Sábado, 14 de Outubro de 2017 - 05:07

TREZE CONTOS REAIS

por José de Jesus Barreto

TREZE CONTOS REAIS
Ilustração: Enéas Guerra
Velha mangolê
 
Na soleira da janela da toca de pedra e barro,
a velha de rosto crespo e torço cor dos cabelos
tinha a gola puída, os olhos sem faísca desfocados
e ares de nem mais pertencer a este mundo
Mas tocava flauta tipo doce e crua
- lábios enrugados, dedos tortos, unhas sujas –
feito um arcanjo, uma bruxa, em elfo, um serafim.
... Tão somente uma negra mulher a soprar
suas dores, sonorizar quereres e desprazeres
d’alma, sem aflição.
Parecia em êxtase, enquadrada na janela,
flautando ao tempo
Passarinhando desalentos
Solitária e plena
 

 
 
Sem Nome
 
Mora no oco do toco do tronco
da árvore da avenida que morreu
com os galhos esturricados
Mãe se foi, pai mal conheceu
Irmãos, dois, deles mal sabe
Mulher não mais lhe quer
E os filhos nem lhe reconhecem.
Deve ser a barba pelo tingida
Toda branca, crescida...
Aparência abatida, doidice assumida.
A negação das coisas desse mundo.
Sua casa é um oco de pau
De onde se vê as águas do Dique
e a Fonte iluminada no eco do gol.
No mais o barulho dos motores,
a buzina, o uivo dos ventos, a chuva fria...
Como roupa usa aquilo que lhe cabe
Papelão de cama e cobertor mofado
Fogareiro de lata e um de comer qualquer.
Pouco fala, não ri, os olhos no nada além.
Caminha sem destino
quando as pernas pedem
e os pensamentos querem voar
Mas sempre volta ao abrigo
O oco do toco do tronco da árvore
... morta e esquecida na venida.
Morada dessa oca vida
Caminheira
Solitária
- Seu nome?
- Não sei. Perdi o meu nome.
 

 
 
Pingos urbanos
 
I
O Voo
 
Atirou-se do sétimo, corpo estendido.
Escondera de todos aquela avassaladora paixão.
A cada encontro, um voo ao desconhecido.
 
II
O pingo
 
Um pingo de sangue só, no chão, ao lado do
Corpo miúdo, após o baque.
Trânsito parado, olhos curiosos voltados para
aquele pingo de gente sem identidade.
A vida, um pingo.
 
 
III
A perdição
 
Viu-se perdido na rua ao levantar a cabeça,
após a topada.
Tampão caminhando de olhos fixos no
movimento hipnótico daquela bunda
desconhecida.
Perdida paudurescência.
 


 
Fastio
 
   Nasceu bom de boca. Mamou, bebeu,
comeu de tudo com prazer. A mesa farta
foi seu sentido de viver, “vivo pra comer”. Comer
significava tudo, só alegria.
   Gordo e idoso, porém sadio e ativo, foi ao
médico. Queria saber quanto lhe restava de
vida. Exames feitos, o médico decretou: “nada
de açúcar, sal, massas, gorduras, laticínios,
enlatados, bebidas”...
   Saiu do consultório um trapo “que há de ser
de mim? O coração não suportou o baque, fastio
de vida.
   Nem precisou emagrecer. Morreu de repente,
“causa ignorada”, atestou o doutor.
   Rabada e maniçoba no velório. Madrugada
de casa cheia, ceia a gosto.
   - Tio Neneu já comeu – repetia a sobrinha,
pra lá e pra cá, sem sono.
   Neneu já dormia saciado.
   Pra sempre.
 
 
 
 

Histórico de Conteúdo