Caetano, Ney e Djavan reagem contra ausência de ‘marchinhas incorretas’ no carnaval
Foto: Reprodução / IG
Alguns blocos do Rio de Janeiro e São Paulo estão dispostos a não colocar músicas consideradas incorretas no repertório do carnaval deste ano. O "Cordão do Boitatá", no Rio, decidiu reforçar os cuidados diante de sua proibição de tocar "O Teu Cabelo Não Nega", de Lamartine Babo. Os versos "mas como a cor não pega, mulata / mulata quero o teu amor", seriam os vilões da canção que não condiz com a realidade. Antes da discussão acerca das canções ter sido requentada pelos blocos, algumas das 140 rodas de samba cariocas já estavam “evitando” músicas consideradas socialmente inadequadas. "Ai que Saudades da Amélia", de Mario Lago e Ataulfo Alves, integra a lista das inexecutáveis. Os olhos verdes da mulata que aparecem na letra de "Tropicália", de Caetano Veloso, também foram hostilizados. Ao Estado de S. Paulo, o baiano diz: “Sou mulato e adoro o termo, é como o país é chamado em Aquarela do Brasil, que é nosso hino oficial. Sempre detestei ‘A Cabeleira do Zezé’ por causa do refrão 'corta o cabelo dele', que é repetido com incitação a um quase linchamento. Mas não tenho vontade de proibir nada”, afirmou o artista. Em São Paulo, alguns blocos se posicionaram a favor da medida, que tem o objetivo de não reforçar preconceitos. O compositor João Roberto Kelly, detentor de cerca de 100 marchas carnavalescas, todas fora dos padrões atuais, como "Cabeleira do Zezé", "Menino Gay", "Maria Sapatão" e "Mulata Bossa Nova", rebate. “Nunca vi um patrulhamento tão grande, nem no tempo da ditadura. Carnaval é brincadeira, meu querido. A gente goza do careca, do barrigudo, não podemos levar as coisas ao pé da letra” afirmou Roberto Kelly. Tom Zé afirma que ainda se assusta ao ver um sambista deixar de cantar "Amélia". “Puxa vida, mas ela era uma mulher tão dedicada, carnaval é a época de fazer tudo ao contrário, mas agora querem concertar o mundo”, disse o cantor. Tom compôs recentemente uma música sobre a Operação Lava Jato, com os versos "mas querem transformar a Lava Jato em Lava Rápido / homologo, logo, homologo / e o país nesse teatro / pisa num rabo de gato". Djavan não acredita na eficácia da ação: “Estão querendo mostrar serviço no lugar errado”, afirma o cantor. Para ele, o debate do reforço de estereótipos precisar iniciar na educação. “O racismo está ligado à falta de formação, desde sempre”, conclui o artista. Ney Matogrosso afirma que existe patrulhamento e aponta trechos de "Maria Sapatão" em que a mulher não é mal falada. “Estão gastando energia com coisa desnecessária”, completa o cantor. O pesquisador Tárik de Souza também opinou sobre o tema: “Ninguém pode ser obrigado a cantar o que não quer. Mas a volta da censura, mesmo que por razões consideradas nobres, é algo assustador. O carnaval tem sempre sentido anárquico e caricatural. Já pensou se forem revistar também as chanchadas da Atlântida, vetar os personagens malvados e politicamente incorretos dos folhetins de TV? Vamos acabar num quartel ou num colégio de freiras carmelitas?”. Outro profissional da área, Ruy Castro, faz uma reflexão sobre o termo ‘mulata’ nas canções: “Das dezenas de marchas que falam de mulata, muitas foram compostas por Assis Valente, Wilson Baptista, Haroldo Lobo, a dupla Zé e Zilda, Haroldo Barbosa, Monsueto Menezes e etc e, foram lançadas por cantores como Orlando Silva, Silvio Caldas, Aracy de Almeida, Carmen Costa, Ciro Monteiro, Moreira da Silva, Jorge Veiga, Angela Maria, entre ourtos. Todos mulatos. E não viam nenhum problema nisso”, concluiu.

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