Sábado, 25 de Novembro de 2017 - 05:03

ACADEMIA DOS REBELDES

por Florisvaldo Mattos

ACADEMIA DOS REBELDES
Foto: Arquivo pessoal

Não há dúvida de que perseguia um pujante sonho de renovação, não só nas letras e nas artes, mas também nos costumes e práticas políticas, o movimento literário, que aparentemente irrompeu na Bahia em fins de 1928, para durar até talvez 1933, com o irônico rótulo de Academia dos Rebeldes, reagindo a um estado da cultura, então vigente, que os moços envolvidos julgavam caduco. Em um espirituoso balanço sobre o que significou esse processo, de que foi nome baiano de proa ainda apenas um irrequieto adolescente aos 16 anos de idade, Jorge Amado, depois de se atribuir e aos companheiros o propósito de “varrer com toda a literatura do passado”, aponta, como saldo positivo, terem eles concorrido, “de forma decisiva, para afastar as letras baianas da retórica, da oratória balofa, da literatice” e dar-lhe “conteúdo nacional e social”.


Jorge Amado dizia isso em 1992, sessenta e quatro anos após um grupo de jovens se reunirem no já então afamado Café das Meninas, na esquina da Rua do Tira Chapéu com a da Ajuda, e no ali próximo Bar Brunswick, no centro da cidade, no intuito de difundir as ideias informadoras do movimento modernista e derrubar renitentes muralhas de conservadorismo que dominava a sociedade baiana e sua cultura, desde inícios do século XX, isto é, para combater intermitentemente, como se dirá depois, “as oligarquias do imutável”, mas no mesmo ritmo de defasagem do bem mais amplo ímpeto que o inspirara, surgido em São Paulo, quase sete anos antes, a Semana de Arte Moderna, em relação às vanguardas europeias deflagradas há muito mais de um decênio.


Se havia defasagem de influências, em centros mais adiantados do país, como São Paulo, quanto mais na Bahia. Os jovens intelectuais baianos formavam uma confraria local a que se agregavam outros oriundos de estados nordestinos, todos eles mordidos, conforme Jorge Amado, pelo “micróbio da literatura”, e se intitulavam “modernos” como algo mais que “modernistas”, numa alusão irônica ao que ocorrera em São Paulo, a cujas ideias não desejavam estar acorrentados. Pretendiam, no seu intento de adolescentes rebeldes, horizontes mais vastos.


Tendo como mentor inicial o poeta e jornalista panfletário Pinheiro Viegas, segundo Cid Seixas, um “corrosivo intelectual que também destilara seus feitos e seu fel entre os rapazes da revista Samba”, grupo que emparelhava com o de Arco e Flexa, também surgido em 1928, os mesmos combativos propósitos, porém menos estridentes, o núcleo central da Academia dos Rebeles se compunha ainda dos seguintes nomes: Jorge Amado, Édison Carneiro, Dias da Costa, João Cordeiro, Alves Ribeiro, Áydano do Couto Ferraz, Sosígenes Costa, Clóvis Amorim, Da Costa Andrade, Guilherme Dias Gomes, irmão do célebre dramaturgo baiano, Alfredo Dias Gomes e Walter da Silveira.


O movimento dos chamados rebeldes se inseria no conjunto de preocupações e aspirações marcantes de um período de pós-guerra e prenúncios de outro conflito mundial, com os desdobramentos, na década de 1920, de toda a efervescência cultural e atropelos provocados pelas vanguardas do início do século, mas que se refletiria na Bahia com lentidão de passos maior ainda que a dos paulistas de 1922. A liderança de Pinheiro Viegas, poeta mais conhecido pelo instinto panfletário que por seus poemas de circulação restrita, impelia os jovens baianos a lucubrações intelectuais bem mais avançadas do que suportava o ambiente urbano de então, a fluir, como já se disse, “em ritmo de bonde”.


Em verdade, a Bahia, como se chamava na época, era uma cidade estática, imersa em orgulhosa e soberba atmosfera provinciana, onde não havia lugar para endeusarem-se a máquina, a eletricidade e a velocidade, não obstante a ingênua ousadia futurista de um poeta, o feirense Eurico Alves, adepto do grupo da revista Samba, cuja delirante imaginação divisava, em seus Poemas Metálicos (1926-1932), uma cidade imersa na volúpia fumacenta de locomotivas, pulsação mágica de fábricas e suas ardentes chaminés, lanchas e transatlânticos nos portos, guindastes, automóveis, buzinas, apitos, sirenas, guinchos, longas avenidas, ruas largas e arranha-céus, com céu cinzento sobre massas enormes de cimento armado, reclamos, títulos e dísticos luminosos – enfim, uma festa de nítido sonho futurista.
Todavia, já se observava então no ambiente urbano um clima de forte aspiração por mudanças, principalmente no que dizia respeito ao sistema de bondes, o transporte moderno há bem mais de uma década servindo aos habitantes, mas na ocasião já em processo de acelerada reformulação, como decorrência das reformas urbanas empreendidas pelos governos Seabra (1912-1916 e 1920-1924), perspectiva que impelia os jovens rebeldes para horizontes vanguardistas, contra todas as forças dominantes, embora rejeitassem arrebatamentos futuristas, que viam como delírio. No entanto, se pensavam assim, por outro lado, viam a cidade do Salvador com olhos novos. 


E havia motivos para tanto. A cidade da Bahia, que em 1900 possuía, segundo registros, 85 mil habitantes, no tempo da Academia dos Rebeldes ostentava cerca de 250 mil. Em um de seus depoimentos, Jorge Amado dá essa informação, que parece indicar um avanço, desde que o censo de 1940 irá mostrar uma população de 290.433 habitantes, que mais que dobrará nos próximos vinte anos, com os seus 655.735 em 1960. Aos olhos dos rebeldes, a cidade dos anos 1930 avançava no sonho de se tornar metrópole, marchando para se desfazer da carapaça que a engessava, já que, coroando um processo iniciado três anos antes, iria concluir-se em 1929 o processo de fusão das linhas de bondes, quando a Companhia Linha Circular de Carris da Bahia – popularmente chamada Circular – obtém por contrato o direito de explorar o serviço em todo o município, expandindo a cidade, criando e aproximando novos bairros,  conjugando-o com o monopólio da distribuição de energia elétrica.
Vivia-se a consolidação de reformas urbanas que expunham evidentes sinais de modernidade. Começava a se configurar um cenário pelo qual antes a imprensa enfática e romanticamente clamara, dirigindo-se a Seabra, então governador: que houvesse “no seio da velha cidade a alegria nova das vias amplas, modernas, por onde possa circular livre e fecunda a vida feliz de um povo forte”. Requeria-se, desse modo, que a cidade demarcasse seus espaços para neles se assentarem novos padrões de comportamento.


Definitivamente, a cidade da Bahia estava deixando de ser um burgo provinciano, vivenciava situações apenas imaginadas, que faziam osrebeldes detectarem na paisagem urbana uma nova atmosfera, um outro calor humano, denunciado por um mais intenso trânsito de pessoas e de posturas. Percebia-se um súbito fortalecimento do comércio exportador, estímulos ao consumo e demanda de serviços pelo surgimento de lojas, escritórios, hotéis, cafés, pastelarias, esquinas povoadas, pontos de encontro, cassinos e bordéis (então apelidados de “castelos”), jornais dispostos a abrir-se ao debate; um ambiente propício às fruições de um embrião deflâneur, com a burocracia cada vez mais cedendo espaço, apesar das resistências.


Nesse contexto, é preciso também abrir uma janela para a vida nos cafés, nos cassinos, nos dancings e nos bordéis. Jorge Amado dá testemunho do que acontecia nesta cidade então, para ele, “muito agradável de se viver”. “Os castelos tinham uma grande importância. Havia algumas putas francesas, que eram dadas à literatura. As nossas prostitutas eram em geral ignorantes, meninas do campo em sua maioria. Nós é que fazíamos a importância cultural dos castelos. Dávamos uma certa conotação literária”, relata, em depoimento de 1981, fornecido ao crítico literário Valdomiro Santana.


Imitado de Paris e do Rio de Janeiro, o culto dos cafés na Bahia literária dos anos 1920 e 1930 acendia os ânimos, açulava as emoções e arrebatava o espírito dos integrantes da Academia dos Rebeldes, assim como o dos concorrentes engajados nas revistas Samba e Arco e Flexa. Na marcha do tempo, essas estripulias avançaram pelos anos seguintes até fins dos anos 1950. Vistos com os olhos de hoje, trata-se de um paraíso que se perdeu, solapado que foi pela cultura fast-food das lanchonetes e praças de alimentação de shopping centers.  Assim, por essa época, havia na chamada Baixinha (traço de união ligando a Ladeira do Taboão à Baixa dos Sapateiros) o Café Astúrias, o Café Moderno, o Café Derby e o Café Progresso; no centro da cidade, destacavam-se o Café das Meninas (antes chamado Café Chic), o Café e Bar Brunswick, o Café Fim do Século, o Café Bahia e o Café Madrid.


Em artigo que publicou no jornal A Tarde em 29 de junho de 1976, Jorge Amado recorda um dos trajetos habituais de seus companheiros da Academia dos Rebeldes, logo nos seus começos. “Sob a bandeira de Pinheiro Viegas, no Café das Meninas, a nossa rebeldia adolescente organizou-se para melhor enfrentar os bons camaradas de Arco & Flexa, comandados por Carlos Chiacchio, ou os simpáticos rapazes de Samba, Bráulio de Abreu, Clodoaldo Milton, Elpídio Bastos e outras excelentes pessoas – malditos adversários, implacáveis inimigos. Maravilhosos dias da juventude num mundo de paz, numa cidade ainda provinciana e deslumbrante”.


Essas peraltices hedonistas dos rebeldes eram completadas com incursões, não só noturnas, mas também diurnas, por endereços onde havia mulheres disponíveis para convivência boêmia e transações amorosas. Pertencente ao grupo de Arco & Flexa, concorrente da Academia dos Rebeldes, o poeta Carvalho Filho (1908-1994) afirma que, além da esfera dos conceitos literários, era na vida boêmia que mais se acentuavam as diferenças entre os dois grupos. “Ao contrário de nós, os rebeldes frequentavam bordéis populares, eram grandes farristas, chamavam a atenção. Mas se reuniam também no Café das Meninas, onde conheci Jorge Amado ainda rapazola, muito antes de ele ser famoso”, disse ele, em conversa com o mesmo Valdomiro Santana.


Por mais de uma ocasião, em depoimentos ou em suas memórias, Jorge Amado se refere a esse trânsito lúdico e diuturno em ambientes por eles tratados sob a designação geral decastelos, como sinônimo de bordéis ou cassinos. “Quando tínhamos dinheiro, eu e Dias da Costa nos mudávamos para os castelos, ficávamos morando uma semana. Ocupavam uma área enorme, a Misericórdia, Ladeira de São Francisco, Maciel, arredores da Sé, Tabuão” – confessa, recordando muitas de suas peripécias juvenis à época, mas experiência por ele bem antes vivida. Há um relato seu de travessura ocorrida em Ilhéus, em 1925, quando tinha apenas treze anos. Conta que visitou com um primo o bordel de Antônia Machadão (“em Gabriela mudei-lhe o prenome para Maria”, confessaria ele depois), segundo ele mulher “conhecida e estimada por todos na cidade, apesar do comércio que explorava com proveito”, desde que dona do bordel “mais renomado da zona cacaueira”, o famoso Bataclan, mas de lá logo expulso por ela, por declarado respeito a sua mãe, dona Eulália, de quem Machadão era amiga.


É justamente sobre a população feminina da Ilhéus desta época que Jorge Amado nos oferece outra informação preciosa. Referindo-se ao Bataclan, diz que “além de nacionais vindas da Bahia, de Aracaju, do Rio, nele existiam uma francesa e uma polaca; profissionais civilizadas, asgringas faziam de um tudo”. Observa-se aí uma singularidade: a presença de mulheres estrangeiras no comércio da prostituição, nas décadas de 1920 e 1930, como nas duas seguintes, sob a designação geral de polacas. Tratava-se de imigrantes que não eram só mulheres de nacionalidade polonesa, mas que poderiam ser também francesas, romenas e sul-americanas. Ainda nos anos 1950, embora já bastante esmaecido, persistia esse fenômeno migratório. Descobri que a palavra polaca usada para designar essas imigrantes funcionava apenas como uma metonímia. Em dois livros seus, Boêmios, um apanhado sobre a movimentação da vida artística e mundana na Paris dos anos 20 e 30, e no seu romance Nu Deitado, o escritor Dan Franck oferece as pistas que explicam o que acontecia. Para a época dos rebeldes, a razão está na migração forçada de jovens mulheres como uma das desastrosas consequências que a primeira Grande Guerra (1914-1918) infligira aos países do leste europeu, entre os quais se destacava a Polônia, gerando forte aumento nos níveis de empobrecimento da população e provocando intenso movimento de migração.


Segundo se deduz das narrativas de Dan Franck, máfias instaladas em capitais europeias, com destaque para Paris, empenhavam-se na importação de mulheres infelizes, que seriam liberadas pelos pais a troco de remuneração que os aliviasse da miséria, de repente aflorada à sua porta. Com isso, confiantes no destino que as aguardava, pelas bondades que lhes eram prometidas, os pais concordavam em liberar as filhas, geralmente jovens e atraentes, e elas, ante as privações que as engolfavam, partiam com a mente grávida de sonhos e esperanças. Paris então funcionava, não só como primeiro destino de recepção, mas como entreposto para exportação dessa singular mão-de-obra para outras capitais, entre as quais Buenos Aires, na América do Sul, que, por sua vez, operava também como entreposto sul-americano para outras capitais. Nesses destinos, sempre sob a designação exótica depolacas, elas atuavam muitas vezes como dançarinas de cabarés, em grupos sob o rótulo profissional de bailarinas, por se apresentarem em balés, ou mesmo simplesmente como prostitutas, tendo por trás, além de intermediários, quase sempre uma súcia de gigolôs. 


O salto baiano para o Modernismo ou para a Modernidade, como mais gostavam os rebeldes da Bahia de rotular seus propósitos, seguiu a tradição de adoção das ideias novas, que no princípio do século 20 irromperam mundo afora, a da criação de revistas como meio de difusão das múltiplas inquietações intelectuais, até mesmo políticas. Assim, os modernos baianos cuidaram em 1929 da criação de revistas, primeiramente, com a intitulada Meridiano, que durou um só número, e depois com O Momento, cujos nove números circularam entre julho de 1931 e julho de 1932. Faziam o mesmo que os outros dois grupos concorrentes em ideias e propósitos da época: a revista Samba, onde atuavam os poetas Bráulio de Abreu, Godofredo Filho, Carvalho Filho e Eurico Alves, e Arco & Flexa, esta editada sob a direção de Carlos Chiacchio, um médico mineiro, que, como crítico e animador de movimentos literários, lutava pela renovação das letras e artes brasileiras, militando com intensidade desde 1928, quando começou a assinar cultuados rodapés de crítica literária sob o título de “Homens e Obras”, no jornal A Tarde, que durariam  até 1946, embora fosse um intelectual de índole conservadora.


Meridianosurgiu em setembro de 1929, mas seu único número trazia o bastante para mostrar a que vinham os rebeldes baianos.  “Meridiano não passou do primeiro número. Nós, os Rebeldes, éramos pobres como Jó, exercíamos nossa prosa e nossa poesia em qualquer gazeta que nos desse guarida”, comentará Jorge Amado, muitos anos depois, em tom que se distancia do artigo-manifesto, com o título de “Itinerário”, estampado na primeira página, no qual o grupo já se declarava disposto a iniciar “o combate a tudo o que retarda a marcha do progresso, em todas as manifestações do espírito humano”, classificando a sua atuação como “obra de regeneração moral e intelectual”, com “espírito moderno”, “dinamismo” - enfim, “Século vinte”.


Com o subtítulo de “Mensário Ilustrado Informativo”, O Momento apareceu em edição colorida e com fotos. Como surgia após a deflagração da Revolução de 30, além das preocupações literárias e estéticas, a nova revista também se enveredava pela política, mas acabou por se fixar, segundo o pesquisador Gilfrancisco Santos, como “a mais expressiva das revistas surgidas na Bahia, inspiradas no movimento modernista”. Tendo o poeta Alves Ribeiro como redator-chefe, aos colaboradores de Meridiano, nas edições de O Momento, se acrescentaram Édison Carneiro, Dias da Costa, João Cordeiro, Guilherme Dias Gomes e Clóvis Amorim, entre os mais assíduos do grupo, mas com a novidade de autores do Sul do país, tais como Augusto Frederico Schmidt, Octávio de Faria e Menotti Del Picchia. De entrada, com um laivo de soberba juvenil, a revista avisava que não aceitaria colaboração de quem não fosse convidado, o que implicava estar o colaborador em consonância com suas ideias, e completava, entre jocosa e desafiadora: “O Momento, como todo órgão ou realejo que se preze, não se quer confundir com as gaitas de fole do jornalismo salta-moitas”, “porque aqui não impera o costume baianíssimo do elogio mútuo”. E apimentava, como justificativa: “Fazemos esta declaração a tempo, a fim de evitar aborrecimentos com certos poetas e literatos que andam às portas mendigando publicidade às suas bobagens, rimadas ou não. Toda e qualquer colaboração será solicitada pela direção desta revista, obedecendo ao critério da seleção de valores”. Lá Jorge Amado publicou o seu primeiro conto, “Sentimentalismo”.  Quando passou a ser dirigida por Dias da Costa, a nova revista insere-se num contexto que a torna, segundo o próprio Amado, “de inflamado conteúdo antifascista e evidente influência do Partido Comunista, no âmbito da luta contra o integralismo”.


Há outra faceta da vigência da Academia dos Rebeldes que adquiriu inquestionável relevância: a participação de alguns de seus membros, à frente Jorge Amado, Édison Carneiro e Oswaldo Dias da Costa, na luta pela afirmação da cultura de origem africana e em favor da liberdade de culto religioso, como as práticas do candomblé, ao tempo e depois, alvo de perseguição e implacável repressão policial. Em um de seus depoimentos, Jorge Amado descreve este cenário, situando inclusive suas contradições, tais como a patrocinada pela Igreja Católica, que estimulava as proibições ao candomblé, quando muitos de seus praticantes tinham visível influência na administração dos templos, através de confrarias que zelavam e até cuidavam das despesas de algumas igrejas, como a do Bonfim, a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho, e a da Barroquinha. “O candomblé era considerado uma barbaria, um horror”. (...) “A polícia invadia os terreiros, quebrava, prendia, espancava. Era terrível. Os pais-de-santo não podiam fazer nada”, sublinha ele, abrindo logo a seguir uma janela para o comportamento dos políticos nesse campo, sempre interessados no apoio do segmento africano da população, mas agindo diversamente no que dizia respeito às práticas do candomblé.


“Alguns políticos influentes tinham uma certa ligação com o candomblé, mas escondiam essa ligação. O Juracy Magalhães (na época interventor do Estado, por força da Revolução de 30, nota do redator), por exemplo, era ligado ao pai-de-santo Jubiabá. O apoio dos políticos não era efetivo – davam dinheiro, ajudavam, mas na hora do pau comer, eles tiravam o corpo fora”.


Qual terá sido o legado dos rebeldes às Letras e às Artes?


Em um parcimonioso inventário do desempenho dos rebeldes – aqueles, segundo Cid Seixas, “bem-humorados mosqueteiros, que combateram o bom combate dos fins dos anos vinte aos princípios dos anos trinta”, em 1992, Jorge Amado apresenta o que o crítico considera apenas uma “avaliação sentimental”:


“Único vivo do grupo que compôs a Academia, no exercício da saudade, faço o balanço dos livros publicados pelos Rebeldes, por cada um de nós. A Obra Poética e Iararana, de Sosígenes Costa: sua poesia, nossa glória e nosso orgulho; a obra monumental de Édison Carneiro, pioneiro dos estudos sobre o negro e o folclore, etnólogo eminente, crítico literário, o grande Édison; os Sonetos do malquerer e Os Sonetos do bem-querer, de Alves Ribeiro, jovem guru que traçou nossos caminhos; os dois livros de contos de Dias da Costa, Canção do Beco, Mirante dos Aflitos; os dois romances de Clóvis Amorim, O Alambique e Chão de Massapê; o romance de João Cordeiro devia chamar-se Boca suja, o editor Calvino Filho mudou-lhe o título para Corja; as coletâneas de poemas de Aydano do Couto Ferraz, a de sonetos de Da Costa Andrade; os volumes de Walter da Silveira sobre cinema — some-se com meus livros, tire-se os nove fora, o saldo, creio, é positivo.”


Nas palavras de Jorge Amado, embora não tenham varrido a literatura dos movimentos do passado – “não enterramos no esquecimento os autores que eram os alvos prediletos de nossa virulência (...), em geral todos os que precederam o modernismo” -, os rebeldes concorreram, “de forma decisiva, para afastar as letras baianas da retórica, da oratória balofa, da literatice, para dar-lhe conteúdo nacional e social, na reescrita da língua falada pelos brasileiros”. “Fomos além do xingamento e da molecagem, sentíamo-nos brasileiros e baianos, vivíamos com o povo em intimidade, com ele construímos, jovens e libérrimos nas ruas pobres da Bahia”, sublinha em seu livro de memórias intitulado Navegação de Cabotagem.


Abstraindo-se o movimento de Ala das Letras e das Artes (ALA), que vigorou a partir de 1936, sob o comando intelectual de Carlos Chiacchio e, por isso mesmo, uma continuidade da pauta de ideias pregadas e defendidas pelo grupo de Arco & Flexa, persistindo no seu receituário intitulado “Tradicionismo Dinâmico”, que defendia um modernismo respeitador da tradição e duraria até o final da Segunda Grande Guerra (1945), visto à distância de hoje, percebe-se que o legado da Academia dos Rebeldes se projetará sutilmente nos dois movimentos baianos que se seguiram ao fim do conflito mundial: o de Caderno da Bahia, que se inicia por volta de 1947, liderado por Mário Cravo Júnior, Carlos Bastos, Wilson Rocha e Vasconcelos Maia, e o da chamada Geração Mapa, como sequência deste, a partir de 1955/56, sob a liderança de Glauber Rocha, da qual tive a honra de participar.

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