Sábado, 13 de Janeiro de 2018 - 00:00

Conheça Sheryland Neal, 1ª estrangeira a buscar título de Deusa do Ébano do Ilê Aiyê

por Lara Teixeira / Rebeca Menezes

Conheça Sheryland Neal, 1ª estrangeira a buscar título de Deusa do Ébano do Ilê Aiyê
Foto: Reprodução / Facebook

A 39ª edição da Noite da Beleza Negra, que tem como objetivo eleger a Deusa do Ébano, recebe pela primeira vez uma candidata estrangeira. Sheryland Neal, que chegou a Salvador na última sexta-feira (5), é norte-americana e está muito feliz com a oportunidade de participar do concurso. Em entrevista ao Bahia Notícias, a estrangeira contou que conheceu o Brasil em 2016, em uma viagem junto ao seu grupo de percussão "Timbeleza", e passou uma semana no Rio de Janeiro antes de vir para a capital baiana. Sheryland conta que conheceu o concurso depois que seu grupo voltou aos EUA e ela decidiu ficar mais duas semanas em solo baiano. A norte-americana queria conhecer mais sobre a cultura local e ficou encantada com a Rainha Ilê Aiyê: “Enquanto eu estava em Salvador, eu fui ao Ilê Aiyê e vi a rainha se apresentando no palco. Eu estava maravilhada. Eu nunca vi alguém tão linda e alta, e forte, e graciosa... Eu estava extasiada. Eu peguei minha câmera e comecei a gravar e chorei. Provavelmente eu parecia meio estranha, porque um homem veio até mim e me perguntou em quatro línguas por que eu estava chorando. Eu expliquei que era porque ela era linda demais. Ela parecia comigo! Foi quando eu soube sobre o Beleza Negra. Eu fiz algumas aulas de dança em um estúdio do Pelourinho onde eu pude trabalhar o tipo de dança que as rainhas (do Ilê) dançam. Eu era bem ruim nisso, mas quando eu voltei pra casa continuei estudando e treinando, tentando imitar os movimentos. Eventualmente, eu fiquei confortável”. Com relação à decisão de participar do concurso, Sheryland conta que nem ao menos sabia que poderia se inscrever: “Eu decidi tentar ser a Beleza Negra porque eu estava com a Timbeleza em um workshop de percussão e o líder do evento, um brasileiro, me viu dançando como as rainhas e disse: 'Está muito bom! Você devia tentar ser a Beleza Negra'. Eu achei que estrangeiros não podia competir, mas depois de pesquisar na internet, pegar recomendações e ir perguntando, eu encontrei as inscrições e decidi participar da competição. Eu não estava esperando ser aceita. Isso fez meu dia!”. Jaci Jesus, uma das produtoras da Noite da Beleza Negra, contou ao BN que a participação da estrangeira é uma experiência nova para o evento e avaliou que isso é muito bom para o concurso. Ela também afirmou que não existe nenhum tipo de impedimento com relação a pessoas de fora de Salvador ou até mesmo do país: “Desde que optamos por fazer a inscrição online não tivemos nenhuma restrição com relação às meninas. Em 2016 começaram as inscrições online. Quando era presencial nos tínhamos uma quantidade bem significativa de inscrições, mas com o online ficou maior ainda. Esse ano mesmo nós tivemos 10 candidatas de fora de Salvador, na verdade, 11 com a norte-americana”.

 


Sheryland já em Salvador durante ensaio do concurso | Foto: Reprodução / Facebook 

Para o concurso, Sheryland estudou a história do Ilê e foi só elogios à instituição: “O Ilê Aiyê tem feito um ótimo trabalho em apresentar a herança africana/negritude como algo pelo que você não deve se envergonhar – fazendo isso se tornar aceitável para aqueles que foram ensinados por gerações que a negritude é algo para se ter pena ou inferioridade”. Questionada se acha que pode ser prejudicada por não ser brasileira, a norte-americana admitiu que ainda sabe pouco o português, e como utiliza um aplicativo para aprender a língua daqui o sotaque dela pode ser muito diferente, atrapalhando eventualmente a compreensão de algumas palavras que podem ser importantes no decorrer do concurso. Mas mesmo assim a candidata não desanima e identifica que sua origem étnica falará mais alto na competição: “Quando eu fui apresentada para a competição Beleza Negra, eu falei/entendi muito menos português do que eu sei agora. Isso prova que compreensão, respeito e apreciação da cultura pode transcender a linguagem verbal usada para descrever algo. Ilê Aiyê, em sua base mais pura, reconhece sua herança africana. É essa herança africana que eu reconheço em meus tios, tias, irmão, pais, etc. Está em nosso gosto por comida, em nossa resposta à música... É a africana que há em mim que não tem fronteiras. É o africano em Salvador que não tem fronteiras. Existem descendentes africanos em todo mundo. De alguma forma, é a África que é realmente sem fronteiras”. Sheryland disse ainda que está muito animada com a oportunidade: “Será muito trabalhoso porque eu tenho muito a aprender ainda, mas eu não trocaria essa experiência por nada”. Para vir ao Brasil para o concurso, a candidata decidiu criar uma campanha de financiamento coletivo para ajudá-la com as despesas (veja aqui), como passagens, hospedagem, alimentação, seguro de viagem e documentação. Até o momento, a estrangeira já conseguiu US$ 960. A meta é chegar a US$ 5 mil.

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