Sábado, 09 de Setembro de 2017 - 05:21

O VOO DO ÁGUIA

por Raimundo Vieira

O VOO DO ÁGUIA
Foto: Arquivo pessoal

No ano de 1977, ainda cursando Jornalismo na Universidade Federal da Bahia, comecei a fazer reportagem policial na Tribuna da Bahia, como estagiário. Em 1978, fui contratado pelo Diário de Notícias e daí por mais de 10 anos trabalhei no setor policial de diversos jornais, a exemplo do Jornal da Bahia, Correio da Bahia e A Tarde.
 
Desde os primeiros passos conheci exponenciais figuras da reportagem policial, cito Grácia Oliveira, Bonfim Caetano, Marinaldo Mira, Chico Cachorro Manso, Raimundo Machado, Edelson Assis, Moacir Ribeiro, Silva Filho, Walmir Palma (o “Seu Porreta”), Paulo Tavares, Alberto Miranda, Tonho Meu Velho, todos da imprensa escrita, além de Domingos Souza, Luiz Muniz e Galvão, que atuavam em rádio.
 
Dos radialistas, fiz muita amizade com Domingos Souza, o “Águia”, como nós o chamávamos na intimidade. Ele, que também atuou na imprensa escrita, trabalhou muito tempo na Rádio Excelsior. Lembro-me de que tinha um programa muito popular chamado “Domingos Souza e o Povo no Rádio”. No final de cada programa, ele cumprimentava no ar os três filhos e a esposa: “Sidnei, Sindéia, Tatiana e Linda, um beijo para vocês”.
 
Dominguinhos era uma figura folclórica e vivi uma grande amizade com ele. Tomamos muita cerveja juntos e lhe compartilhava detalhes de minha vida em momentos difíceis, que o tempo se encarregou de deixar distantes, presentes somente em esporádicas recordações. Tipo vaidoso, gostava de usar camisa de seda, correntes e pulseiras douradas. Sempre teve muita atenção comigo e me indicava caminhos seguros para vencer os percalços.
 
Juntos frequentamos muitos redutos da boemia de Salvador, entre eles o Pelourinho, a Cruz do Pascoal, o Largo Dois de Julho, a Rua Carlos Gomes (incluindo o Porto do Moreira), o Colon da Rua do Forte de São Pedro, o “Abaixadinho” da Rua Djalma Dutra e tantos outros. O “Águia” sempre morou na Cidade Baixa, primeiro na Massaranduba e depois em Roma. Na península itapagipana fizemos boas farras, muitas na Ribeira, onde costumava demonstrar seus dotes em partidas de dominó ou cantando (voz retada) ao microfone músicas antigas do repertório boêmio que admirava.
 
Nas histórias folclóricas da reportagem policial, ele também estava presente. Conta Alberto Miranda, não sei se verdade ou brincadeira, que em determinada época Dominguinhos integrava a equipe de polícia do Diário de Notícias. Fez uma farra longa e faltou três dias ao trabalho. Quando voltou, abriu a porta da Redação e perguntou: “Miranda, como está minha barra aí?” Constatando que a barra estava suja, disse que foi vítima de agressão na rua e ficou esses dias em casa se recuperando de hematomas.
 
Ao ouvir a desculpa esfarrapada, o editor-chefe disse a Miranda: “Então mande-o escrever uma matéria sobre a agressão”. O “Águia” não contou conversa e começou a redigir uma história fantasiosa. Mas ele percebeu que na história estava apanhando muito e quis consertar um pouco. Acrescentou o seguinte trecho: “Cidadão pacato e ordeiro, Domingos Souza manteve-se calmo e tranquilo durante todo o desenrolar da briga, apenas revidando com um violento ‘rabo de arraia’ que atingiu toda a região peitoral da vítima”. Pegou três dias de suspensão.
 
Aposentado há anos, ultimamente Dominguinhos passava os dias – quando podia – pelos bares da Rua Carlos Gomes e Largo Dois de Julho e de noite ia para casa, em Roma.
 
Sábado, dia 2 de setembro, eu estava em Guarajuba quando recebi a notícia do seu falecimento. Tinha sido atropelado por uma moto no Largo dos Mares. Nem pude ir ao enterro, no dia seguinte. Mas pensei muito nele, nos momentos em que estivemos juntos.
 
O “Águia” fez seu último voo.

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