Cheio de Arte



João Gilberto compositor


James Martins


A hora da criação em superclose: concentração, suor e lirismo


Recebi um email de Camila Cintra com uma nota de jornal copiada e colada. A notícia era: “O recluso João Gilberto, 78 anos, começa a gravar ainda neste mês três canções para ‘O Gerente’, filme de Paulo César Saraceni recém-finalizado. Serão novas interpretações para ‘Louco’ (Wilson Batista/Henrique de Almeida) e ‘Insensatez’ (Tom Jobim/Vinícius de Moraes) e um tema inédito, de autoria do cantor, um compositor bem eventual”. Ao contrário de Luiz Caldas, que lançou 10 discos em um ano, João passa tanto tempo burilando as suas coisas que a gente já sabe que ele não faz por menos: essas três gravações devem vir com informações para onze séculos. E, se revisitar duas músicas do seu reduzido repertório era esperado, uma nova composição de João para o seu reduzidíssimo cancioneiro é uma grata surpresa.

No ano passado a Ithamara Koorax e o violonista Juarez Moreira lançaram o CD ‘Bim Bom: The Complete João Gilberto Songbook’, com toda a obra do compositor João Gilberto até então, o que deu um disco de 11 músicas + uma faixa bônus com Hô-Ba-La-Lá (letra em inglês por Aloysio de Oliveira). Em 61 anos de carreira! Com este novo lançamento para o filme do Saraceni, serão 12 composições. Bom, não deixa de ser curioso que o maior revolucionário da música popular brasileira, influenciador de todos os maiores compositores surgidos após ele, seja, a rigor, um cantor-violonista e compositor bissexto. Mas é claro que JG também faz todas as músicas que interpreta: as transforma, as revela. Eu gastaria bilhões de bytes para comentar a riqueza e o alcance de suas intervenções nas composições que elege. Ele mesmo disse-o bem: “Tem tanta coisa bonita para ser consertada”. Suas interpretações são ready-mades, apropriações. Ao mesmo tempo essas músicas se tornam ainda mais elas mesmas nas mãos (e no gogó) de João. Lembro claramente da primeira vez que ouvi João Gilberto cantar, numa fita cassete: Eu e a Brisa (Johnny Alf) naquele show feito para um especial da Globo: João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Fiquei três noites sem dormir.

João Gilberto é o meu artista favorito, contando todos (Augusto de Campos, Nelson Rodrigues, Pablo Picasso, Mondrian, João Cabral de Melo Neto, Chaplin, Caetano, Beethoven, James Joyce, Anton Webern, Guimarães Rosa...). Só Pelé consegue rivalizar com ele no amor da minha sensibilidade cultivada à base de muita ignorância e xarope de beterraba. Eu achava que JG não havia feito nenhuma música além de Bim Bom e Hô-Ba-La-Lá, até que descobri -de uma levada só- Valsa (Bebel) e Undiú. E depois Acapulco e João Marcelo. E depois Você Esteve Com Meu Bem. E depois fiquei caçando composições suas. Pensando agora assim, acho que Undiú é a minha favorita e somando isso à presença da palavra ‘baião’ na letra concisa de Bim Bom, me ponho sempre a meditar sobre a importância deste gênero sertanejo na confecção do mais litorâneo e urbano movimento musical brasileiro (e quiçá mundial) que foi a bossa nova. E também sobre a diferença da bossa de João para a bossa dos bossa novistas. Sertão virando mar virando sertão. "O ão do om".

Agora volto ao email de Camila: “João e Saraceni são amigos desde os anos 80, quando o cineasta filmou o documentário ‘Bahia de Todos os Sambas’. Realizadas em 1983 em Roma, as filmagens mostram espetáculos ao ar livre em que se apresentaram artistas da Bahia. Estiveram lá João Gilberto, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Tom Zé, Moraes Moreira e Gilberto Gil, entre outros. O documentário foi lançado em 1996”. Eu já vi este filme na TVE aqui da Bahia e é lindo. Inclusive uma das lacunas mais graves do Youtube era a ausência do vídeo com João Gilberto cantando Insensatez. Mas já há algum tempo que ele está disponível no site e todo mundo pode ver a impressionante cara crispada de concentração e acompanhar a respiração sobre humana que estica e emenda as frases de maneira tão passional quanto sensata. Vejam lá em cima. E se as letras estiverem aparecendo manchadas no seu monitor, é porque eu tô chorando aqui.

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Terça-Feira, 17.03.2010 às 11:59
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Luciano Calazans e Ufonia - um show


James Martins


Uma dica de amigo é o show do Luciano Calazans, nesta terça (16), na Praça Tereza Batista (Pelourinho), às 21 horas. Luciano, mais conhecido por seu trabalho como músico acompanhante, já tocou com diversos nomes tão diversos a exemplo de Gilberto Gil, Sarajane, Xuxa, Ivete Sangalo, Zezé di Camargo e Luciano, mas mesmo nesses casos a sua marca pessoal -o seu som- se impõe de maneira indelével. Um caso semelhante ao do baterista Robertinho Silva. Mas Luciano Calazans lançou em 2003 o seu primeiro álbum solo, Contrabaixo Astral, onde toma as rédeas do projeto estético e mostra sua versatilidade e as texturas sonoras que melhor refletem as suas inquirições do mundo. No show desta terça, ‘Luciano Calazans e Ufonia’, ele volta ao repertório de Contrabaixo Astral, mas também já voa para músicas do novo disco, em processo de gravação e cujo nome ainda é segredo. Imperdível.

Em janeiro nós batemos um papo onde o Luciano falou de sua formação musical, gostos literários, episódios de sua vida e de sua carreira (leia aqui). Um papo que rendeu. Uma vantagem que o músico tem sobre muitos outros, além do evidente virtuosismo com que doma e domina o instrumento eleito, é a ausência total de preconceitos na apreciação e execução da música. Para Luciano Calazans, os estilos musicais devem servir à música e não o oposto, como na parábola cristã do homem e o sábado. Assim, ele consegue navegar com precisão por vários estilos e ritmos, sem parecer deslocado em nenhum sotaque. Se o calendário musical de Salvador está surpreendentemente bom este ano, o show Luciano Calazans e Ufonia é um dos seus pontos mais altos. Estarei lá e espero ver a moçada mais esperta. Abração!

Serviço:
Show: Luciano Calazans e Ufonia
Onde: Pelourinho - Praça Tereza Batista
Quando: Terça-feira (16), às 21 horas
Quanto: Grátis!


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Quinta-Feira, 15.03.2010 às 10:47
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O Mágico de Oz em 3D


James Martins


No último final de semana as meninas levaram uma cópia de O Mágico de Oz, que elas adoram, para assistirmos em casa. Alessandra nunca tinha visto e também adorou. Segundo a minha amiga Leila Pimenta, todos os anos o filme é exibido em praça pública, em Londres, na ocasião do natal. Nesta sessão promovida por Wendy e Bil, eu fiquei pensando sobre como um filme de 1939 ainda seduz crianças nativas das animações cheias de gráficos e efeitos super sofisticados. Agora a Warner resolveu fazer também uma versão em 3D de O Mágico de Oz.

Uma reportagem do jornal Los Angeles Times diz que a companhia cinematográfica tem duas propostas de roteiro. Uma delas, chamada simplesmente Oz, é assinada por Darren Lemke, roteirista do quarto filme da série Shrek. A outra, Mágico de Oz, é um lance mais obscuro, com a marca dos projetos de Josh Olson (de Uma História de Violência), propõe que a neta de Dorothy lute contra o mal até a terra dos tijolos amarelos. Na verdade, o mais das vezes eu não gosto dessas invenções-intervenções nas histórias originais. Mas adoro Hook – A Volta do Capitão Gancho, que traz um Peter Pan adulto e advogado. Enfim, estou quase tão ansioso pra ver O Mágico de Oz em 3D quanto para assistir a Alice de Tim Burton. 

Para quem não lembra (ou quem não é de minha época), aqui no Brasil temos uma bela adaptação (não em 3D, mas em 3° mundês) do clássico da Warner: Os Trapalhões e O Mágico de Oróz, de 1984. Dedé é o delegado Leão, Zacarias é o Espantalho e Mussum o Homem-de-lata. Já Didi vive um tipo de Dorothy pouco Galardiano, sertanejo e morrendo de sede e fome. No Mágico de Oróz a busca principal é por um monstro de metal que jorra água pela boca, para acabar com a sêca. Orós é o nome de uma cidade do Ceará, citada inclusive por Moraes Moreira e Luiz Paiva na canção Cariribe, gravada por Raimundo Fagner: “Sou lá do sertão Cariri / Sou lá do sertão de Orós / De lá e daqui / Em todo canto e lugar eu solto a voz”. No título do filme dos Trapalhões colocaram sabiamente um ‘z’ no lugar do ‘s’, para aproximar Orós de Oz. O cinema do grupo de Renato Aragão foi um fenômeno da minha infância e da minha vida e conseguiu, algumas vezes, resultados notáveis. Pronto, já tenho um filme para a próxima sessão do cineclube lá em casa. Meninas, se preparem que a pipoca faço eu.

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Quarta-Feira, 11.03.2010 às 11:03
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Eu prefiro ROUBOlation


James Martins


Uma das tendências mais em voga no Brasil, e principalmente na Bahia, é a adulação do que costumamos chamar ‘o povo’. Talvez por causa do presidente da república em atividade. Talvez pelo aumento do poder de compra das classes C -de coração, D -de docinho e E -de Iscola. O fato é que uma insistente argumentação sócio-econômico-trabalhista vem substituindo a apreciação das competências na crítica de arte ou da indústria cultural. Assim, o publicitário Nizan Guanaes se arrependeu de falar mal da música do Chiclete com Banana porque Bel Marques é um batalhador. Mônica Sangalo pediu desculpas de ter chamado Cláudia Leitte de desafinada, porque ela também é uma batalhadora. Quando a polêmica do pagode do Lobo Mau bateu à porta, Márcio Victor, do Psirico, usou o seguinte argumento para defender aos colegas d’O Back: “quem não gosta não tá com o povo”. Essa declaração, somada às de Ivete Sangalo, que disse querer ajudar aos meninos da nova banda (“porque eles podiam estar fazendo coisa errada por aí”. Traduzindo: assaltando, matando, traficando e etc.) dá o xis da questão. Ninguém pode mais avaliar um produto artístico em si, mas sim pela necessidade de sobrevivência do artista que arrumou um emprego no mainstream e tem filhos e amantes pra sustentar. Afinal, eles são todos batalhadores. Que sejam, mas que façam direito os seus trabalhos, como ademais um encanador, também com filhos e dívidas, precisa fazer. É como diria a própria sabedoria popular: ‘ema-ema-ema, cada um com seus poblema’!

Reparem que não estou me solidarizando necessariamente com as críticas citadas. Por exemplo, eu acho Cláudia Leitte chatíssima, mas não lembro de tê-la ouvido desafinar. O que quero dizer é que se ela desafinar, eu, a Mônica Sangalo, o Cascão Mercury e o Cebolinha Lélys temos todo o direito de criticar e comentar, independente do fato dela ser batalhadora ou não. Da mesma forma a música do Lobo Mau tem que ser acatada ou atacada em si mesma, através de discussões ético-estéticas e não porque os seus compositores não nasceram no Itaigara ou em Alphaville. Eu também não nasci e preferia estar roubando que pedindo para me deixarem escrever tudo errado para esta coluna (se fosse o caso) só porque o Haiti é aqui. O povo nunca precisou desse protecionismo que é uma espécie de Bolsa Família caríssima. E corporativismo de artista é uma coisa muito feia. Conheço a casa onde o compositor de Salvador Não Inerte, que atende pelo nome de Beto Jamaica, morava no Curuzu. Um cubículo. Mas aí eu lhe pergunto, e daí? É como disse Hamlet, citado por Stephen Hawking: “eu poderia viver recluso numa casca de noz e me sentir o dono do universo inteiro”. Mistério da criação. A beleza daquela música do Olodum e de tantas outras criadas por diversos batalhadores muito mais batalhadores (ou originalmente muito mais pobres) que alguns dos que hoje em dia se defendem (ou são defendidos) com a desculpa do trabalho, provam que não é necessário (e mesmo que é nefasto) esse tipo de bobagem.

Eis o que eu quero dizer: um dia desses, andando pela Liberdade com Lelezinha, ouvimos dois meninos de uns oito ou nove anos cantarolando assim: ‘bota a mão na carteira que vai começar / o Roubolation-tion... Roubolation...’. Rimos. E eu repeti para ela: “(...) mas o povo cria mas o povo engenha mas o povo cavila o povo é o inventalínguas na malícia da mestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso (...)”. A criatividade dos guris é uma prova de que, ao contrário do que disse Ivete, eles poderiam estar sim fazendo muito mais e melhor por aí. O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe. Todo esse papo me fez pensar na questão do duplo sentido na música popular. Muita gente rejeita o duplo sentido já de cara, enquanto outros gostam de qualquer coisa com palavrão. As duas coisas só revelam um puritanismo bobo inaceitável em maiores de XIX séculos. Para mim, da mesma forma que nenhuma música ou intérprete devem ser poupados pela condição social, o duplo sentido deve ser medido pelo grau de criatividade aplicado. Exemplo: nesses dias de março mormaço é comum algum espertinho dizer ‘calor sente-se aqui’. Taí um duplo sentido de classe: sente-se aqui; de sentar e de sentir, colocando o interlocutor, inadvertidamente, no pau. E se, depois de entendido, o sujeito rir, a emenda é: ‘achou grossa né?’, referindo-se à dimensão do pênis (mas pronunciado de modo que ‘grossa’ passe por ‘graça’). Continua abaixo.

Machismos e neo-judaísmos à parte, que a discussão aqui é outra, alguém sabe quem inventa essas coisas? Eu não sei, mas afinal de contas é aquele que costumamos chamar ‘o povo’, eterno batalhador da criação em favor da picardia, da graça, da sacanagem, do amor, do sorriso e da flor. E é por apreciar a energia empregada em trocadilhos assim, ou no genial Roubolation dos meninos, que posso chamar de porcarias diversos joguinhos horrendos, de insossa pornofonia, em que os compositores preguiçosos vêm baseando suas músicas. Acho que ‘desce com a mão no tabaco’, por exemplo, ficou muito sem graça. Talvez o cara pudesse ter pensado um pouco mais para fazer a fusão fumo + xereca ter mais justeza no encaixe. Na verdade, se vocês repararem direito, a maioria das músicas de duplo sentido que têm saído ultimamente só têm um sentido. Quando têm algum. Para falar das flores: ‘Libera o Toim’ é uma ótima música de duplo sentido recente. Quem se lembra de alguma outra que gosta, não deixe de comentar. Agora pegue na minha e balance.

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Sexta-Feira, 09.03.2010 às 11:22
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Show do Trio de Câmara Brasileiro


James Martins


Para os brasileiros de minha geração, muito por causa da intervenção de João Gilberto, o violão é o instrumento nacional por excelência. Mas mesmo antes do pai da bossa nova, o instrumento já mostrava perfeita adequação às manifestações da alma musical verde-anil-amarela-cor-de-rosa-e-carvão, tanto que o nosso maior compositor de música erudita, Heitor Villa Lobos, dedicou-lhe uma significativa parte de sua criação. E o poeta Manuel Bandeira descreveu-o como tendo um “acento de melancolia e ternura íntimas”. Ainda Manuel Bandeira: “Para nós brasileiros o violão tinha que ser o instrumento nacional, racial. Se modinha é a expressão lírica do nosso povo, o violão é o timbre instrumental a que ela melhor se casa”. E outra vez Bandeira, para eu finalmente entrar no assunto do dia: “Desgraçadamente entre nós o violão sempre foi cultivado de uma maneira desleixada”. Pois, graças a deus, amigos meus, desde que o poeta escreveu aquelas palavras, muita coisa mudou. O violão é, de fato, o instrumento nacional e o cultivo das técnicas violonísticas por aqui revelam uma admirável capacidade dos brasileiros para combinar espontaneidade e disciplina. Por isso, a cada dia, surgem novos talentos para renovar a safra, como no futebol. Agora passo, finalmente, ao que quero dizer: quem não conhece, precisa conhecer a admirável obra de Canhoto da Paraíba.

Eu também estava por fora, mas o Trio de Câmara Brasileiro acaba de lançar o imprescindível CD Saudades de Princesa, com arranjos de câmara criados especialmente para as refinadas melodias de Francisco Soares de Araújo (1927-2008), conhecido como Canhoto da Paraíba, obviamente por ser canhoto e ser da Paraíba. Além dessas características decifráveis onomasticamente, Canhoto foi um brilhante cultivador do violão brasileiro, nascido na cidade de Princesa Isabel, que, embora pouco conhecido (“quanta música maravilhosa ainda não foi ouvida no Brasil”, disse o Décio Pignatari) foi muito respeitado por gente do naipe de Raphael Rabello, Jacob do Bandolim e Paulinho da Viola. Em Saudades de Princesa, o Trio de Câmara Brasileiro, formado por Caio Cezar (violão, direção musical e arranjos), Alessandro Valente (cavaquinho e arranjos) e Pedro Amorim (bandolim e violão tenor), apresenta 12 composições de Canhoto que servem para abrir os ouvidos de quem quiser se abrir para esta obra de “melancolia e ternura íntimas”, características às quais eu acrescentaria a gaiatice. Sim, porque ouvindo o CD, além de toda a técnica composicional magistral, da imaginação melódica rica e do senso rítmico de Canhoto, para mim se revelou também um estado de alma que sabe ser, em alguns momentos, debochado e alegre. Coisa que os arranjos do Trio bem ressaltam quando é o caso. Aliás, o encontro com a obra de Canhoto neste disco (cujo projeto gráfico merece empolgado destaque) acabou sendo também uma bem-vinda revelação do próprio Trio de Câmara Brasileiro, para este cronista ignorante.

O melhor da notícia que eu vim dar hoje é que a galera de Salvador vai poder travar o mesmo encontro que eu já tive há alguns dias, e ainda de forma mais intensa: ao vivo. O Trio de Câmara Brasileiro preparou uma turnê de lançamento do CD por várias capitais brasileiras e a primeira delas é Salvador. O show será nesta quarta-feira (03), no Teatro SESI Rio Vermelho, às 20 horas, com ingressos que custam R$20 (R$10 meia). Eu vou com Alessandra e espero ver todo mundo, mais o trompetista Joatan Nascimento, na platéia. Se reconheço na música de Joatan um tratamento renovador para o choro, Canhoto da Paraíba me chamou a atenção pelo sotaque nordestino -e mesmo rural- que soube imprimir neste primeiro ritmo urbano típico do Brasil (que muitas vezes se confunde com o próprio Rio de Janeiro). A música de Canhoto não esconde uma certa melancolia sertaneja, mesmo nas passagens mais buliçosas. Mas essa melancolia também sabe transmitir traços de alegria. Aliás esse é o mistério do próprio Choro: com o seu nome de pranto, o ritmo sabe acender sorrisos como pouca coisa faz. Mas o riso que vem do Choro nunca se pode confundir com aquela alegria banal, movida a cãibras nas bochechas, que tem sido a tônica de muitas vidas e de muitas musicografias. Canhoto da Paraíba caminhou bem por todos os ritmos (choros, valsas, bossa...) e motivos de expressão de que lançou mão. Canhota, por sinal. E se em Gaguejando (faixa 2) há quase uma molecagem de guizos e latas atrás do carro dos recém-casados, nas músicas com menção a nomes próprios (Lourdinha - faixa 10; Reencontro com Paulinho - 07; Memória de Sebastião Malta - 05) ele cria estratagemas sentimentais que poderiam muito bem figurar como ícones da sensibilidade nacional ao lado de outras tantas peças dos mestres do nosso lirismo, como Volpi e Villa Lobos. Já O Grito de Mestre Sérgio é uma exceção que confirma a variedade do negócio. Afinal, o compositor, sendo canhoto e dividindo o violão com irmãos destros, teve que se acostumar a abordar a música pelo avesso para chegar ao avanço. E vejam que estamos falando apenas de 12 composições. Enfim, o lance agora é irmos ao show e depois abusar da internet para conhecer melhor a este novo companheiro nosso. “(...) Como se eu fosse o saudoso poeta / E fosses a Paraíba”.

Serviço:
Show do Trio de Câmara Brasileiro
Quando: 03 de março (quarta-feira) - 20h
Onde: Teatro SESI Rio Vermelho
Quanto: R$20 (R$10 meia)
Contatos: (71) 3334-6800

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Quarta-Feira, 02.03.2010 às 11:31
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Cordel do Fogo Encantado acabou


James Martins


Todo mundo que me conhece sabe que sou um dos poucos que não gostam (nunca gostei) da banda Cordel do Fogo Encantado. Conheci o som dos pernambucanos através de uma amiga querida, Soraia, também pernambucana, que me emprestou o primeiro cd, aquele de capa vermelha. Ouvi querendo gostar, aberto, otimista, ávido (amo pernambucanos!) e broxei. Aquilo tudo era folclórico demais, caricato demais, universitário demais, chato demais... Não gosto nem um pouco desse papo de raiz, só de aipim com carne de sol. Para fazer justiça à Soraia e não perder o fio da toada, foi ela quem me deu um exemplar do excelente Rádio S.Amb.A, da Nação Zumbi, que eu não achava por aqui de forma nenhuma. Gosto tanto de Nação Zumbi como não gosto de Cordel do Fogo Encantado, por motivos simétricos e opostos. Mas o fim da banda de Lirinha e companhia nem me alegrou.

O produtor da banda, Antonio Gutierrez, publicou um comunicado no site oficial do Cordel, anunciando o fim. O motivo foi um outro comunicado, de Lirinha, o vocalista, que deixou o grupo alegando motivos pessoais: “Comunicamos o encerramento das atividades artísticas da banda Cordel do Fogo Encantado. Esta decisão implica na suspensão das apresentações ao vivo, como também da gravação em estúdio de material inédito. A disposição em suspender suas atividades passa por decisões pessoais do fundador da banda, José Paes de Lira (Lirinha), expressas em seu comunicado abaixo, que implicam na impossibilidade de continuidade do grupo. Contudo, mantêm intactas as relações de profunda amizade, respeito profissional e carinho cultivadas entre os integrantes da banda, equipe técnica e produção, solidamente construídas nesses onze anos de convivência”.

Eu pensei em aproveitar o ‘crepúsculo dos deuses’ para esmiuçar meu desagrado estético ante a música do Cordel do Fogo Encantado, que se-me parece uma raiz de mandioca arrancada do sertão pernambucano, congelada por 100 anos, conduzida até a USP, empacotada, selada, registrada, carimbada, avaliada, rotulada, reconduzida a Pernambuco, dada a comer à força a algum popular (sob a justificativa de que aquilo é o verdadeiro nutriente do povo), evacuada pelo mesmo cara e emplacada assim nas paradas de sucesso de São Paulo (e, logo, de todo o Brasil Cult), por ser a representação autêntica de nossas raízes e fundamentos. Mas eu sei que ninguém está mais interessado em nada disso, nem se pode avaliar um produto dito artístico dessa forma. Aí fica como a retratação de Nizan a Bell Marques: “é um batalhador”. Ou como a Mônica Sangalo sobre Cláudia Leitte: “é uma batalhadora”. Enfim, o clima tem que ser esse: profissional, insosso, polido, domado, corporativista... Mas, a bem da verdade, nem acredito que o pessoal do Cordel aprecie esse clima vigente, apenas estou com preguiça de esculhambar os meninos. E, sinceramente, não acho graça quando um crítico esculhamba alguém, com um certo sadismo bobo que sempre está presente nesse tipo de coisa. Concordo com o Ezra Pound e prefiro que outro artista faça a sua crítica apresentando o próximo trabalho. Não sei se vocês me levam a sério, mas eu detesto falar mal. Sob a minha palavra de honra.

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Segunda-Feira, 25.02.2010 às 12:13
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Pelé 70 – livro reúne imagens raras


James Martins


Imperdível: Pelé 70! Lançado hoje (22), o livro reúne imagens pouco conhecidas de um dos caras mais fotogênicos do mundo: o Rei do futebol! Os leitores que quiserem me presentear podem enviar para a redação do Bahia Notícias: Rua Ewerton Visco, 324, Edf.: Holding Empresarial, salas 805 a 807 - Caminho das Árvores - Cep: 41820-022. Ou então para o Bar Cruz do Paschoal, no Santo Antonio Além do Carmo, onde estarei jogando ‘música com a palavra...’, acompanhado de um sanduíche de salame e de Lelê.

Pelé 70, de José Luis Tahan, tem 160 páginas, seis opções de capa e sai pela Editora Realejo. O próprio Pelé, que completa 70 anos em outubro, confessou que o livro tem “imagens tão pouco conhecidas que nem lembrava mais". Já eu, lembrei de Nelson Rodrigues, que escreveu sobre o próprio Pelé, em 1958, quando ninguém sabia ainda que o rei era o rei. Nelson parecia antever não apenas o gênio, mas também o lado mítico que se revela tão intensamente nas suas imagens: “Olhem Pelé, examinem suas fotografias e caiam das nuvens”.

Além de fotos, Pelé 70 tem depoimentos de ex-companheiros do craque. Pepe, por exemplo, afirma ter sido o primeiro jogador do Santos a conhecê-lo. "Ele trajava um terno azul-marinho, estreando as calças compridas e vinha de Bauru trazido pelo ex-jogador da Seleção Brasileira, Waldemar de Brito. Discretamente e a sós, Waldemar me confidenciou que ali estava uma grande promessa do futebol brasileiro. Senti firmeza no aperto de mão do garoto e, principalmente, no seu olhar. Não era, em absoluto, um olhar de timidez, mas sim de um futuro campeão transmitindo serenidade e confiança. E deu no que deu! O resto vocês já sabem", disse. 

Passei por Bauru em março do ano passado, a caminho de Marília, onde iria encontrar uma moçada boa que conheci aqui em Salvador durante a Bienal da UNE. A emoção só veio bem depois, quando reli -e por isso lembrei- que Pelé vivera naquela cidade em que quase deixei, por vacilo, o ônibus seguir sem mim. Tudo ficou bem, cheguei em Marília. Mas mal sabia eu o que me esperava na rodoviária, naquele olhar campeão de timidez. Deu no que deu. O resto vocês já sabem. Futebol é uma caixinha de surpresas. E Pelé disse love, love, love...


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Domingo, 22.02.2010 às 12:23
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Arto Lindsay – curto circuito


James Martins


Eu gosto muito de carnaval. Continuo gostando do carnaval de fevereiro mesmo com o maçante carnaval-o-ano-inteiro que assola a cidade de uma alegria mórbida. Fui ao carnaval todos os dias, seguindo o meu esquema de nunca entrar nas cordas e andar tanto (ou mais) pelas ruas de trás quanto pela zona dos trios. É bom dizer que o meu gostar de carnaval não é como o dos auto-intitulados ‘alternativos’ (ao contrário dos soteropolitanos inteligentes, eu nasci aqui mesmo), por isso vou ao carnaval ouvir principalmente música de carnaval (mas se não nasci morto, é porque também não sou burro). Acho Filhos de Gandhi mil vezes melhor que qualquer DJ. Mas amo a variedade que vem se infiltrando na festa: inclusive a relativização da hegemonia dos trios elétricos, através dos palcos que, sobretudo no centro histórico, estão cada vez melhores. Chego assim à Varanda do Glauber.

Para quem não ficou sabendo, a Varanda do Glauber foi um palco armado na frente do espaço Glauber/Unibanco, logo, em plena Praça Castro Alves. Como a idéia é muito boa e as atrações prometidas também eram, combinei comigo mesmo de ir até lá alguns dias. Mas só fui no último, para ver Arto Lindsay. Falando de novo no carnaval -já já voltamos à varanda-, achei a produção de músicas muito fraca este ano. Na Base do Beijo é boa, mas nada demais. E só. O Harmonia do Samba esteve ótimo. O trio de Armadinho, meu favorito, precisa aumentar e variar mais o repertório. Márcio Victor me irrita com o excesso de conversa e truques de animador de galera, mas suas idéias musicais continuam impressionantes. O trio dos Novos Baianos, pelo menos no domingo, foi a pior coisa do mundo. As músicas que Moraes Moreira fez para este carnaval deviam ter tocado no rádio e nos outros trios. A Band'Aiyê, do Ilê, tá boa à beça. Agora voltando à Varanda do Glauber, no caminho, pela Rua Chile, estranhei a quantidade de pequenos trios levando afoxés e blocos afro. Comentei que seria melhor se o governo, incentivador daquelas agremiações, através do Carnaval Ouro Negro, reduzisse à metade a quantidade de trios, garantindo aparelhagens melhores, para não distorcer a capacidade musical dos grupos e nem embolar a rua. Enfim, chegamos à Varanda do Glauber e o Lucas Santtana mal podia tocar porque pelo local passavam dezenas de trios elétricos. O enorme conflito de horários clama por alguma boa idéia para o ano que vem. E agora chego finalmente ao meu assunto: o show de Arto Lindsay, que começou mais de duas e meia da madrugada, foi o melhor do Carnaval!

Por um momento achei que ele não tocaria. Havia muita confusão sonora na Praça Castro Alves: um involuntário encontro de trios que parecia eterno. Os afoxés de linhas acima retornavam tocando uns sobre os outros a rouquidão de suas amplificações pífias, confirmando o que eu dissera. O afoxé Ilê Oyá, certamente empolgado com a chance única de subir em um trio, não queria descer mais. O Filhos do Congo esperava atrás. Enquanto Arto esperava no palco. E nós, Alessandra e eu, aguardávamos já exaustos, uma definição. Após bastante tempo, sem que o Ilê Oyá desse sinais de cansaço, Arto resolveu tocar. O que aconteceu é muito significativo: o som da Varanda engoliu os afoxés! Se os dois ou três trios concedidos pelo programa de incentivo resolvessem tocar juntos, em trio, ainda assim não adiantaria. Eram uma espécie de maioria menor, confirmando o ditado romano: non multa sed multum. O resultado foi uma espécie de briga por espaço que lembra a música de Gerônimo. Curioso é que Eu Sou Negão reclama o espaço dos afro esmagados pelos trios, e hoje todo bloco afro tem o seu. Já Eu Sou Neguinha, de Caetano, é dedicada a Arto Lindsay. E afinal a culpa de toda aquela confusão foi de quem deveria organizar o fluxo e os horários.

Valeu a pena esperar. O barulho prometido por Arto Lindsay varou o marasmo de um carnaval que se esforça por renovação. O pessoal do Afoxé Filhos do Congo parece ter interpretado, erroneamente, aquela música como um deboche contra eles -talvez pelo volume e textura do som- e reagiu com impotente violência, evocando a Condessa de Pourtalés ofendida por Stravinsky. Chegou-se a usar o velho escudo de que a (sic) ‘verdadeira música baiana’ não pode ser esmagada desse jeito. Falou-se na causa e na coisa negra. Mas o difícil era encontrar no som de Arto Lindsay algo que não fosse negro. Por sinal, Gabriel Guedes, o comandante da percussão, seria facilmente queimado na idade média, dada a natureza irregular de sua mentalidade que sempre encontra os intervalos mais demoníacos para bater no couro. Gilberto Monte escolhe bem os timbres e submete os seus efeitos eletrônicos a uma mecânica que evita que soem eletrônicos demais. E a guitarra de Arto também é percussão. Várias pessoas reclamaram, assustadas. Várias pessoas dançaram. Ambos movimentos de verdade. Mas o que me parecia era que os reclamantes, se pensassem menos, ou melhor, se pensassem com o corpo, entrariam no prazer. A música de Arto Lindsay é muito dotada de humor, esta modalidade difícil de filosofia. Além do tempo não-linear. Irregularidades. A malícia do swing. Alessandra dançou gostoso. Um cara com a camisa do Vitória, que passava, parou, e não parava. A tradição é o que não para. Lei da vida. Artigo zero do estatuto do carnaval. 

PS: Não preciso redizer o meu imenso amor pelos Afoxés, que eu frequento e louvo às sempres vezes. Mas já sei que serei mal lido como sempre. Paciência.


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Sábado, 19.02.2010 às 11:08
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Augusto de Campos - 79 carnavais


James Martins


Este vídeo nunca saiu dos meus favoritos


Augusto de Campos, em minha opinião o maior poeta vivo do mundo, na verdade um dos poucos que continuam vivos entre os restantes daquele mundo que podemos chamar -jogando com a expressão cunhada pelo seu irmão Haroldo- ‘utópico’, completa 79 carnavais neste domingo de carnaval: 14 de fevereiro. No ano passado estive com ele no dia 14 de março, dia da poesia, em seu apartamento e depois num bar, em São Paulo. Eu me orgulhava por saber que, ao contrário do que dizia a triste revista Bravo que me recepcionou no Aeroporto de Campinas, estava ao lado do poeta mais importante para a formação da mentalidade moderna, o grande poeta brasileiro. Dele, que tomava um chopp enquanto eu um suco de laranja, guardarei para sempre esta tradução-citação exclusiva: “Nada, ou talvez uma arte”. Reparem no talvez em lugar de quase. Eu tinha perguntado ao Augusto -brincando com o vídeo-poema do Ronaldo Azeredo, ou Ronaldo de fevereiro- o que vem depois.

Ainda no ano passado, conversando por telefone, o Augusto me falava dos seus trabalhos recentes: Organização da publicação das obras completas de Ronaldo Azeredo (Pensamento Impresso); Publicação de livro de traduções de poemas de August Stramm; Reedição de Reduchamp; Publicação de Byron e Keats: Entreversos; Projeto gráfico do CD de Cid Campos; Prefácio à edição do Guesa, de Souzândrade; e ainda estou esquecendo algumas coisas. Depois ele emendou: “Mas é que aos 78 anos a gente já não tem mais o mesmo pique pra trabalhar né?”. O que eu podia dizer?: –É, deve ser! Um dia desses encontrei este poema no Errática, onde o humor cáustico e a visão aguda do poeta estão manifestos de forma augusta, duchamp. Ele continua sendo o mais jovem de todos nós. 

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Quarta-Feira, 14.02.2010 às 09:59
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Caetano e os 60 anos do trio


James Martins


As minhas primeiras lembranças de Carnaval não envolvem o trio elétrico. Sou do Curuzu e na saída do Ilê não tem trio. Depois fui ao Carnaval da Liberdade, arrastado por minha mãe, e lá as atrações cantavam num palco (palanque) bem paradinho. Depois eu detestava Carnaval até que um amigo me levou um dia para a Avenida Carlos Gomes e eu, que só tinha ido para confirmar o meu desgosto, adorei. Mas acho ainda hoje que só gostei porque minha primeira hora no circuito foi livre de trio elétrico e de aperto. Ficamos encostados a um bar, conversando debaixo de todas aquelas lâmpadas acesas, com pessoas passando e sorrindo e aquele clima me seduziu para sempre. Depois veio o trio. Netinho. Ele começou a cantar, assim que chegou mais perto da gente, “Chuva, Suor e Cerveja”, de Caetano Veloso, à qual emendou a ‘Filha da Chiquita Bacana’, do mesmo compositor, canções que eu já conhecia e cantei junto e gostei de embolar o meu corpo no meio daqueles todos e declarei guerra às cordas, mais por ver nelas um símbolo de tolice do que por qualquer ensaio de revolta social. Eu antes sentia pena das pessoas presas ali dentro, fora do Carnaval.

O “veículo sonoro visual”, rapidamente, me deu a chave para compreender a sua importância e a sua delícia. E também para o lugar dos baianos (o meu mesmo) no circuito da invenção mundial. Saber da Fobica de Dodô & Osmar, mais a guitarra-elétrica, me enche de alegria, orgulho e vontade de trabalhar. 2010: são 60 anos do trio elétrico. Será que a Bahia já pode se comer comendo os seus filhos como a Irlanda de Joyce/João Cabral? O Cézar Mendes me chamou a atenção para o fato de que pouco se tem dito sobre a importância de Caetano Veloso para a consolidação do trio como centro tonal do Carnaval baiano. Eu não queria mais falar em Caetano, preferia que o A Tarde tivesse feito uma matéria bem equipada, cheia de dados e informações, como eu nem sei, nem me cabe fazer. Preferia ficar com o Lucas Santtana em Itapuã @no_2000, mais perto da Boca do Rio que do Rio Vermelho. Mas o Cézar tem, uma vez mais, mais razão que a imprensa. As canções que Caetano fez para e sobre o trio elétrico ajudaram a firmá-lo naquele lugar, ou a deixar essa posição mais clara.

Atrás do Trio Elétrico Só Não Vai Quem Já Morreu (a guitarra é de Lanny Gordin) caiu no domínio público, como, aliás, o próprio trio elétrico, que nem gera royalties às famílias dos criadores. Aquele álbum de Caetano, de 1977, Muitos Carnavais, é uma obra-prima sobre a nossa festa e isso de fato precisa vir à tona, com tudo o que contém, nessa comemoração (comemorar não é apenas festejar) do sexy-appeal-genário trio de Armandinho, Dodô & Osmar. Mas eu tenho certeza que, se não for abordado como deveria pelos jornais, as canções serão, como sempre, muito tocadas nos trios e isso basta. O trio-elétrico é isso mesmo: alta voltagem de informação condensada em um curto circuito no meio da rua para celebração de todas as pessoas. Um poema concreto para lançar num disco voador. Para brilhar na noite... O resto é só palavrório, que fica melhor em São Paulo.

Fiz uma pequenina entrevista com Caetano (por email) da qual pretendia apenas extrair coisas para usar num esboço de análise da relação daquelas suas canções com o carnaval. Mas a pressa da época me manda colocar a entrevista mesmo aqui, como apêndice ao texto acima, que foi o que pude escrever em cinco minutos de redação enquanto sou bombardeado por mil telefonemas e notícias de economia. Lá vai:

James Martins: -Você acha que a sua música 'Atrás do Trio Elétrico Só Não Vai Quem Já Morreu', quando saiu, foi uma constatação ou uma profecia? Em que medida cada coisa?

Caetano Veloso: -Foi feita como uma notícia aos brasileiros todos sobre algo que se passava na Bahia e que seguramente seria consequente para a história do carnaval brasileiro, para a história da nossa música popular, para a História do Brasil. Era um alerta sobre algo a respeito de que eu tinha certeza. As profecias deveriam ser exatamente isso. Mas costumamos pensá-las como intuições obscuras que depois surpreendem confirmando-se parcialmente no futuro.

JM: -Trio elétrico é vanguarda na rua. Caetanave é o que?

CV: -Quando li "Caetanave" na lateral do carro do Tapajós em 1972, pensei em vanguarda nas ruas. Eu estava emocionado. Mas trio elétrico era, já havia uns bons anos, vanguarda das ruas, vinda das ruas.

JM: -Quais as suas melhores lembranças da Praça Castro Alves?

CV: -São demasiadas. Mas levar Moreno lá pela primeira vez está entre elas. (Sem voltar, é claro, à cena da minha chegada do exílio, com "Chuva, suor e cerveja"). Ouvir "Faraó" cantado, primeiro ao longe, depois por algumas pessoas próximas à estátua -que era onde ficávamos-, sem que houvesse som de trio e sem saber que música era aquela. Aprender ali, a canção e tudo sobre o Olodum. O encontro com uma menina chamada Simone, de origem árabe e com os olhos cor de mel, perto da balaustrada, atrás da estátua. Sara Jane cantando "Lindo Balão Azul". Ouvir "Vida Boa" na rua pela primeira vez, com Armandinho.

JM: -Hoje em dia a 'gente sem graça' vai pra onde?

CV: -Muita gente percebeu que os salões eram sem graça, comparados à rua. Um bom número deixou de ser em graça (descobriu que não tinha a vocação). Muitos outros trouxeram para a rua algo do que havia de sem-graça no salão (e olha que nos Fantoches da Euterpe, em Salvador, e no Apolo, em Santo Amaro, eu tive muita noites cheias de graça): algo do baile da playboysada (que já estava nos Internacionais e nos Corujas) concorreu para a criação dos blocos de trio - ou levou os blocos a contratarem trios e fazerem da passagem na rua uma espécie de baile privado ambulante. E olha que não sou, em princípio, contra cordas: blocos sempre as tiveram (dos Filhos de Gandhi aos Internacionais, dos Diplomatas de Amaralina às Grandes Sociedades, todos sempre tiveram corda). Mas a maioria da gente sem graça hoje se espreme nos camarotes.

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Quinta-Feira, 12.02.2010 às 15:49
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