Sábado, 16 de Dezembro de 2017 - 05:27

Martin: Memórias de um judeu favelado (II)

por Nelson Cerqueira

Martin: Memórias de um judeu favelado (II)
Foto: arquivo pessoal
Jantar 1 (final)

A paisagem de capim incluía erva daninha; azedinha, que as crianças adoravam comer: uma frutinha verde, da família dos berries; o gado, cabritos e carneiros pastando além do cercado da casa. A árvore em frente à casa de meu avô, no interior da Bahia era centenária; o rodete de mandioca puxado a boi fazia um barulho metálico e orquestrado. Enquanto a mandioca era prensada, saia um leite branco que depois viraria tapioca, para fazer beiju, puba, carimã e várias alternativas. A parte mais sólida era refinada e levada a um forno enorme, com lenha e chamas, embaixo. Alguém ficava mexendo a parte sólida de grãos minúsculos que, aos poucos, ia virando farinha. Havia uma bem fininha e outra mais grossa. Todo mundo gostava do primeiro punhado de farinha que saia do forno, principalmente a mais fininha. Era igual ao primeiro pão.
Menino de sete anos, Martin montava, cavalgava, seguia os passos do avô. Aos domingos, ia para a feira de animais, ouvir o avô fazer negócios. Era uma espécie de intermediário de produtos. Comprava, vendia, revendia, até que no final do dia estava com o dinheiro desejado. Mas a volta, quatro horas de cavalo, era arrasadora, cansativa e dava vontade de dormir no caminho.
-- Além disso, a paisagem de mandacaru, umbuzeiro, e gravetos ao invés do verdor das árvores era tão monótona que não sei como não caia do cavalo. Ainda bem que haviam os caçuas dos dois lados e que poderia cair dentro e não no chão duro, pensei várias vezes naqueles roteiros.
Havia os que não pagavam os débitos, recorda.
 Praticamente, não possuía anotações dos seus primeiros anos e essa parte da história está baseada em seus rascunhos da narrativa de número quatro, quando tentava escrever suas memórias, sendo assim bastante fragmentada e, às vezes, uma versão nega a outra,  mas vamos organizando enquanto lemos. Essa é aventura dessa narrativa, pensei comigo mesmo. Diferente de reportagem de jornal.
A lembrança de Martin é muito boa, contudo o seu nível da fantasia e idealização dos primeiros anos não parece separar o rio da realidade e dos contos ouvidos pelos avós. Ele quase nunca fala dos pais, nessa fase da vida. Vive uma realidade anterior, quase mítica, sobretudo vinvulado a seu avô paterno, que possuía mais domínio da tradição e prazer em reproduzi-la, falando hebreu que ninguém aprendeu. Só alguns termos da cultura religiosa.
--Ah, os que não pagavam os débitos, ou trocavam por boi, bezerro, fumo, na safra seguinte!
Martin só veio ouvir falar de inadimplentes muitas décadas depois quando possuía uma escola de línguas aonde oferecia inglês, francês, alemão, italiano e espanhol. Só tinha cinco alunos de alemão, mas os inadimplentes maiores estavam no curso de inglês que todo mundo queria aprender, mas achava que a escola do Martin deveria ensinar de graça. Assim, não pagavam as mensalidades. Que sufoco! Cobrar era difícil, mas tinha que tentar; afinal pagava o aluguel das salas e pagava os professores de língua. Ninguém trabalha de graça e ninguém quer saber de inadimplentes.
E Martin anotou mais de 30 casos de queixas trabalhistas infundadas. Pagava tudo, recolhia, mas quando a pessoa saía, corria para a denominada justiça do trabalho, alegando horas extras, dias extras, tudo extra, vida extra. E muitas vezes, ganhavam, mesmo alegando que trabalhavam 70 horas por semana. Há uns vinte anos, Martin comenta como é caro empregar alguém no Brasil e há muitas anotações comparando com o custo trabalho nos Estados Unidos e até na Escandinávia, cinco ou seis vezes menor.
--Bota esses caras na prisão, Martin! Denuncia nas empresas que cobram de inadimplentes de qualquer forma, até na marra, orientou Neila das Dores, a secretária da Escola.
Mas Martin, no idealismo de seus vinte e dois anos, não queria nada radical. Era a favor da diversidade. E do direito de decisão pessoal sobre o que fazer de cada um.  Assim, ia levando seus inadimplentes numa boa e tentando receber, com calma. O que não recebia jogava em fundo perdido e continuava dirigindo seu carro de duas portas, com mais de cinco anos de idade e muita ferrugem e visitas às oficinas mecânicas.
O tio Jacob é que ensinara ao garoto as primeiras letras e os primeiros números. Gostava mais de ensinar números, assim Martin foi bom em tabuada, desde os primeiros cinco anos. Quando entrou na escola já era fera. Agora plantar mandioca era outra coisa. Tentou algumas vezes e plantou a mandaíba de cabeça para baixo.
--Meu filho, disse tio Jacob, olhe como essa parte aponta para o céu. Essa parte fica fora da terra, quando você planta o talo da mandioca, como muda. Se plantar ao contrário, embebeda.
A lógica era boa, mas Martin apesar de bom em tabuada era um fracasso em plantio de mandioca. Nunca daria para um trabalhador na roça.
Uma vez, na casa de manoca de fumo, enquanto as mulheres cantavam ladainhas e enrolavam o tabaco nas coxas, para fazer rolo de fumo preto que seria prensado a fim de aumentar o valor agregado e vender melhor, Martin resolveu ajudar, apesar dos seis anos. Até que ia bem, mas parecia um pouco distraído no meio de tantas mulheres, de tantas coxas a sua frente. Em um momento de euforia, jogou um talo de fumo, já sem as folhas que comporiam o conjunto de 25 da manoca, pela Janela da sala; mas para azar seu, errou a Janela e acertou o espelho que comadre Roberta houvera recebido de presente em seu aniversário de 25 anos. Espatifou-se em milhares de pedacinhos. Juntar aqueles cacos seria missão impossível.
--Sete anos de azar, gritou Estherzinha, lá do outro lado da sala, deixando cair duas folhas de fumo.
Martin estava mudo, olhos cinzentos mais ainda, arregalados, e uma face aterrorizada. E agora, pensou?
--Merece uma surra com talo de fumo, disse o contra-mestre do trabalho, Pedro Mangabeira.
Martin já esperava alguma coisa acontecer. Sua cabeça girava, pensou em sair correndo da sala, procurar o avô para pedir algum apoio. Suas pernas não se mexiam do lugar, trêmulas. Sentiu duas gotas de xixi na cueca, uma pequena, ouvindo todos pedindo vários tipos de punição que ele imaginava uma tortura infernal.
Comadre Roberta entrou na sala, pegou o garoto pelo braço esquerdo e o retirou da sala, levando-o para a varanda. Todos pensaram: vai se vingar do espelho.
Sentaram-se em um dos bancos longos, feito de pau d’arco, brilhando em verniz. Havia várias galinhas correndo do galo garanhão do terreiro, em uma gritaria sem fim. Dois carneiros preparados para ser abatidos ainda naquela tarde. Um mundo de coisas corria na cabeça de Martin enquanto olhava o rosto da Comadre, enigmático para ele e apresentando muito gravidade.
--Martin, senta perto de mim. Esqueça o espelho, foi um presente de aniversário, mas era apenas um espelho. Ninguém vai lhe punir por isso. Prometa-me uma coisa: pense antes de fazer as coisas, jogar talo de fumo, ou fazer qualquer coisa em sua vida. Controle seus impulsos. Nunca se sabe o tamanho da punição que se irá receber e existe mais gente e mais leis para punir que para nos fazer crescer e corrigir nossas  ações, sentenciou Comadre Roberta, em sua sabedoria, ainda jovem, mas de valores.
A comadre pediu a Martin que fosse para a casa do avô e não voltasse hoje para a sala de fumo, onde estavam trabalhando. Poderia vir amanhã. Tio Jacob ia levá-lo a cavalo.
 A cabeça rodava, zonzava e apertado de alegria, deu um beijo na mão da comadre; aliás, uma mulher muito linda, de acordo com sua memória: cabelos ruivos, nariz de deusa, face clara, olhos esverdeados, estonteantes, e um corpo de princesa. Deve ser por toda essa beleza que o perdoou, pensou em sua mente de criança a interpretar o mundo: "me casaria com ela hoje!"
Três meses depois, Martin saíra da fazenda de seu avô, onde estivera durante 3 anos e meio, deixando seus livros e tabuada que lia em luz de vela — aliás, adorava ler livros grande, com palavras grandes à luz de vela --  e chegava à estação de trem da capital: mal conseguia respirar com tantas luzes brilhando, tanto barulho e tanta gente. Sentia-se perido na confusão.
Sua primeira viagem de trem, quando garoto, fora muito diferente daquela narrada ao cruzar a Iugoslávia. Martin, também sentado à Janela, narra a paisagem do sertão correndo em sua mente.
-- Era uma imagem incrível e meio fantasmagórica, pois eu sabia que o trem ia para frente, mas parecia que o trem corria para trás e a paisagem, árvores, gravetos, areia, pessoas ao longe, corriam para frente, ao invés de ficar para trás. Eu sabia que ia para algum lugar, mas parecia que a paisagem ia, enquanto eu voltava com o trem. Mas como poderia estar voltando? Talvez essa imagem seja a real representação de minha vida errante: indo e voltando; voltando e indo, disse Martin, enquanto esfregava as mãos nos olhos vagos.
Durante a noite, era um breu terrível e não havia paisagem alguma, nem ao menos luzes de vela ao longe. Martin cochilava com o solavanco do trem – era a linha Juazeiro a Salvador – e em seu dormitar, com olhos semi-abertos, lembrava-se dos tempos de menino quando em noite de lua, sentado no terreiro da frente da casa, brincava deitado no peito do pai, olhando as nuvens correndo no céu de lua cheia. Também aqui havia uma imagem de lua correndo, com velocidade variada. Só anos depois, viria a descobrir que quem passava em velocidade eram as nuvens ao sabor do vento e não a lua cuja velocidade deveria lhe ter sido imperceptível.
Martin falava em voz alta, à Janela do trem, junto a seu pai que roncava um ronco de cachoeira de muita água e cantarolava estranhamente, em seu próprio sono acordado. Reconheceu a canção murmurada:
Lua bonita
Se tu não fostes casada
Eu preparava uma escada
Para ir no céu de beijar
E se colasse o meu fervor com teu calor
Pediria a Nosso Senhor­­
Para contigo casar!
A música era mais longa, mas de repente, teve um susto com um morcego que passou voando rente a sua cabeça, de um lado para outro do trem. Martin gritou:
--Pai, acorda, acorda! Tem morcego voando na cabeça da gente. Esse bicho gosta de chupar sangue, pai!
O pai parou de roncar, abriu o olho, não viu morcego algum e disse:
--Vai dormir, Martin. Morcego voa, mas não chupa sangue de ninguém.
--Mas, pai, tio Jacob contou-me várias histórias de vampiros andantes durante a noite, lá nas bandas da Transilvânia, ou algo parecido, a beber sangue a noite inteira e se esconder durante o dia. Olha lá fora, está tudo escuro. Nem sabemos se o trem ainda vai para frente, ou para trás.
--Calma, Martin, calma! Amanhã, ou outro dia, conto um pouco mais sobre essas histórias, sobre teu tio Jacob e porque ele gosta dessas histórias de vampiros.
Martin ficou um pouco sobressaltado: será que tio Jacob era vampiro?! Masnão ousou abrir a boca. O trem seguia fazendo barulho sobre os trilhos. Um barulho de hipnotizar qualquer pessoa. Tinha medo de fechar os olhos e um morcego chupar seu sangue até a última gota. O sistema mecânico era complicado de entender, assim melhor não pensar em vampiro. Talvez fosse melhor pensar na lua que não existia naquela noite de tremenda escuridão, só na canção do ronco do pai. Mas só viria a se esquecer do morcego e fechar os olhos, nos primeiros raios de luz da manhã quando, segundo tio Jacob, os morcegos fogem da luz.
As anotações de Martin, às vezes, pulavam de galho em galho. Aqui saía do trem para a inundação na Fazenda do Bem-Feito.  A narrativa não era cronológica, era contada de acordo com a memória dele, cada vez que se sentava à máquina Remington – não havia computador ainda—e escrevia um pedaço de memória, por dia. Como a própria vida de Martin, haverá desconexos, mas sempre um fio unindo as parte, como um fio une nossa própria vida, em nossos momentos banais e, às vezes de êxtase, um verdadeiro fio de Ariadne, filha de Mimos, a ajudar quem precisava andar em labirintos, com um rolo de cordão que marcava a trajetória. Borges usou essa técnica para escrever seus contos e Martin conhecera Borges pois o houvera entrevistado para um jornal de São Paulo. Reli contos de Borges para me ajudar com o Martin.
As águas de todos os riachos se confluíam para formar um verdadeiro mar, cobrindo os olhos dos pinheiros e o topo das aroeiras. Uma vista linda e assustadora, levando consigo uma lama amarela e de quando em quando alguns pedaços de tronco de árvore. Mas, triste mesmo era ver bezerros boiando no rio. Para Martin, como anotado em um papel marrom, saco de mercearia, era uma imagem triste e pensava no avô que “perdia alguma margem de valor agregado, perdia parte da mais valia conquistada” no negócio de exportação de carne, conforme comentava na feira. Será que o avô estava pensando nisso. Mostrava um semblante com uma face taciturna e grave.
 Ou será que ele não pensava: e se a água subisse até nossa casa? Troncos de ipê boiavam água abaixo em uma imagem aterrorizante. Mas o rio estava na baixada. Não poderia subir. Melhor brincar de alguma coisa para não pensar nessas hipóteses doidas.
--Mas brincar de que mesmo?—pensou.  A gente sempre brinca no terreiro, de picula, de esconde-esconde, de roda, sempre em atividade. Com essa chuva torrencial, esse frio de doer os ossos e esses relâmpagos e trovões? Quem se arriscaria a ficar molhado e pegar alguma gripe braba? Além disso, certamente os pais não concordariam. Decidimos, as crianças, a brincar de contar histórias terríveis de lobis-homens e vampiros.
Ah, foi o vampiro que ligou a viagem de trem à inundação, na memória de Martin, quando quer que seja que ele haja escrito essas anotações, pensei comigo mesmo, no ato da leitura dos fragmentos. A memória é um instrumento computacional incrível, arruma tudo em níveis de significação e quando o momento aparece, liga ponto A e ponto B, ou Z. Não há uma lógica clara. Deve ser por isso que William Faulkner afirmou que todos os seus romances surgiram da inspiração ao olhar um cartão postal de sua cidade natal. Um cartão postal deu origem a O som e a fúria e Enquanto Agonizo? Incrível ideia, mas quem sabe como a memória de Faulkner estava estruturada, ao narrar suas histórias com vários pontos de vistas, cada um contando a mesma coisa de um ângulo diferente? A memória de Martin não parecia diferente, repleta de idas-voltas-idas, nas anotações efetuadas em momentos distintos, mas sempre relatos diferentes de uma mesma coisa. Se alguém comprasse sua memória? Chegou a pensar um dia enquanto anotava história de galos de briga no terreiro, correndo atrás das vacas e beliscando-as, em busca de carrapatos suculentos. Boa sobremesa, após o milho da ração.
 
É marcante a passagem em que narra sua amizade com uma professora primária.
-- Professora Terezinha morava na Rua Caixão de Gás, no bairro da Calçada. Era loura, olhos azuis e ensinava em colégio público, na Vila América, de Brotas: no final da rua, já na Vasco da Gama, na Escola Santos Titara. Ela vinha todos os dias da Calçada, mas bastava pegar um bonde na estação ferroviária em direção ao Rio Vermelho de Baixo e saltar a 50 passos da Escola.
Martin conta haver se apaixonado por ela, ainda estagiária, ele com 9 anos. Ela sabia inglês, o que fascinava a mente do garoto. How are you? I’m fine, foram as primeiras palavras aprendidas por Martin e logo a seguir, I love you. Era tudo que ele imaginava precisar para se comunicar com professora Terezinha, mas nunca teve coragem de abrir a boca no “I love you”. Nem mesmo quando já estava na escola secundária, bom aluno de matemática e física, e foi visitá-la com um colega, por ocasião de aniversário. Para ele, o charme da professora continuava intacto, embora agora estivesse casada e com dois filhos. Caía por terra o sonho de um jovem apaixonado na infância e com lembrança das aulas de tabuada e de inglês. Mas, Martin viria em muitas mulheres futuras, aquela imagem angelical de professora Terezinha.
A imagem da fada ficou ainda mais forte na vida de Martin, um monte de anotações amarrado com elástico de borracha trazia a descrição de um aspecto físico idealizado e do dia em que Martin obteve a ajuda fundamental da Professora Terezinha. O texto diz que certo dia Martin estava jogando bola e deu um passe em direção completamente errada para um membro de seu time de futebol. Um garoto se chateou e gritou:
--Vamos tirar esse perna de garrincha, perna torta, aleijado, do time. Ele bate em uma direção, a bola vai para a outra. Os outros deram risadas. Aquilo caiu feito uma granada na cabeça de Martin, em seus 10 anos de idade. Foi para casa, chorou sozinho. Levantou depois de uns quinze minutos, ficou em pé e olhou as pernas. A perna direita, voltada para dentro e o dedo do pé ao invés de apontar para frente, apontava para o outro pé esquerdo. O que fazer, refletiu.
No outro dia de manhã, chegou cedo à escola e esperou professora Terezinha na secretaria. Quando a professora chegou, Martin disse que gostaria de conversar com ela para pedir uma opinião. Deveria ter feito na família, mas achou melhor conversar com ela, primeiro. A moça olhou um pouco espantada, diante do olhar aflito do Martin.
--É o seguinte. Olhe minha perna direita, professora. Preciso consertar essa perna e não sei o que fazer. Acho que meus pais não sabem, senão já teriam corrigido. A Senhora conhece alguma coisa que possa resolver isso, algum remédio. Tenho até vergonha de brincar na rua. Antes não notava muito, mas ontem os meninos abusaram demais de minha perna torta. Chamaram-me de garrincha e até mesmo de aleijado.
A professora Terezinha olhou com os olhos bem abertos para o Martin e sua aflição, disse que teria que ir para um médico especialista, ortopedista, que desenharia um sapato especial, tipo bota, para os pés com um ferro para segurar a perna e forçá-la na direção correta. A perna só voltaria para a posição normal, com esse esforço. Bom que ele ainda era jovem e os músculos, juntas e ossos ainda eram flexíveis. Esse processo poderia levar uns dois anos. Martin ouviu e ficou receoso que não teria condições de fazer esses exames e comprar essas botas e armaduras.
--Mas será que não há outra maneira de se fazer isso, sem esse médico e esses ferros, perguntou. Mesmo que doa, alguma outra coisa.
Terezinha disse que não sabia. Pôs mão no queijo e disse que lá no interior dela havia um menino com problema parecido, e não havia médicos. Um ajudante de medicina oriental ensinou a criança que teria de entortar a perna totalmente para o lado oposto, forçando-a o máximo, várias vezes ao dia. O garoto dizia que doía, mas mesmo assim fazia o exercício, com orientação dos pais. Terminou ficando corrigido. Talvez não tenha ficado perfeita, mas ele andava normal.
 Agradeceu, emocionado, e disse que iria conversar com os pais sobre o tal médico. Ainda no mesmo grupo de anotações, havia desenhos de lápis da perna, feitos pelo Martin e sob cada desenho, descrição do movimento que ele passara a fazer, exercitando a perna. Quando saia de casa se concentrava forte nos passos sobre a rua: cada movimento era cuidadosamente estudado, a perna controlada pelo cérebro para a direção desejada. Força mental e concentração eram o que fazia para focar no movimento. Que havia dor, não se discutia. Mas a dor maior eram as gozações dos amigos durante o jogo de futebol. Descreveu e ilustrou cada etapa de quando andava na rua, forçava o pé para fora e pisava forte. Aonde mais doía, era no joelho e no tornozelo, mas a batata da perna também doía. No final do semestre, quando se despedia dos professores, aproximou-se de professora Terezinha e disse:
-- Professora, olhe minha perna! Já estou melhor! Está dando tudo certo aquele exercício de forçar a perna e o pé, e vou ficar bonzinho.
A professora olhou e percebeu que realmente o pé do garoto já havia movido mais para posição bem próxima de normalidade. Parabenizou o Martin e perguntou se ele estava usando as botas. Martin ficou envergonhado e disse que ainda não usava as botas, mas fazia o exercício do menino do interior, forçando a perna em sentido contrário.
Professora Terezinha parabenizou o garoto pelo sucesso na escola e pelo resultado com sua perna, dizendo que sempre podemos vencer as dificuldades se nos concentrarmos no que desejamos, alisando a cabeça do Martin, abaixando-se e lhe dando um beijinho no rosto.
--Meu coração batia forte. Aquele beijo era um sonho. Jamais iria esquecer professora Terezinha em minha vida, não só pelo inglês, mas por me ajudar a reescrever minha perna, minha vida. Quando crescer gostaria de me casar com ela, ou com alguém igual a ela. O rosto dela parecia de um anjo. Era como em um sonho, escreveu Martin tempos depois, abaixo de uma das ilustrações de sua perna já totalmente alinhada e certa.
Passaram-me pouco mais de dois anos para sua cura, mas sua lembrança do afeto de Professora Terezinha permanecia atemporal. E o episódio de refazer, consertar a perna tornou-se um leitmotiv na trajetória do Martin, como registra e grifa de verde. Algumas coisas ele preferia grifar de amarelo, outras de verde.
Esta seria uma imagem recorrente de sua existência, em seus escritos poéticos, literários e de ficção; aliás, esses muito raros: uns poucos contos curtos. Martin possui um monte enorme de versos e poemas, publicou pouca coisa e prometia sempre queimar o resto, uns quatro mil poemas; mas na hora exata, hesitava. Havia uma quantidade variada de simbologia amorosa e erótica em torno da imagem de mulher, representada em olhos, corpo, braços, costas, cílios de sua professora, misturadas com cheiro forte de Margareth Schwartz que com doze anos soube cativar Martin, lamber-lhe a orelha suja e, sobretudo, pegar-lhe a mão tímida e alisar os seios eretos de garota. Martin confessava em um pequeno escrito que jamais fora tão nervoso quanto nesse dia. Nem sabia o que fazer, mas um arrepio tomou-lhe todas as células e viu-se, assustado e ereto. Margareth sabia o segredo, já ninfeta. Martin tinha doze anos. 
Margareth morava em uma modesta casa de três quartos para uma família de cinco pessoas e toda sexta-feira ajudava a acender as velas do fim de tarde. Martin morava em frente, em um quarto de tijolo aparente, cujo sanitário era coletivo. O espaço único de habitação possuía uma estante de tábua com uma série interessante de livros, listados em um papel, com letra cuidadosa. Chamava atenção os poemas de Safo, A República de Platão, a Ética de Nicômaco de Aristóteles, junto com ampla variedade de literatura marxista: O Capital, o manifesto, os escritos econômicos, o romance de Michael Gold, Judeus sem dinheiro, um livreto ilustrado sobre onanismo, muitas revistas em quadrinhos de super-heróis, tudo ao lado dos livros e cartilha primária de Paulo Freire.
 Sobre o assoalho, um monte de roupas sujas, algumas páginas do jornal O Momento e em uma bancada, limpa, superorganizada, por área de conhecimento seus livros de matemática, física, química e língua portuguesa. Na parede, em frente à bancada, um mapa de Israel, um fogão de uma boca e um armário com alguns pratos, garfos, facas, cereais integrais, feijão azuki, lentilha, amendoim e alguns pacotes de frutas cristalizadas. Tudo bem ilustrado e anotado pela memória, em caderno de estudante. Até parecia que um dia iria usar esse material, tamanha a margem de detalhe.
Esse o micro-organismo de Martin, incrustado no bairro do Engenho Velho de Brotas – dizem que nunca houve engenho lá – área de habitação popular, sem registro formal, em sua maioria de pequenas residências parecidas, de propriedade duvidosa. O que o pai de Martin alugava, estava sob controle de Salomon Miguez, espanhol de Pontevedra, proprietário de muitas coisas no bairro, inclusive a padaria e pastelaria da esquina da Rua Trovador. Estava marcado pela comunidade operária como “Espanha” e “judeu sovina”, o que leva a crer que fora de origem sefardi, marrano, converso. Mas, segundo muitas anotações de Martin, o espanhol era seu amigo e lhe ensinara línguas: tanto espanhol quando um pouco de galego e romeno. Don Miguez possuia muitos livros, de uma linhagem diferente, muitos romances, novelas e textos sobre ciências naturais, seu foco principal de interesse.
Em frente à padaria do Miguez, quase todos os dias, antes de ir para a escola, Martin parava para o café da manhã: seis bananas, amendoim torrado e coca-cola, como sobremesa. Às vezes, comia pão de açúcar com café já adocicado que lhe era dedicado por Miguez. Afinal, o espanhol gostava de conversar e falar sobre ciências naturais e contar algumas histórias da época em que sua família migrou para o Brasil e ele mesmo tinha seis anos. A barraca predileta de Martin já até lhe vendia fiado. Tinha um caderninho de registro aonde era dado um visto para cada item consumido ou levado para casa e, no final do mês, somava-se tudo, o cliente conferia, era aplicado um juro – segundo diziam, pequeno, – e a conta era paga. Verdadeiro precursor dos cartões de crédito. Solomon mostrou uma vez ao Martin mais de sessenta caderninhos com clientes diferentes e até comentou:
--Se um dia esse povo todo não me pagar, vou à falência e terei que voltar para Pontevedra. E riu.
A rua principal era asfaltada, mas a ladeira que levava ao quarto de Martin era de barro batido. Quando chovia era terrível, mas Martin criou uma sistemática: saía de casa com umas galochas velhas, sapato e meia na mão. Na padaria, aonde tomava café, tirava as galochas, colocando-as em um saco plástico, vestia as meias e punha o sapato limpinho, antes de pegar o ônibus e ir para a escola. Assim, chegava normal, sem lama. À noite, recolhia galochas, trocava sapatos e ao chegar a seu quarto, lavava o barro com água, para novo uso matutino – ou qualquer outro horário que precisasse sair. Quase não passava carro na pista principal, por isso a garotada usava o asfalto como campo de futebol. E aí surgiu mais um desafio para Martin. Ele registra:
--Sempre fui péssimo em futebol e sempre tive problema de habilidade motora. Isso até causou-me embaraço muitos anos depois, já aos 30, quando cheguei à Universidade de Wisconsin e os meus professores futuros, sabendo que eu era brasileiro, convidaram-me para entrar no time dele. Seria um grande reforço. A decepção foi 100%, quando eu lhes respondi que não sabia jogar futebol.
--O quê?! Exclamou professor Giorgio Ricapito, em absoluto desencanto. Tinha certeza que teria um craque da copa do mundo, do time brasileiro dos sonhos, de 1958, ou um Zico que, lógico, só perdeu para a Itália, pois afinal nós, os italianos, tínhamos Rossi, melhor do mundo, e riu-se..
Em decorrência desse desencontro de ideais, Martin nunca conseguiu se aproximar do corpo docente de língua italiana, apesar de um bom leitor de Vita Nuova e Divina Commedia, ambos de Dante e da sua apreciação pela teoria geral da interpretação de Emilio Betti. Mesmo quando puxava alguma conversa e trazia nomes mais recentes como Norberto Bobbio e Umberto Eco, o grupo não conseguia incorporá-lo nas discussões acadêmicas. Sempre ficava aquela fragilidade de um estudante que poderia conhecer alguma coisa, mas talvez não devesse ser tão fundo, pois nem jogava futebol. Sempre ficava faltando habilidade em Martin, desde aquele primeiro “o quê?”.
Era domingo no bairro de Martin e todos os jovens tinham um destino certo: Cine Teatro Amparo, com quatro sessões. A das 14 horas, com o seriado de Flash Gordon e Nioka, a rainha da selva; 16 horas, sempre reservado para os filmes de cáuboi e mocinho, muito tiro, briga, quebra-quebra e beijos ardentes de língua e boca aberta, no final; às 18 horas, era filme de guerra, aonde alemão era sempre perverso e seria fatalmente derrotado, com os soldados americanos entrando nos braços do povo e abraçados pelas garotas; e as 20 horas, os filmes mais sérios: dramas, traições, terror, suspense, crimes complicados de se acompanhar, bandidos que às vezes saiam vencedores. Era mais uma sessão de adultos. Criança era gato pingado, acompanhado de pais mais desafiadores ou inconsequentes.
Martin chegava cedo com seu monte de revistas em quadrinho e montava uma banca de operação para troca de revista, compra de exemplares inéditos e venda de todo o possível. Quando ia assistir à sessão das 16 horas, ou mais tardar às 18 horas, para ver os soldados americanos, já havia obtido recurso financeiro para cobrir todos os seus custos: entrada do cinema, coca-cola, pipoca e algum chocolate para oferecer à Margareth do dia. Sempre olhava alguém a quem iria oferecer o chocolate depois, mas nunca tinha coragem, embora pensasse, de convidar a garota para sentar junto dele. Às vezes, uma garota que recebera o chocolate Diamante Negro se aproximava e sentava na cadeira vazia que Martin sempre fazia questão de segurar, não deixando marmanjo sentar junto dele. Mas também às vezes perdia a cadeira para uma urubu, mais feia do bairro. Era o destino. Dava o chocolate, de qualquer forma, pois se guardasse, poderia derreter.
No fim de linha do bairro, havia uma igrejinha, estilo medieval, simples, branca, com capacidade para umas 35 pessoas, um nicho de uma Nossa Senhora que Martin nunca registrou em nenhuma de suas anotações e que talvez nunca houvera aprendido o nome, pois seu interesse na igreja era o programa de alfabetização educação para o oprimido, de Paulo Freire. Martin e seus amigos da juventude comunista, todos idealistas e sonhadores, ensinavam com uma cartilha, diferente da usada em cursos iniciais de alfabetização. Ao invés de “Joãozinho joga bola na praia” lia-se “o pai de Joãozinho é operário e explorado”. Definitivamente um modelo diferente de aprendizagem, cujo objetivo era alfabetizar não apenas com a leitura e a língua, mas também alfabetizar politicamente para a revolução socialista.
Anos depois, em plena ditadura militar, Wander, o melhor amigo de Martin na época das centenas de horas dedicadas ao projeto Paulo Freire, viria a ser preso pela polícia, torturado para dar os nomes de todos os membros da “célula” do Engenho Velho. Wander morreu na mesa de pau-de-arara – tortura com choque elétrico nos testículos – por impacto cardíaco. Aquele desastre com um jovem de apenas 16 anos, estudante do Colégio da Bahia, curso colegial científico – o currículo da escola secundária era dividido em científico para quem queria estudar exatas e saúde na universidade e clássico para quem queria carreira em humanidades, inclusive direito -- o principal líder e instrutor de criança do programa de alfabetização --, chocou terrivelmente a todos e, com a presença constante de policiais disfarçados de civis, nas atividades da igrejinha, as ideias de Paulo Freire foram suspensas. O padre sempre fora muito simpático com os jovens adolescentes em sua missão doutrinária, até porque via crianças analfabetas aprender a ler muito rápido. A cartilha era uma das coisas mais eficazes que existia, porque possuía muito instrutor voluntário, cada um ensinando um aspecto da língua e da política. Ensinavam até elementos de economia, com bases teóricas oriundas de O Capital que ninguém houvera lido, mas que se sabia passagens, reais ou imaginária, de memória.
Janiste, a namorada de Wander, 18 anos, cabelos longos, castanhos claros, um silhueta de miss Bahia, dentes brancos e organizados, nariz afilado, queixo pontiagudo, pescoço comprido, seios perfeitos em sua forma oval, pernas longas em seus 1.78 de altura, era uma das musas dos jovens. Uma vez, no Colégio, um sujeito da direita protestou afirmando que os comunistas gostavam de garotas bonitas e estavam roubando suas futuras namoradas, com essas ideias de liberdade e revolução.
 A verdade é que, segundo a narrativa de Martin, todos se derretiam, especialmente os meninos mais jovens, sempre querendo namorar a professora, quando Janiste chegava para dar aula de higiene e educação sexual, uma revolução para a época. Usava o quadro negro para explicar a natureza, os animais, os órgãos reprodutores, o processo de desenvolvimento do feto e o nascimento da criança. Era um momento de concentração e risinhos. Janiste terminou presa em uma de suas visitas a Wander, na Marinha Naval, localizada na Cidade Baixa, e nunca mais Martin ouviu falar dela. Entrou na lista dos “desaparecidos” e procurados pelas famílias. Um número misterioso, até o século XXI, apesar dos trabalhos da comissão da verdade.
Certa feita, após umas cinco cervejas, na praia frequentada por Martinha da Bahia, figura lendária que conquistou uns quatro jornalistas, do matutino Jornal da Bahia, de João Falcão, na antiga Barroquinha, Wander confessou para Martin que Janiste era uma mulher dominadora e que sabia o segredo de derreter a alma dele, sempre que queria. Uma vez, após chegar de um encontro com líderes comunitários, Wander foi recebido por Janiste que lhe deu um banho de cuia, com a água rolando sobre seu peito e depois o levou para a cama de espuma no meio do quarto. Enxugou cuidadosamente cada centímetro de seu corpo e começou a beijá-lo, começando com a língua na ponta do nariz dele. Wander, narra no escrito de Martin, já não conseguia se controlar e Janiste dizia:
--Calma, relaxe, não se mova, só quando eu disser vá. Hoje, é seu dia. Esfregou o corpo inteiro no corpo do Wander, roçou os seios nos cabelos do peito dele, nariz com nariz, boca quase com boca, mas sem beijar propriamente, dizendo-se toda molhada, bem no ouvido dele.
--Martin, aquela viagem durou mais de meia hora e quando chegamos à via de fato eu já havia gozado quatro vezes. Totalmente perdido. A Janiste é uma mulher incrível, possui um poder fora de qualquer revista em quadrinho, não tem Mulher Maravilha que compare. Estou sempre apaixonado.
 Martin lembrava-se de Margareth pegando sua mão e alisando os seios eretos: “Pegue, benzinho”!
Agora, não havia mais Wander, não havia mais Janiste, só a Marinha Naval continuava lá no mesmo local, aonde fora construída na década de 40 pelos americanos, para servir de apoio às tropas aliadas, durante a segunda grande guerra. Também não havia mais as aulas na igreja do fim de linha do Engenho Velho de Brotas. A cartilha, essa sobrevive, mas não há quem ouse usá-la. Os militares estavam infiltrados à paisana, fingindo-se de revolucionários a fim de encontrar líderes. Tudo era contra informação e a tática de espalhar informação falsa acusando outros ou até os próprios militares a fim de tirar o foco de algo terrível ou podre no seio do poder. Acusava-se alguém do poder central, apenas com intuito de tirar a atenção de algo muito grave executado pelo poder central. Estilo Maquiavel.
O Engenho Velho continua pobre, em sua essência de ruas de lama. Só a principal era asfaltada, onde estavam: padaria Tamoio, Cine Teatro Amparo, um campinho de bola e dois conjuntos de buracos no chão para o jogo de bola de gude. E umas três barracas de vender bananas. Os jogos de futebol e bola degude dominam a garotada, enquanto as meninas sentam-se nas varandas das casas e, aos risinhos, ficam trocando ideias e admirando a haabilidade de algum rapaz, ao fazer o gol, ou ao fechar o terceiro buraco do jogo de gude. O bairro é uma festa permanente e ninguém ouve falar, abertamente, de revolução, muito menos do nome de Trotsky, o intelectual mais conhecido por aquele que trabalham na igrejinha e que, de quando em vez, vem participar dos jogos, em frente a padaria Tamaio, a fim de conquistar a adesão de algum garoto para o projeto Paulo Freire.
 

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