Sábado, 18 de Novembro de 2017 - 05:03

ABRAÇO DE UM ESTRANHO

por Cristiano Teixeira

ABRAÇO DE UM ESTRANHO
Foto: Arquivo pessoal

Antes de sair para trabalhar, Casemiro olhava embevecido para a esposa Luíza e a pequena Elisa, suas duas preciosidades, razão de seu viver, como ele dizia. Ao olhar para elas, Casemiro se sentia um homem realizado por viver ao lado da mulher que tanto amava e ser o pai de uma criaturinha encantadora que lhe causava emoção, cada vez que ela lhe lançava um sorriso de alegria e abria os pequenos braços para ele, pedindo a sua atenção. Depois que fechava a porta de casa trás de si, Casemiro se benzia e tomava o destino para o trabalho.
 
Casemiro agora ia, satisfeito, pedalando para o trabalho. Depois de economizar por mais de um ano, ele conseguiu finalmente juntar o dinheiro necessário para comprar a tão sonhada bicicleta. Não era uma dessas que custam os olhos da cara, no entanto; verdadeiros artigos de luxo e inovações tecnológicas sobre duas rodas. Ao contrário, a bicicleta de Casemiro não possuía qualquer sofisticação, feita de material de qualidade, porém barato, custou-lhe menos que um salário, mas, para ele, trabalhador humilde, aquela aquisição foi uma grande conquista.
 
No entanto, nem todos foram os meses que sobrou algum dinheirinho que fosse parar na caixinha da bicicleta. E houve vezes que ele tirou da caixinha para pagar despesas imprevistas da casa. Mas Casemiro não se desesperava, ele era um homem de fé e paciente. Talvez esta sua fé fizesse dele um homem obstinado e muito trabalhador, quem sabe. Para realizar o seu pequeno projeto, que para uma pessoa sem recursos constituía num um grande investimento, ele também fez bicos aqui e ali.
 
Quem pensa que talvez uma bicicleta fosse um artigo de luxo, usado para o seu lazer, desconhece que Casimiro era um homem de bom senso. O rapaz fez as contas e calculou que indo pedalando para o trabalho, ele ia economizar todo o dinheiro do transporte no final do mês, não era pouca coisa. A economia ia ser guardada para os futuros estudos da pequena Elisa, para que ela tirasse um diploma universitário e tivesse oportunidades melhores que os pais, estava decidido. A bicicleta também teria outra utilidade: com ela, ele esperava fazer mais bicos como eletricista e encanador para poder dar mais conforto á sua família. Casemiro parecia que tinha tudo pensado e sob controle, ele só não podia realmente controlar o seu destino, como descobriu, de forma amarga, mais adiante.
 
Uma manhã a caminho do trabalho, depois de se despedir da esposa e filha e de se benzer, passou por aquela mesma rua de todos os dias. Esta era uma das vantagens da bicicleta, cortar caminhos para encurtar a viagem. No entanto, seu trajeto foi interrompido quando um garoto atravessou à sua frente apontando-lhe a arma. Apavorado, Casemiro entregou-lhe a bicicleta, aliviado por também não ter lhe entregue a própria vida. Mas aquele alívio foi uma impressão passageira. O garoto montou na bicicleta, que a muito custo Casemiro juntou dinheiro para compra-la, e antes de seguir o seu rumo, tirou de Luíza o amado marido e da pequena Elisa o pai carinhoso e orgulhoso que sonhava um dia vê-la uma doutora diplomada.
 
Um estanho que ia passando naquele exato trágico momento, correu para acudir Casemiro, estirado ao chão. Ajoelhou-se ao lado dele que teve folego para apenas lhe sussurrar um último pedido:
 
— Me abrace, estou partindo!
 
O estanho pegou Casemiro em seus braços e lhe deu um abraço de despedida. Foi a última vez que sentiu o calor humano.

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