Sábado, 27 de Fevereiro de 2016 - 05:05

Prioridade na fila

por Carlos Navarro Filho

 Prioridade na fila
Mateus jogava praga em seus botões, embora estivesse de camiseta e bermudas sem botões, mas não tinha importância praguejava contra eles assim mesmo, já muito irritado com a fila de prioridades à sua frente, que aumentava na proporção direta do tempo que estava esperando para fazer um pagamento na loja de Loteria Esportiva.
Cidade do interior parecendo capital, parecendo metrópole com as ruas cada vez mais cheias de idosos, em alguns locais, ruas e praças atulhadas de idosos.  Isso o irritava profundamente. Mateus sempre foi covarde e dominado pelo pai. Tinha cuidado de não vazar suas emoções e sentimentos, entretanto se alguém permanecesse ao seu lado era certo que o flagraria, em algum momento de descuido, nas costumeiras pragas em idosos e diagnosticaria velhofobia, ou doença mais séria ainda.
Na titica de inteligência de Mateus, idoso devia quedar em casa, boa romaria faz quem em sua casa fica em paz, os mais velhos repetem isso que nem mantra, as ruas são perigosas, o trânsito de veículos piora a cada dia. Porque teimam em vir para a rua atrapalhar a vida dos outros? Irado, na fila, repetia a pergunta aos botões que não tinha. Envergonhava-se de não ter peito para gritar a raiva que o queimava feito fogo de monturo por medo de pagar mico e quem sabe até levar uns catiripapos de algum defensor de idoso, o que existe muito na atualidade porque é politicamente correto. Contudo, para tentar satisfazer o ego e mostrar-se macho fechava a cara ostensivamente e fazia abanos negativos com a cabeça toda vez que um velho se apresentava no caixa. Ninguém lhe dava qualquer atenção. Porra, se fosse em outro local tudo bem. Mas aqui só se vem jogar, eventualmente pagar contas e mais eventualmente ainda sacar dinheiro, que isso aqui já está quase virando banco. Como é que tem prioridade para quem vai apostar em jogo? Daqui uns dias vai-se querer ter prioridade em puteiro. O sujeito chega e desafasta o garoto com uma carteirada, mostra que tem mais de 60, tem preferência, e o obriga a procurar outra. Satisfeita, a moça gosta da atitude, mais satisfeita ainda porque vai receber o numerário sem problema. Menino dá um trabalho danado, discute, regateia, nunca tem o dinheiro certo. Prioridade em lupanar seria uma grande derrota para os mais jovens. Quem é besta de trocar o certo pelo duvidoso?
- Vem meu tio.
- Mais respeito, você verá o seu tio daqui a pouco.
- É nenhuma, só brincadeira pra descontrair. Paga um uísque?
- Pago, pede dois, também quero.
- Sandoval, aquele 12 anos do bom, diz ela virando-se para o homem atrás do balcão no bar.
- O de sempre?
- O de sempre.
Sandoval pega na prateleira um uísque dengado, abaixa-se sob o balcão e enche um copo longo com gelo de guaraná, misturado com alguma coisa que ele não abre a receita. Tem álcool, mas quase nada.
A moça não tem pressa em discutir o michê. Primeiro tentará fazê-lo beber pelo menos uns três uísques, é a norma da casa. Mulher boa é a que faz o cliente gastar no salão, é o que dá lucro.
 
Feliz com a história de que prioridade “é lei”, está satisfeita, vai ganhar o dia. Com a extensão da prioridade ao serralho a coroada ia deitar e rolar, principalmente com as mais belas, em um ambiente em que beleza aquilata-se pela idade. Em prostíbulo, menina de 25 anos já está em tempo de aposentadoria, se tiver talento abre o próprio rendez-vous. Sorte tem as que trabalham fora dali. É comum vê-las, até com mais idade, muito belas e bem tratadas, estudadas, formadas, aliançadas, competentes nos braços de senhores decentes, em ambientes chiques e requintados, hotéis cinco estrelas, iates, festas exclusivas. Em Brasília, que fica a menos de duzentos quilômetros da cidade, o mercado de trabalho é turbinado com os eventos oficiais, as recepções. Aqui nessa cidade bisbilhoteira muito velho ia ser reconhecido na zona e não ia pegar bem, a família ia chiar, além de levar bronca das filhas e de parentes caretas, há o perigo até de ser interditado pelos herdeiros. Na capital federal seria tudo tranquilo.
Por um instante, pensando na formosura das profissionais de Brasília, Mateus substitui a raiva incubada por inveja da possibilidade de furar uma fila de mulheres belíssimas. Te desconjuro, logo se recompõe, lembrando que é feio e mora longe.
A fila andou mais três posições. Muito pouco, levando em conta que ainda havia quatro clientes preferenciais bloqueando o restante. Eram dois caixas, mas o sistema  caía a toda hora, o pessoal da lotérica não primava pela agilidade no atendimento. Estava de bobeira, mas já batia meia hora esperando e deveria esperar mais não sei quanto tempo. Entre ele e o caixa postavam-se doze pessoas. Carrancudo e ensimesmado sequer riu do comentário jocoso de um gaiato mais atrás sobre o atendimento aos idosos. Lá na frente um senhor de boné ouviu e retrucou, falando alto.
- É fácil acabar com isso, o senhor manda matar os velhos e nós não seremos encontrados nas filas.
As demais pessoas olharam para o gaiato com ar de reprovação, mesmo as mais próximas fixavam-no sérias, zangadas, algumas olhando com ar de desalento o autor de tamanha estupidez. A única aprovação, silenciosa e raivosa, era a de Mateus.
O reclamante da frente da fila continuou a falar alto, a perguntar se o gaiato não tinha pai e mãe, ou se estava esquecido de que um dia poderia ter mais de 60 anos também. Nesse ponto a reprovação ao gaiato transformou-se em burburinho, deixando-o incomodado, sem saber para que lado olhar, sem ter a quem pedir apoio.
- O senhor está certo senhor. Tem muita gente sem educação doméstica, gente que não respeita os mais velhos, não respeita grávida, não respeita deficiente, não respeita crianças, não respeita ninguém.
Era uma jovem franzina, na casa dos 20 anos, óculos de grau, segura de si e firme no discurso. Lembrava a figura de uma líder estudantil, ou líder na luta de gênero.
Temeu-se pela sorte da garota se houvesse revide do ofendido. Engano. Ela acendera um rastilho de pólvora. Logo outra mulher aproximou-se e deu apoio. Mais outra se juntou a elas. A essa altura dois dos primeiros da fila haviam se aproximado igualmente para engrossar a reação. Um princípio de tumulto desestruturou o ambiente.
Sem saber o que fazer, isolado, o gaiato, um sarará de no máximo 30 anos, alto e forte, bateu em retirada rapidamente sem esconder um sorriso amarelo, sem graça. Na calçada ainda se virou e fez menção de voltar, mas logo desistiu de tal intento ante a presença pouco simpática do segurança atraído pelo vozerio dentro da loja.
Mateus, moralmente abatido, mas não menos irritado, alinhavou uma desculpa com o cidadão que o seguia na fila e também foi embora de cara feia.
A fila voltou ao normal

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