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MARIELLA SANTIAGO: CANTORA BAIANA


Foto: Alessandra Benini / Bahia Notícias

 

Mariella Santiago é cantora. Mariella Santiago é uma cantora baiana. E Mariella Santiago ultrapassa muito esses limites paradidáticos. “A atitude para mim conta muito. Não basta só cantar bonitinho. Hoje em dia está muito fácil ser artista, chega, canta bonitinho, fala uma coisa engraçadinha e tá bom. Pô, que é isso?”, é apenas umas das coisas que ela diz nesta entrevista. Inquieta e inconformada, Mariella ao mesmo tempo ama e cultiva melodias bonitas. E fala muito. E fala de maneira exuberantemente digressiva, interligando o que parece não ter relação segundo as regras de compotas, gavetas e especializações que comandam a vida e o pensamento vigente. Mariella é uma cantora baiana que ultrapassa e às vezes até rejeita essas demarcações exaltantes. Nessas horas, e aqui nesta conversa fica claro, ninguém tão cantora, ninguém tão baiana. Ninguém tão encantadoramente uma cantora da Bahia.


JM
– Quero que você comece falando do seu começo com a música. A entrada da música na sua vida.

MS – O fato de ter meu pai cantando sempre em casa, e compondo e tocando violão... isso foi um início para nutrir esse afeto pela música. É preciso ser muito embrutecida assim para não ceder a tanta poesia que enchia a casa, tanta música... não só da parte do meu pai, como também dos amigos que freqüentavam nossa casa: Capinan, o já falecido Jeovah de Carvalho, o próprio Gilberto Gil, de quem freqüentávamos a casa numa época, e muito outros poetas e amigos nossos. Então seria difícil escapar. E sempre muita música James, sempre muita música de todos os estilos, sabe? Coisa que em nenhuma escola eu teria o tempo e a oportunidade de conhecer. Eu me lembro que ouvi Ima Sumac pela primeira vez com cinco anos. Aquela cantora exótica, peruana, maravilhosa... Aí, de Ima Sumac até Luiz Gonzaga foi tudo. A gente escutou de tudo. Mas esse cultivo foi na verdade pelas artes em geral. E a música, coisa que eu só tenho revelado ultimamente, não foi a minha primeira paixão não. A primeira coisa foi mesmo as letras sabe? A escrita, a poesia...

JM – Mas os seus irmãos são músicos também...

MS- Sim, os dois são músicos. E nós temos um pai que, assim, você começando a falar ele... a primeira música que eu cantei foi Get Back dos Beatles. Eu cantava ‘get back tuiutuiu tonait’ (brinca)... Depois passei pra Novos Baianos (cantarola) ‘no bubu buliindo’... Essas coisas. As canções de ninar que meu pai também fazia pra gente, cada filho que nascia criava o repertório dele de canções de ninar.

JM – Você é de que lugar de Salvador? 
 

MS – Sou do STIEP, que é Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Petróleo [Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Extração de Petróleo]...

JM
– Significa isso mesmo é? Nunca soube... (muitos risos)

MS – É... (mais risos) Pois é, sou Stiepense, cara. Do Areal. Que hoje, depois dessa devastação imobiliária em Salvador restou muito pouco. Mas eu sou dali. A gente brincava por ali, subia aquelas areias para buscar arbusto, galho seco para fazer árvore de natal, aroeira... Enfim, era outra cidade.

JM – Certo. Agora vamos voltar à música. E você começou cantando num espetáculo de teatro.

MS – Comecei cantando num especial em homenagem a Janis Joplin e Jimmi Hendrix que foi o Projeto J, dirigido por Aninha Franco. E como sempre a cidade tem suas pessoas inquietas e eu tive a sorte de encontrar com essas pessoas naquele momento. Todo mundo a fim de fazer uma coisa diferente. E músicos que não estavam no circuito na época também... eu começando, Paschoal também tava começando e outras pessoas... os atores também. E fizemos um espetáculo itinerante, por falta até de um espaço que comportasse uma apresentação de teatro, música e dança, o que é um problema antigo de Salvador, uma casa que permita esse tipo de apresentação e ao público dançar, fazer o que queira... Então a gente fez nos pub’s, salões de hotel, nos lugares mais loucos.

JM – E você cantando Rock’n’Roll?

MS – Cantando o repertório da Janis Joplin. A minha afinidade era com o Blues. Mas eu, até estrear o espetáculo, não estava muito convencida da coisa, porque a minha estória mesmo é, por um lado Jazz, por outro Milton Nascimento, a MPB, as cantoras da bossa nova como Lenny Andrade, eu nunca fui muito Rock’n’Roll na expressão. Na atitude eu me identifico muito, mas musicalmente nunca foi a minha formação, embora eu escutasse né? Woodstock...

JM – Pois é, ninguém escapou. Mas então, de onde vinha principalmente a insegurança?

MS – Primeiro porque foi meu primeiro espetáculo. Segundo porque teve que rolar um trabalho de atriz, e foi aí que eu descobri a questão cênica, que não era só cantar. Que tinha a coisa da performance que era muito importante. Até então eu sabia que eu gostava de cantar, mas nesse espetáculo, por ser a Janis Joplin e por ser dirigida por pessoas de teatro, é que eu tive a possibilidade de descobrir que a música popular é um complexo de coisas que não se encerra na expressão musical. 

JM- Por falar em Janis, quais as suas referências principais entre as cantoras?

MS – Eu não tive muitas referências de cantora no Brasil. Sabe que tive esse problema? Por que as vozes, até os anos 1980, brasileiras e baianas também, eram muito agudas...

JM – Todo mundo era Gal né?

MS – Todo mundo era... (risos) Mesmo sem ser, tinha que. Um problema de identidade! Inclusive a minha pesquisa é nesse sentido, na minha monografia estou futucando o quão importante é o artista como formador de identidade e os equívocos que acontecem. Quantas pessoas que poderia estar sendo elas mesmas e expressar o que têm de mais forte, mas têm que viver se comportando em compoteiras estéticas (mais risos nossos). Mas eu ouvi muito Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Edith Piaf também muito, Amália Rodrigues, enfim, cantoras que cantam agudo, mas que também têm um ‘range’ mais denso. Aí eu disse: tá bom, eu posso cantar Jazz! Não sei se eu posso ser Gal Costa, mas Jazz eu sei que eu posso cantar. Porque eu acho que a minha voz é como a voz dessas criaturas aí. E coincidiu com a minha curiosidade pelos idiomas também. Eu já tava estudando inglês há muito tempo.

JM - E daí para as composições.

MS – Foi tudo muito rápido. Comecei a cantar, fiz as interpretações das divas do Jazz e na seqüência já não estava muito contente com isso, eu queria dar a minha palavra. É muito difícil encontrar parceiros compositores que digam aquilo que a gente quer dizer. Aquilo que a gente quer dizer é a gente que quer dizer. E eu acho que a missão do artista, sobretudo compositor popular, é encontrar uma maneira de dizer isso. Então foi o que eu corri atrás de fazer. Comecei com uma pessoa muito crítica ao meu lado, que foi o meu pai.  Ele sempre foi meu modelo e crítico, porque ele sabia muito de música. Mas durante muito tempo eu escrevia sem mostrar nada pra ninguém. E tem uma coisa, eu sempre preferi trabalhar por encomenda. Um amigo que me procure com uma idéia de harmonia, de melodia e me ofereça: - Você não quer fazer uma letra pra isso? Aí eu chego pra figura e digo: - Você, quando fez isso, estava pensando em quê? Isso aí pra você leva a quê? Me dê uma dica, não me deixe assim, por que assim já estou desde que nasci, jogada na buraqueira do mundo (risos)... E gosto muito de compor em parceria. E foi assim que eu fiz a música que saiu no disco chamado Conspiração Baiana, que é histórico, não sei se você conhece, que tem Lazzo, Luis Caldas, Clécia Queiroz, Timbalada... disco de uma gravadora alemã, Tropical Music, produzido pelo saxofonista da Rumbaiana Klaus Jaecke, o saudoso germano-baiano. E foi a minha primeira gravação.

JM – Agora eu quero voltar à questão da performance. As suas apresentações parecem ser concebidas não apenas musicalmente, mas o figurino, as projeções, tudo enfim parece pensado para mandar uma mensagem. É isso mesmo? Tudo deve significar alguma coisa ou não?

MS – Na vida tudo deve significar. Como no palco (risos). Para mim não existe possibilidade de existência sem perseguir essa significação, o sentido em tudo o que a gente faz e que a gente diz. E eu sempre fui louca por brilho, imagem, movimento em todas as suas expressões. E ainda bem que eu sempre tive amigos e aliados para me ajudar nessas coisas, por que fazer sentido no mundo da música popular não é fácil. Vou ser mais clara. É muito mais cômodo, de acordo com a lógica de mercado, reproduzirmos o que já está feito. Se você quer inventar alguma coisa e busca meios para isso, torna a coisa mais complicada, inclusive para o espectador definir dentro daquilo tudo ali quem é Mariella, o que é que ela está querendo dizer mesmo com essas cabras aí atrás, com esse candomblé aí atrás? Por que, se ela é cantora? E essa nossa conversa é muito importante porque as coisas estão assim... um artista, quando ele vai dar uma entrevista, salvo raras exceções, como essa oportunidade que estou tendo aqui com você, as perguntas que se fazem também não deixam muito espaço para muita coisa, para que ele fale da realidade do país, da vida dele além dos projetos artísticos midiáticos, as coisas que ele gosta realmente, as opiniões sobre o mundo. E assim como geralmente não se tem espaço para isso nas entrevistas, no palco também não.

JM - E como é a sua relação com a internet e a distribuição de música gratuitamente?

MS – Eu sou a favor da manutenção do direito autoral, para dar a César o que é de César. O cara compôs a música, os direitos são dele e ele tem que receber por isso. Por que aquilo é o que ele sabe produzir, ele não faz um carro mas faz uma música. E é engraçado como em um momento da história setores interessados  dizem que essa é a maneira certa de se fazer, depois, de repente dizem que a gente não precisa mais de propriedade intelectual, a música é de todo mundo, vamos voltar ao tempo das cavernas, das tribos... em que a música era toda para o transe. Isso é muito cômodo. Eu acho que o sistema, no sentido de cadeia de coisas realmente, não posso dizer que é a mídia, ou o publico, ou o empresário, mas o sistema como um todo tende a, sempre em função do capital, do lucro, manipular essas posições. Eu acho que a internet é muito bacana para quem faz música, para quem faz arte, porque ela dá essa oportunidade de acesso às pessoas independente se você tem uma máquina de mídia na mão. E isso, historicamente, é inédito sim. Mas a luta pelo software livre não é a mesma coisa da luta pela extinção dos direitos autorais.

JM – E a sua mudança para o Rio?

MS – Pois é, eu passei dois anos fazendo shows com bastante regularidade aqui em Salvador e muita gente nem tomou conhecimento disso. Agora, quando encontro alguém a pessoa vem me dizer: - Você nos abandonou!  Mas aqui é minha cidade, é minha casa, o meu amor tá aqui.

JM - E seu eu fosse comprar um disco seu deveria procurar em que prateleira? Como você enquadraria a sua música?

MS – Eu estou fazendo música ‘afro-romântica’ agora. Inclusive tenho uma música concorrendo ao festival da Rádio Educadora: Apará. Eu acho que é um gênero novo. Música brasileira afro-romântica. Não é ‘Charm’. E vai ter muito disso, eu acho, no disco. Essa composição é minha sozinha. Eu continuo compondo, mesmo quando paro de gravar e de tudo. É a única maneira de falar as coisas da vida é compondo.

JM – Fale mais da sua relação com Salvador e a sua mudança.

MS – Eu acho que isso passa pelo fato de a gente aceitar algumas coisas. É muito cômodo a gente se orgulhar de ser do estado que tem os maiores ícones da música popular brasileira, que tem as maravilhas que tem, como as festas de largo, a resistência cultural, ou melhor, a resistência não, a existência cultural que a Bahia tem e que é única. Mas, se a gente for apenas se alegrar por isso deveríamos parar de cantar, de compor, de escrever, pintar... de fazer qualquer outra coisa e construir museus vivos para apenas reforçar as formas tradicionais de expressão artística e o nosso papel como cidadãos estaria cumprido. Mas eu acho que a gente não está satisfeito com isso. Tá todo mundo aqui vivo, a Bahia está cheia de gente fazendo coisas interessantes, novas, que a gente nem suspeita. Desde 20 anos para cá que tivemos a alegria de ter a exuberância de Luis Caldas, Olodum, Timbalada, Banda Mel, um monte de gente bacana que não tenho visto muito... Zé Paulo. Tem até uma música que eu tenho pensado em gravar, que é aquela assim (canta): “Deixa de bobeira / Deixa de bobagem / Já virou / Sacanagem! / Isso não é vida / Isso não é viver / É só sofrimento / E abuso do poder!” Que me remete muito ao que Bezerra da Silva, por exemplo, fazia e que tá muito esquecida na música baiana: crônica social. Parece que a gente vive no País das Maravilhas onde só existem casos de amor e pegação... mas na Bahia em que eu moro tem muito mais coisas acontecendo.  

JM – E aquela sua observação sobre a forma de se escrever Axé Music?

MS – Pois é, eu acho que se deveria escrever com ‘ch’, porque cria a confusão de se atribuir Axé onde não há. Axé, por definição, é renovação, criação, a energia renovadora da vida e não pode ser aplicado a nada que se repete indefinidamente, de maneira crônica (risos).

JM – E das coisas mais recentes da Bahia, o que você tem observado de valoroso?

MS - A música da Bahia hoje é o pagode eletrônico, em termos de representatividade, que eu não sei nem se é assim que chamam. Mas além disso tem muito mais... e eu fico catando. Como meus irmãos são músicos, tocam com muita gente, eu tenho acesso a muita coisa que não é tão divulgada. Tem uma orquestra chama Afro-Sinfônica, que é de um cara que foi tecladista da Banda Reflexus, que é o Bira Marques, que não parou por aí, na história daquela banda. Ele estudou música e filosofia em São Paulo e sempre foi um jazzman. É um cara extraordinário! Fez não sei quantos arranjos para a Jazz Sinfônica em São Paulo e agora voltou para a Bahia e está com uma escola de música contemporânea no Pelourinho, que é a primeira escola de música contemporânea que ensina instrumentos eruditos, por partitura e tal, da qual o meu irmão Gilberto Santiago é vice-diretor, e eles estão com essa invencionice que é a Afro-Sinfônica, com muita gente bacana. E me chamou a atenção porque, além de excelente arranjador ele é um super compositor, entendeu James? Acho que a música pode ser... Até o rap tem um momento melódico. E para mim não existe música sem tema, melodia, o que na ópera se dizia a ‘ária’. E o Bira faz uma música instrumental com temas extremamente originais. São músicas bonitas, aquelas que você lembra da melodia depois, uma coisa raríssima na música instrumental. E a rapaziada é nova também, se incorporando aí na música baiana. Uma coisa que a Rumpilezz também tem feito, com Lethieres. Eu conheci Lethieres quando ele estava voltando da Alemanha. E eu acho muito legal isso que ele fez de reunir a nata da música instrumental baiana na Rumpilezz. E que tem uma super-produção. A Rumpilezz é uma super-produção em todos os sentidos. E é a primeira super-produção da música instrumental baiana, eu acho (risos). Por que a música instrumental na Bahia sempre foi ligada a uma coisa assim mais alternativa.

JM – Ao amadorismo. Uma coisa de horas vagas. O cara tem os seus trabalhos principais e na folga vai ali...

MS – É... mas às vezes nem tanto. Eu falo mais no sentido do tamanho do empreendimento.

JM – Sim, isso deve ter alguma relação com o fato de o Lethieres tocar com a Ivete Sangalo, o cast da Caco de Telha etc.

MS – Bom, eu quero que você escute a Afro-Sinfônica! Pronto (risos)! É claro que a proximidade facilita... mas eu nem quero falar dessas coisas, para não parecer que eu sou anti-mercado da música baiana e não é isso.  

JM – Mas a gente sabe que a posição não é esta.

MS – Então continuando... Retrofoguetes é genial! Encontrei com eles, inclusive dando uma canja na Rumpilezz, abracei Morotó, CH que eu conheço desde os tempos do 2 Sapos e Meio, a gente era a mesma onda, esse pessoal ía todo lá em casa quando ainda tinha Dead Billies, com Glauber, que é um excelente cantor que a gente perdeu do nosso convívio porque o meio não dá. E é uma pena... eu adoro grandes cantores, seja de que gênero for. Vi Retrofoguetes pela TV também, no Multishow e fiquei super feliz. Depois deles não teve nem mais multi, nem show, não sobrou graveto! É muito bonito ver a resistência deles, com arte e inventividade. Como se não bastasse a atitude, a música ainda é boa. A atitude para mim conta muito. Não basta só cantar bonitinho. Hoje em dia está muito fácil ser artista, chega, canta bonitinho, fala uma coisa engraçadinha e tá bom. Pô, que é isso?

JM – Isso me lembrou aquela observação do Arrigo Barnabé, sobre a música popular não ser mais capaz de arte. Ele diz que a gente se enganou achando que música popular era arte e que a música popular não tem nada a ver com arte, mas com mercado.

MS – Eu acho isso também, a música popular não é mais arte. Por isso que eu voltei p’ra comunicação. A música não é mais um espaço...

JM – Mas não existem ainda grandes artistas fazendo música popular, mesmo com toda essa dificuldade de ser?

MS – Eu acho que eles continuam fazendo porque eles vêm de um tempo em que ainda era possível.

JM – Então eles vivem de um fôlego acumulado de uma outra configuração de mercado...  

MS – E também porque as restrições são muitas. A formatação é violenta. Então eu acredito na possibilidade de sobreviver de música no Brasil. Mas não fazendo arte! 


Terça-Feira, 18.08.2009 às
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