Sábado, 07 de Janeiro de 2017 - 05:18

A edição matutina

por Florisvaldo Mattos

A edição matutina


(À memória de Glauber Rocha, artista,
amigo e companheiro de jornal)

 
 
 
Nada sei além do que me contam
os hebdomadários perseguidos
os diários desaparecidos
os livros burocraticamente censurados
os discursos jamais pronunciados
 
Muito
            de dor enclausurada
            de raiva contida
            de memória desesperada
 
Muito
            de petrificado esterco
            de martírio indevassado
            fel de carcomida flor
 
Como em toda experiência humana
Como em toda verdade proclamada
Há a marca indelével do sofrimento
nas páginas enfurecidas
 
Nada sei além do que me contam
relatórios
encimados por tipos de caixa negros
vomitando
pelas janelas dos escritórios
pelos pátios dos colégios
pelos verdes
gramados dos jardins municipais
pelas oficinas mecânicas
pelos bares
pelas praias e estádios superpovoados
pelos ônibus
                 pelos trens
                                 pelos aviões
e navios que levam petróleo
pelo mar 
por todas as estradas que começam na infância
 
            Tudo o que o chão calou e o ar esqueceu
            Tudo o que a água afogou e o fogo torrou
            Tudo o que o sol escondeu e a lua gelou
            Tudo o que o dia borrou e a noite ofendeu
 
Por esta janela escancarada diante do mar
com o horizonte lantejoulado de nuvens claras
na manhã de um dezembro moribundo
rajadas de azul me trazem a história
de tudo
estampada nas páginas em fúria
onde não há nenhum signo gráfico
nenhum nome
somente linhas de sangue
                                             vergonha e desespero
             Algo lido não sei onde
                                mas logo esquecido
             Algo escrito não sei onde
                                mas logo apagado
             Algo de ausência denunciada
                                mas logo justificada
             Algo de presença intolerável
                                mas logo consentida
             Algo de dúvida arguida 
                                mas logo desfeita
             Algo que violou a alma
                                mas logo com rigor apurado
             Algo de assombro que povoa os muros
             Algo de aceso punhal que cega as mentes
             Algo catastrófico no refúgio dos mitos
             que nunca veio à luz nem foi explicado
 
Vem-me pela porta aberta desse verão doente
ecoando na varanda das páginas desertas
das edições que sangram gota a gota
nas enfermarias do acontecer
       (de ontem
               de hoje
                       de amanhã
                                 de sempre)
e adquire uma velocidade assustadora
 
Porque a luz é forte e ensurdece
Porque o agitado do mar escurece
Porque chega o vento e exerce
o poder de lançar a espuma
contra as estrelas adormecidas
Porque a poeira da rua enegrece
as vestes nos varais abandonados
Porque é cedo e todos sabemos que tarda

Um novo ciclope no horizonte aparece
Os corpos voam sobre os arranha-céus
         Porque a exausta carne se desprende
         dos ossos ante petardos de sal
 
Nada sei além do que me contam
as furiosas páginas dos diários mudos
 
Morreu o Chefe de Reportagem
        E ficamos todos tristes
A penumbra da noite avança pelo amanhecer
A neblina é densa e os automóveis
entram em choque de faróis apagados
Queremos uma pauta
um roteiro qualquer
Não o que leve ao esclarecimento
de todas as culpas
Não buscamos desvendar o impossível
Queremos uma pauta
um caminho (por exemplo)
 
          Que comece pelos itens das lojas de brinquedos
           prossiga com a listagem para as horas de lazer
          Que enumere os chopes de todos os botequins
          Que reproduza todas as gargalhadas do perímetro urbano
          Que forneça o mais seguro boletim meteorológico
          Que informe o que se passa nos cinemas
          Que esconda os dejetos lançados sobre os monumentos
          Que estimule o Ba-Vi das ilusões primeiras
          Que abra os corações aos ritos do candomblé
          Que dê verso às canções dos trios-elétricos
          Que vista a mortalha dos foliões de todos os dias
          Que prepare o espírito de todos para o Carnaval
 
E assim seguindo apenas
o curso luminoso
de cada signo morto
perfurando o arenoso
das páginas desertas
bobinas de horror
manchas de tinta fresca
chumbo e insone rastro
Chorarei então
por entre os escombros
da edição matutina

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