Entre Vistas

Márcia Guimarães Caminha de Castro começou sua carreira artística em 1995, aos 16 anos. Mas não foi ali que começou o seu relacionamento com a música. Este, se preciso for demarcar um início, vem da audição dos discos pretos da coleção do seu pai, ainda na infância. Márcia Castro é dedicada e decidida. Trabalha para consolidar uma carreira e um papel na música brasileira. Esta caminhada, que a fez mudar-se para São Paulo, não retirou dela, graças a deus, a espontaneidade de quem faz música para quem ouve música em casa, nos discos do pai. Márcia Castro é talentosa e tem um timbre bonito que vem dando contornos interessantes a diversas composições de grandes criadores do cancioneiro nacional, como Frevo Pecadinho (Tom Zé / Tuzé de Abreu). Pecadinho, aliás, seu primeiro álbum, saiu em 2007 e arrancou vários elogios, sendo fruto de um prêmio. Nesta conversa, ela falou um pouco sobre a sua relação com todas essas coisas e pessoas: vinis, pais, artistas, cidades, livros e carreira. Confiram!
James Martins – Como foi que começou a sua relação com a música?
Márcia Castro - Quando criança, tinha um prazer imenso em ouvir os vinis que meu pai (trompetista na adolescência) colecionava. Eram muitos, de todos os gêneros, sendo o jazz e a música popular brasileira
os que mais habitavam a casa. Além dessas audições, que geralmente aconteciam quando eu estava sozinha, à tarde, depois da escola, meu pai ouvia música cotidianamente, tanto em casa, como no carro, sempre me ensinando a diferenciar o timbre dos instrumentos, os ritmos, os gêneros, os cantores e cantoras, o que foi de extrema importância para a minha formação musical. Posso dizer que meu pai foi meu grande tutor.
JM – Você que está morando em São Paulo, provavelmente por exigências de carreira, acha que ainda não dá para conciliar (à exceção dos super-astros da música baiana, é claro) a vida profissional com o prazer de viver em Salvador?
MC - Sem dúvida. Ter uma vida profissional digna, respeito artístico e financeiro em Salvador é ainda um luxo para os grandes artistas do axé music. Mas acho que esse fênomeno não se restringe a nossa cidade. Acredito que o axé music possibilitou o não deslocamento, o não êxodo para o sudeste, algo comum na história da música brasileira. Não existem artistas nordestinos, por exemplo, que conquistem reconhecimento nacional não fazendo essa migração para o eixo Rio-São Paulo. Sempre foi assim, pois nesses lugares se concentram os centros midiáticos mais poderosos de um país muito extenso. A mudança para São Paulo me fez bem. Gosto das mudanças, acho que são fundamentais para uma reformulação de si e do trabalho artístico. Obviamente, nesses processos você tem perdas, mas outros ganhos. É a ciranda da vida. Mesmo com saudade, carrego em mim a minha história.
JM – E outra grande dúvida é: Por que alguns artistas baianos de qualidade inegável, como a extinta banda Confraria da Bazófia, Luciano Salvador Bahia e a Mariella Santiago, para só falar de pessoas bem próximas a você, não conseguem fazer sucesso midiático, ‘estourar’, como se diz?
MC - São coisas que não tem uma explicação racional. São tantos fatores... alguns invisíveis. Essa é uma pergunta recorrente: por que "fulano" não estoura? Essa linha tênue entre o cult (restrito a um grupo seleto) e o popular (amplamente conhecido) que divide a carreira de vários artistas, como esses acima citados, é desconhecida. Mas acho que além de talento, o trabalho disciplinado e pensamento positivo são fundamentais. Nesse sentido, sou mística. Acredito que a energia movimenta mistérios.
JM – Você pertence a uma geração que vem revelando diversas cantoras. Mas o número de compositoras ainda é relativamente pequeno, em comparação. A que você atribui esse pendor maior para a interpretação que para a composição?
MC - Na música popular brasileira, o papel da composição pertenceu majoritariamente ao homem. Depois de Chiquinha Gonzaga, no final do século XIX, vamos encontrar apenas nos anos cinquenta Dolores Duran como compositora de renome nacional, que morreu prematuramente aos 29 anos. Foi nas décadas de 60 e 70 que um número significativo de mulheres começaram a se arriscar na composição, como Marília Medalha, Sueli Costa, Rita Lee, etc. Isso vem se modificando gradativamente. Acredito que essa conquista está relacionada intimamente a questões sociais, ao próprio papel da mulher na sociedade. O discurso da poesia, a elaboração de um pensamento foram conquistas duras das mulheres. A palavra, o pensamento, estavam vinculados ao homem. Porém, no caminho inverso está o ofício de intérprete. Agora, por exemplo, vivemos um momento particular, onde o boom de novas cantoras acompanha o boom de compositoras. Acho que, nessa proporção, já temos muitas compositoras espalhadas pelo Brasil.
JM - Quais são, dessas novas compositoras, as que mais te interessam?
MC - Na verdade agora só me ocorre mesmo uma, que é a Manuela Rodrigues. Acho mesmo que, por outro lado, existe uma crise na composição, independente de homem ou mulher. Um momento delicado.
JM – Você acha possível que essa geração tenha menos o que falar?
MC – Pode ser... Mas talvez seja o excesso de coisas para dizer também, que ainda não está bem canalizado.
JM - E por falar nisso, você tem Castro, Guimarães e Caminha no nome, que remetem a três super-homens das letras luso-brasileiras. Como é sua vida com a literatura? O que tem lido ultimamente?
MC - Minha vida com a literatura tem sido de instabilidades. Ora estou lendo 4 livros de vez, ora abandono todos... Acho que ainda estou me adaptando ao ritmo de São Paulo, à velocidade dessa cidade. São muitas opções, muitos filmes, muitas mostras, muitos shows. Esse espaço de isolamento, essa solidão que a literatura exige ainda me escapa aqui. É algo que estou pensando muito, me assusta. Mas trago essas sensações para a consciência e busco um estar tranquilo em mim. Sinto que, aos poucos, vou conseguindo. Mas voltando aos livros, Guimarães Rosa é um dos meus preferidos. Um dos últimos livros que li foi Manuelzão e Miguilim. Sou absolutamente fascinada pela oralidade sertaneja.
JM – Lembro do Chico César, quando surgiu, se queixando contra a sombra deixada por artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque e etc. como se aquilo intimidasse a sua geração e a tolhesse. Você, que participou do Som Brasil em homenagem a Moraes Moreira e tem canção de Tom Zé feita para sua voz, como lida com esses mitos? Eles te metem medo ou estimulam?
MC - São referências muito fortes, inspirações. Obviamente, comparações são inevitáveis, mas são muitos os modos de elaboração artística. Talvez exista uma estética poética muito particular na produção desses compositores que marcou um estilo na música brasileira. Isso não é bom, nem ruim, apenas é. Acho que produzir nesse cenário é um desafio. Eu gosto dos desafios.
JM – Você é uma artista que já surgiu dentro dessa nova indústria fonográfica, com downloads livres e etc. Como é sua relação com internet e direitos autorais?
MC - Internet é meu vício diário. Sou internauta absoluta, apesar de ultimamente sentir necessidade de me desligar um pouco das máquinas. É uma relação conturbada. Mas leio jornais pela internet, faço contato com os amigos distantes pela internet, compro coisas pela internet, ouço muita música através da internet (agora, por exemplo, baixo e escuto o novo disco de Otto). Essa mesma internet, então, tornou a questão dos direitos de autor delicadíssima, porque a impossibilidade do controle da circulação de músicas na rede pode significar o não exercício de direitos dos respectivos autores sobre suas obras. Olha, acho que vivemos um momento de mudanças drásticas no cenário fonográfico. Só o tempo e a experiência vai poder regular as coisas de modo mais equilibrado, tecnologia e ordem jurídica.
JM – E o convite para cantar com a Mercedes Sosa, como surgiu? Você acha que o Brasil devia abrir mais os ouvidos para a música da América Latina?
MC - Eu conheci Mercedes em São Paulo, através do meu empresário, Ricardo Frugoli, grande amigo dela. O convite para cantarmos juntas aconteceu em Roma, após uma passagem de som que eu assistia. De súbito, ela generosamente me chamou para cantar e eu aceitei, sem jeito, sem acreditar. Depois disso, tive a honra de acompanhá-la na turnê de 11 shows pelo mundo, que passou até por Tel Aviv e foi encerrada em Salvador, um presente para mim. Mercedes viveu para a música e pela música, acordava e dormia cantalorando alguma canção, tinha na sua música um compromisso social eterno. Senti muito a sua partida... Mercedes é um exemplo de que, sem dúvida, podíamos valorizar mais a música latina. Aliás, não só a latina, como a africana, a cubana, a francesa, etc. Mas o Brasil, nesse sentido, se comporta como colônia norte-americana.
JM – Das canções de Pecadinho, qual serve melhor como um retrato de Márcia Castro?
MC - Barraqueira, de Manuela Rodrigues. Eu passo mal de excesso, mas não passo fome (risos)!
JM – E depois do Pecadinho original, qual o próximo passo?
MC - O Pecadinho está aos poucos se despedindo de mim, depois de tantas alegrias que me deu. Após o Carnaval, estarei concentrada na gravação do segundo disco, que se encontra na fase de seleção de repertório. Se tudo acontecer como desejo, lanço no início do segundo semestre de 2010.
Quarta-Feira, 09.12.2009 às
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