Sábado, 23 de Dezembro de 2017 - 11:25

JOÃO DA ROÇA VELHA

por Carlos Navarro Filho

JOÃO DA ROÇA VELHA
Foto: Arquivo pessoal

 Aos 101 anos, João da Roça Velha é um caboclo forte, atarracado, bugre terceira geração de tupinambás, cor de bronze. Só os cabelos brancos e os dois grandes vincos entre o nariz e as maçãs do rosto denunciam a idade avançada.


Baixinho, gosta de mostrar os muques para os bisnetos, lembrando que trabalhar na roça, além de guiar mula de tropa por aqueles sertões, o deixou de braços fortes. O vozeirão de barítono a criançada da casa justifica informando que o velho engoliu um besouro mangangá quando jovem. Seu João estava ali matutando como é que, perto da hora da morte, ia perder suas terras pela terceira vez na vida. Aconteceu a primeira vez quando era menino no Boqueirão, no sopé da Serra do Vitorino, bem longe dali, e sua família foi escorraçada e obrigada a mudar-se para a Roça Velha, que tinha esse nome porque lá, um dia, acharam enterrados potes de cerâmica e machadinhas de pedra de alguma antiga nação indígena, a quatro léguas do Sítio Novo, hoje Paraguaçu.
 

Chegou com o irmão Dércio, combinou com o coronel Mourinha Medrado e se instalou. Arrendara 200 tarefas de caatinga. Enviesada de morros, a terra não servia para nada, mas tinha a vantagem de duas nascentes, o que garantia a água de beber da família e da criação. Construíram um caramanchão de sopapo coberto de palha e voltaram para buscar as mulheres e os filhos.


Dércio, ainda não os tinha, casara pouco antes de viajar. João tinha três meninas: Zinha, oito anos, Joaninha, a mais velha, com nove, e Nega, a do meio, também com oito anos. Além delas, dois meninos menores: Francisco, sete anos, e João, que ia completar seis. Arrearam dois jumentos e duas mulas, encheram os caçuás com as tralhas que tinham, levaram carne moqueada, água e frutas para três dias de viagem.
 

– Os dias de começo na Roça Velha foram mais duros que os costumeiros na vida da gente. As meninas dormiam na tarimba de varas de araçazeiro, a gente no chão de barro batido. O caramanchão foi levantado entre dois morros, de frente pra um amplo terreiro, no qual se amarravam as montarias e se arranchavam os forasteiros. Aqui todos trabalham no milho, mandioca e feijão, até as meninas. Sol raiando e nós pegando o caminho da roça. Quando o dia levanta, João se afasta dos demais e some entre os lajedos com a espingarda de socar. Se se ouviam tiros, todos ficavam felizes, porque vai ter almoço com carne, quase sempre de mocó ou preá, para dar gosto ao feijão com farinha.
 

– A subsistência é garantida mesmo pelas leiras ao lado da casa, plantadas de verduras, batata-doce, abóbora e feijão-de-corda. Dois anos depois, a gente já tinha duas casas boas de taipa, reboco e cobertura de telha. Dércio foi embora pra João Amaro. A última safra de milho gorou e o ganho não chegava pra dar de comer a tanta gente e pagar ao coronel no mês de abril. Eu já tinha sete filhos, vieram mais dois machos, e não quis acompanhar meu irmão. Ali eu tinha água, eu matava a fome nas leiras na porta de casa.
 

– As meninas é que cada vez mais morriam de saudade do Boqueirão, que tanto malqueriam quando lá viviam. Agora, além do trabalho duro no plantio, ganharam dois gagués pra cuidar, dar banho, trocar o cocô e carregar pra todo lado escanchados na cacunda. Zinha, a mais nova, era a que mais reclamava, porque as mais velhas sempre lhe davam o trabalho pior.
 

– Era melhor tratar arroz no Boqueirão, o que ela mais odiava, do que ficar naquela catinga cuidando de menino pequeno e plantando mandioca sob um sol infernal. Até hoje, não gosta de arroz por causa do trabalho que dava pra colher. Entrar naquele charco infestado por sanguessugas, quando elas grudam nas pernas não pode tirar, deixa elas próprias se soltarem depois da barriga cheia de nosso sangue, continua a cortar o arroz, enrolar os feixes nas esteiras de licuri, quatro dias depois dá uma febre e o arroz se solta da palha. A outra maneira, mais trabalhosa, era bater o arroz, como fazia com o feijão, depois deixar no sol a secar, e depois de seco encher a sacaria.
 

– Ô Zinha, para de pensar na vida e vai dar água pro Lu, não vê que o menino tá chorando? Não adianta a aporrinhação da mãe, a menina não esquece o Boqueirão, onde podia comer carne de boi. Aqui o coronel não deixa criar boi, só bode e porco. No Boqueirão, tinha fartura de tudo. Aqui, é caatinga, não chove. Zinha engoliu uma piaba viva para nunca mais ter sede na vida. Até hoje, já velha, não bebe água.
 

Na casa de João se produz quase tudo. Pouco se compra, porque não há dinheiro nem o que comprar, à exceção do sal e do café, com o resultado da vendagem na feira de Sítio Novo. O dinheiro apurado na feira é destinado ao fundo do baú para saldar a dívida anual com o coronel.
 

– Na Roça Velha chove pouco, é muita seca a estragar a plantação. A gente não passa fome porque as nascentes garantem a água de beber e das leiras. O nicuri é nativo, produz o ano todo. Além do coquinho que a molecada adora comer, dele Maria José, a mulher de João, com a experiência do Boqueirão, faz o óleo das lamparinas da casa e para mover os dois motores de meio cavalo, que João adaptou na moenda de cana e na casa de farinha.
 

– Esse óleo é providencial, porque o querosene vendido na vila custa uma fortuna. Vem gente de longe ver os pequeninos motores, modernidades da Roça Velha trazidas pelo lavrador da Serra do Vitorino. Plantação de grandes roças aqui não tem, mas tem garantia de comida e bebida, com boa água e verduras, mais o bode, o porco, a galinha de quintal.
 

Ainda assim, Zinha não esquece o café plantado no Boqueirão, a casa grande de adobe, rebocada e caiada, estocada com três quartos cheios de sacas de grãos, abóbora, banana. Às crianças a Roça Velha ora encantava, ora metia medo. À noite, vinha onça suçuarana, pintada ou preta atacar a criação.
 

João perdeu muito sono para espantar as feras e proteger os cabritos. Conta que abateu algumas. A suçuarana é bicha malvada. Se tem presa fácil, quase sempre mata e não carrega, apenas chupa o sangue.
 

– A gente comia os cabritos que ela matava. De bom, havia as abelhas uruçu, mandaçaia, jitaí, munduri, de ótimo mel e muito mansas. Não picam, não é preciso fogo ou fumaça pra colher os favos. Mas Zinha não gostava de abelhas, porque ela e os irmãos eram obrigados a comer mel o dia inteiro, no chá, no café, com farinha, com mamão, com abóbora, com aipim. Mel já tinha virado remédio.
 

João viveu 11 anos na Roça Velha. Teve mais nove filhos. Zinha casara cedo, primeiro com um fazendeiro, que morreu logo, e depois com o telegrafista. Morava na Vila de Paraguaçu, atual nome de Sítio Novo. Na grande seca de 49, João foi expulso mais uma vez.
 

O coronel queria obrigá-lo a produzir pó de palha de licuri.
 

Em toda a vastidão das terras dos Medrado, léguas e mais léguas doadas por decreto imperial, os posseiros eram obrigados a produzir pó de palha. O coronel era o único comprador. Ditava opreço e punia severamente quem tentasse vender a terceiros. O populacho não sabia para que aquilo servia. Alguns tinham sido
informados que o pó de palha seria cozido em alta temperatura, transformado em celulose e depois em galalite.


Era uma novidade, porque se dizia que a galalite fazia copos e bacias que tomariam o lugar das gamelas de madeira e dos apetrechos esmaltados ou de cobre. Os primeiros, importados da capital, os segundos, fabricados e vendidos pelos ciganos.


João não era catador de palha e vai se recusar. Já devia um ano de arrendamento, a seca não o deixava pagar, quando numa segunda-feira apareceram por lá dois homens a serviço de Mourinha e deram o aviso:
– Ou faz pó de palha ou vamos tocar fogo em tudo.


– Voltem lá e digam ao coronel que ele não mande vocês não, que são tão pobres quanto eu. Ele mesmo venha tocar fogo.


Na manhãzinha de quinta-feira, corre a notícia na vila que os jagunços de Medrado desocuparam a Roça Velha à bala. Zinha, casada fazia três anos e com um filho, selou um cavalo no quintal de casa e saiu sem avisar ao marido.


– Eles não sabem com quem estão se metendo. Se botar meu pai na rua, esse coronel não vai gostar do que vai ver. Lalinho que resolva depois com ele.


Por um caminho que poucos conheciam e no qual não seria interceptada, trotou escondendo sob a saia a espingarda 20 de caça do telegrafista e uma caixa de cartuchos. No caminho, sentiu- se culpada pelos problemas da família, enquanto ela vivia no bem bom, uma casa grande que parecia um palácio, na rua principal da vila.


– Acode, Seu Carlos, que Dona Zinha saiu esbaforida a cavalo pra Roça Velha.
 

O jovem telegrafista só então inteirou-se da notícia que passava de porta em porta e correu à casa do coronel. Havia duas autoridades na vila. O próprio coronel, que era dono de tudo, e ele, funcionário público federal, chefe dos Correios e Telégrafos emuito respeitado por ser o escrevinhador das cartas locais, inclusive para pessoas da família do coronel Mourinha. O coronel confirmou a escaramuça, mas jurou que não tinha autorizado a desocupação da Roça Velha.
 

– Mas o ilustre telegrafista precisa entender que o sogro está devendo dois anos de arrendamento e se a notícia espalha ninguém mais vai querer pagar.


Meia hora de cavalgada depois, Zinha, aliviada, encontra a família sã e salva, mas no campo de batalha, entrincheirada ladeira abaixo a uns 200 metros de casa, atrás de dois lajedos, um em cada lado da trilha principal, para muitos a única, dentro da Roça Velha.
 

João, no vigor dos seus 40 anos, mais uma vez, contava só com as mulheres da família. Joaninha e Nega estavam a postos, a primeira com uma espingarda de passarinhar. Dos homens, apenas Francisco e Lu tinham condições de luta. Avelino migrara para Minas Gerais. Com os meninos e as meninas menores ele não podia contar. Desde que desacatara os jagunços, João sabia que eles voltariam.
 

O coronel não era homem de engolir desaforo. Preparou-se naquela tarde com o seu arsenal de duas espingardas de socar, uma de dois canos destinada a matar onça e bicho grande e outra calibre 32, quatro facões Solinger, seis foices.


Não adiantou Maria José rogar para que todos fossem embora de uma vez, pelo menos salvariam a vida dos filhos. Jagunço não perdoa. Quando vem, destrói tudo, não deixa ninguém pra contar história.


– Ah, seu menino, eu estava acuado. No dia seguinte, saí cedo com as meninas maiores e Lu. Já havia escolhido o melhor lugar de barrar a passagem deles. Eles não conheciam a trilha do Canto da Pedra. Era secreta, um atalho por dentro do mato de uma propriedade vizinha. Por duas vezes, João se levantara à noite para se preocupar sozinho e chorar longe de Maria José e dos filhos. Mas o que estava feito, estava feito. Os homens iam voltar, ele tinha que defender a família.


A uma distância que garantiria sucesso na estratégia de um recuo seguro até em casa, João escolheu o lajedo do lado direito da trilha, que permitia guardar o caminho mais ao longe. Ficou ali com Francisco e uma espingarda e postou Joaninha e Nega do outro lado, em uma pedra mais alta, que dava melhor proteção. Os facões com ele e as foices com as duas moças. Os quatro começaram a rezar o rosário em voz alta, com Joaninha puxando as ave-marias e os pai-em-nossos.


O dia clareou, o sol subiu e já estava João acreditando no milagre da desistência do coronel, quando ouviu, distante, o tropel.
 

Subiam a trilha a cavalo, quantos serão? Um súbito pavor o acometeu, começou a tremer, por um instante as pernas travaram, duras que nem pau. Ele, estático, de cara na pedra, os filhos, olhando-o, assustados. Foi tudo muito rápido. A tremedeira passou, entregou-se a Deus e gritou:


– Joaninha, o primeiro tiro eu dou. Você só atira quando eu mandar.

 

João apontou a arma para a curva da estrada onde os cavaleiros iam aparecer e agora já tinha virado fera, não se importava mais com terras, família, vida. Se aqueles miseráveis aparecessem iam comer chumbo. Puxou o cão do gatilho e esperou. Logo o tropel aumentou, o poeirão subiu. Os homens vinham a galope dar a João o prazo de uma semana para ir embora, sem estragar os roçados, os pé de nicuri, nem as nascentes d’água.
De repente, eles ouviram um tiro, um estrondo que parecia de clavinote, e o ricochete do chumbo nas pedras a poucos metros dos cavalos. Instintivamente, puxaram as rédeas, um dos cavalos empinou e o homem caiu de cara nos espinhos de cabeça-de-frade, deu um grande grito. E fez-se o silêncio.


João não tirou os olhos da poeira, enquanto pedia bucha a Francisco para começar a recarregar a espingarda. A poeira assentou, gente não apareceu, mas se ouviu uma voz grave gritar:
 

– Seu João, pelo amor de Deus, nós viemos em...
 

Não chegou a dizer a última palavra, outro estrondo. Autorizada pelo pai, Joaninha dispara. Logo a seguir, mais um tiro...
 

A poeira sumiu e com ela os homens e os cavalos. Jagunço de coronel só é corajoso se tiver armamento e em número bem maior que o inimigo, de cinco para um. Ele não tem causa, luta pelo salário e só é destemido na presença do patrão ou do seu capataz.


Retornaram à vila com o rabo entre as pernas, um deles com a cara quebrada na queda e furada de espinhos que por pouco não lhe custou uma vista. Queriam voltar à Roça Velha, pelo menos uns 15 homens, todos bem armados, e chefiados, quem sabe, pelo próprio coronel, ou por Inácio, o capataz, para tocar fogo nas casas e expulsar o matuto.


– Se resistir, morre junto com a família.
 

Não entraram na rua principal, contornaram e foram direto à casa da fazenda, quatro quilômetros adiante, na beira do rio. Relataram a emboscada ao capataz, uns oito homens bem armados, despejando fogo, mais de 30 tiros de carabina e clavinote.


Surpreso com o exército recrutado por João, que só tinha três filhos rapazotes e um deles estava viajando, Inácio correu à vila a procurar Mourinha. Combinaram juntar o pessoal e só depois de dois dias voltar à Roça Velha.


Primeiro, o ataque traiçoeiro que por pouco não tirou a vida do coronel, mas deixou ferimentos na sua pessoa, tinha que ser comunicado por telegrama às autoridades na cidade da Bahia, para só então a vítima agir em legítima defesa.


– A propósito –, diz o coronel ao telegrafista –, eu ia pedir, mas não vou mais, pra postar uma mensagem à capital contando essa história. Mas como estou recebendo a garantia de que o senhor resolve o problema, se o seu sogro sair em uma semana esqueço tudo e perdoo a dívida, em consideração ao senhor, que é um funcionário federal de alta inteligência, a quem eu tenho o maior apreço.


Com a palavra dada do coronel, o telegrafista pegou montaria e saiu no caminho da Roça Velha. Ia buscar sua mulher e tentar convencer João a procurar outro lugar para morar. Poderia ser numa fazendinha de sua propriedade perto da vila, até definir o rumo definitivo.


Subia o mesmo caminho dos jagunços e só não levou tiro porque não galopava, vinha num trote manso, sem fazer barulho nem levantar poeira.
 

A conversa de Zinha com o pai e os irmãos na trincheira foi interrompida por um assustado Francisco, que não conseguia falar, apenas apontava para um cavaleiro que aparecera na curva do caminho, pouco antes do meio-dia.


Antes de o alvoroço contagiar a todos, Zinha gritou:
 

– Fica tudo quieto, é o meu marido. O que ele vem fazer aqui, meu Deus, podia ter levado tiro. Será que não conhece o caminho do Canto da Pedra?


Zinha já não estava mais ali, descia a ladeira correndo para encontrar Carlos. Ele apeou e subiram conversando sobre onde seu pai conseguiu tantos homens e tantas armas e botou a jagunçada para correr.
 

– Só tem ele, Joaninha, Nega e Francisco.
 

– Disseram ao coronel que eram mais de 10 homens, e tudo de clavinote na mão.


Calado, João ouviu os pedidos do genro e as reclamações de Maria José.


– Meu genro alugou o único caminhão das redondezas e fiz duas viagens a João Amaro, povoado pertinho, e fiquei na roça do primo Odoniel, terra também dos Medrado. De lá, andei por este mundo de meu Deus, fui pro São Paulo, Paraná, voltei pra Serra do Vitorino e faz seis anos que cheguei aqui, acompanhando Afonso, meu caçula, que é um aventureiro. Isso aqui também é muito ruim. Eu já estava pensando em ir morrer em outro lugar, porque depois que Maria José se foi, pra mim qualquer lugar é bom de morrer.

Histórico de Conteúdo