Segunda, 12 de Fevereiro de 2018 - 11:00

Rei Momo 2018

por Ailma Teixeira

Rei Momo 2018
Fotos: Cláudia Cardozo / Bahia Notícias

Por pouco, o concurso de Rei Momo para o Carnaval 2018 não foi cancelado. De início, a Federação das Entidades Carnavalescas e Culturais da Bahia alegou falta de tempo, depois voltou atrás, mas ainda assim a seleção foi marcada por conflitos – alguns candidatos atrasaram, o que culminou na desclassificação deles. Até que o professor de História André Luís, autodenominado Dallas Lewes Addamis artisticamente, foi eleito campeão na noite de 31 de janeiro. “Este ano, como foi tudo em cima e não teria mais o concurso, eu não tinha me preparado mesmo. Como eu já tinha a fantasia lá, que foi a fantasia da Mangueira, e que fazia homenagem a Maria Bethânia, eu só dei uma incrementada nela e preparei meu repertório musical. E teve também a insistência dos amigos, que já estavam ‘Rei Momo de Carnaval é você’ e tudo”, afirma, acrescentando que o título foi uma surpresa. Dallas já havia concorrido em 2017, mas acabou em segundo lugar. Já nesta edição, ele venceu por 84 votos, apenas dois pontos de diferença para o segundo lugar, o chef Jô da Bahia. Para o professor, esse placar acirrado demonstra um “favoritismo” por parte da organização do concurso, já que é comum que um Rei Momo se reeleja em edições diferentes – tanto o segundo quanto o terceiro colocado, o conselheiro tutelar Renildo Barbosa, já foram coroados. "Não querendo desqualificar os outros candidatos, todo mundo fez uma ótima apresentação, eu adorei, mas eu achei a diferença muito miúda. Isso eu vim cair a ficha na segunda-feira, me deixou muito triste na segunda e na terça quando eu vi que foi só dois pontos de diferença para o segundo candidato. Já para o terceiro, foi a diferença realmente absurda, então eu queria descobrir que tendência foi essa porque eu vi a apresentação do segundo lugar e eu, além de fazer uma performance carismática, alegre, passei por vários ritmos", questiona. Além das confusões que permearam essa eleição, o professor critica também a industrialização do Carnaval de Salvador, que acredita ter sido o fator responsável pela desvalorização da figura do Rei Momo. Ele pontua que hoje os camarotes fazem suas próprias festas dentro do circuito e que os holofotes estão voltados para os grandes artistas, não mais para o intitulado rei da folia. "Antigamente, o Rei Momo tinha todos os privilégios. Ficava nos melhores hotéis, os camarotes faziam questão de ter o Rei Momo, que era um chamariz, era uma honra, era uma augusta honra ter o Rei Momo, que é representante da folia, do Carnaval, em seus camarotes. Hoje não, as portas se fecham", lamenta. Em entrevista ao Bahia Notícias, Dallas falou também sobre a participação de ritmos musicais de outros Estados no Carnaval da capital baiana, sobre a criação de um novo circuito "de grande porte" para comportar todo o público e outros assuntos ligados à folia.

 

Como foi a sua preparação para ser Rei Momo?

Olha, a princípio, eu não iria concorrer esse ano. Ano passado eu fiquei em segundo lugar, gostei da experiência e a princípio eu fui me inscrever porque só era brincadeira, eu não tinha o peso suficiente, embora já estivesse com 113kg na época – agora já estou com 128kg. Então, foi por causa da brincadeira dos amigos, que ficavam “vamos, vamos, vamos”. Mas depois eu fui dando um caráter mais sério, no ano passado ainda. Me debrucei na pesquisa, dei umas pesquisas nos anos antecedentes e montei um figurino bacana em homenagem a Chacrinha. Este ano, como foi tudo em cima e não teria mais o concurso, eu não tinha me preparado mesmo. Como eu já tinha a fantasia lá, que foi a fantasia da Mangueira, e que fazia homenagem a Maria Bethânia, eu só dei uma incrementada nela e preparei meu repertório musical. E teve também a insistência dos amigos, que já estavam “Rei Momo de Carnaval é você” e tudo. É tanto que a maioria dos amigos... Ano passado eu fiz, nas redes sociais, o convite pra irem lá torcer, pra irem aplaudir, mas esse ano eu não avisei a ninguém, então foi a maior surpresa.

 

Você comentou que no ano passado estava abaixo do peso. Como é essa preparação? Você busca ganhar mais peso na época do verão ou mantém o físico do ano todo?

Todos os produtos gordurosos que a gente come hoje, e olhe que eu evito comer gordura, é uma raridade. Uma vez no ano e, depois do Carnaval do ano passado, eu comecei a ter problema de pressão alta, que eu nunca tive. Meu pai é hipertenso. Mas eu comi um feijão salgado de um amigo meu depois do Carnaval, e também devido a outras preocupações e tudo, a pressão foi ficando alta. Eu fiquei uma semana inteira com dor na nuca, cada vez piorando, quase tive pico de pressão, até que fui na emergência e ela constatou. Me passou pra fazer os exames e fui equilibrando. Comecei a tomar um remédio, fui num especialista, comecei a me tratar. Então, tive que realmente perder peso, fazer dieta. Foi quando realmente já estava muito alta a pressão, hoje já está equilibrada, o médico está acompanhando. Então, não há assim uma dieta, mas há sim um condicionamento físico porque, você sabe que devido ao peso, a gente se locomove mais devagar, cansa mais rápido... Como eu sou dançarino de quadrilha, eu já tenho esse preparo físico. Com esse condicionamento, eu já danço, ando bastante, então eu não fico fraco assim, me cansando... Só quando eu vou subir ladeira.

 

Você ficou em segundo lugar no ano passado. É a segunda vez que você participa do concurso ou você já tinha tentado outras vezes?

Não, eu achei que não tinha os aparatos, a estatura, o quilo. Eu pensei que não era o padrão certo de Rei Momo, pra mim tinha que ser a pessoa gorda comum, como muitas pessoas interpretam isso. Mas tem que ter pelo menos 100kg. Como eu sou alto e tenho bastante barriga... Barriga pra dar e vender, porque eu gosto de comer e tenho o prazer de comer, não fiz bariátrica por isso, mas estou maneirando mais.

 

 

Nesse ano, inclusive, você venceu por apenas dois votos de diferença. O que você acredita ter sido o diferencial pra te sagrar vencedor do concurso?

Veja bem, não querendo desqualificar os outros candidatos, todo mundo fez uma ótima apresentação, eu adorei, mas eu achei a diferença muito miúda. Isso eu vim cair a ficha na segunda-feira, me deixou muito triste na segunda e na terça quando eu vi que foi só dois pontos de diferença para o segundo candidato. Já para o terceiro, foi a diferença realmente absurda, então eu queria descobrir que tendência foi essa porque eu vi a apresentação do segundo lugar e eu, além de fazer uma performance carismática, alegre, passei por vários ritmos. Eu comecei com o samba, depois fui pra o afro, depois eu fui pra o axé e, por sinal, eu não completei minha performance porque começou a gritaria, a confusão e aí o pessoal parou a minha última música que era “Atrás do trio elétrico”. Então, eu vi a minha performance que estava muito alegre, todo mundo gostou, e eu vi também a performance do segundo lugar, que estava boa, mas pra ser só dois pontos de diferença, eu senti que eu quase perco mais uma vez. Então, devido a isso, eu fiquei muito triste por essa parte, mas como eu já estou com a coroa e ninguém tira, meu bem, vai sofrer. Agora não concorro mais porque eu já vi que em todo lugar há tendências a ter escolhidos.

 

Muitos vencedores já ocuparam o posto em outras edições.

Eu falei até com a federação do Comcar porque, gente, vocês têm que criar uma cláusula que quem foi rei é uma vez só. Rei é rei, tem que dar oportunidade a outras pessoas. Eu, no caso, não quero mais. Mas os reis vêm concorrendo várias e várias vezes. Como eles já têm o conhecimento, já ganharam outras vezes, já têm a mídia, já conhecem as pessoas, isso até os favorece. Tanto que, veja bem, o segundo e o terceiro [colocados] já foram reis. Às vezes, há um favoritismo. Então, pra que não ocorra, deveriam criar uma cláusula pra que só concorressem uma vez pra dar oportunidade aos candidatos de Salvador e de toda a Bahia.

 

Esse ano, o concurso quase não acontece. Explicaram que era por conta do curto prazo e tal. Mas houve algumas confusões, inclusive durante a eleição. Você acredita que falta reconhecimento para a eleição e para a figura do Rei Momo, que, de forma simbólica, possui a chave da cidade durante o Carnaval?

Totalmente! Sem sobra de dúvidas, esse questionamento é necessário. Antigamente, o Rei Momo tinha todos os privilégios. Ficava nos melhores hotéis, os camarotes faziam questão de ter o Rei Momo, que era um chamariz, era uma honra, era uma augusta honra ter o Rei Momo, que é representante da folia, do Carnaval, em seus camarotes. Hoje não, as portas se fecham. Se você não for antecipado e tiver conhecimento pra entrar nos camarotes, não os oficiais do governo e da prefeitura, mas os particulares, ainda mais os de nome, eles não fazem questão. Se você chegar lá na hora, eles não deixam entrar. Então você tem que ser previamente agendado, pra ver o dia que você vai e olhe lá porque tem uns que nem a cerveja dão. Então, há sim um descrédito, uma desvalorização do Rei Momo na folia. Antigamente, o Rei Momo também recebia vários brindes, além da sua premiação. Os blocos davam as cortesias para o Rei Momo. “Tome duas fantasias, três, pra você trazer sua galera pra vir pra cá”. Hoje não. O Rei Momo pega a chave da cidade, está ali pra tirar foto com as autoridades e pronto.

 

O que você acredita ter provocado essa desvalorização ao longo dos anos?

O carnaval se industrializou. O Carnaval hoje é empresa. As empresas, os camarotes são os bailes de antigamente do Fantoches, do Baile de Tênis. Hoje são eles. Então, fazem suas festas dentro da própria festa. O foco hoje não é mais o Rei Momo, o foco é o artista. Se disser que o Rei Momo vai desfilar com uma banda bem simples aqui da Bahia pelo trio, ninguém vai assistir, ninguém vai prestigiar, mas se disser: “vai ter um artista muito famoso”, como foi o caso de ontem, todo mundo vai assistir. Então, eu culpo muito essa caixinha da industrialização, do Carnaval enquanto empresa.

 

 

As discussões sobre o Carnaval de Salvador são diversas. Crise da axé music, interesse privado na criação de um carnaval "indoor", blocos X trios sem cordas. Como Rei Momo e também conhecedor da História, como você avalia o panorama da folia?

Eu tenho opiniões ambíguas sobre essa posição. Porque de um lado, você tem uma evolução no Carnaval, ele vem abrindo portas para os ritmos, músicas, gostos, mas por outro lado também, e aí já é um pensamento muito particular de soteropolitano, muitos artistas vêm aproveitar o melhor Carnaval do mundo para fazer a sua fama. Eu até vi na televisão, quando acabou os cantores, o pessoal estava ouvindo DJ lá na Barra e aí uma das foliãs falou assim: “ah, pelo menos é bom que tem os ritmos que a gente gosta”. Não. Se você veio pra ver o Carnaval da Bahia, você veio pra curtir o ritmo do Carnaval da Bahia. Se você vai pra Olinda, você vai curtir outro ritmo? Você vai atrás das bandas das marchinhas. Se você vai pra o Rio, você vai sair nas Escolas de Samba, você não vai ter David Guetta e nenhum outro tipo de DJ. Então, o campo semântico aqui em Salvador abriu muito, é muita oportunidade pra muita gente, isso descaracteriza um pouco da folia. Porque se você já gosta do seu DJ, escuta na sua cidade e vai ver o mesmo aqui, não tem novidade, não tem atrativo. Essa é uma das minhas posições ambíguas.

 

Nos últimos anos, o Circuito Dodô sofreu um inchaço de público com o menor número de atrações no Circuito Osmar. Tanto que neste ano, o governo e a prefeitura colocaram mais atrações no Campo Grande. Qual a solução que você traria para revitalizar o Carnaval do Centro ou ao menos distribuir melhor o público nos circuitos?

Olha, a mídia é responsável por essa representatividade. Eu digo a você porque o quase filho do meu pai era o cantor da banda Beija-Flor, Levi Alvim, e aí quando a Banda Beijo entrou no Campo Grande, as emissoras foram pra Barra porque eles não pagaram as emissoras, não deram a propina, eles mudaram, então vai quem tem dinheiro. Se eu tiver dinheiro pra poder pagar quem está ou quem já tem fama, como grandes artistas que já estão aí... O foco é neles. A imprensa é responsável por isso, ela vai jogando. Veja os blocos afros, por que vão tão tarde? São trabalhos tão maravilhosos. Veja o Malê Debalê, que, por sinal, eu sou do grupo, tenho uma ala de dança lá, desde 1996 eu estou dançando com eles, têm o maior balé afro do mundo pra revista New York Times. A revista britânica, BBC de Londres, vai fazer uma cobertura esse ano. E desfila tão tarde que as pessoas não observam, as câmeras só mostram flashes, não mostram o desfile como é. A proposta é trazer de volta pra Avenida e valorizar também os que ainda fazem o Carnaval de verdade. Não é só o Carnaval de um dia, você bota o cantor ali e as pessoas vão atrás da massa, isso todos fazem. Mas fazer um Carnaval com Filhos de Gandhy e todos os outros, a mídia não mostra. Outra proposta é limitar também os trios: “olhe, você vai desfilar na Barra, domingo, e segunda, você vem pra Avenida”. Mas hoje muitos não querem porque o percurso é maior. O Centro é maior e como tem aqueles trios, vai engarrafando. Eu nunca esqueço quando era mais novo, que tinha um trio elétrico de um cantor muito famoso, tem a patinha [risos]. Ele vinha correndo pra não se bater com o Gandhy porque quando ele chegava na Castro Alves e encontrava com o Gandhy, ele ficava horas pra passar, já não tinha mais repertório pra cantar e ficava doido. Então, além de atrasar o bloco, ele atrasava os outros. Quem quer esse desgaste? Esses foram os motivos pra levar os blocos pra Barra porque é um “retão” e mais curto.

 

E quanto à sugestão, que volta e meia aparece, da criação de um novo circuito. Você acha que seria viável?

Lógico. Salvador já não comporta mais, é muita gente. A televisão está mostrando aí, logo em janeiro. Olinda, São Paulo, Rio de Janeiro, Carnaval antecipado... Sabe por que eles estão fazendo isso? Porque Carnaval todo mundo está aqui, ninguém está lá, tudo é ilusão. Eu digo porque eu já fui, eu sou pesquisador folclorista. Eu tenho que ir lá ver e experimentar. Eu fui pra o Carnaval no do Rio, vou participar do Carnaval da minha região aqui, de Maragogipe, e outros pra poder falar com propriedade sobre o assunto. Você veja que hoje há um êxodo no Carnaval. As pessoas estão indo para as ilhas, pra o litoral norte, às vezes até pra o interior, pra o Recôncavo. Imagine esse povo todo aqui curtindo? Então, um novo circuito é uma opção maravilhosa. A ideia já até foi tida por Carlinhos Brown, de fazer no Comércio, que seria o “Afródromo”, perfeito. E se fosse até a São Joaquim seria ótimo, de frente pra o mar também, então já se faz necessário ter esse circuito de grande porte. E outro detalhe agravante de não comportar mais tanta gente são os bairros. Se a prefeitura e o governo não estivessem investindo no Carnaval dos bairros, imagina esse povo todo na cidade? Aí sim, você ia ter um número maior de violência porque agrega. Quanto mais gente, mais empurrão. Quanto mais à vontade, mais tranquilo.

 

 

E por último, a gente tem várias apostas para o Carnaval. Mas qual a sua preferida ao título de música da folia?

Sem dúvida nenhuma que é o Banzeiro de Daniela Mercury. Porque como professor e intelectual, eu gosto de ouvir a música. Engraçado que essa música é do Pará, de outra cantora, e aí ela faz essa regravação, mas é o Banzeiro. A Popa da Bunda também é engraçada, é a cara da Bahia, por sinal, mas eu acho que o Banzeiro é o carro-chefe do Carnaval.

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