Cheio de Arte

Se tem coisa que ajuda a vender livro no Brasil é a música popular. Mesmo assim o Décio disse, no prefácio de Música Impopular (Júlio Medaglia – Global Editora – 2° edição - 2003): “E como é pobre a nossa bibliografia musical”. Enfim, está saindo pela editora portuguesa Leya (inagurando atuação no mercado nacional) o livro do administrador de empresas e curador do site oficial de Chico Buarque, Wagner Homem: ‘História das Canções’ (356 páginas; R$ 44,90), reunindo comentários sobre as letras do compositor e cantor carioca.
O autor do livro adverte que ‘não é um estudo aprofundado’. "Não me meto a analisar ou interpretar as letras de Chico Buarque. Simplesmente conto histórias e 'causos'. É um livro popular, para quem gosta de histórias e de MPB", e pronto. Uma coisa eu posso garantir: as letras são boas. Botem boas nisso. Chico é craque. Lembro do Diogo Mainardi, um dos caras mais chatos que já nasceram no Brasil, argumentando que não vê nada disso que tanto gabam do Chico, nem rima rica, nem sabedoria vocabular, nada. Nadinha mesmo. Mas o Mainardi vive disso, coitado, é o destino de cada um.
Em entrevista ao G1, Wagner Homem falou sobre o trabalho. Destaco: PERGUNTA: - “Teve receio de que alguma história não pudesse ser publicada”? RESPOSTA: - “Para falar a verdade, sim [risos]. É sobre a música ‘Ode aos ratos’. Na época em que estava compondo, Chico ligou o Paulo Vanzolini que, além de compositor, é zoólogo. Queria saber como os ratos vivem. Afinal, estava escrevendo uma homenagem a eles. Então, Paulo disse: ‘Ah, Chico, você mente tanto a respeito de mulher, por que você não faz o mesmo com relação aos ratos’? Chico respondeu: ‘É que tenho o maior respeito pelos ratos’ [risos]. Achei mesmo que Chico fosse vetar. Mas não disse nada [risos]”.
Outra passagem legal da entrevista: PERGUNTA: -“Existe alguma história que você tenha achado mais curiosa’? RESPOSTA: -“Algumas, mas me chama muita atenção a relação entre Chico e Tom Jobim. (...) Logo na primeira parceria, já apareceu um pepino. Na canção ‘Retrato em branco e preto’, Chico escreveu: ‘Pra lhe dizer que isso é pecado / Eu trago o peito tão marcado’. A certa altura, trocou ‘peito tão marcado’ por ‘peito carregado’. De início, Tom topou, mas, por telefone, ligou para o parceiro e argumentou: ‘Melhor deixar como estava. Alguém pode entender que o sujeito está encatarrado’ [risos]”.
E para encerrar, esfrego na cara do Diogo Mainardi dois exemplos mais que ricos da preciosa rima buarquiana. Em ‘Bancarrota Blues’: “Negros quimbundos / Pra variar / Diversos açoites / Doces lundus / Pra nhonhô sonhar / À sombra dos oitis (...)”. E em Subúrbio, de 2006, pra mostrar que o cara não enferrujou: “Lá não tem moças douradas / Expostas, andam nus / Pelas quebradas teus exus / Não tem turistas / Não sai foto nas revistas / Lá tem Jesus / E está de costas (...)”. Precisa mais?
COMENTE AQUI!
Domingo, 22.10.2009 às 11:56