Segunda, 17 de Abril de 2017 - 11:00

Vivaldo Mendonça

por Rebeca Menezes / Bruno Luiz

Vivaldo Mendonça
Fotos: Paulo Victor Nadal/ Bahia Notícias

Há pouco menos de três meses no cargo, o secretário da Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia, Vivaldo Mendonça, já precisou enfrentar um momento conturbado à frente da pasta. Em março, um ofício enviado pelo reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), João Carlos Salles, ao governador Rui Costa relatou que a Fundação de Amparo à Pesquisa da Bahia (Fapesb) teria R$ 70 milhões em dívidas e, sem maiores repasses do governo estadual, poderia descontinuar suas atividades. O episódio, depois esclarecido, acabou gerando a exoneração do diretor da Fapesb à época. Em entrevista ao Bahia Notícias, Mendonça classifica tudo como uma “falsa crise". De acordo com ele, não havia dinheiro faltando, e o orçamento não estava sendo bem executado pela antiga gestão. “A Fapesb não tem uma dívida daquele montante, inclusive o fluxo de orçamento está tranquilo. O que existia era uma crise de gestão, de falta de diálogo interno. O orçamento não estava sendo executado plenamente", sinalizou. A Bahia também vai sediar, pela primeira vez, a Campus Party, um dos maiores eventos do mundo sobre tecnologia e inovação.  “A Campus será, literalmente, uma fonte nova para o desenvolvimento da Bahia, do Nordeste, do país. Dá uma condição nossa diferenciada, pois o mundo vai vir para cá. Quem lida com isso no mundo estará aqui”, comemorou. 

 

Secretário, primeiro aquela pergunta de praxe. O senhor assumiu a secretaria em janeiro. O que encontrou como os maiores desafios nesses meses?
Os principais desafios são fazer a revisão do marco legal da Ciência e Tecnologia no estado, a atualização destas políticas no estado. Por orientação do governador, temos como prioridade ser um estado mais conectado com banda larga. Além disso, a consolidação das estratégias dos polos de conhecimento e da inovação. São 27 polos, estamos nos últimos ajustes dos modelos de governança. O polo central será o Parque Tecnológico de Salvador. 


Nos seus primeiros meses de gestão, você já foi responsável por um projeto de grande porte, que é a Campus Party, que foi anunciada no início desse mês. Como está a discussão desse projeto? Há alguma surpresa que aguarda os participantes?
A Campus Bahia surgiu de um diálogo direto com o criador dela. Foi muito importante a decisão, orientada pela estratégia do governo Rui Costa, de trabalhar inovação e desenvolvimento. A Campus será a primeira do mundo que vai trabalhar inovação produtiva como ponto central. É tecnologia aplicada ao desenvolvimento. A Bahia será o centro mundial da discussão sobre inovação e desenvolvimento. De inovar no sentido pleno da palavra, integrando processos, pessoas e estrutura nessa agenda de combate à pobreza e oportunidade para empreendedorismo e informação.


A Campus é um evento grande, que envolve desde universitários jovens, que são o principal público, como produtores de tecnologia, empresas e personalidades ligadas ao ramo. Vocês terão quatro meses para organizar isso. Há algum receio de esse cronograma fique apertado?
Não, está tranquilo. A inovação é fazer. A decisão do fazer a Campus é um acontecimento. Ela já está pronta, em termos de conceito e estratégia. O próprio fato de ela já ter sido realizada em 20 países é como a Olimpíada. É, inclusive, perceber a importância do legado da Copa do Mundo. O estádio da Fonte Nova, com toda estrutura pronta, nos dá a tranquilidade de montar a estrutura sem fazer grandes ajustes. A rede de fibra está pronta, a logística já está estruturada. A Campus será, literalmente, uma fonte nova para o desenvolvimento da Bahia, do Nordeste, do país. Dá uma condição nossa diferenciada, pois o mundo vai vir para cá. Quem lida com isso no mundo estará aqui. Perceber que a Bahia é capaz de receber um evento como esse e envolver toda estrutura do governo do estado, da sociedade, das prefeituras, dá a tranquilidade de que estaremos fazendo um grande evento. Não só um evento, mas um grande acontecimento no estado, o que, certamente, nos coloca no cenário dos grandes eventos mundiais de ciência, tecnologia e inovação.


Na região Nordeste, o Recife acabou sendo um polo maior de produção de tecnologia nos últimos anos. O governador Rui Costa tem trabalhado nessa questão de fortalecer a produção de tecnologia no estado. Quais são os projetos pensados para que a Bahia se torne mais competitiva nesse campo?
A Bahia vai assumir o protagonismo, não tenho dúvida. Essa bandeira é do governador Rui Costa. Ele tem a visão de estadista de construir uma agenda nacional, com a Bahia como centro da articulação. Vamos lançar nas próximas semanas o Bahia Global. É um posicionamento da Bahia diante do mundo, sendo um centro de integração para inovação e gestão do conhecimento e tecnologia. Avançamos no diálogo como o Banco Interamericano de Desenvolvimento e estabelecemos um  diálogo com a Universidade de Denver, no Colorado (EUA). Abrimos também um diálogo com a Secretaria da Ciência e Tecnologia de São Paulo. Nós assumimos, na última reunião do Conselho dos Secretários da Ciência e Tecnologia, a coordenação da região Nordeste. Há uma disposição muito clara de que esse modelo de gestão que envolve governo, academia e setor produtivo, aliado com a sociedade, seja uma referência de que é possível fazer uma agenda de integração para o desenvolvimento, envolvendo todas as estruturas das universidades a quem produz, quem demanda. E o mundo se encontra na Bahia. A Bahia já é global. E essa decisão de ter um programa de governo que integre as estruturas e permita que esse mundo se encontre aqui, dentro de uma estrutura bem organizada, nos dá a certeza de que vai ser sucesso. 


Como diretor regional do Consecti [Conselho Nacional de Secretários para Assuntos de Ciência Tecnologia e Inovação], quais são os principais avanços que o senhor avalia que precisam acontecer no Nordeste?

Acho que esta questão de integrar o Nordeste em uma agenda única. Você vê que o problema do desenvolvimento no Semiárido não é por falta de água, mas por falta de tecnologia. A solução para o Nordeste está na integração das políticas públicas e das iniciativas de solução tecnológica que já existem. Por que os Emirados Árabes conseguem lidar bem com regiões áridas e nós não? Então, para mim, isso é uma dificuldade que vai ser superada com tecnologia. E é esse o movimento que nós vamos fazer.


A Secti tem um projeto para instalar banda larga nas escolas. Já há alguma expectativa de quantas escolas serão atendidas e até quando isso será feito?
Bom, essa é uma parceria com a Secretaria de Educação, e nós estamos revisando a estratégia da banda larga. Estamos assumindo a estrutura que já existe de outras estruturas do governo, inclusive do governo federal. Nós avançamos no diálogo com a Rede Nacional de Pesquisa para nós assumirmos o backbone da Chesf, que tem 1,5 mil km de fibras instaladas no sistema elétrica. Existem fibras instaladas na ViaBahia. Então esse sistema integrado, vinculado aos 240 provedores locais que já existem, vai permitir que a gente tenha 83% do estado atendido. E a contrapartida, que nós já estamos estabelecendo, é que o direito de passagem seja garantido, o ambiente de uso das adutoras e doutras estruturas existentes, para que a internet seja tratada como água ou energia. Ela tem que ser disponibilizada para todos. Tivemos a experiência do Luz para Todos, o Água para Todos. Vamos ter um Internet para Todos, ou qualquer nome que seja. Mas essa é uma orientação do governador Rui Costa, que a internet seja tratada como insumo básico. 


A Ceplac, no sul do estado, no ano passado, quase foi rebaixada pelo Ministério da Agricultura. Depois de muita reação, esse movimento foi desfeito. Mesmo assim, naquela época, os membros da Ceplac já diziam que havia um problema muito grande, principalmente na gestão financeira do órgão. A Ceplac é uma das maiores produtores de tecnologia para a região cacaueira. O governo está acompanhando esse processo, tem algum projeto para equilibrar as contas e amenizar esse problema?

É ignorância querer acabar com a Ceplac. A ânsia de ignorar que a Ceplac é estratégica e importante leva a alguns que não compreendem a importância dela a quererem extingui-la. A Embrapa não é solução para tudo, tem seus problemas. Eu sou técnico agrícola de uma escola da Ceplac. Não pode, por exemplo, 53 escritórios da Ceplac continuarem fechados por uma decisão de burocratas de Brasília. O maior laboratório de pesquisa em cacau do mundo está na Ceplac e está fechado, sucateado por decisão dos gestores. Por orientação do governador Rui Costa, nós, junto com outros secretários, estamos fechando um arranjo de requalificação da aplicação do conhecimento aplicado na região cacaueira. A Ceplac é papel estratégico nisso. 

 

No mês passado, teve a questão da Fapesb, quando o reitor da Ufba, João Carlos Salles, reclamou da dívida que tem a instituição e, depois, o diretor da Fapesb acabou sendo afastado pelo governador Rui Costa. Esse afastamento acabou não sendo muito bem explicado. O diretor não tinha passado as informações sobre a dívida para o governador, ou ele foi afastado por outra situação?
A crise estabelecida foi uma falsa crise. Inclusive, o governador esteve reunido com o reitor, eu participei, e o reitor foi induzido a erro. Não acredito que por má fé, mas por incompreensão de como organiza informações, passou à frente uma informação que não correspondia ao real. A Fapesb não tem uma dívida daquele montante, inclusive o fluxo de orçamento está tranquilo. O que existia era uma crise de gestão, de falta de diálogo interno. O orçamento não estava sendo executado plenamente. A Secretaria da Fazenda não segurou os investimentos. O reitor foi esclarecido disso. O governador vai indicar uma nova diretoria que permita a apropriação das informações e o diálogo permanente. Precisamos também mudar o modelo de funcionamento. Não dá para a Fapesb continuar sendo dirigida fora desse ambiente interno e que permite estabelecer um diálogo permanente. Em pouco tempo, os resultados da Fapesb, e também do Parque Tecnológico, serão divulgados. Vamos virar a página e, ao invés de tratarmos de crise, vamos tratar de soluções.

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