É claro que fiquei ansioso quando soube que Nelson Pereira dos Santos fez um filme sobre Tom Jobim e que este estrearia no dia 20 de janeiro. Fiquei ansioso, mas, nem por isso, pensei em assistir ao filme no dia da estréia, coisa que só fiz uma vez, salvo engano, acompanhando Cézar Mendes ao ‘Coração Vagabundo’ do Caetano. Fiquei curioso também por saber que o documentário, ‘A Música Segundo Tom Jobim’, não teria os costumeiros comentários, depoimentos, etc. que são o caminho aparentemente inevitável de todo documentário. Um filme todo música, que lembra até aquela piada que se diz que circulava pelo Rio de Janeiro nos tempos do Cinema Novo e do Cinema Marginal, de que a pretensão de um filme que não fosse nem de amor, de terror, nem de suspense, etc., mas um filme-filme, seria como chegar a uma loja de material esportivo e pedir uma bola que não fosse nem de futebol, nem de beisebol, nem de basquetebol, em suma, uma bola-bola. ‘A Música Segundo Tom Jobim’ seria um filme-música? Enfim, pensei em assisti-lo na semana seguinte à estréia, mas, na quinta-feira (19), recebi um email do meu querido amigo
Rafael dos Prazeres cujo assunto era “Pelamordedeus!”. Abro: "John, assim que sair o mais novo filme de Nelson Pereira dos Santos sobre a obra de Jobim, faça uma apresentação no BN. Na moral!! Onde eu estou não há cinema e na cidade mais próxima, onde há, só passam filmes gringos e os mais comerciais possível. Rsrsrsrrsrrs Se possível, faça sua versão com a máquina fotográfica de Alessandra e envia pra mim, certo?? VOcê não foi no dia do encontro. Enrolaaaaado! bjs". Esse é o Rafael escrevendo email com a sempre pressa de viver que deus lhe deu. Enfim, por isso, já no sábado (21), Lelê e eu entramos no Cine Glauber Rocha para assistirmos, sem máquina fotográfica (rolleiflex?) embora, ao filme do Nelson sobre Tom.
Antes de começar a escrever sobre o tal, atendendo ao pedido do amigo, é preciso que eu diga que só o faço já hoje (a idéia nossa, de Alessandra e minha, é rever o filme ainda algumas vezes e levar Wendy para ouviver também. E só depois eu escreveria este artiguinho) porque ao chegar na redação fui informado por Glauber Guerra que hoje é o dia da bossa nova. Daí o Google completou a informação de que hoje seria o aniversário do Tom Jobim e que por isso... Então, já que deus e o diabo estão nas coincidências (além da terra do sol), escrevo agora estas impressões sobre o filme. “Ser radical é tomar as coisas pela raiz”, disse o Carlos Marx, e completou: “E a raiz, para o homem, é o próprio homem”. Pois bem, ‘A Música Segundo Tom Jobim’ é um filme radical. Mas aqui a raiz é o Tom, e para Tom Jobim a raiz era a própria música. Essa a sábia decisão do diretor, de não macular a música com nenhuma fala que não a da própria música, no máximo, afinal estamos no cinema, convivendo com as imagens. Gosto muito do filme na medida em que ele, sendo uma homenagem a um grande músico, soube desautorizar a mania verbal que faz quase todo o pensamento ocidental dependente demais da palavra, ao ponto de usarmos expressões como “qual a leitura que você faz desse quadro”? Ou dessa música. A leitura de Nelson Pereira dos Santos sobre a leitura de Tom Jobim sobre a música se dá apenas com música e imagem: cinema. O filme segue um caminho que o leva e eleva para além do cinema-contador-de-histórias que domina a linguagem dominante. Mas, ainda assim, é evidente, conta uma história. Questão de drible apenas. Agora que estão na moda os documentários sobre grandes nomes da nossa música (Paulinho da Viola, Elza Soares, Wilson Simonal, Itamar Assumpção), todos muito bons, diga-se, este ‘A Música Segundo Tom Jobim’ é uma obra insólita, um caminho distinto e (talvez) novo, como a bossa o fora. Só não sei se aplicável a outros compositores, porque um Tom Jobim não nasce todo dia.
Nos primeiros minutos de projeção, experimentei a estranheza de a música nunca cessar para dar lugar à tradicional fala de algum parente ou amigo sobre o homenageado ilustre, como se vê normalmente em documentários desse tipo. Mas, com o passar do tempo, o ritmo da sucessão das canções e das imagens foi-se impondo sobre nós na sala (cheia de velhinhos de cabeça alva) e a montagem compondo um discurso que nos disse muito mais que mil palavras. E por falar em montagem, um dos méritos do filme é saber embutir não só os outros, os inúmeros artistas que aparecem (de Sarah Vaughan, Nara Leão, Frank Sinatra e Elis Regina a alguns ilustres desconhecidos do público brasileiro) ao Tom Jobim, como também o faz com o próprio diretor, o renomado Nelson Pereira dos Santos, todos por trás e por dentro da grande música e da grave beleza do compositor da ‘Garota de Ipanema’, meros coadjuvantes da música. Ou melhor: da música segundo Tom. No final, fica a impressão de que o Nelson não fez nada e aí é que está o seu trunfo, e a sua maestria. “O criador diante da obra deve ser como deus no universo, presente em todas as partes, visível em nenhuma”. O filme é um filme de autor. Um radical filme de autor que, ao contrário do que muita gente disse, marca mais uma vez o lugar privilegiado de NP dos Santos na cinematografia nacional. Entre os muitos momentos magníficos, eu não seria capaz de escolher um, nem dois. Na verdade, tive a impressão de que não há um momento separado do outro no filme, é tudo a sucessão de um universo em constante movimento e sempre no mesmo lugar. Um filme sem clímax. Um filme só de clímax. Inteiro. Ou, nas palavras do poetinha Vinicius de Moraes, para não sairmos da mesma turma: “O cinema é infinito – não se mede. / Não tem passado nem futuro. Cada / Imagem só existe interligada / À que a antecedeu e à que a sucede”. Eu pessoalmente adorei ver as fotos do Newton Mendonça (Uau!), que lindo, como eu gosto do Newton Mendonça! Mas achei desnecessárias as quase animações usadas em algumas fotografias. Senti também algumas ausências na vasta lista, que parece querer enfatizar o alcance mundial, quase alienígena, da música jobiniana. Não tem João Gilberto, não tem Maria Bethânia, não tem Vinicius, ora como é que pode? Mas, em compensação para mim, íntima, aparece quietinho com seu violão o mesmo Cézar Mendes de quem falei lá encima, acompanhando Carlinhos Brown.
Rafa, o filme é lindo, você vai gostar. Você que fez uma versão do ‘Soneto de Fidelidade’ só com links de sites da internet. Você vai gostar e gostar como eu gostei e Alessandra gostou e Wendy gostou e sua namorada, a Lílian, vai gostar de ver ao seu lado. Você sabe que o verão é uma coisa especial demais e que as meninas com suas pernas frutosas e furtivas cabem na nossa alegria como uma pausa de mil compassos. A ‘Garota de Ipanema’ tem quarenta compassos + aquele arranjo engenhoso, mas a gente toma como um copo d’água. Tom não gostava de ipsilones e o filme não tem ipsilones, então você vai gostar. Hoje seria aniversário de Tom Jobim. Ele colecionava dicionários e tinha no mínimo dois exemplares do ‘Grande Sertão: Veredas’, que por sua vez tem mais palavras que muitos dicionários. Mas o filme termina com a frase: “A linguagem musical basta”. Assinado, Tom Jobim. Xiii... acho que contei o final. Foi mal. Beijos!