Sábado, 23 de Setembro de 2017 - 09:12

Menos aos sábados e domingos

por Afonso Machado

Menos aos sábados e domingos
Foto: Arquivo pessoal

Os sapatos: ressecados como pau, sem cadarços. Metidos ali dentro, os pés sem meias. Arrastam, de uma ponta a outra da calçada, o dia todo, o corpo de André. Pra lá e pra cá, indo e voltando, num vai e vem constante. André parece não se importar que outros caminhos existam. Talvez saiba que levam a lugar nenhum. Talvez tenha escolhido o caminho com o coração.
 
De manhã cedo, de carro, indo para o trabalho, vejo, na calçada, André caminhando. Volto para o almoço e André caminhando. Retorno para o trabalho e André caminha até quando já é noite e passo por ele, pela última vez, de volta para casa.
 
De manhã cedo, de carro, indo para o trabalho, vejo, na calçada, André caminhando. Volto para o almoço e André caminhando. Retorno para o trabalho e André caminha até quando já é noite e passo por ele, pela última vez, de volta para casa.
 
É assim todos os dias, há anos, menos aos sábados e domingos. De manhã cedo, depois na hora do almoço e à noite quando volto, vejo, de uma ponta a outra da calçada, pra lá e pra cá, num vai e vem constante, André caminhando.
 
Ele não é louco – um borracheiro por perto me disse –, o que faz é andar sempre pelo mesmo lugar, indo e voltando, de uma ponta a outra da calçada. Disse que ele dorme por ali, que colhe restos na feira, não incomoda ninguém e se chama André. Consertei o pneu, voltei para o meu caminho.
 
No escritório, meu chefe se levanta, aperta o nó da gravata, passa por entre as mesas da secretária e do assistente, esbarra de leve no vaso de plantas e me pede um serviço. Terei de fazê-lo rápido, é chato e fora da rotina. Terá de ficar pronto hoje. Vou almoçar, olho André, ele carrega um ar de preocupado.
 
Meu chefe se levanta, aperta o nó da gravata, passa por entre as mesas da secretária e do assistente, esbarra de leve no vaso de plantas e me pede um
serviço. Desta vez, não é tão urgente, faz parte da rotina. Vou almoçar, olho André, ele parece mais aliviado.
 
E chega a sexta-feira. Amanhã e depois não trabalho. André usa um paletó diferente e caminha alegre, olhando o sol. Quem é esse homem? O que é a vida dele? Não ouso responder. Quero tê-lo apenas como alguém que com esse andar eterno, esse caminhar cíclico, esses passos desse jeito, sintetiza a vida, minha vida. Esse retorno por caminhos que levam para onde?
 
Às vezes vejo André triste, às vezes alegre, às vezes contempla o sol. De manhã, arrisco olhar seu rosto e por ele tento adivinhar meu dia. Ele nem ao menos sabe que passo por ali, indo e voltando, como ele na calçada. Nem sabe o companheiro íntimo que é e a força que transmite sua resignação de Sísifo. Nem imagina quanto o amo por esse andar que imita a vida, a minha vida.
 
Chego a temer o dia em que não encontrar André por ali.
 
Os sapatos: ressecados como pau, sem cadarços. Metidos ali dentro, os pés sem meias. Arrastam, de uma ponta a outra da calçada, o dia todo, o corpo de André. Pra lá e pra cá, indo e voltando, num vai e vem constante. De manhã cedo, de carro, indo para o trabalho...

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