treinador do ex-campeão mundial de boxe Acelino Popó Freitas, e do também ex-campeão, mas de UFC, Junior Cigano. Em entrevista ao site, Robson falou da sua preparação para este primeiro desafio do ano e contou que descobriu o boxe através do tio brigão de rua, que tinha como ídolo na infância.

 

Desde que entrou no boxe profissional, em novembro de 2016, você fala em disputar o cinturão o mais breve possível. 2018 é o ano decisivo para se credenciar ao cinturão no ano que vem?

Com certeza. Já vou fazer uma luta nesse início de ano, dia 16 de fevereiro agora em Nevada. Então 2018 é um ano muito importante, em que a gente pretende dar um passo muito grande em minha carreira. Pretendo fazer seis lutas e consequentemente conseguir as vitórias, ter um bom desempenho técnico e tenho certeza que lá para o início de 2019 já tem possibilidade da gente lutar pelo cinturão mundial. 

 

Existe alguma chance dessa disputa acontecer ainda neste ano?

Sim, pode ser também. Tudo depende do meu desempenho nas próximas lutas deste ano.

 

Para essa próxima luta contra o hondurenho Jayro Duran, qual será a sua postura no combate? Ele também é bom de nocaute como você. Venceu dez por nocaute das 11 vitórias.

É. Bom, geralmente, em luta profissional você assiste muitas lutas do seu adversário para saber o que você vai fazer. Porém, eu tenho um diferencial. Eu não assisto às lutas. Não assisto nem as minhas, quando luto eu não assisto depois. Eu tenho em mente que, quando eu treinar e me sentir bem preparado tecnicamente e fisicamente, eu tenho certeza que na luta o meu desempenho será muito grande.

 

E como está a preparação para essa luta contra Duran?

A preparação está a todo vapor. Eu tenho quase cinco meses de treino para essa sexta luta. Então, estou ficando bem preparado e tenho certeza que vou ficar na minha melhor forma e o show será garantido.

Robson Conceição | Foto: Leandro Aragão/ Bahia Notícias

 

O que mudou na sua rotina após a mudança para o boxe profissional?

O que mudou foi que... Primeiro, foi o reconhecimento do público, né? Agora, as pessoas me reconhecem bastante, onde eu vou eles me dão apoio. O público acredita em mim, manda mensagens de incentivo, de confiança. Isso mudou bastante. Os treinos também mudaram. O treino é muito mais forte, você usa muito mais força. É muito sofrido. Os meninos [sparring] vem com muita energia, muito gás para me ajudar e também para eles evoluírem. A Bahia é um celeiro de boxe muito grande. Então, os meninos estão me ajudando bastante, me desenvolvendo bastante e os treinos estão muito fortes. Tem a dieta também. Hoje eu faço uma dieta regrada. No boxe olímpico, eu não tirava peso, o meu peso era normal. Eu não me alimentava mal, sempre me alimentei bem, mas eu não seguia uma dieta. Hoje eu tenho uma dieta com o meu nutricionista daqui da Bahia, chamado Rafael Félix, que desde que eu passei para o boxe profissional vem me dando apoio e incentivo. Então, no boxe profissional eu luto mais leve do que no boxe olímpico. Agora eu luto com 58,9kg, mas tinha um porém, porque eu não podia ficar com 60kg o tempo todo, pois os caras que eu luto vem de 70kg, 68kg, então eu tive ganhar um pouco de massa muscular. Foi essa ajuda que Rafael Félix vem fazendo comigo de passar uma nutrição balanceada para que eu ganhasse massa muscular e não gordura. E no decorrer que fosse se aproximando da luta, eu venho baixando o peso. Eu peso um dia antes e no outro dia consigo recuperar o peso de novo. Então, o trabalho no profissional está sendo muito bem diferente do olímpico.

 

E o trabalho físico, você faz treino na academia também?

Com certeza! Eu faço de segunda a sábado. Treino duas vezes por dia. Pela manhã, eu treino boxe e à tarde treino a parte física com André Picolli. Ele inclusive também foi preparador físico de Júnior Cigano (ex-campeão do UFC) e estou fazendo a parte física com ele. Hoje mesmo de tarde, estarei lá na academia para fazer essa parte física. Treino de segunda a sábado, e domingo eu tiro para descansar.

Foto: Leandro Aragão/ Bahia Notícias

 

Agora voltando um pouco no tempo. Quando e como foi que você decidiu ser um lutador de boxe? Era brigão na infância?

Eu tenho um tio que era muito famoso no bairro por brigar. Ele brigava na rua, no Carnaval, na corda do Chiclete com Banana. Então, eu ficava na barraca de minha vó pela parte da amanhã e ficava escutando o povo vindo e falando: "Rapaz, você viu o que Roberto fez no Carnaval?". E aquilo ia gerando curiosidade em mim. Como eu tinha 12 para 13 anos, queria ser igual a ele. Então, eu brigava muito na rua. Não tinha condição de pagar academia, então treinava no fundo do quintal da casa de um amigo meu que fazia academia e me ensinava o que aprendia na academia. Daí em diante comecei a pegar gosto pelo esporte. Dos 13 aos 17 anos, surgiu um projeto social que garotos dessa idade não pagavam academia, aí pedi pra minha vó me inscrever.

 

Por falar em Carnaval, sua próxima luta será na sexta-feira pós-Carnaval...

Isso, meu Carnaval nesse ano vai ser lá em cima do ringue (risos).

 

Mas você gostava de sair no Carnaval? O ex-pugilista baiano Reginaldo Holyfield disse uma vez que gostava de ir pro Carnaval pra trocar socos. Seu tio Roberto também ia pro Carnaval fazer isso...

Não, já fui uma ou duas vezes para o Carnaval, mas era tranquilo, bem tranquilo. Mas não era que nem Holyfield não. (risos). Eu ia bem tranquilo (risos). Graças a Deus, eu herdei de meu tio uma coisa dele boa que era brigar, mas não na rua. Gosto de brigar em cima do ringue.

 

Depois da medalha olímpica e agora como boxeador profissional, o que mudou nas suas finanças? Já conseguiu realizar algum sonho, de comprar alguma coisa que sempre quis?

Não, não, não. Não consegui. Depois que passei para o boxe profissional, o apoio no Brasil é zero. Nenhum! Graças a Deus eu estou com a Top Rank Fighter que é uma empresa americana, que é a melhor empresa de boxe do mundo e que vem acreditando em mim, me incentivando, pagando minhas lutas, minhas viagens, tudo. Deveria ser o contrário. Eu deveria ter o apoio do meu país, do meu estado. Eu luto por esse país, levo a Bahia para fora, representando com amor, com o Brasil no peito e infelizmente não tenho nenhum incentivo. A Top Rank me fez uma proposta para eu morar lá nos Estados Unidos, com tudo pago, casa, comida, carro... Só que, pelo fato de amar a Bahia, de gostar daqui, da convivência com os baianos, de estar em casa, com minha família, eu optei por estar aqui. Mas isso é triste de você lutar por um estado, por um país e não ter o devido reconhecimento.

Foto: Leandro Aragão/ Bahia Notícias

 

O que pesou para você preferir ficar aqui ou invés de ir para os Estados Unidos?

Claro que lá eu teria equipamentos para me preparar melhor. Não tem comparação. Mas o que pesou para ficar aqui foi a equipe técnica que tenho hoje que é muito boa. Lá eu não teria eles comigo. Além da minha família que mora aqui. Por isso que preferi continuar morando na Bahia.

 

Sobre a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos Rio 2016, como foi quando a ficha caiu que você foi campeão? Porque disputar uma Olimpíada já é um sonho para todo atleta, mas ganhar uma medalha e ainda por cima de ouro é para poucos.

A ficha caiu quando eu cheguei aqui em Salvador e tive aquela recepção maravilhosa. Foi coisa de outro mundo! A Bahia em peso me esperando aqui no Aeroporto. O bairro de São Caetano completamente cheio. O povo que acreditou em mim, que sempre esteve do meu lado, me incentivando. Todo mundo comemorando junto comigo. Eles que deveriam comemorar junto comigo, né? Pois eles estavam sempre me incentivando. Aquele foi um momento em que a ficha caiu. Foi um momento em que me lembrei do passado, do início de carreira, quando não tinha incentivo, não tinha apoio. Naquele momento tudo estava valendo a pena, pelo meu trabalho, pela determinação e aquele foi o momento em que a ficha caiu de verdade.

 

Na época da luta entre Floyd Mayweather e Conor McGregor, você disse que era fã do ex-campeão do boxe. Mayweather já está com 40 anos e ainda não decidiu pela aposentadoria definitiva. Sempre surgem notícias que ele cogita fazer mais uma luta, de que ele estaria negociando uma nova luta... Você pretende também construir uma carreira tão longa no boxe como a dele?

Sou fã dele mesmo, mas eu não pretendo chegar aos 40 anos ainda lutando. Eu pretendo ter uma carreira longa, de sucesso, de reconhecimento e pretendo chegar a mais ou menos quase lá, mas não nos 40, porque também eu quase não tenho tempo para aproveitar a minha família. Eu tenho duas filhas, sou casado e nessa correria de dia-a-dia, de treinos, de viagens, eu fico em casa, mas não é a mesma coisa de você estar descansado. De ter aquele tempo para brincar com minhas filhas, de conversar. Então, por isso, não pretendo levar tão longe.

 

E migrar para o MMA, você cogita essa hipótese de um dia fazer essa nova mudança?

Não, não, nunca pensei. Eu admiro assistir, ver os amigos lutando, mas não me imagino fazendo aquilo.

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