Sexta, 06 de Outubro de 2017 - 00:00

Salvador recebe Anima Mundi durante boa fase do mercado de animação na Bahia

por Lucas Arraz / Bruno Luiz

Salvador recebe Anima Mundi durante boa fase do mercado de animação na Bahia
Curta 'Òrun Aiye' é produção de empresa baiana | Foto: Reprodução / Youtube

De crianças a adultos, de séries a longas-metragens. Não dá para negar que as produções de animação tenham seu público garantido nas mais diferentes faixas etárias e mídias nas quais são exibidas. Porém, para produzir os filmes, séries e programas infantis, se faz necessário um grande suporte de equipamentos de informática de ponta e mão-de-obra mais que especializada. O que dificulta ou até impossibilita a produção do setor dentro Bahia. Certo? Errado! Distribuindo suas produções para festivais em diferentes lugares do mundo e com produtos em canais que são exibidos para mais de 40 países, a animação baiana comemora a boa fase de quem tem assistido de longe a crise econômica que vive o país. Acompanhando o bom momento do setor, Salvador recebe a partir desta sexta-feira (6) o Anima Mundi, um dos principais festivais de animação do país. E, assim, o evento promete fomentar o mercado e despertar o interesse do público. O Bahia Notícias conversou com algumas produtoras de animação do estado para saber como anda a produção baiana. 

 

Para Ducca Rios, diretor criativo da Origem Produções, empresa baiana responsável pela produção de "Fábulas de Bulccan”, “não existe na Bahia um cenário local para animação, apenas mundial". "Trabalhamos para além da nossa fronteira”, declarou o diretor da empresa que, além de produzir para a TVE Bahia, vende suas animações para o Disney Channel, canal que chega a mais de 40 países no mundo. Ducca cita que as empresas baianas estão furando um bloqueio natural de quem não produzia, a partir de incentivos do governo do Estado e da Agência Nacional de Cinema (Ancine), que estipula uma cota de 30% dos seus editais para produções do Norte e Nordeste. 

 


"Fábulas de Bulccan” narra a história de um rei que espera que seu filho seja um guerreiro e sua filha uma princesa, mas vê uma realidade apontando para a direção aposta. A história transcorre por meio de narrações e não de diálogos. “A Bahia é um poço de cultura com muita matéria-prima para animação e outras linguagens do audiovisual”, completa Ducca Rios. A “Fábula” foi viabilizada por um edital nacional da Ancine vencido pela empresa baiana.


Se trabalho é o que não falta para o setor, encontrar mão-de-obra para tantas demandas é o que ainda impede a Bahia de preencher completamente a cota de 30% estabelecida pela Ancine. É o que lembra Jamile Coelho, coordenadora da Estandarte Produções, empresa responsável pelo primeiro Núcleo Baiano de Animação e Stop Motion (Nuba). Há três anos o Nuba trabalha na qualificação e formação de animadores na Bahia. O núcleo surgiu a partir da demanda por pessoal para trabalhar na empresa de Coelho. “Fazemos essa ponte, principalmente com pessoas da periferia, para um mercado de trabalho efervescente”, comentou. 

 

 

Atualmente a Estandarte colhe os frutos do curta “Òrun Aiyê”, uma produção de stop motion que usa bonecos de massinha de modelar animados para contar a mitologia dos orixás. O curta já faturou 13 prêmios e participou de festivais em Nova York, Argentina e no Quênia. A produção vai virar série e um longa metragem nos próximos anos, garante Coelho. 

 

Sem deixar de criar, as produtoras de animação da Bahia planejam os próximos passos. Enquanto a Estandarte investe em trabalhos utilizando capturas de movimentos, muito aplicadas por Hollywood atualmente, a Origem inicia o processo de criação da primeira associação brasileira de produtoras de games e animação. “Com esse perfil híbrido, queremos extrair mais recursos para o mercado baiano”, conta Ducca.


Oficina de Stop Motion / Foto: Reprodução


Um grupo de estudantes da Escola de Belas Artes (EBA) da Universidade Federal da Bahia (Ufba) recebe uma oportunidade desejada por muitos: produzir as animações da série “A Bicicleta do Vovô”, exibida na TV. Com ela, além de um belo trabalho para o currículo, mesmo antes de formados, poderiam reformar a estrutura da EBA com o dinheiro recebido pela obra. Mas, para isso, precisam de um CNPJ. É daí que surge a Alinhavo, empresa júnior da Escola. Estudante de Design e presidente da instituição, Carolina Albuquerque conta como foi o processo de criação da empresa. “A empresa júnior surgiu por conta do Núcleo de Animação [da EBA]. A gente queria fazer esse trabalho e tinha vontade de melhorar a escola. Seria um dinheiro legal que entraria para a gente reformar laboratórios, comprar equipamentos. Para receber o dinheiro da animação, a gente precisaria de um CNPJ. Por conta desse projeto enorme da animação, resolvemos criar a empresa. Para a gente, foi uma experiência fabulosa”, relata Carolina.

 

Para a estudante, é importante haver na EBA uma iniciativa como a Alinhavo, já que os alunos não encontram no ambiente acadêmico o incentivo necessário para produção na área. “O incentivo acadêmico ainda é bem pequeno e é movido, basicamente, por paixão. Em momento algum na universidade, a gente teve isso, ou pelas matérias que a gente tem, ou por laboratórios, nada disso”, lamenta. Ainda segundo Carolina, é fundamental discutir sobre o mercado na EBA, porque a Bahia acaba perdendo para outros estados a mão de obra qualificada para trabalhar com animação. “O mercado de animação é restrito, mas restrito porque não tem mão-de-obra qualificada para trabalhar nisso. A gente acaba produzindo e treinando pessoas que vão para outros estados e fortalecem mercados de outros lugares”, aponta. Depois da série, a Alinhavo trabalha agora em outra obra. Desta vez, um projeto autoral. “É um curta chamado ‘Quintal’, baseado na poesia do Manoel de Barros, um tributo a Guimarães Rosa. Fomos contempladas pelo edital da universidade. Estamos em momento de criação de arte, com roteiro pronto”, comemora.  


Neste cenário, a Caixa Cultural de Salvador apresenta, de sexta (6) a domingo (8), o festival Anima Mundi. Os baianos poderão conferir gratuitamente a versão itinerante do festival nacional com exibições de animações brasileiras e oficinas de animação para crianças.

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