Entre Vistas

Carlos Pronzato é um cineasta argentino que vive na Bahia e no mundo. Seus filmes revelam isso com clareza, e é muito bom para todos nós que seja assim. Seus filmes mostram (ou estão ligados às) insatisfações populares, melhor dizendo, humanas, diante das várias formas de tirania; que, afinal, é sempre a mesma. O bom da arte de Pronzato, no entanto, é que mesmo assim ele não perde a ternura e a poesia ("jamais!"), antigas armas de amor e de guerra. Nesta entrevista, falamos de cinema de autor, cinema comercial, leis de incentivo à cultura, América Latina e muito mais. O melhor a fazer é ler. Sigam em frente.
JM - Por que você faz cinema?
CP - Porque acho que, dos suportes artísticos, é o que tem maior poder de penetração, seja este emocional ou crítico, massivo e intercultural e num momento da minha carreira achei fundamental o acesso a um maior público. Se nalgum momento da Historia da Arte, foi o Teatro (e nele eu fiz a minha formação prática e acadêmica) que integrou todas as outras no seu bojo, a irrupção da Sétima Arte se serviu, no seu inicio, principalmente do Teatro agregando, então, todo o leque artístico criado pelo ser humano. Então, se bem as opções na vida às vezes tem motores tão subjetivos e inconscientes que não os conseguimos enxergar com clareza, fiquei encantado desde o inicio pelas possibilidades expressivas que o cinema poderia veicular. E olha que, depois de tanto tempo no audiovisual, ainda acho que só o teatro é capaz de produzir certas reações no ser humano pela sua especificidade que é o ato ao vivo, sem interferências mecânicas, a ação vista e vivenciada a olho nu, essa comunica-ação única onde você pode sentir isso que no cinema (ainda que Woody Allen tenha “provado” que é possível no seu filme “A Rosa Púrpura do Cairo”) não podemos atingir, ou seja, a respiração do ator/atriz e por tanto do seu drama ali, frente a nós, com nós, em tamanho natural, sem a magnificência da telona imensa e hipnótica, que cria aquele espaço místico, profundo, cósmico, que apaga completamente você do cotidiano durante mais de uma hora. Mas claro, o cinema, apesar desta interferência, desta mediação de caráter técnico também pode estimular você em todos os sentidos, atingir a emoção ou um sentido crítico a partir daquilo que se está desenvolvendo na tela, mas por outros caminhos, outras linguagens específicas. Mas no fundo, com toda a minha dispersão estética, acho que cheguei ao cinema via poesia, que é minha atividade natural desde a adolescência, tendo publicado até hoje vários livros, atravessando por muita leitura de obras teatrais e posteriormente montando-as até chegar a este reduto artístico onde todas as artes se encontram. E como gosto, ou preciso, como artista de diversas linguagens, transitar por diversas experiências estéticas, nada mais lógico que desembocar no cinema, ou melhor, no audiovisual, termo que se ajusta mais contemporaneamente aos diversos suportes tecnológicos que hoje transmitem a imagem, e não apenas ao celulóide do cinema.
JM – E porque a opção por documentários e não filmes de ficção?
CP - A definição conceitual de documentário é tarefa complexa e não definida, porque se bem num sentido simplista entende-se documentário como qualquer recorte da realidade nua e crua, há uma ferramenta que interfere na realidade (a câmera) e um individuo ou uma equipe que fará seus próprios recortes discursivos, ressaltando tais ou quais aspectos, a partir das suas próprias indagações sobre essa realidade. Alguma vez alguém disse, acho que foi o John Grierson, fundador da escola inglesa de documentário, que “o documentário é o tratamento criativo da realidade”. Interrogações e polêmicas à parte, no fim, você verá que não há dois documentários iguais sobre o mesmo episódio. Dito isto, passemos às opções. Penso que, como todo mundo tem o seu, o meu ponto de mudança se deu a partir de duas viagens pela América Latina e Caribe realizadas nos anos 80, de vários anos cada uma e se estendendo esse período até minha chegada á Bahia em 1989. Nessas viagens, que começaram realmente no México em direção ao sul, aonde tinha ido para sistematizar meus estudos no Centro de Estudos Cinematográficos e que tinham começado de forma prática na indústria cinematográfica argentina, em paralelo aos meus estudos de teatro, pude apreciar a variedade de culturas e a avalanche de informações que fui adquirindo me inserindo em várias delas, vivendo e trabalhando – artesão, guardador de carros, garçom, marinheiro, vendedor de enciclopédias, e etc - em vários desses países. O meu interesse na época – e continua sendo, só que nunca fiz um estúdio formal – era a antropologia cultural, que foi mudando para a antropologia política que de alguma forma é o que faço no suporte documentário, depois de vários anos de ter me dedicado intensamente ao teatro. Então, acho que o caleidoscópio indo-afro-latino-americano pleno de diversidades que tive ocasião de transitar naquela época acabou encontrando seu espaço neste tipo de documentário que desenvolvo hoje e que representa, por trás do plano pontual, factual e político emergencial, um amostra de culturas da resistência já que em sua grande maioria são pinturas de povos marginados pelo sistema das elites econômicas, militares e políticas. Também, certos episódios políticos locais, como a repressão da PM às manifestações dos 500 anos no sul do Estado reforçaram esta opção. Agora, a ficção é sempre um horizonte possível, sempre e quando consiga os patrocínios necessários para desenvolver projetos nesse gênero. Temas como aqueles que toco precisariam de tempos de preparação infinitamente superiores para a cuidadosa construção de um filme de ficção e que excedem em muito os tempos das realidades políticas atuais, dinâmicas e surpreendentes e que é necessário cobrir de uma forma não-televisiva, não-superficial – e que será visto não apenas uma vez na hora do jornal, senão que começará a circular “infinitamente” através da “pirataria militante”, que nutre o debate e a ação com estes materiais- e para isso é preciso vivenciá-las desde outra ótica que implica outro envolvimento, que requer investimento em tempo junto aos protagonistas sociais e isto não pode ser superficial. Por agora, os temas e conflitos que me interessam difundir se encaixam em custos reduzidos, porém exigem maior esforço militante, tempo de pesquisa, procura de fontes “raras”, indivíduos muitas vezes difíceis de aceder como Gary Prado (o capitão que capturou Che Guevara) e, muitas vezes, viagens por locais de difícil acesso, e, é bom que se diga, quase sempre por terra, por isso, com um gosto intransferível de aventura. Além disto, acho fundamental nestas minhas opções de trabalho e especificamente no campo ficcional o seguinte: meu pai, Victor Proncet, um homem da cultura argentina, músico, compositor de numerosos filmes e roteirista de cinema e TV, ator, dedicou toda a sua vida a criação artística. Mamei, por tanto, todo esse clima em casa, com livros –atlas geográficos fundamentalmente -, muita pintura e inclusive com minha mãe, fotógrafa e de uma sensibilidade artística impressionante.
JM – A máxima do Cinema Novo: “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”, ilustra bem o seu método de fazer filmes. Você se encaixa em algum movimento?
CP - Glauber disse alguma vez: “Por ali é o cinema desconhecido da aventura estética e da especulação filosófica; por aqui é o cinema do terceiro mundo, um cinema perigoso, divino, maravilhoso e aqui as questões são práticas”. Essa é a prática que tento assumir de posse da câmera e com um mundo de reivindicações a descobrir na minha frente, recheio de questões sócio-políticas urgentes, ferventes, tentando colaborar na reconstrução de dignidades arrebatadas por processos políticos ditatoriais/militares no passado, hoje assumidos diariamente por empresas multinacionais aliadas aos poderes locais, privatizando tudo a margem dos cidadãos. Nesse cenário há movimentos na América Latina de cineastas documentaristas que focam estas questões a partir de grupos com identidade ideológica e/ou partidária, ambiental, ou autônomos, mas todos com a idéia do resgate desta opção do cinema militante ou testemunhal. Eu circulo de forma independente,solitária, na tentativa de construção de sentido político coletivo, sem fazer parte de grupos, embora o perfil da minha obra possa se encaixar nestes movimentos do cinema de intervenção política, também chamados de cinema verdade. Mas também acho que filmes como “Buscando a Allende” (2008) ou “Carabina M2, uma arma americana, Che na Bolívia” (2007) que foram realizados com perspectiva histórica de posse de farto material investigativo, no intuito de desvendar processos históricos recentes do nosso processo de liberação interrompido, estariam noutra categoria – ainda que a metodologia de realização tenha sido igualmente em maior medida militante-, a de filmes históricos, embora na intenção principal de evocar esses fatos pela repercussão que possam ter no nosso presente. Se a isto acrescentamos curtas de ficção sobre temas históricos e culturais - 500 anos do Brasil, Pierre Verger, Canudos, etc – não fica tão claro a pertença a algum movimento específico. Então, movimento como categoria de classificação onde você possa incluir a maior parte da minha obra “política” que vem sendo construída, sim, porém como movimento, como dinâmica de organização fica mais complexo.
JM – Há quantos anos você está na Bahia, e porque decidiu viver aqui?
CP - Noutra pergunta toquei naquelas viagens feitas nos 80 pela América Central e do Sul e que iriam desembocar aqui no Brasil, mas precisamente na Bahia, através de um convenio cultural com a Argentina para prosseguir estudos aqui. Há exatamente vinte anos, em 1989. De alguma maneira foi casual, porque no CEB (Centro de Estudos Brasileiros de Buenos Aires, hoje uma Fundação) depois de aprovarem meus certificados de estudos feitos até essa data, eles, isto é, o Brasil, escolhe a cidade onde você irá estudar e fica ao seu critério a aceitação. Mas é preciso disser que, antes, numa passagem pelo Rio de Janeiro, soube deste mecanismo no Setor Cultural da Embaixada Argentina. Em definitiva, durante minhas viagens tive encontros constantes com pessoas que tinham estado na Bahia e comecei a ficar curioso pela Roma mestiça e encontrei a maneira de vir oficialmente. Só restava tirar a sorte na escolha da cidade e surgiram três únicas opções: Uberlândia, João Pessoa e Salvador. Esta última me escolheu! Aqui fiz o curso de Direção Teatral na UFBA me formando em 1993. Posteriormente faria uma pós na UFRGS em 2002. Fui para o Fórum Social Mundial em Porto Alegre inicio daquele ano, descobri esse curso de especialização sobre Teoria do Teatro e fiquei. Foi muito bom esse período, um ano intenso pela efervescência política natural naquelas latitudes e principalmente nesse período de surgimento de movimentos sociais poderosos defronte ao neoliberalismo e minha carta de apresentação aos movimentos sociais gaúchos foi “O Panelaço, a rebelião argentina” (2002). Depois voltei a Bahia e tornei a sair por longos períodos a Bolívia, Chile, Argentina, Paraguai, de alguma maneira reescrevendo minha viagem dos 80, só que agora filmando com uma câmera o que antes escrevia ou “filmava com os olhos”. Quer dizer, nesses vinte anos, estive fora muito tempo, mas acho que deu para fazer algo aqui também, eu acho.
JM – Como você avalia o atual momento político da América Latina, com a eleição desses presidentes vindos das classes populares, como Lula e Evo?
CP - A classe social de origem de um individuo não oferece muita perspectiva de análise hoje em dia. O próprio poder aposta, através de significativas alianças, na utilização demagógica e eleitoral destas figuras carismáticas que atraem a massa. Nos percursos políticos e cenários nos quais desenvolveram suas histórias de sucesso sindical e eleitoral Evo Morales e Lula da Silva, há abismos insondáveis e trajetos muito diversos entre eles. O capital político do Lula se desenvolveu bem depois e a partir das lutas iniciais do ABC, nos pleitos de acumulação de forças em expressivas mobilizações nas ruas e em lides eleitorais. Já o Evo surge pela pressão popular contra os governos da oligarquia e o apoio aberto norte-americano a elas, em enfrentamentos territoriais pela defesa da folha ancestral da Coca nas selvas bolivianas, com feridos e mortos na Guerra da Água (2000) e do Gás (2003) – eventos históricos que tive a oportunidade de transmutar em filmes - num percurso de anos de mobilizações que só no final inclui a transformação desta imensa força popular num instrumento político capaz de vencer as eleições em 2005. Portanto, caminhos bem diferentes. E o mesmo poderíamos dizer de outros líderes atuais hoje presidentes. O que importa é que a mobilização popular canaliza suas expectativas em personagens da sua mesma classe. O complexo é depois estabelecer nexos de conduta entre a origem de classe e a concretização dos anseios da população, muitas vezes escamoteados para instrumentalizar a execução dos planos capitalistas. Mas o momento, acredito eu, ainda é promissório e digo isto no sentido da balbuciante afirmação destas derradeiras oportunidades populares latino-americanas antes que se re-configure um cenário por todos já conhecido onde retornem com toda força programas de exploração econômica e devastação de recursos naturais por empresas e governos do mundo desenvolvido (sobre a humilhação e o despojo do nosso) através dos grupos políticos da direita latifundiária e oligárquica que dia a dia, face a dificuldade de avanços nos programas sociais populares, vem crescer sua influencia e poder de decisão nos âmbitos parlamentares, redesenhando um caminho de retorno aos Palácios de Governo. Tal vez isto não seja tão fácil assim, com certeza a luta será acirrada em diversos países, mas grande parte das populações que outrora foram o baluarte deste atual momento político sui generis não oferecerá, daqui pra frente, o mesmo ímpeto de assunções históricas e emocionantes como a de Evo Morales, que tive a honra de presenciar (“Jallalla Bolívia, Evo Presidente!” - 2006). A grosso modo, uma gradação de governos atuais conseqüentes (ou que mais se aproximaram) com suas plataformas políticas e expectativas das suas populações nas transformações que o continente vem reclamando, não pode deixar de lado Hugo Chavez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Correa no Equador e Lugo no Paraguai. Um modelo similar com recursos naturais, histórias e populações diversas está sendo implementado nestes países. Depois teríamos os outros modelos menos a esquerda como o do Kirchner na Argentina, o de Lula no Brasil, o da Bachelet no Chile e o do Vásquez no Uruguai, sem esquecer a Nicaragua de Ortega e a Honduras de Zelaya, mais próximos do modelo do socialismo do século XXI proposto pela Revolução Bolivariana da Venezuela. Hoje (acabo de ler a noticia), como para reafirmar o dito mais acima sobre à tentativa da pior direita de voltar à escuridão dos anos 80/90 temos ali o presidente de Honduras sendo preso pelo Exército do seu pais quando procurava apoios para exercer um plebiscito para a modificação das leis constitucionais do seu pais. Aliás, algo que, a meu ver, deveria ser feito em toda a A.L. Confesso que tendo estado e morado em vários destes países não é fácil tentar opor ao saqueio constante das elites dos modelos anteriores uma fórmula comum de resgate da identidade como nações preocupadas com suas populações majoritariamente marginadas, esquecidas, espoliadas, violentadas e submetidas desde a época da conquista e da colônia. O que se vê é um cenário diverso e complexo que tenta levar em frente estes modelos que se aproximam no discurso social reivindicativo mas extremamente difíceis de colocá-los em prática como na Bolívia, por exemplo, onde uma classe social que amassou uma imensa fortuna submetendo e espoliando milhões de seres humanos durante séculos não desiste de ter perdido o poder político – já que o econômico ainda lhes pertence – e contra-ataca regularmente, inclusive com violência e casos de aberto racismo, contra o povo e os indígenas, alimentados desde o exterior com o apoio impudico da Embaixada norte-americana. Em definitiva, haverá, se muito, mudanças e não transformações de fundo se não se investe contra os poderes econômicos e os grupos políticos que acobertam os lucros exorbitantes das empresas estrangeiras (e os seus sócios nacionais) como mineradoras, petroleiras, hídricas, florestais, energéticas, telefônicas e outras que são a verdadeira lacra privatizadora da espoliação constante dos nossos países - que guardam no seu interior o maior capital em recursos naturais do mundo - e que não respeitam licenças ambientais e nem pagam impostos utilizando recursos em forma gratuita e ocupando territórios impunemente, como os do povo mapuche no sul da Argentina e Chile e a Amazônia peruana, onde recentemente o governo daquele país (Alan Garcia) promoveu uma massacre contra indígenas defensores dos seu espaço vital, sobre o qual a mídia hegemônica do capital monopolista transnacional pouco e nada falou. É a sua função, omitir o que hoje a internet, e canais como a Telesur da Venezuela, revelam para o mundo, através até dos próprios atores sociais agredidos e de grupos informativos solidários.
JM – Você faz distinção entre cinema de autor e cinema comercial?
CP - É a partir dos críticos franceses da nouvelle vague que esta distinção cobrou força e transformou muitos deles em cineastas. Como muitas dos emblemas que povoam nosso imaginário isto também se deu nos anos 60, momento ímpar em que a juventude protagonizou o “filme histórico da época”. Más é pertinente disser que estas categorias chegaram também ao cinema documentário: documentário de autor e documentário militante. É claro que estou sempre me referindo aqui ao documentário cuja esfera de atuação é o campo das manifestações populares de cunho político, fatos marcantes da recente história do nosso país e continente, aproximações ao mundo das reivindicações sociais de grupos marginados cuja voz é escutada a partir da difusão destes materiais audiovisuais feitos com pouco ou nulo financiamento, muitas das vezes em sintonia com o próprio movimento ou a convite do mesmo. Mas sim podemos considerar que obras como as de Buñuel, Fellini, Kieslowsky, Kurosawa, Visconti, Bergman, Truffaut, Welles, Godard, Kubrick, Pasolini, Hitchcok, Oshima, Herzog, Zanussi, Tarkovsky, Kusturika, Kiarostami, por citar alguns que me vem a memória anarquicamente, e apenas pelo prazer de evocar seus nomes as imagens de muitas obras primas acodem a minha mente, levam uma marca reconhecível nos primeiros fotogramas em qualquer dos seus filmes, alheios aos interesses dos grandes estúdios. A distinção é muito simples, desde o momento em que, como espectadores, prima na eleição de um filme o nome do diretor/autor e não o tema ou o nome do filme já está delineada a fronteira entre o divertimento puro e simples e o compromisso maior de enfrentar o desafio de assistir uma leitura particular do mundo através dos olhos de um “autor”. Acho prudente esta “separação de interesses”, uns relativos a mergulhos mais sofisticados de linguagem e conteúdo e os outros como único intuito a linguagem que faz mover a engrenagem da grande indústria: a multiplicação da inversão em vários dígitos. Isto não impede que possa haver um cinema de autor a baixo custo, como estamos acostumados (ou deveríamos estar) nas nossas praias, filmes que infelizmente pelo monopólio que o cinema comercial exerce nas Salas de exibição estão fadados a públicos minoritários, coisa que algum dia deveria ser modificado, ou pela intervenção do Estado ou pela intervenção maciça do público tomando as Salas de exibição enfrentando o seu poder e a invasão de 90 % de lixo industrial dos Grandes Estúdios, hoje entrincheirados nas pipocas dos Shoppings. Sonho? E o que é o cinema de autor?
JM – Alguma coisa do chamado cinema comercial te interessa?
CP - Sim, por que não? Muita coisa. Desde as impressionantes produções de Cecil B. De Mille, Abel Gance ou Griffith até muitas das superproduções atuais me interessam como espetáculos de fantasia, é verdade, pelo entretenimento, pelo puro prazer do escape e do espetáculo, mas também pelas reconstruções históricas, pelos efeitos especiais (ai já sou mais os desenhos digitais: Shrek e todos da serie Dream Works). Daqui a pouco vou assistir uma grande produção: Alexandre de O. Stone e minhas expectativas são as cenas de multidões e batalhas, além, é claro, da narrativa histórica e as suas adequações e adaptações à realidade política atual que os Estúdios impõem. Além de ser uma das principais indústrias norte-americanas o cinema é também um excelente condicionador mental para abrir passo em nossos países às multinacionais. Então, é interessante observar a habilidade para manejar esses imensos tabuleiros de xadrez cinematográfico. Acho que aqui prima meu interesse teatral pelo grande movimento de massas em cena aberta, a composição e o enquadramento. A equação é a seguinte: ambiente épico, argumento que representa ou baseia-se nalgum momento da história universal, grande diretor que enquadra seu talento nesta imensa fantasia, ai o resultado não pode ser o tédio. É o direito que tem o comerciante/produtor de criar em função das fantasias da massa. É o mesmo fenômeno do best-seller no mundo literário. Tenho lido alguns e posso dizer que a mecânica quase matemática, as molas certas para eclodir e manter o interesse, eles conhecem. Mas é justamente ali que reside o inconveniente, como criar espaços para um outro cinema, arriscado, profunsdo, íntimo, um cinema da experiência dramática e estética sem o apelo fácil ao interesse do espectador nesse pé de eterna desigualdade com o cinema puramente comercial que ostenta o monopólio das Salas de exibição. A batalha é essa, a penetração no público que curte o cinemão com as armas do “outro lado da lua” do cinema, outros temas, e também com os documentários, por que não?. Mas ai já não é uma batalha, é uma guerra que inclui muitos frentes, educacional, cultural, o âmbito político com leis e decretos que dependam da pressão popular, ou seja, a participação cidadã em primeiro lugar para acabar com as decisões dos tecnocratas. Afinal, sem ela não há cinema nem espetáculo possível.
JM – Caetano Veloso disse em entrevista que pensa mais no cinema que na música popular, em relação aos incentivos da Lei Rouanet. Você se beneficia de alguma dessas leis de incentivo à cultura, o que acha delas?
CP - Estranho isso, porque que eu saiba, um grande volume de recursos que a União arrecada das empresas em impostos e que através da Lei Rounet canaliza para o mundo da cultura (e/ou do comércio da cultura) vão, incrivelmente para grandes shows da plêiade estelar da MPB, que não precisa deste acréscimo milionário para organizar suas agendas de apresentações pelo pais afora e no exterior. Talvez ele não se beneficie disso, não sei. Se for, é um absurdo, com o exército de artistas e projetos sócio/culturais que aguardam pelos recursos que tem direito e que não contam com um nome de tamanha popularidade onde colam as grandes empresas, que, aliás, não investem um único tostão em capital de risco para o projeto que for, já que apenas participam com um dinheiro destinado aos impostos. Negócio redondo para as transnacionais e as grandes empresas e meios de comunicação locais, que já se apropriaram dos cofres do Estado e ainda lucram com os benefícios de imagem através da Lei Rouanet e outras, né? Além do mais, esse modelo de financiamento, herdeiro da Lei Sarney, acho que de 1986, foi instituído no Governo Collor, pasmem! O que acabou com o cinema nacional! Interessante paradoxo. Então, como poderia um modelo privatizante como esse, que visa principalmente incutir a idéia de lucros exorbitantes (pelo menos na cabeça dos produtores e de muitos artistas, infelizmente) estar sintonizado com um modelo de abertura da cultura para a sociedade com perspectiva crítica e não alienante?. Se não me engano é mais de um bilhão de reais o destinado a cultura pela Lei Rouanet. Será que com todos esses dígitos não é (não foi) possível alicerçar os fundamentos de uma cultura diferente, onde todos tenham voz, com projetos “mais em conta” com a realidade nossa, latino-americana? Criar um fundo público onde prime a transparência, isto é, conhecer em detalhe aqueles que decidem sobre os nossos recursos nos editais, e eliminando o show bussines da cultura que bem pode pleitear seus milhões diretamente nos bolsos lucrativos das grandes empresas, seria uma possibilidade. E com irrestrito acesso aos processos pelo público em geral (que no fim das contas é quem está subvencionando tudo) a qualquer momento do seu andamento técnico e pareceres outros. Não acho que o cinema tenha que ter preeminência sobre as outras manifestações, especialmente se forem filmes como “174, Ultima Parada” (que, aliás, é muito bom) do Bruno Barreto (e do conhecido lobby familiar) e tantos outros, que certamente não precisam de Leis de INCENTIVO (!!??) para financiar seus filmes. Acho sim, que pela sua importância estratégica (e os EUA compreenderam a arma que tinham entre mãos desde os primórdios da Indústria) deveria haver um fundo autonomo para o cinema independente que contraponha ao status quo das nossas representações construídas desde o centro do mundo econômico, as múltiples versões possíveis de nossa auto-representação. Nunca me beneficiei de nenhuma lei de incentivo a cultura. Ainda espero por alguma onde possa participar, me sentindo á vontade, sem estar ferindo a ética de obras que justamente se contrapõem á pratica de despojo de muitas das empresas que “patrocinam” a cultura e também, sem ter que criticar tanto ás promiscuas relações Estado/Empresa privada.
JM – O filme até Oxalá Vai à Guerra trata da polêmica derrubada do Terreiro Oyá Onipó Neto, pela SUCOM, você já teve problemas por causa da temática dos seus filmes?
CP - Esse filme, “Até Oxalá vai a Guerra” - 2008 -, foi realizado junto a Stefano Barbi Cinti, colega com que já fiz diversos trabalhos como aqueles do protesto e greve de fome do Frei Cappio contra a transposição do Rio São Francisco (“A Greve de Fome do Velho Chico” – 2005 - e “Além do jejum, as verdades do Velho Chico”- 2008 -). Também foi o editor de “Maio Baiano” (sobre os protestos estudantis na UFBA em 2001) e “Buscando a Allende”, entre outros. E o interessante é o seguinte, alguns problemas sempre existem, mas sempre depois de ter feito os filmes ou durante a sua realização, como recusas de entrevistas de pessoas envolvidas, impedimentos para filmar certos eventos, sutis fechamentos de portas em espaços políticos que se sentem incômodos por terem aparecido “mal” nos filmes, perseguições durante manifestações, tentativa de apagar materiais, agressões físicas como durante a Revolta do Buzú por funcionários de de TVs e etc. Agora, ter tido problemas antes de começar algum documentário nunca tinha me acontecido e mais, que a própria agressão sofrida derive na sua realização só me aconteceu uma única vez, justamente antes da realização de “Até Oxalá vai a Guerra, uma historia de racismo e intolerância religiosa” que descreve o absurdo de se derrubar um terreiro na Bahia (!!!) da maneira arbitrária como foi feito e que você cita na sua pergunta. Se interessar, eu conto, porque pode revelar para muitos como um cineasta documentarista comprometido com seu tempo, sem saber absolutamente nada sobre um tema, não precisa nada mais além de uma única informação, processa- la rapidamente no seu baú cerebral histórico/político, misturá-la com sua predisposição revolucionária e indignação anti-sistémica constante e pronto, é só focar o assunto. Aconteceu assim: chegava eu do exterior em abril de 2008 e resolvi dar uma passada no Pelô. Quando estou passando pela Câmara Municipal na Praça Municipal me deparo com um nutrido protesto constituído de povo de santo portando faixas. Reconheço alguns conhecidos e de imediato, diante da informação de que a secretaria da SUCOM - na época, Katia Karmelo - quem mandou derrubar o Terreiro Oyá Onipo Neto em fevereiro daquele ano, iria receber a comenda Maria Quitéria pelos relevantes serviços prestados a sociedade baiana, passo a confirmar a informação com personagens “do lado de lá” que atuavam na preparação do evento e a partir dali começo eu também a integrar os protestos. Imediatamente o povo de santo sobe na Sala, cheia, e aguarda pelo arribo da secretária que será homenageada. Quando chega crescem os protestos e o Presidente da Câmara manda todo mundo calar sob diversas ameaças. Finalmente é entregue a comenda e o povo que já fez sua parte protestando, assoviando, cantando músicas de protesto e dando, finalmente, as costas ao evento, se retira. Só fico eu protestando e dizendo que o que acontecia ali era um verdadeiro absurdo, um atropelo contra a baianidade (é assim mesmo?) mais sagrada. Resultado, fui expulso pelos seguranças (eles tem ponto eletrônico) que me segurando pelos braços me colocaram quase na rua. Digo quase porque em seguida muitos dos que já tinham protestado e iam embora, percebendo a situação se aproximaram de mim oferecendo proteção. Foi ali que gritei e uma jornalista do jornal A Tarde registrou no dia seguinte: “vou fazer um filme desta sacanagem que está acontecendo aqui!”. Pena que estava sem a câmera, como dize, estava apenas passeando. Mas, em seguida, fiz, fizemos, em sociedade com o CEN (Coletivo de Entidades Negras), o citado filme.
Para maiores informações sobre o episódio consultar o Ministério Público onde dei meu testemunho em apoio ao Terreiro agredido. A estréia foi no dia 21 de novembro num Auditório cheio de povo de santo na antiga Faculdade de Medicina no terreiro de Jesus. Em dezembro de 2008 ganhou o II Bahia Afro Film Festival como Melhor Filme Júri Popular, já circula legendado em espanhol noutros países e é constantemente apresentado no circuito alternativo de Salvador como nas Quartas Baianas na Biblioteca Pública do Estado, além de circular pelo pais afora em DVDs e já muito pirateado. Acho que tudo isso foi melhor que qualquer processo que poderia ter apresentado contra a atitude de violência física da Instituição. E no fundo, no fundo, apesar de tudo que passei, aquele dia me senti um verdadeiro cidadão baiano recebendo o titulo “das mãos dos orixás desta cidade”.
JM – Responda agora à pergunta que eu não fiz mas que você gostaria de responder.
CP - Pergunta: O que você gostaria de dizer? Resposta: “Eu não tenho nada a dizer, mas somente eu sei como dizer isso” (Samuel Beckett, dramaturgo e escritor irlandês, um dos referentes do Teatro do Absurdo).
Terça-Feira, 30.06.2009 às
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