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PAULO CÉSAR DE SOUZA, TRADUTOR DE NIETZSCHE



Foto: James Martins / Bahia Notícias



Paulo César de Souza é um intelectual baiano de porte atlético e senso de humor incomum que se tornou célebre, principalmente, por suas traduções de Nietzsche. Premiado diversas vezes por esse trabalho, note-se que o filósofo alemão é tido como o maior estilista moderno da língua, Paulo César se dedica também a verter para o nosso ‘brasilírico idiomaterno’ as obras completas de Sigmund Freud (outro inventor do Século XX). Nesta entrevista por email, ele explica um pouco do seu método, fala sobre neologismos, novo acordo ortográfico, sua atuação como jornalista e outras coisas. 


JM
- Qual foi a sua primeira tradução? E por que você resolveu traduzir? 

PCS - A primeira tradução que fiz para ser publicada foi "Ecce Homo - Como alguém se Torna o que é", o ensaio autobiográfico de Nietzsche, em 85. No mesmo ano, em março, foi publicado meu primeiro artigo na Folha de S. Paulo (o primeiro que escrevi para a imprensa), sobre a tradução de Freud. Antes de escrever e traduzir, eu ensinei alemão no Instituto Goethe de Salvador, mas lecionar não era minha vocação. Sempre lidei com livros, antes como leitor, depois como tradutor principalmente.

JM - Alguém já disse que um texto é o idioma em que ele foi escrito, e que, portanto, traduzir é impossível. O que isso significa para você, um tradutor por profissão?  

PCS - Quem afirmou isso entendia pouco de textos e de idiomas. É uma pseudoverdade, é como se alguém vivo e com boa saúde dissesse "é impossível viver".

JM - E o seu interesse pela língua alemã, como começou?

PCS - Minha família morava no Campo Grande, bem perto do Instituto Goethe, eu já tinha conhecimentos de inglês e francês e me interessava por alguns escritores alemães. Então me matriculei no curso de alemão, aos 17 anos.  

JM - Você, que chegou a usar um neologismo cunhado por Caetano Veloso numa tradução de Nietzsche, acredita nas delimitações de ‘alta’ e ‘baixa’ cultura?

PCS - Qual foi esse neologismo? Não me lembro. Essa diferenciação existia antes da cultura de massas, da democracia, antes do surgimento das classes médias, antes da televisão, do telefone e do telégrafo, quando o planeta tinha menos de um bilhão de seres humanos. Há muito tempo ela deixou de fazer sentido.

JM – A palavra é ‘desnatureza’, mas não lembro em que livro ela aparece. 

PCS - Também não lembro em que livro saiu, nem que o usei. Acho que o usaria de toda forma, ocorreria naturalmente para traduzir um termo alemão com o prefixo correspondente. Há outros neologismos, por exemplo, "querente", que usei e depois vi que Pessoa o havia usado. Não surpreende que a gente recorra a neologismos para verter certas palavras estrangeiras (Guimarães Rosa era mestre nisso; assim ele criou não sei quantas palavras novas, a partir das várias - ou muitas - línguas estrangeiras que conhecia). 

JM - Quais as maiores dificuldades em traduzir Nietzsche? 

PCS - Os períodos longos, com várias orações subordinadas, às vezes com jogos de palavras e aliterações; é preciso recriá-los de forma exata e elegante, sem perda no teor e na precisão.

JM - O poeta e tradutor Haroldo de Campos preferia o termo ‘transcriação’, ao invés de tradução. Para você essa diferenciação faz sentido?

PCS - "Transcriação" seria uma tradução mais refinada, artística, de poesia ou de prosa que complexidade equivalente. Talvez seja uma versão literal do alemão "Umdichtung". Haroldo gostava de neologismos.

JM - As prometidas traduções das obras completas de Freud são muito aguardadas por muita gente. Como anda o trabalho? E quais os planos editoriais (previsão de lançamentos, etc.)?

PCS - Venho traduzindo Freud há muito anos, desde antes de voltar a viver em Salvador (voltei em 95). Mas enquanto publicava as traduções de Nietzsche, guardava as de Freud, esperando o momento de os direitos caírem no domínio público, o que acontecerá no final deste ano. Os três primeiros volumes sairão em março de 2010, pela mesma editora do Nietzsche [Companhia das Letras]. Serão 20 volumes ao todo.

JM - Quanto à tradução de Assim Falou Zaratustra você sempre se mostrou tranqüilo diante das cobranças do público, alegando já haver uma boa no mercado, mas agora está trabalhando na sua versão também. Por quê? E como anda o processo? 

PCS - Eu pensava em deixar por último, depois das "Considerações Extemporâneas", a outra obra dele que falta. Mas recebi solicitações de vários lados, até da editora, que nunca me pediu nada (eles disseram que recebem e-mail de leitores), então comecei a traduzir, enquanto acompanho a edição dos primeiros volumes do Freud. Está indo bem, a linguagem é mais fácil que a das outras obras de Niezstche. E, agora que estou prestando atenção ao texto, a tradução existente já não me parece tão boa.

JM - Em ‘Freud, Nietzsche e outros alemães’ você reuniu parte do seu trabalho como jornalista. Pensa em voltar a colaborar com periódicos? E como avalia a imprensa atual? 

PCS - Esse livro foi uma seleção de artigos que publiquei sobretudo na Folha de S. Paulo, entre 89 e 92; ele e mais dois outros. Foi um período em que eu precisava escrever artigos para sobreviver, e também gostava, pois escolhia os temas e os autores. Mas sentia a necessidade de fazer coisas mais duradouras, e passei a me dedicar apenas à tradução de Nietzsche e Freud. O livro que escrevi depois foi apenas uma tese de doutorado sobre os problemas teóricos da tradução de Freud. 

JM - Como está a sua relação com o ainda Novo Acordo Ortográfico? 

PCS - Se a unificação ortográfica for necessária para que a língua portuguesa tenha mais peso nos organismos internacionais, ela deveria ser boa, em princípio. Talvez não tenha sido feita da melhor forma, mas confesso meu relativo alheamento a essa questão. Nunca me interessei muito por ortografia, são erros bobos, em comparação com os erros de sintaxe e os lapsos de estilo.

JM - Há uma sua carta para um editor, que foi publicada em Sem Cerimônia, onde você defende com argúcia quase agressiva as sutilezas e complexidades do seu trabalho contra uma espécie de barateamento artificial proposto pela revisão. O tradutor tem o direito de ‘simplificar’ uma obra sob algum pretexto ou isso seria a traição de que fala o ditado italiano? 

PCS - O tradutor não tem esse direito, isto é essa traição que você bem lembrou. O editor também não pode fazer isso. Mas é um direito nem sempre respeitado, infelizmente.

JM - Além do já anunciado, você tem mais projetos na manga de que possa nos falar?

PCS - Como estou com 54 anos, acho que os 20 volumes de Freud e os 3 ou 4 que faltam de Nietzsche já são projetos suficientes. Comecei a estudar russo há um ano e meio, mas isso é apenas para exercitar os neurônios na meia-idade, não penso em traduzir nada em princípio, apenas entender um pouco mais o povo que produziu Dostoiévski e Stálin, como acredito entender mais agora do que antes o povo que produziu Nietzsche e Hitler.


Quarta-Feira, 21.10.2009 às
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