Entre Vistas

Você quer ouvir boa música brasileira? Vá a Tókio! Nas rádios japonesas um dos sotaques mais afeitos aos ouvidos nipônicos é o brasileiro. Um certo som brasileiro que cada vez mais encontra menos espaço na programação nacional. No Japão e na Europa, não apenas Bebel Gilberto é uma rainha, ou Egberto Gismonti tratado como o gênio que de fato é, mas também a dupla Palmyra e Levita recebe o tratamento adequado a músicos tão talentosos e competentes quanto eles, chegando a figurar no top-10 mundial.
Mesmo tendo gravado dois discos com o incensado João Donato, Palmyra e Levita circulam mais ou menos anonimamente pelo Brasil e pela Bahia e têm várias dificuldades para fazer ouvir o seu saboroso som por aqui. Azar o nosso. Numa conversa informal e deliciosa com a dupla, mais a cantora Rebeca Falcone, filha de Palmyra, eu pude notar que, embora eles queiram muito ampliar a audiência no país, a batalha não consegue tirar o sossego e a felicidade necessários para mantê-los produzindo a sua preciosa música.
Você não conhece Palmyra e Levita? Deve ser culpa sua. Uma versão deles de ‘Rapunzel’ (C. Brown e Alain Tavares) estourou em Paris. Até Sarkozy ouviu. Não lembrei de dizer no início, mas uma das vertentes do trabalho da dupla está justamente em verter para a grandeza harmônica da bossa nova alguns clássicos da Axé Music! Na conversa, no apartamento deles, em Salvador, surgiram vários nomes e situações hilariantes, de João Gilberto a Dione Warwick. Se você não conhece ainda Palmyra e Levita, talvez a culpa nem seja sua. Ou talvez não hajam mais culpados ou inocentes, mas o paraíso perdido ainda, e sempre, pode ser recuperado. Comece lendo a entrevista.
JM - Quero começar com um pequeno balanço da trajetória de vocês.
PALMYRA – Olhe, começou sem nenhuma pretensão. Na verdade a gente fazia um som caseiro, por pura diversão, não é Paulinho? Aí todo mundo ficava... ‘Por que vocês não fazem um disco?’ ‘Porque vocês não fazem um show?’ E a gente dava até risada. Aí um dia o filho dele, o do meio, disse: ‘Se eu produzir um show, vocês fazem?’ E eu, sem acreditar, porque na época ele era muito novo, respondi: ‘se você produzir a gente faz, claro, né?’
JM – E onde foi esse primeiro show?
PALMYRA – Foi no ‘Marren Mari’, um barzinho que na época era flutuante daquele Hotel Sol Victória Marina. Aí ele fez. Mas ele realmente produziu, profissionalmente. Foi impressionante! Botou 400 pessoas lá, inclusive Dionne Warwick na platéia.
JM – No primeiro show?
PALMYRA – No primeiro. Eu quase que morro! (RISOS)
LEVITA – Isso tem exatamente 12 anos. Nós estamos juntos há uns 24 anos, mais ou menos, eu e ela, então, eu já tinha experiência de música, que morei no Rio de Janeiro, fui parceiro de Waltinho Queiroz, já tocava com João Donato nessa época lá. Principalmente música pra teatro. Toquei em vários teatros no Rio... Mas ela vinha de um aprendizado de jazz, porque Mário... Como era o nome dele?
PALMYRA - Cravinho.
LEVITA - Filho de Mário Cravo né?
PALMYRA - Não, irmão.
LEVITA – Ah! Irmão de Mario Cravo que morava em Nova York e era crítico de jazz e ela gostava muito. Então pequena ainda, sete anos de idade, ela já parava de brincar pra ouvir os discos importados que ele trazia. Então quando nós nos conhecemos ela trouxe essa informação do jazz e eu já vinha com a bossa nova, que é uma coisa a que eu me dedico há muito tempo. E a partir daí foi que a gente começou a tocar em casa e tal, e como nossos filhos eram pequenos (ela já tinha filhos, eu também tinha, tivemos mais uma filha que hoje já está com 21 anos), aí o pessoal naquela época, ligado em Axé, dizia o seguinte, que a bossa nova e o jazz eram muito chatos, essas músicas que a gente tocava, e que a gente desse um jeito de mudar o repertório, então a gente começou a aplicar bossa nova e jazz em cima dos sucessos da Axé, que hoje é uma das vertentes do trabalho, entendeu, embora a bossa nova seja... tá lá preservada, como não pode deixar de ser. A bossa nova clássica, tradicional. E o jazz também, que a gente pega muita coisa da música americana e faz em bossa nova.
JM – Mas a bossa nova, desde o seu início, já tinha essa característica também de releituras de músicas que não foram compostas como bossa né? O Próprio João gravou sambas tradicionais... Ari Barroso e tal.
LEVITA – É verdade.
PALMYRA – Até hoje ele diz que grava samba.
LEVITA – Fez alguma coisa de música americana também. Pouca coisa, mas fez. [Nesse momento a sala ganha um ar mais volátil, chega a cantora-modelo-e-atriz Rebeca Falcone, filha de Palmyra, bonita como a mãe].
PALMYRA – James, essa é Rebeca, é minha filha do meio viu? E agora ela se acoplou à dupla. Tem sido o maior sucesso!
JM – Ah que bom!
LEVITA – E continuando a estória da dupla, aí começamos eu e ela, porque quando eu morei no Rio eu toquei com um e com outro, então não estava ligado a ninguém especificamente, mas cheguei a fazer shows com João Donato, com Beth Carvalho, com Nelson Cavaquinho, com um bocado de gente mesmo... Foi uma experiência danada de cinco anos lá no Rio de Janeiro. Quando eu voltei, que a gente se conheceu, aí a gente começou esse trabalho da dupla, que gerou o disco ‘Emergentes da Madrugada’, que foi patrocinado pelo Governo do Estado da Bahia, tem 10 anos. Foi quando Aroldo Macedo, que é do Trio Elétrico de Dodô e Osmar, participou com a gente em uma das faixas, e acabou uma dessas faixas fazendo sucesso lá fora, no exterior.
JM – Qual foi?
LEVITA – Rapunzel (C.Brown e Alain Tavares)! Eu tava com um amigo meu ali na Cantina da Lua, pra você ver como são as coisas, aí recebi um telefonema de Paris, era Carlinhos Brown dizendo o seguinte: -‘Rapunzel tá estourada aqui’! Eu digo, é rapaz? Porque eu não tinha a menor idéia disso. Aí perguntei a ele: como é que você sabe? E ele: -‘Porque eu tô recebendo os direitos autorais’ (risos). Aí com isso, um crítico internacional chamado Arnaldo de Souteiro, casado com Ithamara Koorax, João Gilberto deu um toque pra ele... que João Gilberto ficou muito amigo nosso no decorrer dessa estrada, aí ele procurou a gente... veio aqui casualmente, fazer outras coisas e nos encontrou e aí fizemos o primeiro disco, que seria voz e violão, mas aí como João Donato, que é meu amigo de muitos anos, mais de quarenta anos, foi assistir a apresentação desse show lá no Rio, no Bar do Tom, o show desse primeiro disco ‘Heres That Rainy Bossa Day’, e aí chamamos ele: -João bota uma faixa no disco, que tinha a rã (cantarola) ‘gurugudu...’
PALMYRA – É, bota um pianinho no Sapo...
LEVITA – O mais engraçado é que o piano ainda não tinha chegado nesse estúdio em Santa Tereza, tava dentro de um apartamento, que era do técnico do estúdio, e a gente foi gravar nesse apartamento. Então teve que levar os equipamentos todos pra lá, foi uma confusão. E Donato aí pegou a Rã e ficou horas... aí depois disse: -‘Olha, tô cansado da Rã, vamos botar outra faixa’ (risos). E aí acabou gravando cinco faixas. Eu pensei, pô o disco agora enriqueceu. Um disco lá pra fora com cinco faixas gravadas por João Donato. Aí vim embora pra Salvador com Palmyra e tal, pra aguardar o desfecho disso... Quinze dias depois ele ligou: -‘Umbora botar o resto do disco’. Eu disse, Donato eu tô duro (risos), gastamos o dinheiro todo. E ele mandando a gente se virar. Aí demos um jeito, voltamos pro Rio e ele botou o piano nas faixas todas do disco.
JM – E o método dele de criação é sempre assim imprevisível, espontâneo?
LEVITA – É, ele é completamente imprevisível. Inclusive quando a gente fez esse segundo disco, ele não sabia nem qual era o repertório direito e ficamos de pegar ele e tal... e fomos pegar ele lá no Rio, porque ele queria botar também no segundo, que o primeiro fez sucesso, e ele tava namorando com uma evangélica e disse que não tava bebendo, não tava fazendo nada... Aí eu disse: Mas como é que vai gravar? Ele sempre gostou de tomar um vinhozinho pra tocar sabe? Aí entramos no táxi, e eu disse, mas rapaz, Jesus não transformou água em vinho? Ele aí me olhou assim, mandou o motorista para numa delicatessen, o motorista deu tanta risada que bateu o táxi na árvore (muitos risos). É cada estória né? E aí o seguinte, fomos pro estúdio, já era umas nove horas, tomando aquele vinho... deu dez horas, meia noite, e nada, ele nem perguntava o que é que ele ia fazer... e o técnico já agoniado, porque acabava três horas da manhã o horário do estúdio. Aí como tinha só três horas eu disse bote umas duas, três músicas que tudo bem, uma só já era um cartaz danado, né? Aí meia-noite ele disse: -‘Cadê o piano?’ O piano bem ali na frente (risos).
PALMYRA – O piano tomava a sala toda!
LEVITA – Agora veja, embora eu tivesse escrito a harmonia de cada música pra ele, o cara não tocou, não tinha intimidade com as músicas... Em duas horas ele botou dezesseis músicas no disco! Com essa qualidade que você vê aí. Teve comentários de Tárik de Souza, vários comentários, Ricardo Noblat e tal, sobre esse trabalho. É um gênio. [Paulo pega um exemplar do cd ‘Heres That Rainy Bossa Day’] Esse foi o primeiro disco que a gente lançou no Japão, em Tóquio, ficou em 13° lugar na parada mundial de lá durante um mês e, no entanto, a gente não conseguiu lançar aqui por falta de patrocínio (risos).
JM – Inclusive eu quero mesmo falar sobre isso, porque é assustadora a impressão de que a indústria resolveu rebaixar o nível de tudo e incentivar só o mais popularesco como se isso fosse o popular.
PALMYRA – E mal feito. Eu fico besta. Porque depois que o pessoal fez a cama, não vou evidentemente falar de que artista é, mas eu fiquei estarrecida no carnaval vendo um bloco de sucesso passar tocando tudo errado e o povo delirando. Gente, parecia aqueles conjuntos de clube em que o cantor vai pro lado e a banda vai pro outro, era isso! Não era assim, mal feito, sem requinte não...
JM – Eu fico sempre com aquele texto da contracapa do primeiro disco do João, onde o Tom diz ‘ele não subestima a sensibilidade do povo’, que é o que tem mais acontecido. Porque coisas como o que vocês fazem podem repercutir muito bem na população também, mas simplesmente não acham mais nenhum espaço. Vocês se sentem boicotados pela indústria cultural no Brasil?
PALMYRA - Exatamente, boicotados, completamente. Desde que a gente fez o primeiro disco, muita gente da mídia também, não vou lhe dizer quem, disse ‘não, isso aqui (sacudindo assim) não vai a lugar nenhum’. Eu ouvi isso claramente. Foi só pro Japão. Porque aqui, realmente, não vai a lugar nenhum. Outra coisa, experiência que a gente teve que foi fantástica, porque o pessoal diz que pra grande público o nosso som não funciona, mas funciona, porque nós abrimos o show de Emílio Santiago, que também fez um disco com Donato, depois que a gente fez ele fez um, e estavam tocando juntos nesse dia, e Emílio é um cantor fantástico, tem um público fidelíssimo e enlouquecido, entramos nós, voz e violão, uma platéia lotada, eu sinceramente tava temerosa, pensando: hoje é tomate do bom. Porque o público é muito frenético pelo seu artista, né? Pois, menino, a resposta foi maravilhosa, com gente aplaudindo de pé...
LEVITA – E fez Cecy Alves escrever um comentário no dia seguinte no A Tarde, o que é difícil jornal dar nota de show no outro dia, um comentário enorme.
JM – E a entrada de Rebeca, como foi que se deu? E como ficou o show com a Rebeca?
PALMYRA – Dos filhos, a Rebeca foi quem mais acompanhou, quem mais ficava junto, com quatro anos ela já cantava, ficava ali por perto e tal, e a gente sempre acreditando que algum dia ela ia fazer, mas como aconteceram mil coisas na vida, ela cresceu bastante, ficou muito bonita, foi ser modelo, depois virou atriz, morou no Rio e tal... e a gente sempre sonhando que algum dia ela ia realmente cantar. Ela mesma nem acreditava tanto.
REBECA – É, começou na brincadeira, ‘vamos fazer uma música aqui com a gente’, aí fazia a música. Comentavam: -‘Ai, como você canta bem’. Aí, ‘ó filha vamos fazer mais três músicas então’, e eu pensando, pra que três? E aí a coisa do elogio e eu comecei a trabalhar mais o canto, que eu sou super exigente... Aí, agora eu faço quantas? [pra Palmyra].
PALMYRA – No show ela entra, a gente faz duas, eu deixo ela com Levita, ela faz mais umas cinco, eu volto e a gente acaba junto, chama outros convidados...
REBECA – Começou tudo na brincadeira mesmo, de família, bota a filha pra cantar e tal, mas agora ficou meio sério.
LEVITA – Já tem um ano e três meses que ela começou. Ela chegou logo aqui, Carlinhos Brown convidou a gente pra tocar naquele show que coincidiu com o carnaval, dois de fevereiro, no ano passado. Aí tocamos eu, ela e Palmyra. Depois fomos tocar no ‘Espicha Verão’. E depois fomos pro Salvador Dali, aquele restaurante, onde já tínhamos feito uma temporada, trouxemos João Donato, Ithamara Koorax, tocamos com tudo quanto é músico que você imaginar, com Lethieres [Leite, maestro, multiinstrumentista, toca na banda de Ivete Salngalo e criou a Orkestra Rumpilezz], com Saul [Barbosa, compositor e violonista, produziu o 1° disco de Márcia Short], um monte de gente. Fizemos seis meses lá, o que é uma coisa inédita em Salvador, um som desse tipo, todo sábado com casa cheia.
JM – E como é que a Rebeca espera enfrentar a coisa do mercado?
REBECA – Pois é, já começaram a falar, porque como eu estou fazendo esse trabalho com eles, cobram que eu tenha também um trabalho meu, mas que, neste eu faça algo com mais apelo popular, ficam querendo saber como fazer pra que eu me adapte ao mercado. E aí começa... Mas eu ainda estou descobrindo este trabalho e é por isso que eu estou apaixonada e não quero começar já cedendo a uma coisa assim... fazendo o que qualquer um faz...
PALMYRA – Eu ouvi um dia desses uma coisa sobre ela, falando como se fosse uma crítica e eu achei que foi o maior elogio que ela poderia receber. A pessoa disse, ‘não, ela precisa se soltar mais, a gente esquece até que ela é bonita’. Eu disse, que maravilha, então ela canta tão bem que você apenas ouve a música e não tá vendo a menina lá, se sacudindo, fazendo gêneros, entendeu?
JM – Inclusive grandes artistas da música brasileira não tinham essa vocação de palco, ou tinham de outra forma, o Chico Buarque, a Nara Leão, eram grandes desanimadores de auditório (risos).
REBECA – É, tem essa cobrança também por eu ser atriz, mas ali eu estou ligada na música, na divisão que eu vou fazer, onde eu vou entrar, na técnica, na voz, não estou ali pra [solfeja debochada] óóóó, emoção, sabe?
LEVITA – Grandes cantoras de jazz americano, as maiores de todas, Ella Fittzgerald, Diane Washington, não tinham nenhuma afetação. A cantora tá ali é pra cantar. Hoje em dia é que tem que aprender essas bobagens.
JM – Pois é, e tem programas de tv para ensinar. Veja que um programa se chama ‘Fama’ e o outro ‘Ídolos’, nenhum chama ‘Talento’, porque a preocupação é simplesmente virar show-man e ficar famoso (risos).
LEVITA – E sobre a seleção do repertório, que a gente vinha falando, tem uma estória engraçada também, que quando a gente fez essa música Rapunzel, não esperava nada, era só um registro mesmo, ninguém podia imaginar que isso pudesse sair daqui, sem a nossa interferência inclusive. Aí Daniela fez uma certa restrição a liberar porque ela tava lançando Rapunzel também, relançando.
PALMYRA – Um relançamento exatamente pro exterior.
LEVITA - E nós conversamos com ela, não se preocupe com isso não, é só um registro, ela acabou elogiando o trabalho, achou muito bonito e a gente lançou e acabou gerando esses dois discos. Fez sucesso!
JM – E como é conviver com esses dois estilos tão díspares? Porque a bossa é tudo aquilo que a gente já falou, de contenção, sem grandes gestos operísticos, e o Axé é o oposto, música de interação total, composta para um grande baile ao ar livre que é o carnaval. Como vocês fazem para traduzir o Axé em bossa-novês.
PALMYRA – Não aconteceu assim, vamos fazer! Elas vieram chegando naturalmente. A gente não pensa: ‘essa daí a gente vai fazer’. Não, a gente começa sem querer a repetir algumas notas...
LEVITA – Por exemplo, Peu Meurray, você conhece, aquele percussionista, ele tem tocado com a gente também. Então num dia desses, depois do show a gente ali tocando violão, ele cantou uma música que fez com Seu Jorge, aí eu peguei o violão, umbora fazer uma leitura? E sai com naturalidade... Não há esforço.
JM – E a sua formação musical Rebeca, conte um pouquinho.
REBECA – Eu cresci ouvindo da manhã à noite João Gilberto. Até um dia desses eu tava angustiada com alguma coisa e um amigo botou uma música de João e eu ahhh, me acalmei! Então eu cresci ouvindo isso e gostando. Não foi uma coisa que eu procurei. Não sou aquela artista pesquisadora, que vai em busca, não, a coisa chegou pra mim. Muito jazz também, já mais por influência de minha mãe. E eu tava em todas as rodinhas deles, inventando desculpas pra estar no meio: -eu faço o queijinho... Eu gostava da música. Sou até mais ligada à melodia do que à letra. Eu ouço primeiro o som e só depois que vou observar o que a letra diz. Sempre gostei muito, mas nunca quis cantar, achava que cantar não era comigo, achava minha voz enjoada, e fui seguindo a vida de modelo, depois virei atriz e nunca levei em conta cantar, aí quando eu voltei pra cá minha mãe quis que eu cantasse com ela no cd de hinos.
JM – Como hinos?
PALMYRA – Hinos. Hino Nacional, Hino do Senhor do Bonfim, Hino da França, a gente vai em todas... aí eu disse: -Beca, bote a faixa do Hino do Senhor do Bonfim.
REBECA – E eu não entendia o porquê da insistência. Porque fazer isso minha mãe, se eu não sou cantora? Isso três anos atrás. Aí eu fui e comecei a fazer segunda voz brincando... Todo mundo que ouvia dizia, nossa ficou bom. Aí comecei também a dar sugestão, fazer arranjos diferentes, tudo pelo amor de estar ali, só me enxergar como cantora é que eu não conseguia. Embora eu fizesse aula de canto no Rio, mas por causa do trabalho como atriz, pensando em ser uma atriz que canta, não uma cantora que é atriz. Aí quando vim gravar esse hino, quando eu terminei, minha irmã olhou pra mim, com os olhos cheios d’ água e disse: -‘Minha irmã você é uma cantora! Você brilha muito mais cantando”! E eu duvidando, perguntando, é, você acha isso? E ela me olhando e repetindo: -‘Você é uma cantora’!
JM – Falamos já de releituras, mas e as suas composições Paulo?
LEVITA – Tenho até um disco pronto, Jazz in Family, que é muito bonito também, com músicas que eu fiz pras minhas netas, pros filhos... só falta também patrocínio pra sair. E tenho um trabalho autoral também, por exemplo, seis músicas com Carlinhos Brown, que não gravamos, porque eu tenho o projeto de fazer um song book, com os desenhos dos acordes, e as gravações devem sair junto com o livro. Tenho música com Vevé Calazans, com Gerônimo, com Sílvio Hernandéz, que é esse gaúcho que mora aqui, com quem eu fiz o maior número de músicas aqui, com Walter Queiroz eu fiz mais de trinta músicas no Rio, Fafá de Belém gravou uma dessas, que estourou no Brasil inteiro, tocou no Fantástico, n’Os Trapalhões, o direito autoral era uma beleza (risos)!
JM – Vocês já tocaram com muita gente boa, mas com quem vocês gostariam de tocar ainda? E dos que já foram, lembrem algum momento marcante.
LEVITA – Tivemos bons momentos com Saul Barbosa, Joatan Nascimento, Lethieres Leite. Saul e Joatan fizeram um show conosco ali no Acbeu, há muitos anos atrás, que foi sensacional, marcante realmente. Chegamos a tocar com Ithamara Koorax em alguns lugares no Rio de Janeiro.
PALMYRA - Dividir voz com Ithamara Koorax é muito complicado porque ela canta demais. É a maior técnica de voz que eu conheci.
LEVITA – E João Donato é indiscutível, que é uma delícia e ele é um dos maiores do mundo, né?
PALMYRA – E até hoje não veio ninguém que não correspondesse, como Peu me disse, gente boa se atrai.
JM – E com quem não tocaram ainda e gostariam?
PALMYRA – Olha, todo mundo que eu vou citar já morreu. Eu adoraria ter feito alguma coisa com Tom Jobim. Por que a gente sonha baixo (risos).
LEVITA – Com João [Gilberto] ninguém faz, porque é difícil, ele só toca sozinho, entendeu? Mas tivemos grandes oportunidades com ele, assim, em casa, vendo e ouvindo ele tocar, o que foi muito bom como aprendizado.
PALMYRA – Podia ser Armandinho também, ou Diana Krall. Mas pra quem tocou com João Donato, pensar em outros fica difícil (risos).
Quinta-Feira, 30.04.2009 às
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