Segunda, 07 de Agosto de 2017 - 11:00

Lídice da Mata

por Fernando Duarte / Guilherme Ferreira

Lídice da Mata
Foto: Tiago Dias / Bahia Notícias

A senadora Lídice da Mata (PSB-BA) voltou a negar o estremecimento da sua relação política com o correligionário Bebeto Galvão (PSB-BA). Em entrevista ao Bahia Notícias, ela sugeriu que essa divergência pode interessar deputados que queiram deixar o partido e migrar para o DEM. "Acho que é um tensionamento de origem desconhecida, provavelmente para servir o interesse de alguém ou de algum movimento político. Eu nunca tive nenhum estremecimento de minhas relações políticas com Bebeto", afirmou Lídice. "É claro que a uma parte dessa divergência interna do PSB interessa divulgar e estimular essa história. Se alguns deputados podem pensar em sair para o DEM, eu vejo como óbvio que podem pensar que podem impor ao resto do partido essa sua opção", disse. Por outro lado, ela admitiu que a nível nacional o partido está dividido desde a morte de Eduardo Campos em 2014, então candidato a presidente da República. Para Lídice, a opção de apoiar Aécio Neves no segundo turno daquele pleito e posteriormente a posição favorável ao impeachment de Dilma Rousseff "criou um rompimento do PSB com sua própria história". Diante dessas posturas distintas, a senadora acredita que a saída de parlamentares da legenda deve ser o caminho mais natural. "Não é possível ter o posicionamento que esses deputados e deputadas pleiteiam para um partido com a história do PSB", reclamou Lídice, referindo-se ao apoio de setores da sigla à reforma da Previdência e à reforma trabalhista. Ela também criticou a postura de líderes do partido que falam abertamente em trocar de legenda e que não estariam representando a opinião da maioria da bancada. "E hoje a situação do partido na Câmara é uma situação muito esdrúxula, no mínimo", pontuou. Por outro lado, a senadora confia que é necessário ao PSB manter a união no momento, e essa deve ser a pauta que ela pleitear junto ao comando nacional do partido. "Eu luto para que o partido não se confronte, não haja conflito. Acho que nós temos tempo para construir essa unidade", afirmou.



Com o arquivamento da denúncia contra o presidente Michel Temer, como a senhora observa o cenário político atual nesse momento? O Congresso Nacional realmente representa os brasileiros?
Se nós formos olhar pelos resultados eleitorais, nós vamos concluir que não, e que não há muito tempo. Porque se nós lembrarmos a maior mobilização de massa da história do Brasil em torno de uma ideia de votação, que foi o movimento das Diretas Já, o Congresso disse não. Pra mim não é uma novidade que o Congresso se pronuncie contra a vontade do povo. Talvez nesse período mais recente isso tenha acontecido com tanta frequência que faça com que a sensação da população seja de um distanciamento muito grande da sua população. Eu estava conversando há pouco com alguém que me dizia que tomou um susto assistindo àquela sessão de ontem [última quarta-feira (2)], porque conhecia pouco os deputados. Pessoas que não lembram mais em quem votaram ou que votaram em um deputado da sua região e que se surpreendem quando vão ver o Congresso Nacional e conhecem o conjunto da obra, o conjunto da bancada do seu estado. Essa relação também é necessária haver do ponto de vista da população. A população precisa acompanhar mais de perto o posicionamento dos seus deputados, dos seus senadores, do Congresso Nacional para que possa não se surpreender tanto e fazer a pressão cada vez mais dirigida.

 

Com a situação política nacional, o pós-arquivamento da denúncia, o que a senhora consegue ver de curto, médio e longo prazo para o país politicamente?
Não está fácil fazer esse exercício. A primeira conclusão é que o governo ganhou, mas ao mesmo tempo o governo ganhou com muito menos força do que se imaginaria que ele iria ganhar. Isso revela uma fragilidade do governo. Agora, falar em fragilidade de um governo que tem 5% da aprovação popular é uma repetição, é chover no molhado. No entanto, esse governo que é extremamente impopular tinha até então demonstrado muita força no Congresso, porque o Congresso foi cúmplice, Temer foi o presidente resultante da cumplicidade do projeto de tirar Dilma, a conspiração para tirar Dilma e lhe colocar no lugar. Então esse Congresso, em princípio, deveria lhe atender como vinha atendendo até então. Só que a crise política vai corroendo essas relações. De um lado a denúncia de corrupção, aquele processo todo da denúncia da JBS, que impacta sobre alguns, e do outro lado, mesmo as medidas impopulares, que em um ano que se aproxima do período eleitoral, vão ficando mais sensíveis à capacidade de ouvir dos parlamentares.

 

A bancada do PSB na Câmara saiu ligeiramente fragmentada durante essas discussões sobre a denúncia contra Temer. A que senhora credita essa cisão entre os deputados que sinalizaram uma migração em massa para o DEM?
Eu acho que o PSB vem dividido há muito tempo. Logo após a morte de Eduardo [Campos] e principalmente após a decisão de apoiar Aécio no segundo turno. A decisão de apoiar Aécio no segundo turno da eleição criou um rompimento do PSB com sua própria história. E a partir daí isso foi se aprofundando. No impeachment é uma repetição disso. O PSB, talvez pela influência de ter tido uma candidatura à presidência da República, a candidatura de Marina, se vincula um pouco a esse movimento, mas todos esses são movimentos de rompimento com aquilo que era sua posição original, até porque o PSB participou intensamente dos dois primeiros governos do presidente Lula e do primeiro governo da presidente Dilma. Ele rompe no final desse governo para ter a candidatura de Eduardo, mas isso não justifica o posicionamento, na minha opinião, que tomou a partir daí. Foi crescendo esse nível de rompimento, chegando a um nível maior com a decisão de apoiar o impeachment da presidente Dilma. Após esse debate interno que se aguça no partido, vão se formando blocos. E hoje com o aprofundamento da crise política, se consolidou um grupo - uma parte apoiou Eduardo e a outra não - que tinha vindo na esteira daquela posição de apoio a Aécio no segundo turno e posteriormente de apoio ao impeachment, que por não representar essa história política do partido, uma hora iria se confrontar. E agora, com a pauta absolutamente contra os trabalhadores adotada pelo governo do presidente Michel Temer, essa situação chegou a um limite. Ou o PSB muda de nome, deixa de ser um partido socialista e rompe com sua história, ou o PSB se reencontra com a sua história e se reafirma como um partido socialista democrático que é a história de sua fundação. A esquerda democrática e posteriormente o Partido Socialista Brasileiro, que vem dessa ideia de uma esquerda democrática, em um período em que ser de esquerda era, acima de tudo, afirmar-se em um caminho de apoio à ditadura do proletariado, a posições marxistas, leninistas, e o PSB surge se diferenciando disso, pensando na possibilidade de existência de um socialismo que fugisse um pouco a essas regras, mas ainda assim um socialismo. Com a reforma da Previdência e a reforma trabalhista, há uma necessidade do partido se definir. E se definiu. Se definiu na sua direção nacional e se definiu na maioria da sua bancada. Os que estão resistindo, resistem com posições que jamais poderão ser do PSB. Então não é uma agressão, com muitos deles eu me dou bem, mas há um reconhecimento de que não é possível juntar essas histórias. Não é possível ter o posicionamento que esses deputados e deputadas pleiteiam para um partido com a história do PSB.

 

Com a reforma política existe um receio de que o PSB acabe prejudicado com uma eventual saída desses deputados?
Claro que há uma expectativa, uma apreensão, mas as medidas que poderão existir, como uma nova janela para deputados mudarem de partido - e ao mudar levar o tempo de televisão e o fundo partidário -, isso eu acho que seria mais um escândalo no meio de tantos escândalos que a vida política traz à pauta nacional e, na minha opinião, ferindo os interesses de muitos partidos, não só do PSB. Por isso eu acho uma mudança difícil de passar. Mantidas essas regras o PSB ainda perde? Perde, perde 10 deputados, mas essas não são alternativas a serem tomadas como escolha. Elas acontecerão ou não acontecerão. O que eu acho é que fica cada vez mais difícil ficar do jeito que está.

 

Durante essa discussão sobre aproximação entre deputados do PSB e do DEM, o deputado Bebeto Galvão foi citado em uma eventual aproximação do Democratas aqui na Bahia. O assunto tomou uma proporção bem grande e vocês fizeram uma declaração conjunta para firmar o compromisso de união. Como surgiu essa informação de que há uma tensão entre a senhora e Bebeto sobre o comando do PSB na Bahia?
Acho que é um tensionamento de origem desconhecida, provavelmente para servir o interesse de alguém ou de algum movimento político. Eu nunca tive nenhum estremecimento de minhas relações políticas com Bebeto. Nós temos eventualmente uma posição ou outra diferente, mas dentro do mesmo conceito partidário. Se é partido, tem que haver divergências e debate, se não nós vamos caminhar para um conceito de partido pouco democrático, afeito, portanto, a posições autoritárias. Agora, interessa a muita gente criar essa divergência. É claro que a uma parte dessa divergência interna do PSB interessa divulgar e estimular essa história. Se alguns deputados podem pensar em sair para o DEM, eu vejo como óbvio que podem pensar que podem impor ao resto do partido essa sua opção. Ela não existe para o partido na Bahia e, do que eu conheço, também não existe para a direção nacional do partido.

 

Em setembro o PSB discute o comando da legenda aqui na Bahia. A senhora pretende seguir no comando ou tem outro nome que pode vir a liderar o PSB aqui?
O PSB da Bahia ainda "não tem direito" a um diretório regional. Então nós não somos eleitos, nós somos indicados. Essa é uma situação infeliz para nós que lutamos sempre dentro do país na contraposição dessa ideia. E vamos continuar lutando, indo para o congresso do partido defendendo a mudança do estatuto. Lá atrás, quando foi decidida a lei da cláusula de barreira, que definia que o partido tinha que ter 5% do voto para deputados federais para existir, o PSB adotou essa regra internamente para que isso servisse como estímulo para o partido alcançar a meta. Só que a lei caiu e essa regra continuou existindo no estatuto do partido. Para que ela seja modificada é preciso ter um novo congresso que discuta o estatuto do partido. Esse congresso que vamos ter agora é um congresso de debate político, não será um congresso de discussão organizativa. Mas nós estamos levando a nossa tese, a nossa proposta, de que o partido possa definir um congresso o mais imediatamente possível para tratar desse assunto.

 

No comando nacional haverá uma disputa entre o PSB controlado pelos integrantes mais à esquerda do grupo, contra o grupo liderado pelo vice-governador de São Paulo, Márcio França, que quer uma aproximação com o PSDB de Geraldo Alckmin?
Por incrível que pareça, Márcio nunca foi um adversário da esquerda dentro do PSB. Ele sempre se deu muito bem com a esquerda. A direção do partido, quando tomou as posições que tomou, tomou tendo Márcio como apoiador dessas posições, mas não como o grande estimulador, orientador ideológico-partidário. Eu luto para que o partido não se confronte, não haja conflito. Acho que nós temos tempo para construir essa unidade, não é muito a característica do PSB esse confronto de posições porque nós não somos um grande partido, somos um partido médio, e que após a morte de Eduardo, claro, tivemos uma grande perda. Perdemos nossa principal liderança. Para o surgimento de uma nova liderança com o tamanho de Eduardo é preciso plantar e essa plantação nasce da unificação partidária, que no seu coletivo fortalece as lideranças internas do partido. O que nós precisamos, sem dúvida nenhuma, é costurar um programa político, onde quem esteja a favor possa ficar, se sentindo à vontade, e que estiver contra possa sair, também se sentindo à vontade. Esse é o desafio do PSB. Enquanto Eduardo era candidato, Márcio foi vice-governador de Alckmin, que é de outro partido, tinha outra candidatura à presidência da República. Assim como no Acre o partido apoiou o candidato do PT. Até a liberação central do partido não deixou de permitir algumas situações de análise de realidades específicas da política local ou da política regional, mas é preciso ter um norte. Eu acho que hoje está claro que não é possível o partido ter uma bancada com um posicionamento tão à direita para nos representar. Também não é possível conviver com lideranças que publicamente se dispõem a discutir a saída do partido e em qual legenda vão ficar. A posição de liderança, queira ou não, é a expressão da direção nacional do partido. Se não, não pode ser líder. E um líder não pode representar a minoria da bancada, ele tem que representar a maioria da bancada. E hoje a situação do partido na Câmara é uma situação muito esdrúxula, no mínimo.

 

Apesar de ter sido adversária do governador Rui Costa nas eleições de 2014, a senhora aderiu à base e não poupou esforços para defender a Bahia no Senado. Há a expectativa de reciprocidade para as eleições de 2018, quando ainda existe a perspectiva de tentativa de reeleição da senhora?
É claro que há essa expectativa. Eu acho que isso é uma construção coletiva, assim é que eu compreendo. Não é uma escolha pessoal de ninguém. Se são partidos que integram a base, essa construção tem que ser coletiva, e tem que passar, principalmente para que todos fiquem satisfeitos, pela definição de critérios que sejam da concordância de todos. Sem critérios fica difícil você entender o que define uma participação política em uma chapa majoritária ou não. É claro, todos os partidos, em princípio, têm o direito de reivindicar a participação.

 

A senhora pretende reivindicar esse desejo de permanecer no Senado?
Sim, claro.

 

Recentemente o ex-presidente da Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA), Marcelo Nilo (PSL), almoçou com a senhora e deu declarações à imprensa dizendo que o PSB poderia ser um dos destinos dele, a depender da reforma política. Nilo seria bem-vindo ao partido para brigar também pela vaga de senador, como ele em dado momento chegou a falar?
Eu convidei Marcelo da mesma forma que convidei Pinheiro. Eu não acredito em lugar marcado com antecipação, eu acho que lideranças vindo para o partido fortalecem o partido e fortalecem a nossa possibilidade de, portanto, estar mais presente na chapa. Além disso, critérios sendo decididos e sendo colocados de forma democrática, todos têm chance de participar. É claro que o fato de eu ser historicamente militante do partido pode me dar mais condição no momento do que outro, mas se os critérios puderem contemplar outras questões, certamente outros se sentirão mais à vontade. Além disso, eu brinco dizendo que Marcelo é um sobrevivente do momento jurássico do qual participei. Ele às vezes diz brincando que nós somos quatro que sobrevivemos ao carlismo, com sobrevivência em diferentes graus. Eu, ele, Nestor Duarte e [Domingos] Leonelli, somos ainda integrantes daquela oposição anti-Carlista que existiu na Bahia num determinado período, que não tinha ainda a liderança do PT. O PT veio a liderar esse bloco de oposição, que inclusive foi oposição ao carlismo posteriormente. Nós já tínhamos uma participação anterior nisso, ainda no MDB, na composição da organização da minha própria administração da prefeitura de Salvador, onde reuni diversas forças não petistas e inclusive uma parte do PT. O PT ganhou a hegemonia dessa frente depois, quando ganhou uma visibilidade maior, ganhar apoios e crescer enquanto partido nacionalmente, crescendo aqui na Bahia, e finalmente quando [Jaques] Wagner ganhou a eleição.

 

Sabemos que é muito cedo para falar de 2018, mas esse assunto não sai da pauta da imprensa. Como a senhora observa as movimentações da base aliada e da própria oposição a Rui nesse período eleitoral?
São mais ou menos previsíveis as movimentações. Política é assim, a gente não pode dar a palavra definitiva sobre 2018, mas todos os dias nós damos passos na direção de 2018. Nós e eles. A oposição atualmente ganhou uma visibilidade negativa muito grande, que é o movimento feito pelo prefeito e seus aliados para impedir que o empréstimo do Banco do Brasil venha à Bahia. Isso põe o prefeito ACM Neto com um pé no passado, com retorno ao seu DNA, que é um DNA de um comando autoritário, e persecutório, um comando que tem a marca da retaliação e da perseguição política. Isso é uma coisa muito ruim como marca, acho inaceitável, absurdo que um líder político baiano possa impedir que verbas venham para a Bahia. Quando o empréstimo da prefeitura de Salvador chegou ao Senado, todos nós senadores que somos oposição a ele trabalhamos na posição de apoiar esse pleito da cidade de Salvador, inclusive pedindo urgência para que fosse para o plenário. Então é inaceitável esse tipo de política. É uma política não-republicana, uma política atrasada, uma política que ainda está baseada no toma lá, dá cá... de um período que nós pensávamos ter encerrado na Bahia. Acho que o governador Rui Costa deve fazer uma ampla mobilização da bancada com todos os políticos para ir até o presidente da República solicitar que seja mantido esse compromisso, já publicado, de liberação dos recursos para a Bahia. Vamos ver quem tem coragem de dizer claramente que está contra que esses recursos venham para a Bahia.

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