Sábado, 09 de Dezembro de 2017 - 05:17

Martin: Memórias de um judeu favelado (I)

por Nelson Cerqueira

 Martin: Memórias de um judeu favelado (I)
Foto: arquivo pessoal
 Jantar 1
 
 
Aquela paisagem inocente, com mulheres campesinas vestidas com roupas alegres, das cores da Iugoslávia, turbantes meio desbotados, enxadas nas mãos, foices no ombro, entre duas ou três vacas envelhecidas, e um chão tomado de pontos vermelhos de tomates, dividindo espaço com as flores de girassóis, tomava conta de meus olhos; enquanto meu olfato e visão estavam centrados nos outros passageiros do trem, na primeira classe, repleto de proletários e membros do partido, comendo ovos cozidos e bebendo vodka polonesa, com azeitonas verdes. As faces vermelhas e gordas, cabelos grisalhos e seborrentos, com glostora, olhos claros, vermelhos, e risos mostrando falta de dentes, eram a contrapartida para as campesinas ao longe. Tudo na paisagem se mexia, rodava, rodopiava, as campesinas para frente e para trás, com o rodar rápido do tempo e do trem, em sua velocidade a correr, fora e dentro da janela.
Conversava com as pessoas em alemão, quando era possível trocar algumas frases; não se sentiam à vontade com estrangeiros, era recomendação explícita do governo, não interagir com estranhos nem comentar detalhes da vida local.  Em meu silêncio, lembrando meus dias de adolescência e entusiasmo pelo Partido e ideias comunistas, cantando a Internazionale, não conseguia decifrar bem o que presenciava, na Iugoslávia soviética. Parecia-me haver uma contradição entre meu sonho da ditadura proletária e essa realidade, entre a primeira classe de trem aberta para todos e essas pessoas intoxicadas de gordura saturada.
Aos poucos, chegamos à fronteira com a República Democrática da Alemanha, popularmente conhecida como Alemanha Oriental.  O trem parou a 1.500 metros da entrada da fronteira. Se houvera sido uma aventura entrar na Iugoslávia, quando até o sapato e a meia tive que tirar para análise com uma lupa, nada se poderia comparar com o que se estava agora a vivenciar: soldadesca enorme, aos gritos de Pass auf! Achtung! [Cuidado. Atenção]. Parecia que havia mais soldados na fronteira para controlar bagagens e detalhes documentais do que passageiros, a maioria não soviets, no trem, entrando na Alemanha. O trem vinha de Trieste e custara quase nada.
Abriram minha maleta a caminho de Berlin Ocidental aonde iria fazer palestras em um seminário sobre a pobreza no Nordeste do Brasil, com o professor Kurt Johansen que conhecera em Munique, durante meus estudos de filosofia e que me convidara para ser seu assistente. Iria trabalhar sociologia da pobreza e do oprimido, usando livros do Paulo Freyre e filmes de Glauber Rocha. Retiraram cada item, colocaram no assoalho do trem, abriram uma caixinha com duas canetas, um lápis e três borrachas, apertaram um tubo de pasta de dente com letras em português, para ver se era pasta mesmo apesar de minha assertiva, retiraram o forro da maleta, folhearam os livros que carregava com todo cuidado, sem perder uma página, embora nada entendessem de português e, após tudo, disseram-me: “pode arrumar suas coisas”. Continuavam olhando meus cabelos longos e minha barba, com muita, muita desconfiança. Mandaram que eu tirasse os óculos e me fotografaram. Não conseguia entender o olhar deles, pois quase todo mundo era cabeludo e as meninas usavam shortinhos de jeans, meio rasgados.
--O que vem fazer na República Democrática da Alemanha? Seja detalhado?
--Apenas estou passando pelas terras da democracia para chegar a Berlin, aonde vou dar umas aulas sobre o Brasil? É que vim de trem de Trieste e para chegar a Berlin teria que passar pelas terras da Iugoslávia e da Alemanha Oriental. Mas garanto-lhe que não vim para esse país para ficar aqui ou para qualquer outra atividade, apesar de minha admiração. Estou aqui de passagem.
--Was? [O que]. Berlin? Afinal, que Berlin?
--Berlin Ocidental. As aulas serão na Freie Universität [Universidade Livre]. Estarei hospedado na Jäner Strasse. Pode olhar esse convite da universidade. Vou ensinar um curso sobre teoria da interpretação e economia, em país subdesenvolvido, com foco no Nordeste do Brasil, um país na América do Sul.
--Identidade? Dinheiro? Foram as perguntas seguintes, após olhar os documentos apresentados.
Mostrei tudo que possuía, inclusive a carteira de cédulas, com 234 marcos.
--Você é judeu? Perguntou-me com ar detalhista, fazendo-me tremer e ter imagens instantâneas de holocausto, mesmo sem querer.
-- Sem provocar respondi: “sou brasileiro, da América do Sul, e sou associado ao Partido Comunista”.
--Burguês?
--Não. Os jovens que estão aqui não são burgueses. Eu simpatizo com a revolução proletária.
--Ach, so! [ah, está bem].
Após essa extraordinária conversa, fechei a maleta sob os olhos suspeitos dos seis soldados que cuidavam de meu caso, olhando-me de cima para baixo, e fui liberado para sentar em outra Janela--mudaram-me de lugar, por alguma precaução. Ainda sentado à Janela, poderia continuar a apreciar a beleza calma dos campos, de maçãs de tamanho mirim, do interior da Alemanha Oriental, com suas campesinas também folclóricas e coloridas, a trabalhar a terra. Nem parecia que houvera mudado de país, pois a paisagem era a mesma. Apenas o número de pessoas comendo ovos cozidos e bebendo vodka ia diminuindo. Muita gente saltou na fronteira. A paisagem continuava uma beleza prosaica. Parecia que apenas as mulheres trabalhavam na agricultura. Era uma espécie de relva, com o plantio de batata a perder de vista, combinada com as macieiras. As cores das vestimentas e fardas de trabalho se misturavam em total integração com o colorido das plantações.
Sentado na primeira classe: comprei bilhete de terceira, como estudante, mas passei para a primeira, logo que entramos na Iugoslávia, orientado por amigos, em Munique.  Estava meio cansado ao ver aquelas pessoas, tão gordas e pesadas, comendo ovos cozidos e bebendo vodka. Estavam no trem, disseram-me, há quatro dias! Afinal, era muito confortável e podiam dormir um sono tranquilo: bons sanitários, sempre limpos, e camarotes que viravam verdadeiras camas de casal, durante a noite. O sexo era socializado, mas quem mais curtia realmente eram os jovens cuja idade variava entre 17 e 27 anos, com muita energia para queimar.
 De repente, aquele sacolejar do trem e um pouco de paz após a pressão dos soldados na fronteira, deu-me uma sonolência incrível e comecei a me lembrar do Brasil. Lembrança forte de meus sete anos, morador do IAPI e depois do Engenho Velho de Brotas, bairro muito pobre, mas que tinha um cinema popular aonde aos domingos ia trocar figurinhas e revista em quadrinhos, com os amigos. Filme de caubói, antecedido de seriado e alguns comerciais, muita gente fumando, muitos gritos, muita alegria e gritos de “chupa!” quando o mocinho dava um beijo na loira – quase sempre eram loiras as artistas de cinema americano. Sem falar nas películas sobre segunda guerra, aonde alemães eram os fora da lei. Alemão não tinha vez, morriam todos e eram tratados como escória da humanidade, até justo tendo Hitler e os nazistas em mente. 
Uma coisa marcava minha observação juvenil: os revólveres e metralhadoras dos artistas nunca paravam de disparar e nunca lhes faltavam balas, enquanto os bandidos estavam sempre sem balas. Os tiros dos bandidos saíam quase todos fora do alvo; os dos artistas eram certeiros e matavam no peito. Nos duelos, o facínora sempre sacava primeiro, atirava e errava e ao mocinho bastava uma bala certeira, no coração; estava garantida a ética e moral do assassino: o bandido atirou primeiro; assim, morte em legítima defesa, sempre.
 As garotas, nos filmes para adolescentes, transavam a vontade, mas traição no casamento era divórcio certo. A moral da época era mais acirrada, mesmo na ficção do cinema de Holywood. Minhas lembranças eram os roteiros marcados; começa tudo bem, no meio algumas coisas dão errado, no final tudo volta a ser estruturado e o bem – ou o amor nos filmes românticos – sempre vence.
Minha paixão mesmo era o seriado de Flash Gordon que, a cada semana, terminava com o herói a ser tragado por uma máquina mortífera, ou sendo lançado no despenhadeiro, ou morrendo envenenado. No primeiro episódio de Flash Gordon, O Planeta em Perigo, o imperador Ming, interpretado por Harles Middleton, tipo feio, meio careca, de barba e cavanhaque densos e pretos, de tez escura, representando o mal, líder do planeta Mongo, está preparado para destruir a terra, mas ai aparece nosso herói, interpretado por Buster Crabbe, tipo nórdico, superforte, cabelos louros esvoaçante, belo, para contracenar com o mal.
 Entram as imagens femininas: a loura e maravilhosa, Jean Rogers, amiga que se apaixonará por Flash Gordon e a princesa, filha de Ming, Priscilla Lawson, morena, que quer Flash para ela. E por fim o cientista Dr. Zarkov, interpretado por Frank Shannon, que faz a contracena e que salvará Flash Gordon, no final do episódio II.
O imperador Ming resolve eliminar Flash Gordon, pondo-o em uma arena para lutar contra cinco monstros humanos, e no momento em que os monstros são derrotados, mas o general de Ming vai executar Flash, a princesa o salva. Os dois são tragados por um túnel profundo, ao final do qual há uma série de monstros devoradores. O episódio termina com a certeza de que os dois morrerão. Na semana seguinte, eis que ao chegarem ao fundo do poço, a princesa Aura o salva, pois conhece uma porta secreta que os leva para fora. Cada episódio possui um final dramático. No segundo episódio, Flash Gordon descobre dentro de um foguete – aliás, incrível como esse seriado de 1935-36 concebe foguetes no estilo do Apolo XVIII – a indumentária que o irá caracterizar: vestes estilosuperman, realçando seus cabelos louros e seu físico musculoso.
O imperador Ming, resolve que a Dale Arden, loura, se casará com ele, mas essa tem Flash Gordon em mente, e resiste. Ming busca seu hipnotizador preferido, dopa a moça e começa o processo da cerimônia de casamento, mas na hora H, Flash vai chegar para evitar o casamento e salvar a moça. Ming ataca. No final do episódio II, Flash Gordon está em vias de ser devorado por um gigantesco monstro, com patas de caranguejo, enormes. Como não voltar na próxima semana para ver o resultado e a artimanha e truque cinematográficos que irão salvá-lo?
 Sempre acreditávamos que haveria uma saída. Na semana seguinte, o seriado retomava as últimas cenas, fazia um verdadeiro deus-ex-machina e mostrava algo que não havíamos percebido e que facilitaria a salvação natural do artista. Era uma beleza ver o roteirista descrever desventuras e aventuras para nos mostrar o caminho certo, honesto e vencedor.
O cinema era uma enciclopédia de informação e luxo quando contrastado com a casa de taipa, no lado esquerdo da ladeira do campo do Energia Sport Clube, descendo do Pau Miúdo para o vale; ou o quarto de tijolo aparente da Rua da Lama, no Engenho Velho,  aonde morava com meu pai. Seu pai, Josef Baruch, ficara com os dois filhos e se orgulhava de criá-los com dedicação. Separação de família quando você tem sete anos de idade é uma coisa que deixa raízes, como um dia ainda vou narrar, com detalhes e detalhes.
-- Até cheguei a fazer suas versões.
 Mas o trem seguia e Berlin Ocidental estava longe. Entrei em verdadeira letargia, entre o sacolejo, as imagens das fronteiras e os fantasmas da infância e adolescência. Os olhos apertavam cada vez mais e tudo se misturava: passado, presente e sonhos. Escolheria a loura, amiga de Flash Gordon, ou a morena, filha do imperador Ming, ambas lindas? A filha de Ming até parece com a Mulher Maravilha, com seu torso e cinto, em roupa apertadinha. O trem sacolejava, sacolejava.
Esse era um trecho que me parecia representar o modelo de narração que o Martin queria para suas memórias. Trata-se de um fragmento da 12ª tentativa de Martin de escrever suas aventuras como filho de imigrante judeu, família do pai, vinda de Braga, e a de sua mãe vinda da República Checa, de Praga, na virada do século XX, logo antes da revolução de outubro. Começaram do nada, no Brasil, mas hoje estavam bem aquinhoados, lógico, depois de muito trabalho e dedicação.
O avô materno começara vendendo chapéu na rua, depois passou a distribuir chapéus para vender, montou uma chapelaria e resolveu fabricar chapéus. Após aquinhoar algum recurso, depois de vinte anos de trabalho, adquiriu uma propriedade na cidade de Jacobina aonde viviam outros membro da família, negociando com ouro da mineração. Criou um empório, casou e se estabeleceu. Mas tudo começou no chapéu.
 Algumas vezes, sua tentativa de narração começara com aspectos históricos das famílias. Anotou bem claro e definiu com precisão que conflitos e os dados de sua família materna deveriam ser abordados nos capítulos final. Não queria tratar disso antes. Outras vezes começava a história com seu grito no ato de nascimento, e ainda outros três no ato de morte e iluminação – William Faulkner e Machado de Assis fizeram isso com personagens, Addie e Brás Cubas. Não deu certo. Até porque ele sempre registrava uma rejeição à morte, como temática. Chegou, em alguns casos, a escrever até 12 páginas. Nunca ultrapassou esse número, quatro vezes múltiplos de três.
--Coisas do Qabala e da trilogia, grifou. Embora seu conjunto de anotações fosse gigantesco e desorganizado.
Seja como for, Martin seguia seu avô paterno para quem a vida era um mistério e sempre explicava para os netos, em dias de sábado, que os vinte e dois ícones que são usados como letras no alfabeto hebraico, são vinte e dois nomes próprios originariamente usados para designar estados ou estruturas diferentes de uma única energia cósmica, onde essência e aparência simbolizam uma única coisa. Embora correspondessem a números, ouviam os garotos com toda atenção, símbolos ou ideias aqueles vinte e dois ícones superavam qualquer tipo de classificação; não poderiam ser utilizados para outras coisas, porque eram exatamente o que eram; ou seja, a energia que designava o sagrado. Os meninos achavam tudo muito misterioso, mas ouviam o avô com atenção.
Martin registra que também perguntara a muitas pessoas nas ruas, no Brasil, na França, em Nova York o que achavam da história de um judeu nascido em uma favela na Bahia, Brasil, que houvesse morado em casa de taipa, sem sanitário, estudado em colégio público, já atrasado, que houvesse jogado bola de gude com os meninos de rua, e que em seu primeiro encontro com uma jovem garota, não judia, houvesse sido um desastre porque ela lambera sua orelha e essa estava suja de poeira acumulada do baba de rua, onde ele era péssimo jogador de futebol, perna torta, mas queria fazer parte do grupo.
 Contou mais alguns detalhes sobre a sociologia existencial da pobreza, e, a maioria, respondeu que “a ideia é interessante e garanto que leria pelo menos as três primeiras páginas” e “rapaz, não sei. Ler sobre judeu favelado? Judeu, só rico, dono de banco, dono de jornais e revistas, imperador de pedras preciosas, sobretudo esmeraldas, ou, no mínimo, ganhador de prêmio Nobel com livros ou descobertas científicas de repercussão global”. Uma manifestação de Geniève Latreau: “Judeu sem dinheiro? Ler essa história? Parece intrigante. Mande um capítulo, prometo olhar e lhe dar meu parecer, em seis dias”.
Mas depois de tantos ensaios tentados por ele como narrador de si mesmo, sem sucesso e após nosso encontro casual e proposta de escrever sua história, resolvi por as mãos ao exercício e narrar a história de Martin Liebovitch, seus momentos de inferno e seus momentos de paraíso, abandonado pela namorada e abandonando-as, seu trajeto nos bairros da Bahia, sua vida na Europa, nos Estados Unidos e passagem por Israel e Egito.
O material era muito rico. Libo, como era conhecido no bairro do Engenho Velho, esteve envolvido com religião africana de base iorubá, chegando a visitar a África Negra, mas também mostrando vivo interesse pela Escandinávia e muitos outros países; escalando montanhas, cruzando oceanos reais e idealizados;  escrevendo, pintando, tocando piano e mais uma miríade de coisas que irão aparecendo no decorrer da narrativa.
 A diferença, a partir de minha atuação, como narrador, é que Martin passa a personagem da narração, saindo de seu controle a prioridade de leituras das notas e a utilização de suas falas, por ocasião de nossos treze jantares, aleatoriamente definidos para ajustar o entendimento das suas narrativas escritas. Essa foi minha pré-condição para receber seu calhamaço de notas, algumas já amareladas. O texto de sua vida era um enigma, um labirinto envolto de milhares de palavras e descrição sem um plano fixo.
Utilizei como método para ecrever essas narrativas da vida do Martin exatamente a formulação que sua personalidade e seus anseios indicavam: uma combinação entre realidade e imaginação; partindo sempre de pequenos postais; de fragmentos narrados, amontoados de forma aleatória e assim descritos, mas que no final comporão um mosaico, estruturado  em forma de associação livre, sem preocupação, nem hierarquia vivencial, com exceção para a narrativa sobre seus pais, deixada a pedido para o final. O conjunto necessita ser entendido e apreendido, para que com a tessitura da colcha de retalho tenhamos um vaso construido a partir da colagem de cacos do mesmo vaso quebrado. Teremos que ter paciência a fazer a leitura de acordo com o desejo onírico do próprio Martin.
 Enfim, estava desenhando minha missão de organizar todo o amontoado de manuscritos que recebi do próprio Martin, em uma grande quantidade de papéis e das dezenas de anotações de nossas conversas. Algo a ser contado sem ordem de evento, de acordo com o monte de papéis ou o resultado de sua descrição, às vezes, gravada, livre como a cabeça pensa, em verdadeiro partir e chegar, para montar um quebra-cabeça, sincero e rico.
 Abandonei a ideia de pensar no leitor, [em um dos ensaios de planejamento das versões, o Martin diz que pensara em construir a narrativa levando em consideração a teoria do leitor, por influência de Umberto Eco, como em Nome da Rosa]. Como narrador resolvi não pensar como a história seria recebida pelo público e passei e me preocupar apenas com os pulos de gato de Martin, com suas sete vidas, seus amores –alguns ardentes – suas críticas e comentários, suas traições amorosas, sua briga pela honestidade, sua tentativa de reescrever a si próprio, enfim com os aspectos normais de uma vida que começa imersa na pobreza de seu pai, o qual não foi além de estudante do curso de engenharia incompleto, mestre de obras de pequeno porte, mas sempre com carpintaria, terminara criando uma loja de móveis costuminados para clientela mais interessada em design próprio, abandonado pela esposa, Sarah, exatamente no dia de aniversário de casamento, ou abandonando-a por adultério.
--Sinto muito, Baruch, não dá mais. Estou apaixonada por Ezequiel do Violão, músico, ligado à arte, boêmio, e você jamais entenderia com sua cabeça organizada para carpintaria, disse Sarah, durante o almoço. Essa teria sido a frase de Sarah se houvesse sido ela a tomar a decisão de separar pela segunda vez, estava anotado, com destaque, em uma página, com letras de lápis de cor, azul.  Martin e a irmã não haviam chegado ainda da escola. E assim terminava o casamento de seu pai, em um dénouement sem clímax. Apenas um the end de filme romântico que dá errado, mais para filme francês ou italiano que de Hollywood. O mestre de obras, dono de uma oficina de carpintaria, Baruch, 37 anos, barba e bigode raspados, rosto azulado, atônito, aceitava em silêncio, como houvera aceitado todas as carícias providas pelas mãos suaves de Sarah que, agora, deixariam seu corpo vazio.
Quis argumentar algo, Sarah pôs os dedos da mão direita em seus lábios e comandou o silêncio. Faziam oito anos de casados, naquele dia. Tinham melhorado de vida e já moravam em uma casa simples, mas de dois quartos; um, dos dois meninos e o outro deles, na Rua do Prata, ladeira do Desterro. Os dois filhos ficariam com Baruch. Pelo menos esse era o pleito do pai, pois a vida no universo da música e da boemia não seria muito instrutiva para as crianças de sete, o Martin, e de cinco, Maria Elisa. A mãe na concordou.
Pelo menos nessa versão da narrativa e interpretação de Martin havia algo coerente. Os registros de Martin sobre seu pai não são muito favoráveis no que tange a decidibilidade, embora muito positivos sempre que narra a firmeza do pai em direcionar as crianças para os estudos. As anotações são claras e elogiosas:
--Meu pai era firme, consistente, acreditava na educação e nos estimulava à leitura. Era um homem forte fisicamente, embora tivesse os braços finos, olhos castanhos. 1.74 de altura, 80 quilos. Não praticava esportes, trabalhava de domingo a domingo, com exceção das sexta-feiras à noite e dia de sábado, mais sagradas. Gostava de roupa de poucas cores, cinza, preta, branca; sapatos sempre pretos, a maioria das gravatas que possuía era de listas, preto e branco, cabelos lisos, testa pequena, olhar profundo.
 No início não entendi, pelas anotações, o porquê da separação. Não havia explicação convincente. Só muito depois e com a ajuda de algumas entrevistas com o Martin, pude reorganizar os fatos. Nesta fase não entendia porque se separam, assim, tão de repente, por um músico de qualidade duvidosa. Mas, as narrativas diversas, em estilo de associação livres, iriam aos poucos organizando as ideias, clareando aspectos e mostrando contradições internas entre uma história e outra, filtradas pelo Martin. Hoje não seria o dia para esgotar esse aspecto de família, um pouco complexo, conforme narrou Martin em nosso primeiro encontro de degustação, tendo como iguaria a falafel, com receita de seu avô, mas consumida em Nova York, ele gostaria que o enredo sobre seus pais tivesse um desfecho mais favorável para a mãe dele e prometia voltar ao tema, mais para o final da história.
Essa conversa grave e esse texto de abertura registram o início da narrativa que estava montando e que começava quando Martin, sentado à sombra de uma árvore, em frente a uma sinagoga, em Tribeca, Nova York, falava sobre Seder, Sukkot, Passover e Mitzvah e me propôs entregar todos – quase mil paginas -- apontamentos esparsos e desconexos.
 Apenas estávamos sentados, em um final de dia de sexta-feira, e iniciamos uma conversa meio de judeu errante acerca da cultura, da poesia e da filosofia. Ele fazia doutorado na Universidade de Wisconsin, Madison, possuía amigos em Nova York e eu escrevia para o Village Voice. Foi exatamente essa minha atividade de jornalista que o levou a ver em mim, um possível colaborador para seu projeto de memórias. Coisa meio desconexa, como se fossemos cacos de um vaso sagrado, quebrado em muitas peças. Essa alusão ao conto de Kafka comprou meu passe. Acordo fechado. Mas durante a narrativa, a trajetória da família mudou de rumo até atingir um caso de adultério. Enfim, melhor que nem abri a história com esses fatos que viriam a ser alterados de forma radical, parecendo-me a versão livre mais verdadeira.
Martin reenfatizou suas tentativas de escrever a história, deveria ter conseguido, pois possuía comando da linguagem, mas sempre havia um nó e o texto se quebrava; talvez porque estivesse falando de si mesmo. Já houvera escrito um ou dois contos e possuía um livro de poemas publicado. Seu próprio texto mostrara-se de impossível conquista. Linguagem muito rebuscada, precisa e des-emocional. Coisa de teórico, estudante de filosofia Nem eu aguentaria.
--Creio que só alguém como você, jornalista, e com distância estética de meus conflitos, poderá organizar esse monte de notas e contar minha história! Tudo pode ser útil, mas alerto: não faça as pessoas terem pena de mim, nem entrarem em pânico.  Seja brando. Não me considero uma piada, embora possa rir de mim mesmo.
Prometi, com os dedos cruzados, cumprir o pedido dele, como Max Brod prometera não publicar os manuscritos de Kafka. Ouvi sua primeira impressão, seu relato sobre a separação de seus pais, e aceitei na integra o texto de sua passagem pela Alemanha Ocidental. Por mera intuição, preferi o texto sobre a Alemanha para abrir a narrativa, originalmente escrita em papel de caderno com linhas horizontais e verticais, como aqueles que usamos para jogar batalha naval. Uma boa alusão para esse texto: jogo de batalha naval: torpedo, destróier, avião, bombardeio, águas limpas, erro e acerto ao alvo.
Assim, assumi essa missão de meio, de intermediário, de caixeiro viajante, e quem seguir comigo, destrinchando as anotações, as mais variadas: algumas em guardanapos, algumas datilografadas, outras em cadernos escolares, muitas em computadores e até as mais recentes emfacebook etwitter, quem o fizer, pode ter surpresas sobre esse personagem, 1.71 de altura, 69 quilos, barba sal com pimenta, cabelos lisos, esparsos, uma pequena verruga no queixo, uma marca de corte de facão na perna direita, usando óculos de grau 4.5, nariz além do normal tamanho, olhos grandes, arredondados, castanhos profundamente cinzas, um olhar sempre vago como se houvesse um horizonte além de si mesmo, gestos delicados, um riso de deus de Judah, palmas de mão macias; certa curvatura no ato de sentar, embora se esforçasse para ficar ereto, e sempre cruzando as pernas, com a esquerda sobre a direita. Tinha um sinal no lado esquerdo do queixo e quando estava fatigado, apresentava um pequeno ruído metálico na expiração.
Alguns outros aspectos físicos eram marcadamente característicos de Martin: cabelos no peito, não muito espessos, lábios delicados, uma maneira de olhar as mulheres como se não as estivesse vendo, dando ideia de olhar penetrantemente distante, dedos da mão longos e dedos dos pés juntos uns dos outros, pouca musculatura, braços longos, um sorriso amigo e convidativo. Um tipo singular, com uma barba escura, que deixa sua marca mesmo quando recém-feita. Se deixasse crescer a barba teria aparência de rabino ortodoxo, mas Martin se apresentava sempre vestido de agnóstico.
--Minhas leituras de infância sobre filosofia pré-socrática, Metamorfoses e Teogonia de Ovídio, manual de onanismo, poemas de Safo, Gênesis, Éxodos e Jean-Paul Sartre levaram-me a um estado de não-crença, não confundir com des-crença, e terminei por me situar em um mundo pré-divindade. Encontro-me antes de qualquer coisa, na pré-crença e não ante de algo, ressaltou Martin buscando esclarecer sua posição no mundo conceitual da fé.
De acordo com as anotações de Martin essa sua des-crença nasce com suas leituras de Gênesis e de Spinoza. Ele explica que o primeiro verso do texto sagrado, a própria existência do universo é um fato de mistério, além da interpretação humana. Assim, a frase “no começo D’us criou o céu e a terra” há de ser uma tradução impensável, pois um começo do tempo e do espaço é tão impensável quanto seu próprio não-começo. Isto porque esse aparente conflito já está na essência de Aleph que representa vida-morte. Aleph, acrescenta Martin, é o princípio abstrato, impensável ser-não ser, vida-morte, o inimaginável tudo que é e que não é.
--Em minhas leituras de Spinoza, cheguei a concluir que até a palavra  é inconcebível. A hipótese da existência de um D’us inimaginável anterior a um impensável começo força a mente a confrontar-se com o absurdo de algo-antes-de-qualquer-coisa criando tudo a partir do nada. O único vencedor dessa charada é Aleph, a energia cósmica para a qual tudo que existe deve necessariamente ter um fim. Intermitente Aleph, intermitente vida-morte. Dessa forma, pensar em algo transcendental é perda de energia, é perda de Aleph. Por isso mesmo, conclui já entre 12 e 14 anos que viveria antes deste impensável conflito, viveria minha vida-vida, deixando a morte-morte para o outro, prometendo ir a seu enterro.
Facilitei meu entendimento daquele que não poderia entender, distanciei-me de mitos como Adão e Eva, costela, queda, paraíso, pecado, e assim por diante, e que esses conceitos são apenas fórmulas abstratas de uma energia cósmica incrustada na psique humana. Nossa estrutura de pensamento está focada na descrição, na interpretação das coisas e não nas coisas em si próprias. Quando falamos de movimento, não transmitimos movimento, mas uma ideia verbalizada de movimento. Quando digo que sou alto ou baixo, faço-o como uma imagem.
Martin parecida despender muita energia física para garantir sua posição diante do texto sagrado. Seus braços se movimentavam, além da rotina e havia umas gotas de suor em sua testa. Outros aspectos de seu complexo físico aparecerão quando falarmos de momentos singulares de sua vida menos para-religiosa, como hábitos sexuais, vício em fazer exercício físico na areia da praia, prática de esportes, hábito de dormir quando sozinho ou quando acompanhado e outras nuances que marcam as linhas físicas, responsáveis por algumas pessoas lhe perguntarem de chofre em algum aeroporto: “O Senhor é de Israel?”, sempre para a resposta simples: “Não, sou do Brasil”.
Em baixo da sombra da árvore de Tribeca, conversamos por umas três horas sobre suas memórias. Escrever sobre um personagem, com o personagem se metendo no que você vai falar pode ser coisa meio complicada, pensei. Muitas vezes, entende-se algo dos manuscritos e o personagem chega e diz: “não é bem assim”... Era uma sexta, fim de tarde, momento de meditação, e ele falava de abrigo, favela, palácio, forte de segurança, noiva e rainha. E de amantes calorosas de Amsterdam e de Engenho Velho de Brotas. Era fácil conversar, como se todos os dias fossem um dia de descanso. Martin estava meio confuso, com muitas ideias e narrativas que não batiam direito, com datas e pequenos registros escritos no passado: vinte ou trinta anos atrás deste dia de nossa conversa.
Comíamos um sanduíche de falafel, com húmus, azeitonas, tomates, e azeite de primeira qualidade. O Martin era devotado à cozinha judaica. E, em se tratando de agnóstico, uma deliciosa coca-cola. Martin descreveu-me a receita de falafel de seu avô materno, a fim de comparar com aquela que comíamos na delicatessen Haifa, em Tribeca. Declinou a receita:
Duas xícaras de grão de bico seco
¼ de xícara de salsa picadinha
3-5 dentes de alho, tostados
1 ½ colheres de sopa de farinha
1 1/3 colheres de cha de sal
2 colheres de chá de cuminho
1 collher de chá de coentro moído
¼ de colher de chá de pimenta caiena
1 pitada de alcafrão
Óleo vegetal para fritar (óleo de uva, girassol, amendoim)
Após repetir os ingredientes, Martin lembrou-se do modo de preparar: colocar o grão de bico em uma vasilha, com um pouco de água fria; deixar de molho por no mínimo 3 horas, a fim de sobrar o tamanho da massa; escorrer; por no processador com cebola picada, alho, salsa, farinha, cuminho, coentro, pimenta e açafrão. Fazer uma pasta, sem processar demais, para não virar húmus. Colocar um pouco de fermento natural (2 colheres de chá); preparar a frigideira, deixar o óleo esquentar, antes de colocar os bolinhos de massa, redondos, que podem ser medidos com uma colher de sopa (uma colher ou duas, de acordo com o tamanho que se deseja), ou na própria mão;
--Meu avô sempre fazia um bolinho para experimentar o resultado e as crianças adoravam aquele primeiro gostinho.
 Leva entre dois a três minutos para cada lado do falafel, 5-6 minutos para estar pronta – não esquecer de virar --; remover e drenar o óleo; colocar em papel toalha, ou pano. Servir quente, de preferência com um prato de húmus ao lado, molho de tahini. Às vezes, comíamos, dentro de um pão pita aberto, com uma pitada de gergelim.
Martin fez questão de explicar o que ouvira na infância: o falafel, apesar de comida judaica, é de origem árabe, vem da palavra falahfil, plural de filfil que significa pimenta. A primeira aparição teria sido no Egito antigo, onde era feito de feijão fava seco. Hoje, como sabemos, é o fast food predileto em Israel, primo próximo do acarajé, na Bahia. Um dos melhores do mundo se encontra no Mana Mana, na rua Yehuda Hammacabi, em Tel Aviv, de acordo com uma das anotação do próprio Martin, recordando sua passagem por Israel, 25 anos atrás.
 Essa viagem vai precisar um momento maior de trabalho, organizando as notas e conversando com Martin, talvez em um jantar específico, tamanha a quantidade de anotações, o que ajudará a montar a aventura que envolverá também as pirâmides do Egito e o Templo de Apolo, na Ilha de Naxos, Grécia.
Era muita coisa para revisar, e muita coisa para lembrar diante de um amontoado de tantos envelopes, papéis e guardanapos. Alguns, velhos, amarelados, com fotografias de mulheres presas comclip enferrujado. Mulheres lindas, bem vestidas e de beleza física estonteante, verdadeiras capas de revista. Uma das fotos era de uma morena, cabelos lisos e longos até os ombros, olhos alongados, castanhos, sombracelha espessa, mas delicadamente feita, ajustada em um desenho atraente, vestido de seda amarela com pintas pretas, casaco de meia estação, pernas cruzadas, longas, sentada em um banco de praça que poderia ser Nova York ou Salvador. Um pequeno e atraente riso, sabendo que estava sendo fotografada; entre as pernas via-se o alongar de suas coxas, como se apontando para o infinito indecifrável.
 
 Ouvi com atenção e combinamos marcar treze encontros para nossas conversas – essa seria a primeira—sempre que possível com um jantar à base de óleo de oliva, sal, limão e pimenta– ele adorava essas coisas, dizendo que quando era menino, também o avô paterno o iniciara na arte da cozinha judaica, sobretudo peixes e carneiro, além dos deliciosos challah e bagels, das sextas-feiras, dia de cozinha em família.
--Quando o primeiro Marciano chegou a terra com um amigo de infância e suas antenas verdes balançando sobre a cabeça, encontraram uma pastelaria e ficaram mirando a vitrine. Ai, o Abrahamovitch, o mais astuto dos dois Marcianos, olhou todos os tipos de pães expostos, com grande curiosidade. Depois de alguns minutos, virou-se para o amigo e disse: “olha aquele redondo com um buraco no meio, parece ser delicioso”.
Martin contou-me essa passagem duas vezes, explicando a atitude dos marcianos: “vamos entrar e provar”. Entraram, provaram e Abramovitch vaticiou: “É, é gostoso; mas ficaria melhor se fosse com queijo cremoso, você não acha?
--Viu você, até os marcianos sabem que bagel é melhor com cream cheese, a melhor receita para esse pão tão delicado, produzido em comunhão, no seio da família. Todos participam do processo de cozimento, desde a massa, a fervura da água, o descanso, até o forno. Industrializado, não vale, mas ainda poderá ser a melhor opção em relação a outras coisas.
Além do falafel, o prato predileto de Martin era carneiro. Tinha uma fixação na iguaria.
A receita predileta do Martin: Quilo e meio de peito de carneiro, três colheres de sopas de schmaltz, duas cebolas grandes, picadas, uma cenoura picada, dois chuchus, uma xícara de feijão verde, meio quilo de batata em cubos, duas colhes de sopas de salsa, meia colher de chá de alho em pó, uma colher de chá de sal, uma pitada de páprica. Cozinhar primeiro (15 minutos) a carne no schmaltz, gordura vegetal, de preferência, acrescentar cebola, alho; um por um, na ordem apresentada acima. Tampar bem a panela e cozinhar (sem água) durante 25 minutos por quilo. Sacudir a panela para não grudar. A água das verduras será suficiente para produzir um molho. Como ele bem diz: “serve 4 ou 5 pessoas”.
Uma diferença grande do que comia o Martin, lá em Jacobina, na Bahia, onde viveu até os sete anos. Muito carneiro assado no braseiro rodante, farinha de mandioca, e pão challah, preferido por seu avô.
Aliás, entre as histórias e anotações dele estava o jantar, na sexta, quando tinha 5 anos: seu avô, sentado na cabeceira da mesa longa, luz de velas,  cortava um pequeno pedaço do pão e passava para o mais velho que seguia passando por idade até chegar ao mais novo da família.
--Só após o ritual de partilha do challah, a comida em si estava servida e ai, amigo, era salve-se quem puder. Todos, em todas as idades, eram iguais. Havia uma pitada de orgulho na narrativa do Martin acerca dessa cerimônia.
--Na minha infância, toda cozinha era kosher, ou quase, até onde a tradição poderia ser mantida em uma cidade pequena, na Bahia, onde a maioria dos habitantes eram primos e os casamentos quase sempre em família, por falta de muita gente da mesma origem. Mas eu sempre ficava assombrado e assustado em ver o carneiro, de cabeça para baixo, o sangue caindo aos poucos em um buraco no chão. Meu avô conduzia tudo e falava como era um bom schochet, treinado e conhecedor da anatomia do animal. Martin possuía muitas anotações da infância, com ênfase muito grande na relação com seu avô paterno e mostrava admiração por sua habilidade na preparação dos alimentos, centro da família.
 E o processo continuava, anota Martin:
--Colocar a carne em água fria, por meia hora. Lavar a carne e jogar um pouco de sal grosso. Assim, sem o sangue e após esse processo de mais uma hora, estava pronta para cozinhar. E mais, carne para comer assada na brasa, não precisava sal grosso e outros detalhes. Tudo era misterioso, mas muita aprendizagem para as crianças.
-- Eu tinha mais medo dos animais de cabeça para baixo, com um olho parado em minha direção. Pareciam com a descrição de monstros das histórias infantis que ouvíamos na hora de dormir e o famoso “boi da cara preta, pega esse menino que tem medo de careta”... Havia uma senhora já idosa com madeixa longa que adorava meter medo nas crianças na hora da música de dormir. (segue)

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