Segunda, 11 de Setembro de 2017 - 11:00

André Curvello

por Fernando Duarte / Ailma Teixeira

André Curvello
Fotos: Tiago Dias / Bahia Notícias

Embora há mais de dois anos o governador Rui Costa (PT) não tenha sido alvo de críticas a nível nacional como quando comparou a chacina do Cabula a uma vitória num jogo de futebol, o secretário de Comunicação do Estado, André Curvello, pouco conta como mérito de sua equipe a tomada de um discurso mais contido. Questionado pelo Bahia Notícias, Curvello minimiza o fato, afirmando que o governador disse aquilo “com a maior boa intenção e terminou sendo mal interpretado”, mas admite que estudou a fundo o perfil do petista para saber como melhor adequar a comunicação oficial da gestão, de acordo com o gestor baiano. “Essa coisa de ‘o profissional de comunicação fez a imagem’ não, um sujeito como o governador, que tem o histórico de trabalho no dia a dia, que eu digo que chega a ser alucinante, ele tem experiência, ele sabe exatamente o que ele está fazendo. Cabe a gente estar ali trocando ideia. Eu digo sempre que a gente é auxiliar de um líder”, afirma ao BN. Diante de toda a sua experiência no setor público – Curvello também coordenou a Secretaria de Comunicação de Salvador na gestão de João Henrique –, o secretário destaca como um grande desafio da comunicação institucional o estabelecimento de certa confiabilidade entre o eleitor e o governo vigente. Assim, ele defende que o segredo seja deixar um pouco de lado as promessas e projetos, a fim de direcionar a comunicação para o que já foi feito, mostrando assim os benefícios do trabalho exercido pela gestão. “Qualquer coisa que a gente vá comunicar, a gente tem que superar a barreira da falta de credibilidade diante de uma crise política e uma crise de imagem de políticos”, analisa Curvelo. Com a resposta do eleitor imediata, seja através de um comentário no Instagram ou de um compartilhamento no Facebook, o chefe da Secom-BA ressalta a necessidade de se evitar contestações posteriores por uma obra que não foi concluída no prazo anunciado ou um recurso que não liberado quando prometido. “Se ela erra, se ela mente, se ela inventa, aí você está fadado ao insucesso”, conclui. Na oportunidade, Curvello falou ainda sobre um legado dessa gestão, que é a inserção da comunicação no meio digital, e defendeu a figura do governador, que costuma ser elogiado enquanto gestor, mas é constantemente criticado enquanto político. “É o jeito de cada um. Rui é isso aí, não adianta querer maquiar que ele não vai aceitar a maquiagem. A imagem dele é essa, de sinceridade. (...) Eu acho que é o jeito novo que Rui está tentando fazer política. Esse é o Rui, é o Rui sério, é o jeito novo de fazer política, eu acho que está dando certo”, pondera. Mesmo que acredite na vitória do petista na disputa à reeleição, em 2018, Curvello prefere não confirmar interesse em permanecer à frente da Secom num eventual segundo mandato. Dito um homem do mercado, seu plano para quando sair do governo é retomar sua empresa de assessoria de imprensa, a AC Comunicação. Ele só não confirma se o projeto fica para 2018 ou 2022.

 

Qual o grande trunfo da comunicação do governo do Estado? Para você que tem experiências na iniciativa privada e no setor público, fazer comunicação do Estado é mais complexo?

Não, eu acho que é mais desafiador, até pelo tamanho do governo do Estado, mas eu acho que a grande questão do governo do Estado foi... Eu acho que um legado que o governador Rui Costa está deixando é a interiorização da comunicação. A comunicação do governo hoje está no campo digital e a outra questão é a modernização de linguagem. Eu acho que a gente conseguiu gradativamente modernizar a linguagem da comunicação oficial. Eu acho que são trunfos que ficam aí nesses quase três anos de governo.

 

 

A crise econômica acabou afetando o orçamento de algumas pastas. A busca por economia fez a comunicação do governo ficar mais criativa?

Eu acho que quando você tem uma crise é importante que você crie situações mais criativas, então a gente fez um estudo de orçamentos e de 2006 pra cá, a gente vem caindo nessa questão de orçamento. Com essa crise agora, a situação piorou, a gente pegou, em 2015, uma secretaria que estava com a comunicação centralizada, mas sem o orçamento centralizado porque a gente enfrentou muita dificuldade. Mas com o apoio da Secretaria da Fazenda, com a sensibilidade da Secretaria da Fazenda, seguindo as normas da Secretaria da Fazenda, como o programa do controle de qualidade do gasto público e sempre com a orientação do governador, a gente conseguiu superar e fazer uma gestão equilibrada. Eu acho que a crise serviu pra desenvolver a credibilidade de todo mundo, de toda a equipe da secretaria.

 

Um dos papeis da Secretaria de Comunicação é gerir a imagem do governo no âmbito de eventuais crises. Como se preparar para lidar com essas eventuais crises?

Com tranquilidade. A crise acontece. Existem aqueles momentos que você consegue fazer uma prevenção de crise, existe a gestão da crise. Repetindo, uma é a prevenção, você evita a crise, depois você sabe que tem a crise e você faz a gestão da crise, outra coisa é quando você é surpreendido pela crise. Esse é, eu diria, a etapa mais complicada porque, às vezes, a dinâmica dos fatos é muito cruel com a gente. Você está aqui no Bahia Notícias, na redação, de repente, acontece um fato e muda sua rotina. Da mesma coisa de quem está do outro lado, seja numa assessoria de imprensa da iniciativa privada, seja numa assessoria de imprensa do poder público, de um órgão público. Então, a dinâmica é cruel com todos nós que fazemos a comunicação. Agora, eu digo sempre que na crise é preciso você ter tranquilidade e ter agilidade. Eu, na iniciativa privada, à frente de minha empresa, sempre procurava passar essa tranquilidade pra os clientes. É o que eu tento passar, nos momentos mais difíceis, passar tranquilidade para as pessoas que eu assessoro. Tranquilidade, agilidade e ter a transparência é estratégico pra que você possa sair da crise. Às vezes a crise pode demorar algumas horas, alguns dias, alguns meses, mas a agilidade e a tranquilidade são dois pilares fundamentais. Repetindo que também não existe receita de bolo. Cada caso é um caso.

 

Em 2015, a gente teve uma crise com o artilheiro à frente do gol, que Rui deu essa declaração bem atacada pela imprensa. Dois mil e dezesseis, 2017, já estamos em 2018 e o governador já não participou de nenhum tipo de polêmica como essa. Qual foi o seu papel nesse processo de controle da "língua" do governador?

Não, não, não é papel de controle. O governador Rui é diferente a partir do momento que ele vem lá de baixo, ele vem de morar numa encosta. Ele vem de morar num bairro da periferia da cidade, uma família muito humilde. Então, era aquele cara que estudou muito, o chamado cdf, responsável, aquele cara que amadureceu cedo, uma identidade muito forte com o pai, com a mãe. Foi galgando seus espaços no mercado, na vida, no sindicato, depois na política. E depois se envolveu de uma maneira muito forte na questão da gestão pública, principalmente na [Secretaria] Casa Civil, na época do governo Wagner. E de repente ele, estudioso da Bahia, estudou profundamente a Bahia – é impressionante a capacidade de conhecimento que ele tem do Estado. Aí vem 2015, ele assume o governo e acontece um momento extremamente delicado, que é aquele episódio do Cabula e ele fala de forma espontânea, num momento que a sociedade estava surpresa com o fato que envolveu a morte de jovens em um bairro da periferia de Salvador. Então, na ânsia de tentar tranquilizar, ele fez uma comparação. Eu diria assim, com a maior boa vontade, com a maior boa intenção e terminou sendo mal interpretado, mas o papel da gente, de comunicação, eu digo sempre que é um papel de você olhar, de analisar, de conversar. Antigamente, o cara trabalhava numa campanha política e dizia: “eu ganhei a eleição”. Quando se perdia, “o candidato perdeu a eleição”. É a mesma coisa do profissional de comunicação. A gente tem o papel de estar ali, conversando, batendo papo e de tentar não errar. Tentar contribuir pra que não aconteçam erros, esse é o papel. Essa coisa de o “o profissional de comunicação fez a imagem” não, um sujeito como o governador que tem o histórico de trabalho no dia a dia, que eu digo que chega a ser alucinante. Ele tem experiência, ele sabe exatamente o que ele está fazendo, cabe a gente estar ali trocando ideia. Eu digo sempre que a gente é auxiliar de um líder.

 

 

Em um momento em que há mudanças de paradigmas da comunicação, principalmente com a intensificação do uso de redes sociais, como fazer a comunicação estatal sem personificar na figura do governador?

Isso é fundamental. Se você for observar, a comunicação oficial sofre muito com o momento de falta de credibilidade dos organismos públicos. Então, quando a gente vai fazer comunicação oficial, a gente sofre com isso. Qualquer coisa que a gente vá comunicar, a gente tem que superar a barreira da falta de credibilidade diante de uma crise política e uma crise de imagem de políticos, então tem que tomar muito cuidado e prestar sempre nas produções que nós fazemos, publicitárias, focar muito em prestação de serviço e no que aconteceu, não falar no que vai acontecer. Você pode até [falar] “estão em andamento obras assim e assim”, mas quando você faz “vai acontecer uma obra”, as pessoas já não acreditam. As pessoas só acreditam quando elas percebem que a obra é uma entrega que vai beneficiar. Eu acho que a grande questão nossa pra superar a falta de credibilidade é mostrar “olha, isso daqui, o governo está fazendo seu papel, que é uma obrigação do governo. Isso aqui está melhorando sua vida por esse motivo”. Esse que é o desafio. A comunicação tem o papel importante por isso, porque se ela erra, se ela mente, se ela inventa, aí você está fadado ao insucesso.

 

Rui é tratado como um governador duro. Como tratar a imagem dele para que haja um equilíbrio entre a imagem do gestor, elogiada até por virtuais adversários, e a imagem do político, criticada até por aliados?

Rui é Rui. A gente precisa colocar o seguinte: que um político, um candidato não é um produto que está ali numa prateleira do mercado. Ele acorda, ele respira, ele come, ele chora, ele sorri, ele é ser humano. Então, Rui é Rui. Ele é um cara técnico, um gestor. Acorda antes de cinco horas da manhã, vai chegar de uma viagem do Japão, no dia seguinte ele vai entregar uma obra no interior do Estado. Então, esse é Rui. Ele tem a maneira dele de sorrir, ele é um cara simples, humilde. Até entrar na campanha, ele era um cara muito tímido, que se sentia tímido até pra cumprimentar uma pessoa. Hoje não, ele já conversa, ele é o que ele é. Então, a gente na comunicação, não pode ficar dizendo que Rui é o cara festeiro, não, ele não é. A diversão dele é ficar com a família, ficar brincando com as filhas em casa. Ele é capaz de marcar reunião domingo de noite. Um cara desse você tem que saber estudar as características dele. Você não pode dizer “vamos ali na festa tal”. Ele pode até ir, mas você não vai querer transformar, forçar um cara. Ele é o que é, ele é natural. Muitas vezes, as pessoas dizem: “poxa, ele poderia ser mais simpático”. Mas ele é simpático, sem agredir ele mesmo, ele é sincero. Então, não adianta você esperar as maiores gargalhadas de Rui porque não vai ter. É o tipo gestor, que se preocupa. Eu sei porque Rui é sempre preocupado em fazer a mais. Quando ele chega de uma encosta que ele visita, quando chega do interior, de uma cidade castigada pela seca, ele chama pra bater um papo, pra avaliar a visita e chora. Então é aquele cara, Rui não é festeiro, Rui é de trabalho. Aí as pessoas ficam: “ah, ele não é político”. Ele é político, ele conversa todo mundo, mas ele tem o jeito dele. Cada um tem seu jeito, então a grande questão é saber respeitar. É o jeito de cada um. Rui é isso aí, não adianta querer maquiar que ele não vai aceitar a maquiagem. A imagem dele é essa, de sinceridade. Ele vai olhar no seu olho e vai dizer: “esqueça isso”. Isso aqui eu posso, isso aqui eu não posso. Eu acho que é o jeito novo que Rui está tentando fazer política. Esse é o Rui, é o Rui sério, é o jeito novo de fazer política, eu acho que está dando certo.

 

Você também assessorou João Henrique na prefeitura de Salvador e agora comanda a Secom no Estado com Rui Costa. O ex-prefeito era alvo de crítica dia sim e o outro também enquanto Rui Costa não é um alvo preferencial de ataques diários. Acontecem, mas não com a mesma frequência. Os pesos de ambos são diferentes? Rui é mais fácil de administrar enquanto chefe de Poder Executivo do ponto de vista da comunicação?

Muito mais, muito mais. A comunicação não é uma célula isolada, ela faz parte de um contexto. João era um sujeito midiático, que, pela própria desestruturação política, terminou sendo castigado pelos próprios ex-aliados, ou seja, aqueles aliados que se tornaram adversários. Isso tudo, aquela incerteza política, aquele turbilhão político que foi criado terminou... Aquele aliado que sai e sai atirando, então foi muita gente, muitos partidos atirando num alvo só e isso aí contamina a mídia de uma maneira geral. Eu, particularmente, acho até que em virtude do que João fez, ele terminou sendo injustiçado pela mídia, eu acho que faltou uma análise da mídia do João político, com o que aconteceu de positivo na cidade. Então, com Rui é diferente, Rui é gestor, João não era gestor. Rui controla a equipe, ele muitas vezes é centralizador, mas tudo passa por ele, ele tem o cuidado de estar analisando detalhes bastante minuciosos e tem um governo de coalisão, tem uma base aliada sólida, então isso facilita um pouco o trabalho.

 

 

A Bahia teve, em tempos recentes, secretários de comunicação que de alguma forma estavam sob holofotes, diferente do seu perfil, que é muito mais discreto. É uma opção pessoal ou certo distanciamento do ambiente político melhora o seu trânsito no ambiente da comunicação do Estado? André Curvello está longe de ter pretensões políticas?

Está a quilômetros de distância disso. Inclusive, eu sou até ameaçado em casa por minha mulher de “olha, se você se candidatar alguma vez, eu me separo de você”. Então, não tenho pretensão, não tenho jeito. Gosto da comunicação na política, mas não gosto da política partidária. É uma coisa que nunca passou pela minha cabeça, isso eu tenho certeza absoluta que não vai acontecer. Agora, a questão de ser discreto, de não aparecer... Na verdade, eu sou do mercado. Eu tenho minha empresa, estou afastado dela. [A empresa] Vai fazer 22 anos, enfrentando uma crise danada, essa crise econômica e a empresa está lá. Terminando o governo, eu volto pra minha empresa e volto a ser o André do mercado. Essa coisa de ser secretário é passageira, é você estar no cargo. Então, tem gente que fica deslumbrado com essa questão de estar ocupando cargo, ser secretário de comunicação do Estado. Pra gente, que vem de uma família muito humilde, eu devo tudo a meu pai e minha mãe que fizeram um sacrifício danado pra me dar educação, me dar comida, me dar casa, então, a gente chegar e dizer: “pô, você vai ser secretário do município, secretário do Estado, um Estado como a Bahia” é bacana, é gratificante, é uma experiência e a gente deve colocar isso como uma experiência, não como uma coisa de status, de vaidade. A gente tem que tocar a vida, convivendo com os colegas, que hoje eu estou secretário, amanhã eu estou pedindo emprego aqui no Bahia Notícias, vou estar convivendo na minha empresa, enfim, volto pra o mercado. E a vida é assim, é uma experiência que você está tendo, especial, bacana, feliz em trabalhar com o governador Rui. Tenho aprendido muito com ele, aprendido muito com uma equipe maravilhosa da Secretaria de Comunicação. Digo sempre que se a secretaria, se a comunicação do governo, tem algum mérito, tem alguma virtude, se deve a equipe. A participação do secretário, de coração, é mínima. Mas sim uma equipe muito comprometida com o trabalho, com ética, com seriedade. E a gente tem que quebrar um paradigma, pô, o Estado tem trabalho e tem trabalho duro. Às vezes o cara diz: “trabalhar no Estado é uma beleza”. Não é. Lá o trabalho é duro, é pancada e a gente está tendo essa experiência. Eu procuro passar alguma coisa que eu tenho aprendido aí ao longo de mais de 30 anos de mercado, mas quem me conhece, o André Curvello antes de estar no Estado, eu não mudo absolutamente nada.

 

Você falou que quando o governo acabar, volta pra AC Comunicação. Em 2018 ou você pretende que o governo só termine em 2022 pra você?

Não, assim, a gente trabalha pra contribuir, pra que o governo tenha cada vez mais visibilidade correta e tudo. Agora, obviamente que Rui é um candidato fortíssimo. A diferença é que em 2013, quando nós nos conhecemos, Rui tinha 1,2% nas pesquisas, mais ou menos em março de 2013. Hoje, Rui é um sujeito, é um candidato fortíssimo, reconhecido nacionalmente. A gente acompanha a avalição sistematicamente, a avaliação de governo. A gente sabe que o governo, que o governador está muito bem avaliado. E sabe também que precisa em algumas áreas, em alguns pontos, também melhorar. Então, é um trabalho profissional. É um candidato muito difícil de ser batido, eu acho que ele vai ser reeleito. Vai ser bom pra Bahia a reeleição dele. Mas eu tenho prazo de validade, isso aí é um assunto que nem é pra ser discutido, nem esse negócio de eleição é pra ser discutido agora, mas eu acho que é um candidato muitíssimo forte.

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