Sábado, 09 de Abril de 2016 - 05:15

O amigo Estampilha

por Carlos Navarro Filho

O amigo Estampilha
Estampilha recebe o amigo com um largo sorriso, aponta o sofá e senta-se na poltrona em frente após os rapapés e abraços apertados de dois homens maduros, melhores amigos um do outro na adolescência e que não se viam há pelo menos quatro décadas. Ele está diante de um homem de estatura mediana, mais para pequeno do que grande, ainda esbelto, quase sem barriga, guardando vagos traços de beleza juvenil em uma cara vincada sob os cabelos brancos de quem já avançou nos setenta. Comparou-se em desvantagem. Também setentão, acha que não deu tanta sorte na preservação das linhas faciais, o que se tornou
Preocupação constante depois dos quarenta. Antes não tinha maior interesse, mas quando passou dos quarenta e o rosto começou a marcar, converteu-se em estudioso das linhas faciais. Quem não o conhece acha coisa de maluco o olhar vidrado na cara do outro. Às vezes perde o rumo da conversa. Às vezes muda de assunto deixando o interlocutor embaraçado. Em grupo, ou na mesa do bar, tem sempre o olhar fixo em alguém, nem pisca. Gaba-se de conhecer as pessoas desconhecidas pelos traços e rugas. Pé de galinha é sinal de alegria, de gente que ri muito.  Ele sabe quem é incompetente, quem se sente poderoso, quem é vulgar no sexo, quem é ranzinza, quem é valente. Na comparação com o compadre, Estampilha fez um balanço. Considera-se em pior estado no geral. Perde e ganha no nariz. O nariz, que já era grande, tem agora uma superfície irregular de casca de laranja. Mas em compensação nariz é sinal de poder. Nesse item está melhor que o compadre. Perde em outros atributos. Os olhos são miúdos, sem charme. O abdome é um barrigão de birita e gula de quem comeu muita tripa de porco frita, ovo cozido, miolo de boi, feijoada, sarapatel e outros badofes do bar de Zelito. Barriga é ponto para o compadre. Pensou, com uma ponta de inveja, meu compadre deu sorte na vida, é profissional respeitado na capital, bem apessoado, é capaz de ainda estar comendo gente por aí, eu não dou uma faz mais de cinco anos. Admirando o amigo, Estampilha lembra a distância de muitos anos entre eles, o compadre passou no vestibular sumiu da cidade e nunca mais voltou, só sabia dele pelo jornal, uma vez até tentou falar pelo telefone mas o telefone não falou. O tempo passou até um dia que o telefone tocou. Nem acreditou. Tanto tempo depois e a voz do compadre na outra ponta dizia “vou aí lhe ver”. Só disse “venha”, coçando-se de curiosidade. Como estará o compadre? O mesmo conversador de sempre? Mulherengo? Artilheiro do time da escola, mantém-se em boa forma? Eu não ligo pra essas coisas, mas será que ele é igual a uns e outros aí que pintam a unha de esmalte incolor? Usa fixador no cabelo? Imagens estranhas lhe assaltaram o pensamento. Agora o compadre está ali. Nem mais nem menos. Não ficou feio, mas as linhas da testa indicam que é um ser muito preocupado. Preocupado com o que nessa altura da vida? Ainda assim, somando e pesando tudo está o melhor dos dois. Mais bem vestido, cabelo penteado, barba em dia. Eu não ligo mais pra essas porras, às vezes passo a semana inteira sem me barbear. A mulher já cansou de reclamar. Meu tempo de me exibir arrumadinho já passou, quem quiser gostar que goste, quem não quiser gostar que não goste. Não quero mais preocupação, nada mais me esquenta a cabeça. Ando sem dificuldades, devagar por causa dos calos que me incomodam pra caralho, mas ando muito bem, dirijo meu carro, vou no botequim de Jonas, quando ela não me proíbe. Aliás é foda esse negócio de ficar velho. Vem mulher, filhos e agora até netos pegar a dar pitaco na sua vida. Cuidado. Tomou o remédio? Já comeu? Você não pode sair sozinho por aí, depois tem um ataque de labirintite e pode cair na rua. Você é velho, não pode negar. E eu engulo tudo na maior peia e sem poder mandar todo mundo à porra. Imagino que meu compadre passe pela mesma aflição, mas não passa recibo a não ser nas linhas da testa, coisa que pouca gente sabe. Eu sei. Ele sempre foi sabido, pode estar morrendo de raiva sem dar a menor pinta, nessas horas pode até sorrir. Lembro-me bem do dia em que na boca da noite, ele chegou atrasado e me encontrou atracado com Ritinha, a namorada dele. Pensei, o couro vai comer. Nada, o compadre só perguntou “o que é isso? Vai largando”. Saí de lado, meio encurvado, pra ele não perceber o volume no bolso esquerdo da calça, e caí fora. O que ele conversou com Ritinha eu não sei, mas a nossa amizade falou mais alto. Pode acreditar. Foi assim. Mais tarde nos encontramos no jardim do Paço Municipal, no mesmo banco de sempre, e recebi a maravilhosa proposta: “tá bom, nós dois podemos namorar com Ritinha. Eu fico das sete às oito e você de oito às nove. Ela tem que entrar às nove porque a mãe não a deixa dormir tarde. Já combinei tudo com ela”. Se eu já gostava do compadre passei a amá-lo muito mais naquela hora. Sempre tive uma queda por Ritinha, mas sempre cheguei depois, agora recebia aquela dádiva inesperada. E com uma imensa vantagem, o compadre sempre foi mais atirado. No segundo dia de namoro já pegava na mão, em no máximo 10 dias beijava na boca. Eu sempre fui encabulado e paguei por isso. Esperava a menina tomar a iniciativa e só fazia o que ela começava, ou insinuava. Algumas não tomavam iniciativa e acabavam o namoro. Tinha umas apressadas que não esperavam nem duas semanas. E eu ainda passava por frouxo. Perdi namoradas pela minha lerdeza. Logo eu o melhor dançarino da cidade. Melhor dançarino jovem. O primeiro de fato era Walter, um senhor que tinha as pernas duras de paralisia infantil. Reinava absoluto e quando rodopiava no salão, ao som daqueles bolerões, o clube parava pra ver. Elegância inigualável, tronco ereto, somente as pernas duras moviam-se com a leveza de um solista do Bolshoi e a luxúria de uma rumbeira de circo. Poucas moças tinham com ele o privilégio de partners, apenas três em toda a cidade, vez em quando chegava uma amiga da capital...
Felizes com a ótima solução para o que pensei ser um problema a me corroer a cabeça naquela eternidade de tempo em que esperava o compadre no banco do jardim, e que poderia causar perdas e danos a nós dois e à menina, fomos dividir um guaraná Fratelli no bar da estação da Leste, porque nós também não podíamos passar de dez da noite na rua. Era a lei e descumpri-la, aí sim, teríamos um grande problema. Na minha casa eu era obrigado a optar por um banho de cuia gelado no tanque de água de chuva ou uma dúzia de bolos de palmatória.
- E aí compadre? Pronto para o bordejo nos bares como nos velhos tempos?
- Não vai dar. A madame preparou um feijão, comprou umas cervejas, estão geladinhas desde ontem.
- O que é isso? Você sabe que a gente nunca bebeu em casa.
- São outros tempos.
- Outros tempos uma ova, as duas já foram apresentadas, a gente as deixa aí, diz que é só um instantinho, diz que a gente vai ali na casa de Aluizinho. E para demonstrar nossa boa intenção a gente vai a pé.
- Não sei se vai colar, falou Estampilha e saiu em busca da mulher que mostrava a casa à visita.
Após um tempo, voltou sorridente, embora um tanto preocupado.
- Deixaram, mas só até uma da tarde. Se a gente não voltar vão caçar a gente na cidade. Se a gente sair a pé vai perder um tempão.
- Coisa nenhuma compadre, são dez e meia. A gente pega carona fácil, fácil...
Sem muito entusiasmo Estampilha concordou e saíram, deixando as mulheres postadas no portão.
 
 

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