Segunda, 13 de Fevereiro de 2017 - 11:00

José Trindade

por Estela Marques / Bruno Luiz

José Trindade
Foto: Tiago Dias/ Bahia Notícias
Argumentação. Líder de uma diminuta bancada de oposição composta por apenas nove vereadores, é através desta palavra que o vereador José Trindade (PSL) pretende convencer os 32 colegas da base governista, maioria substancial, a desistirem de votar em projetos do governo do prefeito ACM Neto (DEM). Em entrevista ao Bahia Notícias, o social-liberal, que se notabilizou pelas inúmeras críticas ao democrata na gestão anterior, mantém agora, como líder oposicionista, o tom belicoso contra o prefeito. Afirma que a gestão apenas cria “factoides”, diz que Neto “ponga” em realizações do governo estadual e, em uma espécie de 2018 antecipado - apesar de velado - tenta criar para Rui Costa a imagem de uma espécie de prefeito de Salvador. Ainda falando em 2018, Trindade minimiza uma possível ascensão do atual vice-prefeito Bruno Reis (PMDB) à prefeitura da capital baiana, caso Neto decida disputar o comando do governo estadual, caminho que, apesar de negar, parece pavimentar com suas articulações nas eleições da União dos Municípios da Bahia (UPB) e para presidência da Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA).  “Para a oposição, é indiferente”, assegura. 

Você assumiu a liderança da oposição nesta gestão, mas já apareceu algumas vezes como crítico do governo municipal. O que podemos esperar de Trindade no cargo de líder da oposição nos próximos dois anos?
Iremos continuar fazendo o mesmo trabalho, que é um trabalho de fiscalização das ações do Poder Executivo. Salvador precisa de pessoas que tenham senso crítico e possam não entrar em confronto com o Poder Executivo, mas alertar para situações que a gente entende como necessárias para que os cidadãos de Salvador tenham seus interesses atendidos.

O que a gente pode esperar em termos de estratégia de oposição? No dia 2 de fevereiro, você falou que é normal que o Executivo tenha projetos aprovados, já que tem maioria na Câmara. Hoje, o que o senhor e o grupo de oposição têm como estratégia para virar o jogo?
Tornar a oposição unida. Levarmos argumentos consolidados, mostrando que os projetos que a gente entender que não são bons para a população de Salvador sejam entendidos pelos outros pares da Câmara. A Câmara é um local plural, com vereadores e vereadoras de diversos partidos, com senso crítico também. Temos que aguçar o senso crítico das pessoas que atuam na bancada da situação, para que a gente possa convencê-los a votar com a oposição em um momento em que a gente entender que é necessário para a cidade de Salvador.

Você acha que eles estão abertos a votar com a oposição?
Sim. Eu vejo que existem, inclusive, projetos na Casa que anteriormente a bancada de situação fechou questão, como o Uber. Hoje, você vê aliados do governo, como o vereador Maurício Trindade e Aleluia, já se colocando a favor da regulamentação do Uber, contrário ao entendimento da prefeitura.

Quais dificuldades você acha que terá ao liderar uma bancada reduzida como a de oposição?
Exatamente isso, o número reduzido. Esse número reduzido não faz a gente perder o estímulo de trabalhar. Temos que estudar mais e tentar convencer, através de argumentos, que a Casa precisa ter essa independência. Os vereadores precisam se conscientizar de que somos poderes diferentes. Os poderes têm que ser harmônicos, mas independentes.

Você acha que com Léo Prates, amigo do prefeito ACM Neto, há essa possibilidade de a Câmara se manter independente ou ela será apenas uma extensão do Palácio Thomé de Souza?
O fato de o presidente da Casa ter relação política e até pessoal com o Executivo não quer dizer nada. Na Casa, pela primeira vez na história municipal, temos dois vereadores irmãos (o próprio Trindade e Maurício Trindade), que fazem oposição e situação. Então, o fato de ter essa relação com o prefeito não tira de Léo Prates a obrigação de manter a Casa independente.

Você acabou de falar em irmãos e é irmão do vereador Maurício Trindade. Há conflitos nas reuniões de família por vocês defenderem opiniões diferentes?
Nós fomos criados de forma muito democrática. Cada um tem a liberdade de dizer o que pensa. Aí está a diferença. Quando você está submisso a um chefe político, como muitas vezes acontece dentro de um parlamento, as pessoas, apesar de terem suas opiniões, não podem dar suas opiniões. Algumas vezes eu e meu irmão vamos divergir, em outras estaremos no mesmo caminho.

O presidente Léo Prates deu para a oposição a presidência da Comissão de Cultura, que ficou nas mãos do vereador Sílvio Humberto (PSB). Você acha que este é um movimento de diálogo que Léo buscar ter, e que a oposição sempre pediu, ou apenas para colocar panos quentes para alguém que está começando a gestão?
Acho que a gestão precisa ser democrática, transparente e imparcial. E tem que existir o respeito à bancada de oposição. Apesar de numericamente menor, o presidente tem feitos gestos que buscam valorizar a oposição. Das 12 comissões permanentes, nós ficamos com cinco presidências. Isso mostra que é um percentual maior do que o que temos em número de vereadores da oposição. Acreditamos que ele vai manter esse movimento de respeito aos oposicionistas.

Na sua avaliação, quais os pontos questionáveis na administração de ACM Neto entre 2013 e 2016 que deveriam ser modificados na nova gestão?
Eu vejo que este é um governo que vive de propaganda, usando de factoides, que tem realizado muito pouco. Na área social, o que se realizou? Você não tem uma maternidade pública, um orfanato. Agora que está se construindo um hospital público, quando há cidades na Bahia de 13 mil habitantes com hospital público. Quer dizer, nunca houve esse olhar para a população. Se maquiou a cidade, fazendo obras para turista ver. Se gastou R$ 50 milhões na Barra e R$ 70 milhões no Rio Vermelho. Não somos contra investir na estrutura desses locais, mas temos que elencar prioridades. E quais são as prioridades? Olhar as pessoas de Salvador. Um gestor, quando eleito, precisa olhar, em primeiro lugar, para quem mora em sua cidade, não só o turismo. Você está fazendo várias festas, mas qual é a geração de emprego para isso? Salvador continua sendo uma cidade pobre, que arrecada pouco, campeã no desemprego. O que foi criado nesses quatro anos que gerasse emprego para a cidade? Nada. Absolutamente nada. Não temos recursos para fazer investimentos, diferentemente do governo estadual. Apesar de toda dificuldade que o governo enfrenta em função da política econômica do país, a Bahia vem sempre despontando e, no ano passado, foi o segundo estado que mais investiu em estrutura e desenvolvimento social. Esta é uma preocupação do governo. Esse é um governo sério, que trabalha. Qual foi o emprego que a prefeitura gerou? Qual o olhar para a população mais carente?

Muito se fala sobre Neto se lançar candidato a governador em 2018, principalmente depois no envolvimento dele nas eleições da UPB e na Assembleia Legislativa. Você acha que seria mais fácil para a oposição lidar com o prefeito Bruno Reis, que assumiria caso Neto se candidatasse ao governo, do que lidar com ACM Neto?
O prefeito ACM Neto está acostumado a pegar ponga. Quis fazer isso com o metrô, quando até a vovó sabe que é o governo do Estado que está fazendo o metrô. E ele continua pongando em tudo que aparece. Tanto os candidatos que concorreram na UPB quanto os que se colocaram à disposição para concorrer pela presidência da Assembleia Legislativa eram da base do governo. Então, nos dois casos ele pongou para tirar vantagem. Ele não lançou candidato em nenhum dos dois.

A oposição vê como positiva essa possível saída de ACM Neto e assunção de Bruno Reis?
É indiferente. Qualquer cidadão pode postular a qualquer cargo eletivo. Iremos cobrar qualquer um que sente na cadeira de prefeito. Precisamos cobrar dessas pessoas a força para desenvolver Salvador. Os postos de saúde estão praticamente abandonados. Na área da Educação, tem 2,1 mil salas do governo do estado, que o governo banca para atender a aproximadamente 90 mil estudantes do Ensino Fundamental, que é competência da prefeitura. Se o governo estadual não interviesse, seriam 90 mil pessoas sem estudar, porque a prefeitura não abraça essas pessoas.

O vereador Moisés Rocha, 2º vice-líder da oposição, está passando por um processo de expulsão do PT. De alguma forma, isso enfraquece o grupo?
Não, aí é uma questão interna do PT que nós precisamos respeitar. Mas entendemos que, enquanto ele for vereador de partidos da oposição, ele tem que ser abraçado e é preciso respeitar tanto a posição dele quanto do vereador Suíca, que também está envolvido nesse processo. Mas são vereadores que têm contribuído neste processo lá na Câmara, dentro da oposição.

Tem gerado algum tipo de dificuldade dentro da oposição esse desentendimento de Moisés e Suíca com a vereadora Marta Rodrigues?
Não, eles têm frequentado nossas reuniões e as coisas têm fluído normalmente.

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