Sábado, 02 de Setembro de 2017 - 05:07

ERA UMA VEZ UM AMOR

por Paulo Leandro

 ERA UMA VEZ UM AMOR
Foto: arquivo pessoal
A invenção do folhinóculo
 
 
Dedicado a meu filho Guilherme da Silveira Leandro, parceiro de invenções do cotidiano
 
 
 
Viviam, pai e filho, à procura de sombrinhas onde poderiam repousar do rigor da realidade.
Tinham feito um pacto: buscariam nas folhas soltas o amparo para não entristecerem-se.
Perceberam, assim, o belo museu a céu aberto onde as pessoas pisavam: o chão, o chão!
- Por que as pessoas pisam tantas belezas de vários tons e jeitos e nem pedem desculpas?
Perguntou a criança, sem precisar de palavra: bastou o olhar de curiosidade e inteligência.
O pai interpretou, também sem dizer palavra, todo aquele pisoteio como a dor de sobreviver.
E quando viam, do alto do décimo andar, os rapazes da limpeza varrendo aquela maravilha?
Os homens sãos, aqueles comuns e os mais normais, fazem das belas folhas um lixo qualquer.
Para ressignificar a relação homem-folha, ocorreu de inventarem, pai e filho, o folhinóculo.
Depois de Galileu, teria sido este o novo momento mágico do salto pra frente da humanidade.
Pelos buraquinhos de uma folha solta de amendoeira, era possível ver melhor o mundo!
As cores saltavam mais nítidas. As formas bem focadas. E a compreensão, clara como a lua.
Passaram então, filho e pai, a guardar folhinóculos, mas logo perceberam que era impossível.
Apenas um folhinóculo já causava a sensação das alegrias mais imensas, outro seria exagero.
Seria o pecado da gulodice que eles juraram combater com a riqueza da simplicidade.
A amendoeira ama tanto a humanidade que produz folhinóculos toda hora. Pra que guardar?
Não se trata de generosidade, valor moral substitutivo do amor. Quem ama, dá!
Folhinóculo na mão, pai e filho experimentaram ver o mundo com mais amor e compreensão.
Em vez de ver tudo de acordo com o que o rei sol manda, passaram a reaprender a olhar.
Outro algo que bem os interessava, nesta redenção da vida, era a aparente inutilidade.
O relógio servia pra saber as horas. O metrô e o carro, pra sair de um lugar e chegar em outro.
O feijão, pra comer e nos fazer fortes, nos ‘moninhos’ (bolinhos) com farinha e arroz.
E o folhinóculo? Para que serve algo que nem precisa bateria e só carrega na energia humana?
Não dava para encaixar o folhinóculo na cadeia de utilidades que nos prendem às coisas.
Inútil sim, e por ser inútil, fez o menino gritar de alegria, reavivando o chão de belezas mortas:
- Papai, o mundo aumenta na lente do folhinóculo! Só assim pro povo pegar visão!

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