Terça, 19 de Dezembro de 2017 - 11:00

Com fim de gestão, Marcelo Sant'Ana fala sobre conquistas e promessas não cumpridas

por Ulisses Gama / Leandro Aragão

Com fim de gestão, Marcelo Sant'Ana fala sobre conquistas e promessas não cumpridas
Foto: Ulisses Gama / Bahia Notícias

Vivendo os seus últimos dias como mandatário máximo do Esporte Clube Bahia, Marcelo Sant’Ana concedeu entrevista exclusiva ao Bahia Notícias, entre o processo de transição para a nova gestão capitaneada por Guilherme Bellintani e o seu vice-presidente Victor Ferraz, que começa oficialmente nesta terça-feira (19). Sant'Ana fez um balanço do triênio do seu mandado, que começou no ano de 2015 e falou sobre tudo. Ele não fugiu de temas espinhosos, lembrou os momentos de crise e não deixou o repórter no ar quando questionado sobre as promessas não cumpridas. Após três anos de altos e baixos, alegrias e tristezas, conquistas e frustrações, Marcelo deixa a presidência feliz com o trabalho feito. "Acredito que fizemos um trabalho muito bom para o clube em diversas áreas", afirmou. "A autoestima (do torcedor) hoje é muito melhor do que era há três anos", completou. Confira a última entrevista de Marcelo Sant’Ana como presidente do Bahia ao BN, antes de passar o bastão para Bellintani e assumir uma cadeira no Conselho Deliberativo do clube, no qual também foi eleito na votação presidencial.

 

Como Marcelo Sant'Ana deixa o Esporte Clube Bahia?

Feliz pela oportunidade de presidir o clube que eu torço desde a infância, que a minha família torce, que os meus amigos torcem, de minha cidade e feliz pelo trabalho que a gente conseguiu desempenhar nesses três anos. Temos nossos erros, as nossas frustrações, mas acredito que fizemos um trabalho muito bom para o clube em diversas áreas. Claro que queríamos ter feito mais, o ser humano tem sempre essa busca pela melhoria, pelo sucesso, pela perfeição, mas saio feliz pela oportunidade e feliz pelo que foi construído.

 

Como o Bahia continua pós-Marcelo Sant'Ana?

Muito mais fortalecido. O Bahia era um clube sem patrimônio, hoje a gente já tem alinhado e a posse documentada de dois centros de treinamentos, o Fazendão e a Cidade Tricolor, do terreno do Jardim das Margaridas. Estamos vendo só a burocracia, questão de Refis e tudo para a propriedade também estar no nome do clube. O Bahia hoje é um clube com credibilidade junto aos outros clubes, patrocinadores, parceiros comerciais, atletas, agentes. E a torcida, acredito que a autoestima está muito melhor do que estava em 2014. A gente sai como atual campeão do Nordeste, oitavas de final da Copa do Brasil garantidas, uma vaga na Copa Sul-Americana, onde até 42 minutos do segundo tempo do jogo contra o São Paulo, a gente precisava de um gol para entrar na zona da Libertadores. Então, acredito que autoestima hoje é muito melhor do que era há três anos. Então, a gente fica muito feliz de ver o clube assim.

 

A terceira eleição direta da democracia Tricolor ficou marcada pela votação expressiva do candidato da situação Guilherme Bellintani, com 82%. Você pensa que isso também é trabalho seu, é fruto da sua gestão?

Acredito que o trabalho do nosso grupo é vencedor e o torcedor encara assim. E o Guilherme Bellintani é parte desse grupo, como (Carlos) Rátis, que foi o interventor, é parte desse grupo. O presidente (Fernando) Schmidt, durante um momento, fez parte desse grupo. Então, eu acredito que isso foi uma sucessão de uma linha de pensamento, de uma linha de trabalho desde a redemocratização do clube até hoje, que tem sido bem avaliada. Então, para todos nós que construímos isso, por exemplo, a Revolução Tricolor e a Simplesmente Bahia sempre estiveram juntos. E agora tem dois novos grupos que participaram dessa construção, 100% Bahia e Sou Bahia. Acredito que essa votação expressiva é reflexo das pessoas acreditarem na maneira que esse grupo tem buscado trabalhar, independentemente se é Marcelo Sant'Ana, se é Guilherme Bellintani. É a filosofia que tem sido defendida.

 

Como é que vai ser agora a rotina do Marcelo torcedor do Bahia e conselheiro do clube?

(Risos) Aí só no dia-a-dia para a gente ver, né? Sempre acompanho todos os jogos do Bahia há muitos anos, porque eu sou torcedor, profissionalmente escolhi trabalhar na parte de comunicação esportiva e depois virei presidente. Então, acredito que vou seguir sempre acompanhando, quando possível na (Arena) Fonte Nova, quando não possível, pela televisão. E buscar participar dessa vida política do clube nos bastidores, através do conselho que tem um papel muito mais legislativo, de colaboração. Ajudar quando solicitado pelo presidente Guilherme Bellintani. Seja com relação aos outros clubes, com federação, com Liga, com CBF. Ajudar nessas questões de bastidores e estar sempre disponível para o Bahia. E torcendo muito pro Bahia estar ganhando para ficar muito feliz!

 

Você sempre esteve muito ligado ao futebol e deixou claro que quer continuar no futebol. Tem alguma preferência de cargo ligado ao futebol? Sabemos que você tem uma relação muito boa com o presidente do Atlético-PR. Tem notícias, mas você disse que não tem nada concreto. Como é essa situação do Atlético-PR, se você puder explicar?

Questão de clube eu não falo, porque eu sou presidente do Bahia e falar de outro clube é até deselegante. Mas eu quero sim trabalhar com futebol. Não tenho ainda nenhuma proposta concreta. Tem pessoas que perguntam, fazem sondagem... Preferência de cargo não tenho. Eu tenho que ver o trabalho que eu teria que fazer nesse local. Eu não me apego a essa questão de status, de nomenclatura. Quero ir para um lugar onde eu possa me sentir feliz de fazer um trabalho, que seja num ambiente sadio e que seja num lugar agradável para minha família estar comigo, porque eu não vou para um lugar longe de minha família. Então, tem que ponderar essas situações. Se não aparecer nada interessante, eu abro um negócio próprio. A gente pensa, com calma, nisso também. Pensar com equilíbrio, com calma. Uma das coisas que eu me acostumei e a torcida sempre reclamou é que às vezes eu ponderava demais na tomada de decisão. Então agora não vai ser diferente também não. Vou pensar com muita calma, com muito cuidado.

 

Foram muitos atletas que chegaram entre 2015 e 2016, em 2017 já teve uma queda enorme e foi uma coisa muito criticada, tanto por você e depois da sua gestão. Você poderia explicar o que aconteceu em 2015 e 2016, o porquê de tantas contratações?

Eu acho que houve contratações em excesso. A ponderação que eu faço é que, nos anos de 2015 e 2016, nos obrigaram a fazer grandes mudanças. De 2014 para 2015 o Bahia foi rebaixado e era inviável o Bahia ter a folha salarial que tinha naquela época. O Bahia tinha uma folha superior a R$ 4 milhões e nossa folha em janeiro de 2015 era próxima a R$ 1,2 milhão. Então isso obriga a ter uma mudança grande no perfil de jogadores. De 2015 para 2016, nós falhamos no acesso. Então, existiu uma insatisfação muito grande na torcida, o grupo não tinha cumprido o objetivo principal da temporada e existia rejeição a uma série de jogadores. Então, tivemos que novamente fazer uma grande mudança. O que às vezes eu peço é para que exista uma ponderação. Se você pegar 2008 e 2017, dos quatro anos que o Bahia menos contratou, três foram no meu mandato. Isso já aponta uma mudança na questão da avaliação das contratações. Repito, houve um excesso mesmo com essa mudança. Outra situação que mudou muito e as pessoas veem, mas não fazem a ponderação, é o perfil de atleta que o Bahia tem hoje. Hoje temos atletas assediados pelo mercado internacional e pelos maiores clubes do futebol brasileiro em capacidade financeira. Isso mostra que hoje nós temos um elenco valorizado, coisa que eu deixo para dizerem: qual foi a última vez que o Bahia teve tantos jogadores de propriedade e jovens assediados pelas principais forças econômicas do país e por alguns clubes do exterior? Então, isso é uma mudança grande na política de contratações e montagem do elenco. Nosso elenco foi o mais jovem da Série A entre 20 clubes. Nossa folha não era uma folha alta, então às vezes a gente tem um risco maior também e mesmo assim nós compramos jogadores. O Bahia deixou de ser aquele elenco que a cada temporada era remontado. Na Série B, que subimos em 2016 para 2017, a gente foi fortemente criticado no início do ano por estar mantendo aquela base. E o nosso rival, fazendo um paralelo, era muito elogiado por estar trazendo jogadores de grande currículo e história. O final de 2017 mostrou qual dos dois clubes fez o melhor trabalho. Quem é o Campeão do Nordeste? Quem terminou na frente na Série A? Das 38 rodadas quem passou mais tempo na frente? Então, não foi por acaso. Quem é que tem hoje os jogadores mais valorizados? Então, aquelas pessoas que fizeram tantas críticas duras em janeiro, eu acho que não precisam elogiar nada agora. Elas podem seguir como elas quiserem, mas elas têm ver que estavam redondamente enganadas. A gente tem que refletir sobre o comportamento que elas vão ter daqui para frente.

 

A gestão de Marcelo Sant'Ana sai com conquistas, com mudanças de estrutura, mas também tem as promessas que não foram cumpridas. Até recentemente foram alvos de brincadeiras, como o Caldeirão Tricolor, 50 mil sócios, o Museu do clube... Por que essas coisas não aconteceram?

Caldeirão tricolor não foi uma promessa da minha gestão, já vinha com contrato assinado da outra gestão. É uma situação que nos chateia. Já tentei fazer a rescisão desse contrato. Juridicamente tem algumas travas e que não pode ser feito, porque já foram descumpridos vários prazos. Na questão do museu, primeiro demorou muito tempo para a gente conseguir chegar a um entendimento de área com o consórcio da Fonte Nova e isso trava, porque inicialmente nunca foi autorizado que o Bahia fizesse o museu do Bahia. Teria que fazer um museu do futebol baiano e eu disse que não ia fazer nenhum museu do futebol baiano. Eu sou presidente do Bahia, não sou presidente do futebol Baiano. Eu respondo por parte da história do Bahia e assumiria de fazer um museu de toda a história do Bahia. A hora que quiser isso, a gente tem disponibilidade. A loja na Fonte Nova já tem um projeto aprovado. Não foi feito por incapacidade financeira, todas as licenças já foram feitas, projeto arquitetônico concluído, alinhamento com o nosso fornecedor de material esportivo. Nesse ano a gente fez a recompra dos patrimônios do clube que nos travou em outras situações. A própria qualificação do elenco foi travada por causa desse desembolso. Não me arrependo dessas tomadas de decisão, mas tem algumas situações de bastidores que eu acho que muitas vezes não vale a pena ficar remoendo. Prefiro assumir a responsabilidade, sofrer as críticas e blindar a instituição. E a questão do plano de sócio, cinquenta era uma meta excessivamente ousada. Mas acho que 25 mil sócios era uma meta real. Eu fico com essa frustração, porque eu sei que isso é uma mudança cultural do nosso perfil de torcedor. Saímos de 3.500 a 4 mil em janeiro de 2015 para 13 a 14 mil em dezembro de 2017, é um crescimento significativo. No número de adesões e financeiramente no que isso representa, o Bahia chegou a alguns meses desse ano superar R$ 1 milhão em arrecadação de plano de sócio, mas talvez a gente tenha falhado na comunicação, em mexer em alguma situação com o torcedor, a gente não teve essa habilidade. Acho que o trabalho que a gente fez merecia ter, pelo menos, superado a barreira de 20 mil sócios. Eu digo isso, porque o maior momento de adesão foi na final da Copa do Nordeste. O acesso à Série A que era tão cobrado não superou. O início do Brasileiro, depois de ter sido campeão da Copa do Nordeste, a gente ganhou três dos cinco primeiros jogos, não deu pico de crescimento. A própria reta final com jogos invictos, três ou quatro rodadas disputando diretamente uma vaga na Libertadores também não deu. Então, a gente tem que entender que é uma mudança cultural, mas o torcedor também tem que entender que para o Bahia que ele quer, ele tem que ajudar a construir. Esse Bahia não vai vir pronto para depois ele abraçar. Ou ele participa, ou ele ajuda ainda mais do que tem ajudado, ou esse Bahia não vai chegar. Aí eu faço um comparativo: tivemos 21 mil pagantes em média de público, temos 13 mil sócios, cerca de 8 mil acessos garantidos. Na média de público, olhe quanto dinheiro o torcedor perdeu por não se associar. O torcedor tem que entender mais isso e a gente tem que tentar cada vez mais comunicar mais isso.

 

Na sua opinião, o que é que preciso fazer para que os resultados em campo não influenciem tanto nessa questão de associação?

No último ano e meio, nossa taxa de inadimplência tem ficado próxima de 15%, 16%. É um número que, para o futebol brasileiro, é de razoável para bom. O que a gente sempre batalhou foi ter uma taxa de inadimplência próxima a 10%, 12%. Essa taxa não significa que o torcedor saiu do plano. Às vezes ele fica um mês sem pagar, no segundo ele já pagou os dois. É trabalhar uma mudança cultural. O baiano nunca teve essa cultura de associação, a gente teve 20 anos que os torcedores queriam se associar e não conseguiram. A gente perdeu três ou quatro gerações de pessoas que hoje são consideradas de poder aquisitivo, que perderam esse desejo. Pessoas que teriam acima de 40-45 anos que perderam esse desejo. Porque essa possibilidade lhes foi tirada durante muitos anos. Então, ele carrega uma certa chateação histórica. Temos que tentar trabalhar essa comunicação, mudar essa perspectiva. Os mais jovens, de 25 anos para baixo, cresceram vendo um Bahia que não é o Bahia de verdade. Não é o Bahia que os pais deles sempre contaram, às vezes o irmão mais velho contou. Eu acho que nesse ano, ele teve o gostinho e a sensação do que é o Bahia de verdade, e onde pode chegar. Acredito que esse ano de 2017 deixou essa geração com uma perspectiva de futuro interessante, que eles podem ter um Bahia que eles ouviram falar dentro de campo. Acho que essas situações somadas, aos poucos, vão trazer esse sócio, acho que a gente vai se abraçar cada vez mais. 

Foto: Ulisses Gama / Bahia Notícias

 

Qual foi a pior situação e a melhor de Marcelo Sant'Ana no Bahia?

A pior foi o não acesso. O jogo contra o Boa Esporte, que confirmou, foi o pior momento nesse período. Não me senti traído. Faço uma ponderação. No dia que eu fui eleito tive mais de mil mensagens no celular. Depois do não acesso, tive entre 4 a 6 mil ligações. É uma situação que marca! Pelas situações também de extracampo, de manifestações, claro que aquilo ali não foi uma coisa da torcida do Bahia, foi uma coisa encomendada, ficou evidente pelo desenrolar. Acredito que teve momentos chatos, mesmo em triunfos como o 3 a 2 contra CRB, que eu vi torcedor vaiando, porque o Bahia ganhou no final, jogando cerveja em patrocinadores do clube, em familiares meus, tentando me agredir. Foi num momento que o Bahia estava no G-4. "Ah, mas ganhou um jogo aos 46 do segundo tempo". Isso é demérito? Então assim, existia ainda ali, de algumas pessoas, uma minoria raivosa com interesses que não eram do clube, eram pessoais. Isso era uma minoria, mas o torcedor sabe perfeitamente fazer as diferenciações das críticas, das cobranças, da reclamações dessas situações pontuais de perseguição. Então, acho que foi o mais chato, porque independentemente de Marcelo Sant'Ana, Fernando Schmidt, Guilherme Bellintani, Carlos Rátis, o que tem simbolismo é o cargo, ali é o presidente do Esporte Clube Bahia. Quando você tem posturas agressivas está afrontando a instituição através daquela pessoa que momentaneamente ocupa o cargo. A frustração minha, enquanto gestor, de não ter subido, aí a responsabilidade era minha. Das 34 primeiras rodadas ficamos 28 no G-4, fomos líderes em várias, chegamos no jogo contra o Botafogo, três, quatro jogos antes a cinco pontos deles e disputamos a liderança do campeonato. Então, esse contexto foi o pior momento. Foi pior do que em 2016, quando ficamos numa posição muito pior. Em 2016, sempre tive a confiança de que a gente ia reagir, pela própria experiência que a gente tinha vivido em 2015. Às vezes fazer a mudança do comando técnico, de cortar alguns jogadores pela raiz, não dar segunda ou terceira chance. Por exemplo, neste ano da Série A, eu tirei o artilheiro do Bahia no campeonato, quando ele era o artilheiro. Porque tive que dar exemplo e exemplo se dá no dia-a-dia com atitude. São aprendizados que a gente vai criando, de ter mais trânsito, mais aproximação. Muito mais atenção com os bastidores que cercam o campo. Boa parte do ano se ganha nos bastidores, não é só no campo. O bom momento, acredito que a própria eleição, porque ela mostrou que entre erros e acertos, o torcedor acredita na maneira que o nosso grupo tem trabalhado pelo Bahia e o que visualizamos de futuro para o Bahia. Dos poucos TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) que eu tenho é que sempre que eu saio de casa e venho para o clube, sempre conto quantas camisas do Bahia eu vejo na rua e, de três meses para cá, nunca foi menos do que 10 a 15. Isso para mim reflete a autoestima do torcedor. Ele sabe que o Bahia não está como ele deseja ver, mas confia que o caminho está correto, entre erros e acertos, entre falhas e méritos. Ele confia. E essa autoestima de vestir a camisa, de se sentir parte dessa construção, de apoiar, na média de público, na diminuição da inadimplência no número de sócios, na defesa da instituição na rede social... Eu vejo com muita felicidade o nosso futuro, porque nos grandes momentos do Bahia e nos meus momentos a gente vivia em sinergia com a arquibancada. Para chegarmos nos grandes momentos foi preciso ter essa sinergia e eu sinto que isso tem acontecido cada vez mais e os períodos delas tem durado cada vez mais também.
 
 

Fui um dos seus leitores enquanto jornalista e se percebia a sua postura crítica. Como é que foi para você viver esses três anos como vidraça convivendo com as críticas? Também queria que você falasse sobre a sua relação com a imprensa. Estou aqui no Fazendão praticamente todos os dias e vejo sempre você reservado, nas comemorações você prefere não falar. Gostaria que fizesse um apanhado dessa relação com a imprensa.

A questão de ser pedra e ser vidraça faz parte, né? Cada profissional tem o seu papel. A imprensa avalia, cobra, aponta soluções. O gestor dirige, tem equilíbrio na tomada de decisões. Você tem alguns rituais que cada cargo lhe impõe. Eu prefiro ser reservado no trato com a imprensa, por uma série de fatores. Primeiro, porque eu acho que o trabalho da imprensa tem que se refletir pelas atitudes, pelo que você constrói, não só pelo que você fala. Claro que você tem que falar também, porque você é o porta-voz da instituição. Enquanto presidente, você é o principal porta-voz. Você tem que dar satisfação, tem que assumir a responsabilidade, e disso eu nunca me furtei. Mas nos momentos de alegria, eu prefiro que outras pessoas apareçam, porque o trabalho é coletivo. Meu papel é, principalmente, liderar essas pessoas. E se tivemos o resultado, muitas vezes o trabalho braçal, o operacional, é dessas pessoas. Então, elas têm que ser valorizadas. No futebol, os ídolos são os jogadores e tem que continuar assim. O futebol baiano durante muitos anos cultivou muito a figura do dirigente e eu acho isso ruim. Acho que a gente tem que cultivar as figuras que transformaram a nossa realidade. Se é um dirigente, que ele seja valorizado, que ele seja respeitado. Mas se é um atleta, que ele seja valorizado, que seja respeitado. Eu falo aqui como torcedor do Bahia. Eu cresci sem ver o Bahia respeitar os seus ídolos. Eu passei pelos meus 12, 15, 20, 25 anos sem ver o Bahia ter respeito aos seus ídolos. Talvez, porque eu cresci acompanhando a imprensa e depois fazendo parte dela. A imprensa aqui dá muito espaço para dirigente, todo dia é uma entrevista, um bate-papo, uma mesa redonda. Tem muito dirigente que nunca fez nada de produtivo para suas instituições. Conquistou o quê no patrimônio? Conquistou o quê na área de gestão? Conquistou o quê dentro de campo? Às vezes o cara não fez nada, mas vive nos holofotes. Acredito também que como dirigente continuei crítico de muitas coisas. Vira e mexe eu lia nas redes sociais o pessoal escrevendo: "Ah, eu queria ver o que o jornalista Marcelo Sant'Ana falaria". O presidente falou várias vezes. Critiquei federação (FBF) e CBF, critiquei calendário, participei de uma equipe que rompeu com o monopólio dos direitos de transmissão do futebol brasileiro, defendi a profissionalização da arbitragem e o uso da tecnologia, que hoje o futebol tem começado a implementar. Não me furtei de ir pro embate, criar polêmica. Mas acho também que um presidente não tem que ficar comprando briga todo dia. O papel é administrar o clube. É a maneira que eu prefiro ser enquanto dirigente, o mais discreto. Se você procurar entrevistas minhas nos momentos de crise e nos momentos de conquistas, vai encontrar muito mais na crise. Mostra a minha entrevista no acesso. Me mostra mais do que duas entrevistas quando a gente foi campeão da Copa do Nordeste. Agora, quando o Bahia não subiu, eu marquei coletiva no Fazendão. Em 2016, quando teve manifestação de torcida, estava muito mal no campeonato, em Minas Gerais, eu dei entrevista. No Rio Grande do Sul, eu dei várias entrevistas.

 

Falando de 2018. Claro que Marcelo Sant'Ana não é Guilherme Bellintani, mas se você tomasse posse agora, faria esforço para manter Paulo Cezar Carpegiani como técnico?

Como futuro ex-presidente, eu não posso ficar comentando essas situações em público. Guilherme Bellintani tem que ter total autonomia e tranquilidade para tomar as suas decisões. Nos bastidores, eu já dei a minha opinião para ele, já comentei, já ponderei diversas situações sobre diversos nomes, sobre diversas situações do clube. Não vou me omitir quando ele me perguntar. Mas em público, um ex-presidente tem que ter muita cautela do que fala, porque o peso da declaração é muito maior, ainda mais sobre o sucessor. A gente é do mesmo grupo, entendeu? Eu quero que Guilherme acerte muito mais do que eu acertei, conquiste muito mais títulos do que eu conquistei, faça melhores compras e vendas do que eu fiz. Eu quero que ele seja o mais feliz possível aqui no Bahia, porque eu vou ficar feliz como torcedor do Bahia. O meu papel tem que ser sempre de apoio, de estímulo, de proteção, em alguns momentos, de blindagem. Enquanto ele tomar as decisões em defesa do clube, em 100% do tempo, eu vou estar do lado dele, por tudo o que eu vivi. Um ex-presidente só tem que ir para o confronto contra outro presidente se for num período de eleição e eles tiverem ideologias diferentes ou se ele sentir que o clube está sendo prejudicado de maneira dolosa, culposa, proposital. Erros e acertos vão acontecer com todas as pessoas do mundo.

 

Você falou antes de Bellintani ser eleito que você iria pavimentar o caminho de situações para o próximo presidente. Queria que você falasse em relação a elenco, já tem uma base para começar o Campeonato Baiano, Copa do Nordeste?

A gente tem várias situações, por exemplo, na área financeira. Guilherme tem todo um fluxo do que o Bahia precisa ou não fazer, para captar mais receitas ou não. A gente indica quais são as áreas que acreditamos ser possível ampliar a captação de recursos. Claro que ele vai ter a visão dele também como gestor e empresário bem-sucedido que é. Alguns contratos como fornecimento de material esportivo, o da Arena Fonte Nova, a gente já pontuou caminhos que a gente acha que podem ser ajustados em benefício do Bahia. Na montagem de elenco, ele já sabe quais são os jogadores que a gente manteria ou não. Já deixamos uma base com contrato. Fizemos algumas renovações por entender que deveriam ser feitas. A parte de prospectar o mercado, o DADE, e o próprio departamento de futebol já tinham feito algumas ligações para acelerar essa tomada de decisão dele, se quer ou não o jogador, mas deixar o caminho trilhado. Porque o mercado do Brasil é igual a Roma antiga, parece o Coliseu, é briga para todo lado. Então, você tem que ter alguns encaminhamentos. Claro que a última palavra é dele, se quer ou não, mas a gente não se comprometeu. É esse tipo de situação que a gente veio pavimentando. Como ele tem na vice-presidência Victor Ferraz, que é o nosso jurídico, até detalhes de contrato, terá acesso muito direto. Victor chegou ao clube antes de mim, e é uma pessoa que, nesses três últimos anos que estive aqui, só busca o bem da instituição. Sem vaidade, sem outros interesses, uma pessoa correta, direta. Acredito que ele fez uma grande escolha com o seu vice, que vai facilitar essas questões de tomada de decisão, porque ele não vai saber só o papel frio, o que está escrito no contrato, mas ele sabe, através de Victor, como aquilo foi construído e por que a gente buscou aquilo, vai conhecer a origem das tomadas de decisão.
 

Para encerrar, uma mensagem para o torcedor do Bahia que acompanhou esse triênio com frustrações, com grandes triunfos, título Baiano de 2015, da Copa do Nordeste, acesso à Série A, volta à Copa Sul-Americana, uma Copa do Brasil de 2018 nas oitavas de final.

Gratidão à nação Tricolor por todos os momentos. Tive o maior aprendizado possível da minha vida enquanto presidente do Bahia. Ocupei o maior cargo que eu posso ocupar na minha vida também, que é ser presidente do meu clube do coração. Jogador nunca vou ser, então independente do que eu faça no futuro o maior cargo é o de presidente do Bahia. Não tem outro. Gratidão por todo o aprendizado, por esta oportunidade. Desculpa pelos momentos que eu falhei e não consegui dar ao torcedor o que ele desejava ou merecia. E vamos ser cada vez mais parceiros do clube. Entendo que o torcedor fica chateado, que o torcedor é passional, mas a gente tem que ter muito cuidado com o nosso clube, temos que cuidar muito do nosso clube. O clube, mesmo fazendo 87 anos no dia 1º de janeiro de 2018, é sempre uma criança para a gente. Ele precisa de cuidado máximo, atenção, proteção, blindagem, bons sentimentos, boas energias, carinho. É disso que o Bahia precisa para se fortalecer. Você pode criticar, pode querer corrigir, mas pense sempre que o clube é um filho seu. Tem que ter cuidado como você fala com esse filho, porque o mercado de patrocinadores vai estar sempre monitorando as reações, os outros clubes também, os agentes vão monitorar cada detalhe e nesse mundo cada vez mais globalizado e competitivo, ninguém vai querer se aliar a uma marca que não tenha respeito, que não tenha credibilidade, que não tenha bons valores. É isso que a gente tem sempre que criar no Bahia, com solidez, com planejamento, com respeito e com muito amor para que o Bahia seja durante muitos e muitos anos o clube que a gente quer. Ele tem totais condições de ser, depende da gente fazer o nosso papel, cada torcedor, cada sócio, cada conselheiro do Esporte Clube Bahia. Um abraço a todos!

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