Entre Vistas

Não se pode precisar desde quando Dimitri Ganzelevitch é baiano. Mas ele vive na Bahia desde 1975. De lá para cá, já organizou o concurso de carrinhos-de-café, com repercussão mundial, o projeto Música no Boqueirão, de menor alarde mas enorme qualidade, e diversas outras coisas ligadas à arte e cultura na Cidade do Salvador. Sem falar que o sobrado onde mora, no bairro de Santo Antônio Além do Carmo, é uma obra de arte em si que abriga outras tantas obras de arte: Casa Museu, segundo um papelzinho oficial que, se conforta o ego do colecionador, não se converte em apoio. Nesta entrevista, ele fala novamente sobre sua chegada à Bahia e explica seu convívio com a arte e o lugar. Dimitri critica as políticas públicas e sinaliza até para um insuspeito xenofobismo baiano.
JM – Como surgiu o seu interesse pela arte?
DG - Veio pela educação que recebi na infância. Minha mãe sempre comprou para mim livros interessantes e bonitos, com encadernação e ilustrações de qualidade. Ainda tenho alguns destes livros. Também na casa de minha avó havia álbuns do fim do Século XIX com fotos de importantes monumentos europeus, como castelos, palácios, fontes e catedrais. Ainda também tenho um álbum com estas fotos. Não éramos muito ricos, mas a cultura foi sempre considerada fundamental, tanto do lado de meu pai, como de minha mãe.
JM – E por que decidiu morar no Brasil e, especialmente, na Bahia?
DG - Resposta no texto em anexo.
JM – A Bahia sempre se destacou como berço da cultura e das artes no País, ‘exportando’ tradição e inovação. Mas como você vê o momento atual da criatividade no estado?
DG - Não concordo com esta afirmação. Pernambuco, Rio, Minas Gerais, São Paulo também são de excepcional importância para a cultura brasileira. Haroldo de Campos, Euclides da Cunha, João Cabral de Melo Neto, Fernando Sabino, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Tarsila do Amaral, Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Mário de Andrade, Vicente do Rêgo Monteiro, Volpi, Ianelli, Tomie Othakie, Senise, João Câmara, Nélida Piñon, Jackson do Pandeiro, Clementina de Jesus, Hélio Oiticica, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Tunga e tantos outros que compõem a base do Brasil moderno e contemporâneo não são baianos e sem eles não haveria cultura brasileira ou então ela estaria muito atrofiada.
JM – Como surgiu a idéia da Casa Museu? Fale sobre as dores e as delícias que você encontra em mantê-la.
DG - Muitas dores, pois nunca tive o mínimo apoio material ou técnico de autoridade nenhuma. Nem nunca os responsáveis pela cultura oficial se dignaram em visitar minha casa, salvo raras e rápidas exceções, às vezes deixando entender que eu continuava um forasteiro. O título de "Casa-Museu" limita-se a um simples pedaço de papel que só conforta meu ego.
JM – Como você avalia as políticas culturais do governo e da prefeitura? E o que pensa sobre essas leis de incentivo como a Rouanet?
DG - As políticas do governo são partidárias, incoerentes, e demagogas. Quanto à prefeitura, um prefeito que confessa que seu único livro de cabeceira da cama é a bíblia, só pode ser interpretado como um espírito limitado intelectualmente. A Fundação Gregório de Mattos é o fiel espelho desta indigência intelectual. Além do mais é um cabide de empregos e não tem grana. Em tempos de engarrafamentos, drogas, intolerância religiosa, hegemonia das igrejas evangélicas sobre as camadas mais pobres da população através de manipulações escandalosamente imorais e violência, existem outros livros que, talvez, poderiam ajudar a encontrar soluções. As leis de incentivo são um importante passo para um mais consistente engajamento do governo, uma melhor distribuição das verbas de patrocinadores. Aliás, o verdadeiro ministro da cultura desde o início do governo Lula é o Juca Ferreira. O Gil foi sempre mera figura representativa. Era chique ter um ministro cantor. Quem sempre fez tudo foi o Juca.
JM – Você é o criador do concurso de carrinhos de café e também organiza exposições de artistas, digamos, acadêmicos. Faz diferenciação entre ‘tipos’ de arte ou acredita que a arte é uma só?
DG - Felizmente tenho uma mente aberta, atenta e respeitosa a qualquer expressão do homem. A arte depende de seu olhar, já foi dito várias vezes, mas é bom repetir. O desenho de um carro, de um par de sapatos, de uma caixa de fósforos pode ser arte. E um quadro de uma natureza morta ou uma baiana de acarajé pode ser lixo. Quanto ao concurso de carros de cafezinhos, é sempre uma dor de cabeça para encontrar verba suficiente. No entanto, este evento consegue divulgar positivamente a cultura popular urbana de salvador. O último concurso foi divulgado no Fantástico, da Rede Globo, na Tv Uruguai e na Japan Tv. Não custou praticamente nada aos cofres públicos.
JM - Outra ferramenta de sua atuação na vida da cidade é o jornalzinho ‘Era o Que Faltava...’ Fale um pouco sobre isso. E aproveito para perguntar: por que você não cria um blog com o mesmo conteúdo do impresso?
DG - Desde 1975, data em que cheguei a Salvador, notei que ainda imperava a submissão escravagista. As pessoas baixam a cabeça quando tem um problema grave que envolve a comunidade. Dizem "é briga de branco"... Só levantam a cabeça quando a tempestade já passou. Ninguém, nunca, ousa levantar a cabeça e dizer: "Não concordo"! Especialmente quando se trata da coisa pública (Re-pública). Os governantes usam do dinheiro de nossos suados impostos, não apresentam contas, aumentam salários e regalias mil de parasitas que trabalham dois ou três dias por semana, são propensos a corrupção deslavada com o tácito acordo dos responsáveis e pouco melhoram a vida do brasileiro. Veja o estado das estradas, a segurança pública, as escolas, a saúde. O povo é massa de manobra, é desrespeitado nos seus direitos mais básicos e não reclama! Meu boletim "Era o Que Faltava!" é uma forma de provar que a crítica é um direito. Quanto ao blog, meu amigo Marcos Palácios, professor de comunicação da UFBA, tentou me ensinar, mas me perdi no caminho. Além disso, não sei se alguém teria paciência para abrir meu blog.
JM – Este ano, por ocasião do 2 de Julho, a prefeitura promoveu um show da Cláudia Leitte para comemorar a data. No dia eu escrevi que a Bahia tinha se tornado “um estado com memória de apenas 30 anos atrás e mentalidade de 12”. Você, que é um homem muito ligado à memória, o que pensa de episódios assim? Como vê, por exemplo, a polêmica da substituição das pedras portuguesas por concreto, só para continuarmos na Barra, local do citado show?
DG - Estamos vivendo um momento (será que é só um momento?), não de contracultura, que também é uma forma de cultura, mas de sub-cultura. As estrelas de hoje na Bahia são Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Bel Marques e seu lencinho grudado na careca, Belo, que é feio como o diabo, etc. Você talvez nem se lembre que esta terra já foi de João Gilberto, Dorival e Nana Caymmi, Moraes Moreira, Gil, Bethânia e Caetano, Gal Costa, Batatinha, e tantos outros... A substituição das pedras portuguesas é mais um passo na direção da perda de identidade cultural e histórica. As pedras portuguesas apareceram em meares do Século XIX, vindas de Portugal. Começou, salvo erro em Manaus, conquistou o Rio de Janeiro e se espalhou pelo Brasil inteiro. Durante mais de um século foi marca registrada da imagem brasileira. Até o Walt Disney se rendeu aos encantos da pedra portuguesa no seu desenho animado com Zé Carioca e o Pato Donald. Acho que era "Saludos Amigos" ou "Os Três Cavalheiros"... Não tenho a certeza [é em Saludos Amigos, 1942]. Enquanto os dois cantam "Aquarela do Brasil" vão passeando por Copacabana enfeitada por pedras portuguesas. Até o Lulu Santos cantou as pedras portuguesas. E é exatamente isto que o João Henrique e o Marcos Pedreira, o xerife do comércio, querem eliminar. O parâmetro é Miami, a quintessência do consumo de massa. Se ainda fosse NY!... Se bem que nem isso: lá na Flórida eles fazem o possível para manter a memória de seu patrimônio. Vejam a Avênida Ocean Drive e seu casario art deco.
JM – Que critérios você usa quando vai comprar uma obra de arte?
DG - Há muitas formas de encarar a obra de arte e montar uma coleção. Para alguns, é uma questão de status. As peças têm que ser obviamente caras, mesmo que, às vezes, de proveniência duvidosa, só falta a etiqueta com o preço de compra do objeto. São motivos de ostentação, típico de novo-riquismo inseguro. É muito fácil, quando você tem a conta bancária abonada, ir em antiquários e comprar Companhia das Índias e santos barrocos de um metro e meio ou em galerias conhecidas e adquirir Carybé ou Iberé Camargo. Meus critérios são inteiramente subjetivos. A peça tem que estabelecer um diálogo comigo, me trazer emoção, referência histórica, cultural... Se for ao Louvre, com certeza estarei mais interessado por um pequeno quadro em algum corredor que pela Monalisa. Isto é, sem negar a importância desta obra. Na minha coleção, coabitam objetos com certo valor e peças sem nenhum valor de mercado, mas que me trazem alguma informação, completam uma série ou falam a minha sensibilidade. Como colecionador me sinto mais perto de um Abelardo Rodrigues (que olhar!) de que de um Barão Tyssen, cujo museu em Madrid é uma lista de grandes nomes, mas com obras fracas. Já o pai e o avô dele eram, estes sim, grandes colecionadores.
JM – Quais são as peças que você mais estima em sua vasta coleção?
DG - Considero que todas as peças formam um conjunto, como se fosse um desses jogos quebra-cabeças. Se falta um pedacinho, está inacabado. O problema é que sempre falta alguma peça para um colecionador. Estou sempre garimpando. Não sendo uma pessoa com altos poderes aquisitivos, tenho que exercer meu faro. E isto me diverte muito, me estimula.
JM – Por que o projeto Música no Boqueirão parou? Existe a intenção de realizá-lo novamente?
DG - Porque era muito trabalho e pouco público. Quando resolvi entregar o poder de decisão a dois jovens membros da Associação Cultural Viva Salvador, por mim fundada, virou show de barzinho, tipo voz e violão, com todos os chavões. Sempre fui extremamente exigente, comigo e com os outros. Acho que o mais importante não é o artista, é o público. Você tem que exigir o melhor para o público. Este negócio de "temos que ajudar este artista, coitado..." é um absurdo. As galerias oficiais têm que apresentar unicamente os melhores fotógrafos, os melhores gravadores etc. Em contrapartida, as galerias comerciais têm todo direito de expor o que bem entendem. Sim, gostaria de recomeçar com esta proposta de "Música no Boqueirão", mas em bases mais sólidas, menos amadorísticas.
JM – Para terminar, responda à pergunta que eu não fiz, mas que você gostaria de responder.
DG - Após mais de 34 anos na Bahia, gostaria de deixar de ser considerado como um estrangeiro. Mas, e isto ninguém quer admitir, existe algo chamado xenofobia. Não um preconceito declarado, escancarado. Mas algo latente, cotidiano. Quem não teve a honra muito especial de ter nascido baiano, sempre carregará esta cruz. Pergunte aos que aqui vivem, mas aqui não nasceram. Até paulista se sente um estranho no ninho!
Terça-Feira, 22.09.2009 às
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