‘É um momento de renascimento’: Lelo Filho celebra temporada de 30 anos de ‘A Bofetada’
Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias

Cerca de dez meses após um incêndio, que inutilizou equipamentos e destruiu o cenário de “A Bofetada”, durante uma temporada no Teatro Sesc Casa do Comércio, a Companhia Baiana de Patifaria volta àquele palco com a mesma montagem, em edição comemorativa pelos 30 anos desde a estreia, em 1988. A peça estreou no último fim de semana e segue em cartaz aos sábados e domingos, até 25 de fevereiro. “Eu acho que é um momento de renascimento. Na arte, essas coisas que acontecem às vezes nos impulsionam, na verdade. O artista tem essa tendência e talvez seja um dom, não sei. É como se fosse a história da Fênix que renasce das cinzas”, comentou Lelo Filho, fundador da companhia de teatro, que se disse aliviado por finalmente saber que o prejuízo gerado pelas chamas está perto de ser sanado. “É muito emocionante para mim voltar aqui, porque vem toda a lembrança, vem todo o filme. Mas o teatro foi recuperado de uma forma... O palco está muito bonito, as novas cortinas que são anti fogo, toda a produção que eles fizeram ali agora já vem com um acréscimo de segurança infinitamente maior, então é realmente uma renovação e eu acho que a peça volta mais renovada do que nunca”, acrescentou. Em entrevista ao Bahia Notícias, o ator revelou ainda novidades sobre esta nova temporada, que contará com uma “invasão” das “Noviças Rebeldes”, além de atualizações no texto. Lelo falou ainda do caráter político - mas não partidário - de “A Bofetada”, destacando sua preocupação com a possibilidade do avanço da censura no país, sobretudo quando balizada por jovens. Confira a entrevista completa abaixo:

 

Dez meses depois do incêndio que danificou equipamentos e o cenário de “A Bofetada”, em uma temporada na Casa do Comércio, vocês retornam a este palco com a peça, em comemoração aos seus 30 anos. Parece uma estreia emblemática, este momento é uma virada para a Companhia Baiana de Patifaria?
Eu acho que é um momento de renascimento. Na arte, essas coisas que acontecem às vezes nos impulsionam, na verdade. O artista tem essa tendência e talvez seja um dom, não sei. É como se fosse a história da Fênix que renasce das cinzas. E é uma peça que respira muito sozinha. Ela é tão intensa para o público, para cerca de dois milhões de pessoas que assistiram – a crítica no eixo Rio-São Paulo definiu a bofetada como visceral –, então eu acho que tudo isso, essa visceralidade, o escracho que é reconhecido como a marca da Companhia Baiana de Patifaria. E voltar para aqui, onde há 10 meses estávamos chorando, em pânico, correndo, inalando fumaça, eu acho que é realmente um momento de renascimento, é voltar ao ponto zero para retomar tudo de novo. E a peça a volta renovada mais uma vez, porque ela sempre se renova. Mais uma vez até, porque agora a gente vai fazer uma brincadeira. Na verdade a gente estava em cartaz com “As Noviças Rebeldes”, que deve voltar logo após o verão, mas a gente queria abrir 2018,  que é o ano 30 da “Bofetada”, primeiro com ela, e aí “As Noviças” vão invadir. Então a grande surpresa que o público vai ter é que elas invadem, e a gente não conta exatamente o que vai acontecer e em que momento é, mas elas vão invadir. Então, é uma peça que sempre traz novidades, é uma peça que respira, uma peça que se renova e acho que é uma temporada de renovação, uma nova fase.

 

Na remontagem de As Noviças Rebeldes, em agosto de 2017, você falou ao BN da dificuldade de montar a peça, devido ao desfalque em virtude do incêndio. Vocês já conseguiram sanar o prejuízo junto ao teatro?
Eu posso dizer que a direção do teatro está muito empenhada em ajudar a resolver. A questão é meramente burocrática, com o seguro. Então a demora que o seguro leva entre a perícia do incidente e a recomposição dessas coisas que foram danificadas ou perdidas – eu tive parte do cenário, eu tive equipamento técnico que a gente perdeu –  isso ainda está totalmente sendo negociado. Mas a gente decidiu que queria a peça com o cenário, então a gente acabou fazendo o cenário que havia sido danificado, fizemos por conta própria ainda, mas já está certo que o seguro reembolsará. A questão é só burocrática mesmo desse tempo, mas está prestes a sair. Desde que aconteceu o incidente, eu encenei “A Bofetada” inúmeras vezes. Fui daqui para o Teatro Eva Herz, depois viajei um pouco pelo interior com o cenário improvisado, mas hoje ela volta com cenário refeito e a questão burocrática sendo resolvida com brevidade.

 

E vem agora no início de um novo ano, como uma virada. Então é uma estreia com uma espécie de alívio também? 
E é uma virada mesmo (risos). É muito emocionante para mim voltar aqui, porque vem toda a lembrança, vem todo o filme. Mas o teatro foi recuperado de uma forma... O palco está muito bonito, as novas cortinas que são anti fogo, toda a produção que eles fizeram agora já vem com um acréscimo de segurança infinitamente maior. Então é realmente uma renovação e eu acho que a peça volta mais renovada do que nunca.

 


Cenário foi totalmente refeito para esta temporada | Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias

 

Na remontagem das “Noviças” vocês atualizaram o texto original, teve o detalhe do iPhone, que achei bem legal. Você até deu uma dica aí no inicio da entrevista, quando falou da invasão das freiras, mas vocês preparam outras novidades para o público?
A cada volta a gente se reúne, tem uma espécie de ensaio mais frio, mais técnico, que é no sentido de definir em que momento nós podemos inserir novidades. O que a gente sempre manteve no espetáculo é que as histórias dos personagens precisam ser contadas, as histórias dos esquetes, mas em que momento a gente pode inserir uma novidade que surpreenda o público, e que ele possa dizer “poxa, isso não tinha, isso é novidade”... Recentemente teve esse encontro do elenco. Por incrível que pareça o verão é uma estação do ano muito forte em Salvador, no sentido de que a música está estouradíssima, o Carnaval está chegando, as festas populares começaram...  Então todo verão, quando a gente estreia – tudo isso que está acontecendo tem todo lado político também, que “A Bofetada”, desde sua estreia nunca deixou de falar –, a gente não só renova os escândalos políticos que são mencionados e que a plateia adora que a gente verbalize, mas tem a questão toda das músicas novas. A quantidade de música que está falando de bunda esse ano é impressionante. A cada ano é como se “A Bofetada” fosse uma espécie de lente de aumento disso que está acontecendo na nossa vida lá fora. Então vai da novela que está passando na TV estouradíssima de Ibope, à música do axé baiano, mais o lado político que o país atravessa, seja local, estadual ou do Brasil mesmo. E além disso tem o fato de que a gente acabou de gravar com Daniela Mercury o “Banzeiro”, então ele passa também a ser uma parte integrante e a gente está vendo de que forma vai inserir no espetáculo, seja como a música para o convite sair, seja como uma citação. E foi uma forma que Daniela encontrou de, de certa maneira, homenagear a gente pelos 30 anos da companhia comemorados em 2017, como celebrou também o aniversário do Balé Folclórico da Bahia agora no show no dia 1º. Ela é uma artista que está sempre antenada com o que está acontecendo lá fora. E é por isso que a peça volta sempre se renovada, respirando, e vai ter sempre assunto. E de um dia para o outro com certeza tem novidade, porque o que você achou que ia super funcionar, você coloca e não funciona tanto, e no dia seguinte você já altera para uma coisa melhor. Mas a gente conversou, e o “Fora Temer” continua (risos). Tem a questão da ministra do Trabalho que é um grande escândalo, uma mulher que foi denunciada por questões trabalhistas, tem vários assuntos. Uma reforma da Previdência que está vindo aí por um presidente que se aposentou aos 55 anos, mas agora quer impor uma aposentadoria a partir dos 65. E a plateia reage. Só que a gente não faz isso de uma maneira séria, mas através da ironia e do humor. 

 

Da estreia, em 1988, para cá vocês vêm batendo nessas questões políticas, na questão da cultura baiana também. Como é para vocês, como atores, por 30 anos terem que discutir determinados temas que supostamente estavam superados, mas acabam se repetindo ao longo da história?
Eu tenho Facebook de Fanta Maria, que é um personagem que faço há 30 anos. Fiz “N” personagens ao longo desse tempo, mas ela é aquele personagem emblemático, que as pessoas me reconhecem, até pelo sucesso da “Bofetada”  no país inteiro. Uma vez eu postei no Facebook: “O Brasil precisa ser reinventado”. Exatamente por isso, porque às vezes parece que a gente está batendo na mesma tecla. Eu lembro muito bem, a gente nunca fez campanha exatamente para ninguém, mas sempre apoiou mudanças que seriam importantes para o país. Através de nossos personagens, de nossas falas, de algumas piadas, a gente consegue através do humor inserir o que o coletivo, a população brasileira de certa forma estava querendo verbalizar. E essa pergunta é muito boa por isso:eu, como ator e como cidadão, fico ainda me questionando como a gente pode não avançar. Parece que a gente está indo em um caminho que é o futuro, que indica que a gente está crescendo como nação, e aí de repente vem um retrocesso. E a gente está vivendo um momento de retrocesso gigantesco no país. Artistas estão sendo atacados, a arte está sendo atacada, a censura tentando voltar. Eu sou um artista que cresci na ditadura, então é muito difícil dizer isso para um jovem hoje. Através do espetáculo fora da ordem, que é um espetáculo meu, tento verbalizar isso para o público mais jovem. Mas é muito difícil fazer com que um jovem hoje entenda o que foi vivenciar a censura: você não pode fazer isso, você não pode dizer isso, você não pode cantar essa música. A nossa sensação de liberdade hoje é tão gigante por causa das redes sociais, a gente tem opiniões, mas a tentativa que esses caras lá no poder estão tramando de censurar a internet, de censurar a arte, isso é um grande perigo e a gente está sempre tentando se colocar de uma maneira que não é defender partido nenhum, nem ideologia nenhuma, é defender simplesmente que a liberdade é fundamental não só para o artista, mas para qualquer cidadão em qualquer lugar do mundo. “A Bofetada” nasceu no momento de virada da ditadura, a redemocratização. A Companhia Baiana de Patifaria surgiu quando ainda você era obrigado a fazer ensaio para censura. O censor sentava com caderninho e podia decidir que estava interditado ou que essa fala não entra. É muito importante que principalmente os jovens hoje percebam a importância disso. 

 


Lelo defende que a arte e o riso podem ser o caminho para a conciliação do país, que está dividido | Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias

 

E nesse novo momento do país, você falou do fantasma da censura aparecendo, e até algumas vezes liderada por grupos de jovens. Vocês não têm um certo medo ou receio de, de repente, uma fala ser descontextualizada e vocês sofrerem diretamente ataques?
Para mim o mais assustador na verdade é quando eu vejo alguns comportamentos ou algumas opiniões vindo de um jovem que tem todo poder hoje, da internet, fontes de pesquisas que eu não tive na minha época. Eu não tinha por várias razões, a internet existia e eu não tinha porque não era permitido que a gente tivesse acesso a algumas informações. Então hoje é possível que você saiba, que você entenda a sua história. É chocante, para mim, ver hoje pessoas defendendo a volta da censura, a volta da ditadura militar, enfim. Mas partir de um jovem, ou de movimentos que os jovens estão à frente, me assusta principalmente porque eu acho que é esse poder que nós temos demais que emitir opinião. É você emitir opinião a partir da informação, e da informação que não é fake News, não é mentira, não é o boato. A gente acabou de ver agora, não tem nada a ver com a gente e tem completamente tudo a ver com a gente, a eleição Americana. O resultado foi totalmente alterado por uma intervenção que existiu e hoje a investigação nos Estados Unidos aponta para a Rússia, mas a gente sabe que há movimentos de direita, conservadores, que foram responsáveis por criar notícias falsas para alterar esses resultados. Então obviamente, se você emitir opinião, mesmo embasada, você está sujeito a sua exposição, a ataques de ódio. E os ataques de ódio hoje são frequentes, parece que viraram regra e não exceção. O que a gente faz de certa forma para se proteger é que as nossas opiniões emitidas são muito vinculadas com que o coletivo está achando. Óbvio que em uma sala de 1.500 lugares você pode ter um percentual mínimo de pessoas que discordam até do que você emite. Quando um personagem grita um fora Temer, a gente sabe que não agradou todo mundo ali, mas a grande massa presente nas nossas plateias desde que o fora Temer foi emitido pela primeira vez pela personagem tem muito mais aplaudido do que vaiado. 

 

Hoje o povo parece anestesiado…
Anestesiado e dividido, mais que anestesiado. Primeiro, na verdade ninguém que está no poder quer largar o osso. Ninguém quer largar o salário e todas as benesses que esses políticos ganham. Então as notícias que eu vi antes de vir para cá para o teatro eram estarrecedoras. Sobre como eles estão tentando alterar leis, inserindo coisas na Constituição para se protegerem. Eles primeiro estão tentando manter essa divisão que se criou no Brasil, ou você é uma coisa você é outra, se você falar que isso é vermelho, o outro vai dizer que é azul e aí dividiu. E a outra coisa é essa anestesia. A gente tem visto retrocesso. Alguns direitos que a gente conquistou arduamente estão sendo perdidos em uma canetada e a gente ainda está brigando na internet se você é coxinha ou se você mortadela. Eu acho que são temas nacionais, temas que independem de partido, independem de quem está à frente, são direitos que a gente não pode perder.

 

A arte vem para unir? Especificamente “A Bofetada” vem também com essa proposta de unir?
Eu acho que a arte tem um poder que eu me arrepio em falar. Porque existe uma fase em “Fora da Ordem”, eu encerro o espetáculo com essa frase, que é assim: O teatro nasceu no encontro de homens, que para se aquecer do frio se reuniam em volta de uma fogueira. E ao contar histórias uns para os outros, eles aproveitavam as sombras geradas pela fogueira. Os outros, fascinados, foram assumindo a posição do opressor e do oprimido a partir daí. O teatro nasceu muito desse ritual de homens reunidos para se aquecer e contar histórias, então eu acho que estar dentro de um teatro, assistindo a algo, apesar dessa tecnologia nos acompanhar o tempo inteiro, significa na verdade que a gente está indo por um caminho. Se o ator está lá no palco e você vê aquela luzinha acessar no rosto da plateia, é porque aquele espectador naquela hora se desligou desse ritual que está acontecendo. O ideal para a gente é que o teatro seja, - arte de certa forma, eu falo de teatro porque é a minha praia-, mas eu acho que todas as formas de arte são esse filtro que existe para a luz salvar de certa forma. As pessoas não têm dimensão de que ouvir Anitta, um MC qualquer, ou uma música clássica, ou ver um balé ou alguém dançando funk, assistir uma comédia ou assistir uma tragédia, ver uma novela ou seriado, tudo isso é arte. Então independe do que você gosta ou do que eu gosto, são essas coisas que a gente assiste que de certa forma nos salvam. Eu acho que a arte tem esse poder de ser filtro, porque as atribulações da vida estão crescendo de forma gigantesca, os problemas, os conflitos. Então é nesse momento que você entra no teatro, que as luzes apagam e só acende o palco, que você de certa forma pode dar uma desconectada com o que está acontecendo lá fora e muito do que você assiste pode ser benéfico para você tomar decisões lá fora. Às vezes somente o riso, que você nem observe as entrelinhas do que os personagens da “Bofetada”, por exemplo, dizem, mas o riso pode ser uma grande salvação. Se a mensagem também na entrelinha chegou para você junto com o riso, melhor ainda, a gente atingiu o objetivo. 

 

SERVIÇO
O QUÊ:
A Bofetada – Ano 30 
QUANDO: 6 de janeiro a 25 de fevereiro de 2018. Sábados e domingos, às 20h
ONDE: Teatro Sesc Casa do Comércio – Salvador (BA)
VALOR: R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia)

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