Sábado, 31 de Dezembro de 2016 - 05:01

O espiritismo segundo o Google Street View

por Nilson Galvão

O espiritismo segundo o Google Street View
pensei que pudesse reencontrar pedro
no google street view: se ele tivesse
chegado à varanda naquele dia em que
o carro passou, fotografando tudo a esmo
nas ruas de brumado. foi o que aconteceu
com rubem que também morreu, e
no entanto, sem ter a mínima ideia, 
sentado na varanda de casa em iaçu,
sabe-se lá quando isso aconteceu, pimba,
caiu na teia do panótico, e lá está ele
como disse marcus, olhando o movimento
como sempre, redivivo ao olhar o
movimento como sempre. gelei na hora
em que o giro do mouse me colocaria
frente a frente com pedro de novo, de
novo como tinha sido tantas vezes, os
cotovelos na mureta, a me inquirir
qualquer coisa, a mim que chegava, 
que sempre chegava, filho que era.
mas não, pedro não foi à varanda
naquele exato momento. a casa está
lá, no google street view, e a porta
inclusive está aberta. mas é um dia de
sol forte como sempre, e a luz intensa 
faz sombra dentro da casa, então não 
se sabe o que estará fazendo pedro,
como sempre, em algum lugar de dentro 
da casa como sempre.
 


o mar é um camaleão
 
o mar é um camaleão
do céu, e o céu
é um camaleão do sol
e nós somos camaleões
do mar
do céu
do sol
de coisas bem distintas
do mar
do céu
do sol
nós somos camaleões
de formigas,
de baratas
borboletas
de gatos, cachorros,
elefantes
camaleões
de pedras
multicores
de folhas
de grama,
de asfalto, concreto,
fumaça,
camaleões
de lama
de esgoto
de lixões,
de pólvora, yellow cake,
crack,
camaleões
de vidro opaco
transparente
translúcido
camaleões
no espelho
no poço
no fundo
camaleões
de anjos barrocos, ganeshas,
de budas
dervixes
xamãs,
iemanjá, mãe terra,
pai
do
céu,
camaleões
de brisas,
ventos,
tempestades,
neves, granizos,
areia
camaleões
de
camaleões
de
camaleões
de medos
desejos
planos
que chispam
no escuro.
 
 

nós, os
 
há uma religião no céu 
azul_nublado_turbulento
e nós, os desgarrados,
professamos a religião
do céu.
há uma filosofia no chão
lama_cascalho_buraco
e nós, os impensáveis,
professamos a filosofia
do chão.
há uma fúria na rotina
aparelho_digestivo
e nós, os indigestos,
professamos a fúria
da rotina.
 

 
do amarelo ao vermelho
 
a tarde foge, fugimos,
somos os bichos do
sol morrendo, nossas
feridas pisadas do
amarelo ao vermelho,
sempre-mortas-vivas,
pisadas pelos que passam,
pelos que param pra ver
como dói, e como é
plástica, essa dor. a
tarde geme, gememos.

 
 
são nunca
 
são nunca de todos os
santos o mais antigo,
o cheio de tempo, o 
morto de sempre, o 
gato escaldado, o puro
devir. são nunca velai
por nós: com essa tua
auréola de folha dourada
de lata dourada de
fé desprovida de olhar
descarnado de passos
da cruz de chinelo de
dedo de hábito roto de
quem não descansa.

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