Entre Vistas
Não é sempre que temos oportunidade de conversar com coordenadores de escolas e fazer as perguntas que não querem calar! Aproveitamos, então, para conversar com Maria Clara Coelho, diretora do Colégio Miro. Confira:
MG – Porque começar as aulas de escolas particulares numa cidade como Salvador, poucos dias antes do Carnaval e ter de recomeçar na quinta feira pós Carnaval? Não seria mais proveitoso para os alunos começar depois do Carnaval e ter algumas aulas extras?
MC – Existe no Brasil uma legislação que obriga a qualquer escola brasileira, pública ou privada, a garantir aos alunos 200 dias letivos para o Ensino Fundamental e 180 dias para as crianças da pré- escola. Sendo assim, quando vamos encaixar no calendário os referidos 200 dias, acabamos tendo que usar o mês de fevereiro, alguns sábados (extras) e, ainda assim, ficamos com o tempo quase sem “suspiro” para que consigamos cumprir com todas as tarefas inerentes à escola. É claro que reconhecemos que a cultura local nos empurra para só começar o ano após o Carnaval, mas somos educadores e, como tais, precisamos também fazer força para transformarmos tal cultura, uma vez que reconhecemos a importância de manter as crianças e adolescentes o maior tempo possível na escola. Afinal, uma nação se faz com educação, deixemos o lazer vir em “segundo lugar na fila”.
MG – O Ensino Fundamental passou apenas por mudanças na nomenclatura ou sua estrutura foi alterada? De que forma os jovens serão beneficiados?
MC – O novo ensino fundamental de 9 anos que vigora como obrigatório a partir deste ano de 2010 no Brasil, se constitui, ao meu ver, numa lei que favorece a democratização de acesso à escola, uma vez que até o ano de 2009, várias crianças brasileiras com 6 anos ainda estavam fora da escola e só iniciavam o seu percurso escolar a partir dos 7 anos. Para os filhos da classe média, que em geral já estão na escola desde os 2 anos, muda-se pouca coisa. Quando incluímos a classe de “alfabetização” no ciclo do fundamental, “doa-se”, de fato, a essa classe também as exigências características desse segmento, como as provas, as notas, as exigências curriculares de carga horária e outras demandas que precisam ser gerenciadas pela escola de modo a preservar as crianças pequenas das referidas exigências sem deixar de cumpri-las. Caberá assim à escola operar nessa engenharia sem que as crianças tenham qualquer perda. É muito importante considerar que as crianças têm apenas 6 anos e, portanto, carecem de mais tempo para se dedicar ao brincar, ao interagir, tempo maleável, e tais demandas “brigam” com as novas necessidades inerentes a esse novo ciclo. O que fazer? Esse é o grande desafio que se impõe às escolas ao implantar neste ano de 2010 o Fundamental de 9 anos: construir um currículo que esteja compatível com as demandas das crianças nas suas diferentes faixas etárias dentro do novo ciclo. Garantindo tal “ajuste”, tal lei só vem a somar na história da educação brasileira que intenta dar passos na direção de incluir a todos na escola.
MG – Com que idade as crianças devem começar a freqüentar a escola?
MC – Considerando as características da vida contemporânea (mães e pais fora de casa, tempo escasso, violência doméstica...), diria que é melhor que as crianças estejam na escola acompanhada por profissionais da educação do que entregues às babás, ou no caso da população menos favorecida economicamente, aos irmãos ainda menores de idade. Portanto, lançar mão das creches e pré-escolas que aceitam crianças em tenra idade pode ser uma decisão acertada. Crianças com um ano já têm sido aceitas pelas pré-escolas privadas e por creches públicas que aceitam antes dessa idade. Cabe comentar, no entanto, que se a mãe puder cuidar do seu filho nos dois primeiros anos de vida, dedicando a ele tempo de interação e brincadeira poderá deixar para 2 ou até 3 anos o ingresso na escola.
MG – Qual a diferença entre uma escola Tradicional e a Construtivista? Qual o método do Miró?
MC – Essa é uma pergunta complexa que exigiria um escrito longo e cuidadoso para que o leitor pudesse dar conta de compreender as distinções entre as propostas, mas tentarei respondê-la de modo mais rápido, ainda que corra o risco de omitir informações importantes. A proposta tradicional de ensino apóia-se na crença de que ensinar é transmitir conhecimentos que devem ser memorizados pelos seus receptores, ou seja, aprender constitui-se num processo exógeno (de fora para dentro). O leitor fruto dessa escola (tradicional) lembra, claramente, das longas listas de perguntas sobre os fatos que precisavam ser respondidas como meio de memorizar as informações “professadas” pelos mestres. Quem lembra de todos os afluentes do Rio Amazonas? A proposta construtivista parte da ideia de que os sujeitos aprendem quando interagem com os conhecimentos e se deparam com espaços de desconhecimentos e dúvidas que geram uma necessidade de saber. Ensinar então, nessa perspectiva, não se traduz em transmitir saberes, mas sim favorecer os conflitos que gerarão um movimento de busca pelo novo conhecimento ainda por ser compreendido pelo sujeito da aprendizagem. Nessa direção, aprender se constitui um processo endógeno (de dentro para fora). Envolve o estabelecimento de relações entre os saberes para construir sentidos. Qual a importância dos afluentes do Rio Amazonas para o meio ambiente e para mim como sujeito deste planeta? Essa poderia ser uma investigação a ser feita por um aluno de uma escola construtivista, como o Miro.
MG – As crianças, a partir de certa idade, já passam a ouvir falar em vestibular. No método do Miro, existe uma preparação para isso?Desde quando?
MC – O concurso de vestibular vem mudando a cada ano, em resposta às transformações que a educação formal vem sofrendo, assim como o processo formativo dos jovens que se candidatam ao referido concurso. O papel da escola vem também sofrendo mudanças ao longo dos anos e não mais responde, exclusivamente, a dar conta de transmitir aos alunos os conhecimentos historicamente acumulados pelo homem, tal qual fazia há duas décadas. Sendo assim, espera-se dela que seja competente para ajudar no processo de formação de um sujeito que pensa, que resolve problemas, que cria soluções, inventa novas ideias, assim como acompanha as transformações históricas, sociais, econômicas, culturais e políticas que vêm ocorrendo no mundo em que vive. Se o papel da escola fosse resumido a preparar os jovens para o vestibular, não precisaríamos de escola para tal. Ao seguir o roteiro de estudo dos assuntos que estão previstos no programa do vestibular, qualquer sujeito está apto a se candidatar a uma vaga. Escola é um conjunto maior que o vestibular, pegando emprestada a teoria dos conjuntos para exemplificar tal afirmativa. O vestibular deve ser conseqüência de um processo de formação do aluno que se inicia desde o momento em que as crianças entram na escola. Desde então, aqui no Miró são convidadas a pensar, se posicionar, criticar, produzir textos, lê-los, interpretá-los, enfim, são estimulados a colocarem a serviços das suas necessidades como sujeitos do mundo suas habilidades e saberes aprendidos na escola e fora dela. Quando o Miró abraçou o ciclo do ensino médio como serviço oferecido pela escola, pudemos comprovar a nossa hipótese de que vestibular é subconjunto da escola, pois nos 3 anos seguidos em que tivemos o 3º ano do referido ciclo aprovamos respectivamente 98%, 96%, 97% dos nossos alunos que se candidataram ao concurso de vestibular (inclusive o concurso público da UFBA). Os nossos alunos foram aprovados como conseqüência da sua formação ao longo dos seus anos na escola (e de suas experiências fora dela).
MG – Será que 17 anos não é muito cedo para se escolher uma profissão? Qual a sua opinião quanto a isso?
MC – De fato, um jovem com 17 anos ainda tem muitas dúvidas acerca do seu eu, de suas escolhas e seus interesses, portanto, se dar tempo para amadurecer e fazer uma escolha mais consciente pode ser um bom percurso. Na atualidade, a palavra de ordem é acelerar. Muito bem se estivermos falando de maratonas, mas, em se tratando de sujeitos, é preciso cuidar para que a “correria” típica desse tempo não se constitua numa escolha imatura e incerta para o jovem.
MG – Se você tivesse oportunidade de opinar junto aos nossos governantes no que diz respeito ao ensino no Brasil, o que mudaria?
MC – Mudaria a ênfase da quantidade para a qualidade. Uma vez que atingimos a universalização do ensino o Brasil, é preciso se voltar para a qualidade do ensino. Não é possível pensar num país que ainda favorece o acesso ao ensino de qualidade para apenas uns poucos.
MG – Em sua opinião, as escolas brasileiras ensinam seus alunos a lutarem pela decência? Ensinam seus alunos a serem patriotas?
MC – De fato, a sociedade brasileira vive uma crise de ética. A criança, com sua inteligência, observa o comportamento dos adultos e vai construindo as suas teorias próprias. Acredito, firmemente, que é dever do educador se utilizar dos maus e bons exemplos da vida cotidiana que aparecem constantemente na mídia para promover uma discussão ética no seio da escola. A partir daí é que a criança vai se identificar com algum grupo, com seu povo, e nessa direção internalizar um sentido de nação e pátria.
MG – Para você, o que é mais importante na formação de uma criança, tanto para a vida social quanto profissional?
MC – Equilíbrio emocional, estímulo dos pais e ser aceita dentro das suas reais possibilidades de ser e estar no mundo.
MG – Sempre que uma criança fala um palavrão, alguém diz: “aprendeu na escola!” Como você se defende? Quem educa ou deseduca?
MC – As palavras, todas elas, “moram” na vida, portanto, a escola, o prédio, o clube, a casa dos amigos, abrigam as palavras. Não há como localizá-las com exclusividade em um ou em outro lugar. Se observarmos que as crianças têm usado as ditas palavras pouco polidas em contextos inadequados, cabem aos pais, professores e outros sujeitos que exercem o papel de educadores acordarem regras de modo a respeitar os locais inadequados para usá-las. A escola é uma instituição permeável. A sociedade está na escola e a escola está na sociedade.
MG – Hoje em dia, namoro e sexo são os assuntos mais falados nos programas de televisão. E na escola? O tema é abordado formal ou informalmente?
MC – O sexo, o namoro, o interesse pelo outro sujeito são dimensões da vida, portanto, estão presentes também na escola. Essa é uma temática que é tratada na escola de modo formal nas atividades curriculares ligadas à área da Ciência, mas também está presente nos contextos informais na escola. A instituição escolar ajuda os alunos a compreenderem quais as transformações que os seus corpos sofrem e quais as decorrências dessas transformações para os seus interesses recentes pelo outro (menino ou menina), assim como cria situações em que essa temática aparece de modo transversal, como em filmes, teatros, canções e outras.
MG – Qual o conselho que você dá para os pais na hora de escolherem as escolas de seus filhos?
MC - Escolher a escola para os filhos não é tarefa fácil. Antes de visitar qualquer escola, a família precisa discutir que tipo de educação deseja para seus filhos. Assim sendo, poderão construir uma lista de escolas que ofereçam um serviço de educação compatível com a demanda da família. É muito comum que os pais partam para visitar escolas sem antes saber o que querem ou não querem para a educação dos seus filhos. Por exemplo, se a família deseja uma educação tradicionalista e religiosa, não deverá colocar na sua lista de visita uma escola laica e construtivista, além de perder tempo, certamente ficarão confusos e inseguros. Os pais devem ainda visitar o site das escolas, fazer uma itinerância por algumas escolas, levantar um rol de perguntas que desejam fazer à coordenação da escola, para não perderem o foco de “investigação”, escutar atentamente a fala da instituição e tomar algumas notas. É importante perceber se existe coerência e consistência na fala da coordenadora/diretora. É também importante ouvir a escola falar sobre a sua proposta pedagógica e como o trabalho é realizado com as crianças. Ir relacionando com o tipo de escola que desejam para seus filhos (pensada antes em casa). Atende ao que desejam? Deve-se percorrer a escola, buscando ver na sua estrutura física e humana, coerência com a sua proposta pedagógica e procurar saber sobre a formação dos professores e os investimentos que a escola faz na sua formação. Após a itinerância, a família deve voltar a conversar sobre as impressões e decidir por aquela que mais se aproximou do que se constitui o que a família listou como essencial de encontrar numa instituição de educação formal. É importante lembrar que as famílias dificilmente encontrarão uma escola “perfeita”. Daí a importância de ter claro o que é essencial para encontrar numa instituição escolar.
MG – Para terminar, queria que você nos desse dicas enquanto educadora:
Um livro:
Para os pais: Memórias Inventadas – A Infância (Manoel de Barros)
Para as crianças: Bisa Bia Bisa Bel (Ana Maria Machado)
Um filme:
Para os pais: Pequena Miss Sunshine
Para as crianças: Avatar
Uma viagem: Cachoeira
Uma comida: a da nossa casa
Um curso extra: teatro
Um espetáculo de teatro:
Para os pais e filhos: O sapato do Meu Tio (ainda em cartaz!)
Um esporte: natação
Um site de pesquisa: www.estantevirtual.com.br
Quarta-Feira, 10.03.2010 às
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