Sábado, 28 de Outubro de 2017 - 05:05

BELEZARIA E OUTROS MINICONTOS

por Carlos Barbosa

BELEZARIA E OUTROS MINICONTOS
Foto: Arquivo pessoal

 LEMBRANÇAS DE VIAGEM
 
Elenão se lembra bem como aconteceu.
Perdeu o controle do carro e saiu da estrada.
Assim como quem sobe a calçada para cumprimentar pessoas, o carro e ele tocaram árvores, uma depois da outra, até se quedarem, cada qual em seu cantinho de mato.
Não tardou muito e os outros surgiram no local do acidente. Primeiro, curiosos; depois, sorrateiros.
Ele os viu, um a um, revirarem o carro e levarem seus pertences. Assistiu depenarem seu próprio corpo – não podia mexer-se, não podia falar.
Depois eles o deixaram lá, gaveta revirada, e foram cuidar de suas vidas.
Disso ele se lembra bem.
 
 
 
 
INSUPREMO
 
O mundo estava entregue a uma total desilusão; a vida, insuportável.
Os homens destruíam o planeta e a si mesmos.
Foi aí que enviaram um astronauta, até a galáxia vizinha, em busca de uma nova experiência redentora.
O astronauta retornou.
Todosaguardavam com ansiedade por suas declarações após a quarentena.
Disse apenas uma frase, cabisbaixo:
– Desistam, somos todos iguais!
 
 
 
 
BOCA
 
Lia um livro, cabeça baixa. Dela, via bem seus braços nus, os cabelos negros que se lhe escorriam feito parênteses a um rosto oculto.
Lembro da sala na penumbra, do facho luminoso que vinha da janela, e lembro dela, inteira, no centro luminoso, de cabeça baixa a ler um livro.
Mas não me lembro de outra coisa, desde que levantou a cabeça em minha direção, que não seja de sua boca. Dois conjuntos de asas a se tocarem pelas pontas, duas serras invertidas e suas veredas delicadas, aqueles lábios polpudos.
Pensei em boca da noite, em cair de boca, em veludos purpúreos. Pensei em pular de flecha, do alto do cais, na massa semovente do rio ocre de minha infância. Despensei, parecido com o desmaio de depois do amor.
Assustei-me com a possibilidade de ela abrir a boca e dali jorrar um rio de mel, uma brisa de verbos desconhecidos; ou de ser sugado pela correnteza do seu hálito na direção dos brancos arrecifes que aquela boca escondia.
Ela desviou o olhar, voltou a ler.
Foi esse o motivo, doutor, confesso.
 
 
 
 
BELEZARIA
 
A beleza tonteava pelas calçadas do Comércio.
Era noite avançada e a beleza mostrava-se esquálida e seminua: a calcinha preta negava-se à bunda murcha, e o sutiã, igualmente preto, procurava em que se prender no busto.
A beleza era assim empurrada por fomes seculares e sedes imediatas. Tão solitária, aquela beleza, à procura de luz e vapor...
Ao volante do carro, passei por ela e fugi do seu olhar opaco; o meu, turvo por lágrimas. Enquanto os caronas achavam muita graça da beleza perdida na noite do Comércio. 
 
 
 
 
A BUNDA E O ASSENTO
 
O pronto-socorro fervilhava de doentes e acompanhantes. O atendimento arrastava-se entre gemidos e chamadas a médicos e funcionários pelo sistema de som.
SeoSampaio estava febril, enjoado, com tonturas. Cansado, deixou o corpo escorregar pela parede em que encostara por falta de cadeiras. Sentou-se no chão do pronto-socorro quando o relógio apontava meia-noite.
Instantesdepois o segurança aproximou-se de seo Sampaio e ordenou que se levantasse.
– Hein?
– Levanta daí, que é proibido sentar no chão da sala de espera.
SeoSampaio passou a mão pelo rosto, apurou o gosto amargo na boca e não sentiu nos músculos a menor disposição ao esforço de levantá-lo. Olhou pra cima:
– Moço, o senhor tá dizendo que eu não posso botar minha bunda onde qualquer um pode pisar e cuspir?
 
 
 
 
A PRIMEIRA BOLA
 
Era emborrachada. Mas quase do tamanho oficial e de gomos brancos e pretos pintada. Presente de natal.
Saiu do quarto quicando a bola no piso, tóin! tóin! A mãe proibiu-o de jogar dentro de casa. Foi pra rua e de lá foi expulso pelos intrépidos carros. Ficou na calçada, pra lá e pra cá, a driblar imaginados adversários.
Uma tristeza. Mas a bola era só dele e não a dividiria com outros facilmente. Chegou a tarde e ele continuava agarrado à bola.
Na praça do cais, exibiu-a como se fosse sua primeira namorada. Não a beijou publicamente por timidez, mas vontade teve.
Anoitecia e os rapazes pulavam do cais, o rio pesadamente cheio. De repente, um puxão e a bola virava brinquedo nos pés da rapaziada. Ele pediu a bola de volta, gritou esganiçado e acabou chorando. Mas a bola não voltava: rebolava-se faceira entre os rapazes, tóin! tóin! Antes de escurecer completamente, a bola foi chutada com ímpeto rio adentro. Deu seu último tóin! ao tocar as águas barrentas e velozes do rio.
Engasgado pelo choro, horrorizado e impotente, assistiu do alto do cais ao sumiço da bola na escuridão, rio abaixo a boiar.
Ganhou uma surra de cinto ao chegar em casa sem a bola. Presente de natal.
 
 
 
 
O ESPORTISTA
       
        Segue moças pelos corredores de shoppings.
Depois, masturba-se no banheiro.
No final da tarde, de mãos e alma lavadas, vai pegar a filhinha na saída do colégio.
 
 



MALA
 
Arrumou a mala cuidadosamente. Roupas e acessórios para uma longa viagem.
        Embarcou no ônibus pra São Paulo tão logo o dia amanheceu.
        A mala chegou ao destino.
       
 
       
 
BÊNÇÃO
 
        Falta pouco para que eu não tenha mais a quem pedir bênção. Depois será a minha vez de não ter quem me estenda a mão na esperança de ser abençoado. O mundo em que nasci terá, então, acabado.
        No novo mundo, talvez eu compre uma pistola automática. E atire no primeiro filho da puta que esticar o braço em minha direção.

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