Segunda, 10 de Julho de 2017 - 11:00

Cristina Cardoso

por Bruno Luiz | Fotos: Tiago Dias/ Bahia Notícias

Cristina Cardoso
Foto: Tiago Dias/ Bahia Notícias

Em 2015, um projeto enviado pelo governo da Bahia e aprovado na Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA) foi alvo de polêmica entre os servidores do estado. A lei provocou reajustes na tabela de pagamento do Planserv, o plano de saúde dos trabalhadores da administração estadual, e criou novas faixas de contribuição, ampliando o teto dos valores pagos. Em entrevista ao Bahia Notícias, a coordenadora do Planserv, Cristina Cardoso, tranquilizou os servidores. De acordo com ela, não há perspectiva, pelo menos a médio prazo, de novas mudanças nas tabelas do plano. “Só faremos mudanças se for para atrairmos novos beneficiários. Mas, do ponto de vista de mudanças estruturais, como houve em 2015, não há perspectiva”, assegurou Cristina. A coordenadora ainda afirmou que o grande desafio na gestão do plano é garantir a manutenção dos serviços, enquanto as despesas não param de crescer, apesar de o serviço não ser deficitário. Entretanto, esta é uma missão ainda mais árdua em tempos de crise econômica. "Não há nenhum tipo de problema financeiro com o Planserv. Nenhum plano paga em dia e tão cedo quanto o Planserv para os prestadores. O que não está tranquilo é que temos uma pressão da despesa impressionante. O desafio é segurar o crescimento dessa despesa para que ela não se torne um problema financeiro”, ponderou.

 

Em entrevista recente ao Bahia Notícias, o presidente da Associação Brasileira dos Planos de Saúde, Flávio Wanderley, disse que os brasileiros frequentam mais os consultórios médicos do que o necessário, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. De acordo com ele, isso gera prejuízo para as operadoras. Esta situação acaba ocorrendo no Planserv também?
A gente identifica através dos nossos estudos, mas existe um comportamento do beneficiário que ele, na verdade, não é orientado. A gente está acostumado a fazer gestão de acesso à saúde. Faz parte do modelo vigente. Hoje a gente está trabalhando para mudar um pouco essa rota e fazer gestão de saúde, porque o beneficiário tem que saber como cuidar da sua saúde. Hoje ele tem um acesso que não é orientado e isso acaba gerando, sim, um excesso de consultas. Ele vai no clínico, no especialista. A gente tem uma assistência fragmentada. Então, isso acontece muito. É uma questão de desperdício. A questão do desperdício na saúde acontece de forma geral. 

 

Você falou que há muito mais uma gestão de acesso à saúde do que gestão da saúde. Quais mecanismos o Planserv têm utilizado para melhorar esta gestão da saúde?
A gente vem trabalhando no Planserv, que tem uma carteira de serviços muito grande e é o maior plano da Bahia. São 503 mil vidas. Fazemos parte de um quarto da saúde complementar no estado. Estamos falando de um orçamento de R$ 1 bilhão por ano. Temos uma particularidade que estar em todos os municípios da Bahia, o que é diferente de outros planos, que concentram os serviços nos polos urbanos. A gestão do Planserv vem passando por uma modernização e, cada vez mais, a gente mais preocupação com austeridade e zelar por esse recurso. A gente precisa ter cada vez mais como conhecer a carteira. A gente acredita que, conhecendo melhor nosso beneficiário, como ele está e o que ele precisa, a gente vai fazer uma gestão da saúde com melhor qualidade e uso mais racional. Todo o sentido da gestão do Planserv está indo neste caminho. A gente está trabalhando para se aproximar desse beneficiário. A gente está fazendo a qualificação da rede, com credenciamentos cada vez mais voltados para índices de qualidade. Buscando interiorizar o atendimento. Estamos nos aproximando cada vez mais por contatos por meio da tecnologia, via internet, inclusão on-line, o cartão do próprio beneficiário pelo celular. Todas essas formas de aproximação seguem nesse sentido de a gente conhecer o beneficiário melhor, entender as necessidades dele e, acima de tudo, orientar a assistência à saúde.

O Planserv anunciou em 2012 a ampliação dos serviços no interior do estado. Como está esse processo atualmente? Você mesmo falou que ainda há uma concentração muito grande dos serviços em Salvador. 
A gente vem evoluindo bastante. Lá atrás, quando o processo de credenciamento começou, eram 800 prestadores. Hoje, temos entre 1,4 mil e 1,5 mil. Temos um projeto, que é o Padrão Assistencial Planserv, que começou em 2015, e a gente regionalizou o estado, o orçamento e a gente fez uma divisão do estado de acordo com número de beneficiários da região. Então, a gente analisa cada região de acordo com suas necessidades. São níveis assistenciais diferentes. Então a gente está fazendo todo o direcionamento do credenciamento de acordo com esses níveis necessários, e que nós entendemos como pertinente para aquele grupo de beneficiários. Ainda há muito a fazer, mas, notoriamente, a evolução acontece. 

 

Mas, sob o ponto de vista do atendimento médico, você acredita que a cobertura atual é satisfatória?
Não. A gente tem que lidar com duas coisas. Nossa extensão territorial, uma distância quase continental entre os extremos do Estado, por exemplo. Então, a gente tem que lidar com isso e precisamos lidar com a conjuntura econômica. Às vezes, na própria cidade, não há serviços disponíveis a serem contratados. Então, a gente precisa equacionar. Nós temos consciência de que ainda há muito a ser feito, mas houve melhora e a gente continua buscando.

 

E como é fazer esta interiorização dos serviços em tempos de crise econômica? Esta situação atual acaba dificultando o processo, além das outras dificuldades que você elencou?
Torna o desafio ainda maior. A gente que há uma necessidade assistencial a ser garantida, mas, ao mesmo tempo, a gente precisa gerir cada vez mais conscientemente esse recurso. São muitas demandas e os recursos são finitos. Então a gente precisa gastar melhor. Precisa trabalhar com a ideia de racionalidade, austeridade, de evitar os desperdícios, perseguir o controle a fraudes. Tem que ter uma visão crítica sobre isso também. Não só o comportamento de determinados prestadores, mas de beneficiários também. Então isso precisa ser constantemente verificado. E a Saúde é diferente de outros setores. A inflação na Saúde é diferente, o custo é diferente. Os procedimentos na Saúde não são substitutivos, eles são cumulativos. A gente precisa se preparar para isso. As pessoas estão envelhecendo, estão adoecendo. Estamos lá para cuidar desse grupo de pessoas, que é muito expressivo, com recursos que são finitos. O desafio é esse. Zelar o máximo por esse recurso, para que a gente possa gastá-lo cada vez melhor.

 

 

O governador Rui Costa anunciou recentemente a intenção de que construir, no local que ainda abriga o Hospital Espanhol, o Hospital do Servidor. Como o Planserv tem acompanhado este processo? Já existem algumas definições sobre o projeto?
O Planserv vem acompanhando como ator nesse setor. Um equipamento como aquele estar parado é, definitivamente, uma perda para a sociedade. A gente tem tantas dificuldades com leito e ter o equipamento parado é uma pena. Mas, como o governador falou, o Planserv vai participar de qualquer projeto que seja bom para o Planserv e para a sociedade. Mas tudo isso ainda é muito cedo para falar, pois existe uma questão jurídica muito difícil de resolver. Está sendo tocado e, no momento que o projeto esteja resolvido, à medida em que esse projeto seja interessante para o Planserv, nós vamos participar. Mas ainda é muito cedo.

 

Desde o início da gestão do governador Rui Costa, o governo precisou apertar os cintos e realizar contingenciamentos para evitar a corrosão das contas públicas por causa da crise econômica. Alguns benefícios se mostram deficitários para os cofres, como a Previdência, que este ano terá um déficit bilionário aqui na Bahia, segundo estimativas do próprio governo. No atual modelo, o Planserv também é deficitário?
Não. O Planserv tem seu recurso próprio porque vem uma parte da contribuição do servidor e uma parte do patronato. Não há nenhum tipo de problema financeiro com o Planserv. Nós temos uma preocupação constante com a despesa que está crescendo, enquanto a gente precisa ficar dentro do nosso orçamento. Essa é uma preocupação constante e vai ser perseguida quase que obstinadamente. Mas crise, problema financeiro, falta, não há. Nenhum plano paga em dia e tão cedo quanto o Planserv para os prestadores. O que não está tranquilo é que temos uma pressão da despesa impressionante. O desafio é segurar o crescimento dessa despesa para que ela não se torne um problema financeiro.

 

Mas, neste contexto de crise econômica, como fazer esta equação entre oferecer atendimento, reduzir gastos e, ao mesmo tempo, realizar investimentos?
A gente tem uma dificuldade de fazer incorporação de novas tecnologias, pois é tudo muito volumoso. A gente tem uma lógica que é: se eu não posso prover para os 503 mil, eu não posso prover para um. Como tudo é muito volumoso, há sempre a preocupação: isso vai gerar impacto? Vai comprometer o equilíbrio do sistema? Vai abalar a sanidade financeira que nós temos? Esse é o termômetro da decisão. Então, a gente faz novos investimentos sempre a passinhos bem pequenos para que não haja influência negativa nesse equilíbrio que a gente criou. Fazer investimento é muito difícil nesse sentido. Às vezes, a gente não consegue fazer novas incorporações.

 

Qual a prioridade do Planserv hoje? Manter os serviços que são oferecidos atualmente, investir em novos serviços ou no aprimoramento daqueles já oferecidos?
A prioridade é fazer uma boa assistência médica para o beneficiário. Se em determinada região é necessário um cuidado maior para manter ou até descredenciar alguns prestadores porque a rede está muito inchada, é isso que vai ser priorizado. Se em outra região a gente precisa prover novos serviços, é isso que vai ser priorizado. A gestão e a análise estão sendo todas feitas com base nas particularidades de cada região. 

 

 

Médicos e prestadores de serviço acabam reclamando da tabela de preços dos planos de saúde e, muitas vezes, resistem ao credenciamento de novos serviços. Este problema é vivido pelo Planserv também?
Sempre. Todo mundo tem esse desejo de ganhar mais. Mas, como a gente essa credibilidade que a gente já citou e também volume, então hoje, se o prestador não atende pelo Planserv, ele está sem uma parcela significativa de público. A gente trabalha com uma regularidade tão grande que se torna atrativa para a rede. Há os pleitos por reajuste, mas a gente acredita também que há um entendimento de que o Planserv é diferente. Tem um papel social, papel de indução econômica porque, quando a gente leva o serviço para um região que não o tinha antes, a gente gera emprego, renda. Existe volume para isso. Até pelo nosso volume, nós não teríamos como fazer o mesmo pleito de outros planos. A gente tem aquele recurso e não pode fazer recomposição de valores, não podemos repassar aumento de custos para o beneficiário. Todas essas situações fazem com que nós sigamos com a tabela e façamos entender que somos diferentes. 

 

E até que ponto essa impossibilidade de repassar para o beneficiário com frequência o aumento dos custos pode prejudicar o Planserv? Isso não acaba sendo deficitário para o orçamento do plano?
A nossa forma de financiamento é diferente da saúde suplementar. Em todos os estudos atuariais que os planos fazem para formação de um produto, levam em conta a idade. Com o aumento da idade, a gente aumenta o risco e, com isso, o custo. No caso do Planserv, o fator que determina nosso financiamento é a remuneração do titular. Quanto mais ele recebe, mais ele contribuiu. É uma contribuição que varia de R$ 26 para a R$ 642,20 para o titular. Dentro disso, a gente tem remuneração para dependentes e agregados. Ainda tem a parte do estado. Tudo isso torna a estrutura ainda mais difícil de ser gerida. Mas o que a gente percebe também é que é uma carteira fixa. A gente cuida de famílias inteiras. Apesar do desafio, a gente tem um cuidado. É por isso que a gente tem caminhado para a prevenção, a racionalidade, profissionalizar a gestão. Toda melhoria que a gente tem feito a gente pensa nisso: gastar melhor para não ter esses aumentos. Precisamos nos preparar para não termos novas formas de financiamento. E a gente percebe que é possível, o plano está aí há anos. E nós temos percebido uma curva ascendente de satisfação do beneficiário com o Planserv. 

 

Em 2015, houve uma mudança na forma de contribuição dos servidores, por meio de um polêmico projeto que desagradou boa parte dos funcionários do Estado. Há alguma perspectiva, em curto ou médio prazo, de novas modificações no sistema?
Em 2015, nós ampliamos a faixa de contribuição, que, desde 2011, estava até R$ 3.250 mil. Quem recebesse acima disso contribuía o mesmo valor. Então, nós ampliamos a faixa, fizemos aleração no cônjuge, um ajuste nesse financiamento. E criamos também uma cláusula de segurança, uma novidade. Em 2020, aquele servidor que ainda não é beneficiário do Planserv, mas ingressar no Planserv vai ter que pagar, além da contribuição com base na remuneração, ela terá que fazer uma contribuição pela idade. A gente quer receber cada vez mais cedo esses servidores, entendendo que, quanto mais cedo, eles vão contribuir para o sistema. O objetivo também é equilibrar essa coisa de as pessoas só virem para o sistema quando estiverem mais idosas, quando dão mais despesas. Quanto às mudanças, houve uma mudança em 2011 e outra em 2015. Então não são modificações rápidas. Não há perspectiva disso no momento, a não ser se for para atrairmos novos beneficiários. Mas não há nada previsto em termos de aumento de contribuição. Caso o salário do servidor aumente, ele passa a pagar mais pelo Planserv. Mas, do ponto de vista de mudanças estruturais, como houve em 2015, não há perspectiva.

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