Sábado, 03 de Fevereiro de 2018 - 05:03

A CRÔNICA PROVOCOU UMA HECATOMBE

por Carlos Navarro Filho

A CRÔNICA PROVOCOU UMA HECATOMBE
Foto: arquivo pessoal
Sabemos que há pênis de vários formatos, tamanhos, cores, há o pênis torto para o lado que o uso deve de ser cuidadoso e com muito talento para não sair entortando por onde passa, há o pênis entortado para baixo que nem uma daquelas abóboras de cor verde, parecendo uma cabaça invertida que não sei o nome, não menos trabalhoso de uso, há o pênis empinado parecendo crista de girafa, que deve dar uma dor danada no baixo ventre do usuário para encaixar no devido lugar, há os pênis grandes que são os preferidos por onze entre dez usuários aconchegadores, há o pênis curto e gordinho que os interessados também não jogam fora, e há o pênis pequeno. Este é uma tragédia igual a que é a falta da visão, a falta de uma perna ou a falta das mãos, ou de qualquer outro órgão, e sobre o qual uma brilhante jornalista recentemente escreveu uma miséria que fez vários portadores do dito cujo atirarem-se do alto de prédios, além de uma multidão incalculável de outros prostrarem-se em severa depressão, demandando um estouro farmacêutico em busca de medicamentos apropriados para combater a dita depressão, elevar a moral e propiciar ao cristão a possibilidade mesmo que remota de levantar e dar a volta por cima, medicamentos porém para servir apenas de paliativo porque todas as tentativas de ganhar alguns centímetros, propagandeadas em revistas, abundamentemente pelo e-mail, prometendo as mais diversas formas e atividades de progressão com medicamentos, esticamentos e, lá ele, até operações para cortar no pé do umbigo e garantir um adjutório que varia de 4 a 7 centímetros a depender do talento do cirurgião, do laboratório do remédio ou do personal training, quiçá fisioterapeuta, urologista e mais um variado leque de profissionais, inclusive profissionais do sexo que divulgam os afazeres nos jornais e blogs especializados prometendo milagres e não dão detalhes do tratamento pois todo mundo sabe, ou intui, e disso não precisa realmente dar muita explicação para não parecer vulgar o citado tratamento de cunho operacional científico.
A coisa terrível que a jornalista fez foi discorrer impiedosa durante umas 50 linhas sobre a opinião das mulheres sobre os homens desprovidos e mal aquinhoados pela sorte, afirmando cruelmente que nenhuma mulher gosta e o máximo de opinião favorável que dedicaria um indigitado desses, portador de excepcional talento, daqueles que gastam umas três horas nas preliminares, quiçá adeptos do pompoarismo, seria uma benévola frase tipo “apesar de”... Agora vejam o aperreio que acomete a um cidadão que passou por treinamento intensivo, fez individual por duas semanas que nem jogador de futebol, levantou peso (com as mãos), fez cansativos pique no lugar, apoio ao solo, pagou cangurus, repetitivos tiros de 50 metros, e até um remedinho tomado por alguns mais prevenidos, e depois saber que não passou do “apesar de”... Isso dói.  E uma dor para sempre secreta porque ninguém é besta de reclamar de ninguém, sob pena de a emenda sair pior que o soneto e virar assunto público o “apesar de”...
Por essas e outras que uma organização educacional na área de saúde pública promoveu uma campanha contra doenças sexualmente transmissíveis, tendo por foco o uso de camisinhas. E para a execução do trabalho precisou comprar 300 pênis de borracha para ilustrar as aulas de uso do equipamento acessório, ou seja, a ação de por e retirar as camisinhas nos ditos cujos. Por pouco não se irradiou no escritório um conflito de sérias consequências, quando o chefe do almoxarifado, repartição na qual só trabalha homem, conferiu as especificações do pedido de compra feito pela diretora pedagógica. Havia alguns itens sobre os quais o pessoal se rebelou geral, especialmente o das medidas.
- O que ela está pensando, com esse padrão aí só se for ator pornô. Uma entidade pública não pode fazer discriminação contra a maioria absoluta dos cidadãos, protestou Geraldão, o chefe do almoxarifado.
A reação da diretora pedagógica não foi das melhores. Disparou um memorando mandando Geraldão procurar a praia dele, e dizendo que não se intrometesse em decisões que não lhe diziam respeito e muito menos em assuntos sobre os quais tem pouco conhecimento.
Geraldão ficou uma arara, principalmente no tocante à falta de conhecimento e replicou com outro memorando um tanto agressivo, ameaçando convocar uma assembleia na ONG, de maioria masculina, e nessa assembleia geral discutir o assunto.
A diretora consultou as colegas em uma rápida reunião sem pauta prévia e chegou-se ao consenso que com o machismo e o chauvinismo dos colegas seria melhor negociar.
Memorandos foram trocados e repetidas reuniões realizadas durante uma semana porque faltava pouco tempo para o início da campanha.
Ao fim e ao cabo o entendimento venceu, pacificaram-se as posições, menos uma da qual a diretora pedagógica não abriu mão: os pênis teriam de ser morenos.
Os homens acederam até porque estavam ganhando de 5 a 1, elas atenderam a quase todas as exigências. E a compra foi feita.
 

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