Quinta, 07 de Dezembro de 2017 - 11:00

Curador da ‘Queermuseu’ diz que democracia está ameaçada: ‘A gente já vive outro Brasil’

por Lucas Arraz / Jamile Amine

Curador da ‘Queermuseu’ diz que democracia está ameaçada: ‘A gente já vive outro Brasil’
Foto: Tanam Hennicka / Divulgação

De passagem por Salvador para participar do Simpósio Internacional Arte na Educação Básica, que aconteceu no início desta semana, na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, Gaudêncio Fidelis, curador da “Queermuseu”, viu sua rotina mudar drasticamente após a exposição ser acusada de incitar pedofilia e zoofilia. Ao Bahia Notícias, ele contou que soube do fechamento da mostra por mensagem de WhatsApp de um amigo, após as denúncias do MBL, e revelou que já deu mais de 150 entrevistas sobre o tema. “Eu li o texto e fiquei absolutamente em choque. Inclusive eu li duas vezes para ver se realmente o que eu estava lendo era verdade, mas eu não tive mais que cinco minutos para me recuperar da profunda tristeza que se abateu sobre mim, porque imediatamente recebi inúmeras ligações, que nunca mais pararam, da imprensa me procurando para colaborar nesse esclarecimento”, lembra. Gaudêncio, que foi convocado para comparecer à CPI dos Maus Tratos, no Senado, por meio de condução coercitiva, avalia que as reações da extrema direita e de “setores obscurantistas”, não significam simplesmente o fechamento de uma exposição, “mas um processo que já se iniciava de maneira muito forte, que é a criminalização da produção artística e dos artistas”. Ele, que é doutor em História da Arte, pela Universidade do Estado de Nova York, acredita que as investidas contra a “Queermuseu” se configuram em censura, por construir uma situação para que as pessoas se sintam constrangidas e não tenham acesso ao conhecimento através da arte. Apesar de afirmar que no momento é preciso estar alerta para compreender e combater a “engenharia de forças obscurantistas”, o processo de censura em si, as ameaças contra a liberdade de expressão e a democracia, além do crescimento do fundamentalismo, Gaudêncio consegue enxergar também um contraponto mais otimista. “A gente não pode celebrar a tragédia, eu tenho dito isso também, mas eu acho que é o momento que a gente tem que olhar as coisas em sua perspectiva. O debate se reabriu a partir do fechamento da exposição, ele não será fechado. Eu tenho sido em grande parte protagonista desse processo, infelizmente ou felizmente, até porque o Santander se recusou a falar sobre o assunto. Mas eu acho que é uma discussão de uma parcela muito considerável da população brasileira e que não será interrompida”, avalia. 

 

Você foi protagonista de uma das grandes polêmicas hoje no Brasil, por conta da exposição “Queermuseu”, que acabou sendo acusada de incitar a pedofilia e zoofilia. Você ficou surpreso com as acusações e com a repercussão, uma vez que sua condução coercitiva foi solicitada pelo Senado para depor na CPI dos Maus Tratos?
Eu identifiquei logo ali no início, falei sobre isso, inclusive, alertei em diversos momentos as pessoas de que o que estava acontecendo no Brasil não era simplesmente, nunca é, o fechamento de uma exposição, mas um processo que já se iniciava de maneira muito forte, que é a criminalização da produção artística e dos artistas. Eu acho que isso tomou uma forma surpreendente, muito rápida. A gente pode dizer que, apenas um pouco mais de dois meses depois do fechamento da exposição, a gente já vive num outro Brasil, em que a democracia está sendo ameaçada de uma maneira impressionante, o crescimento do fundamentalismo está crescendo rapidamente. Eu acho que a gente precisa estar muito alerta, não há tempo para distrações neste momento. Acho que esse processo de censura que a gente vê se reinstalando no país é perigosíssimo para a democracia, para liberdade de expressão, para liberdade de escolha. Eu acho que é isso aí que está posto para nós. Se eu imaginava que isso ia acontecer, eu não sei se eu saberia responder essa pergunta dessa maneira, porque acho que a questão ali não é simplesmente uma polêmica, mas uma engenharia de forças obscurantistas que foram colocadas em movimento a partir dessa exposição, mas eu também posso te dizer que eu tenho certo otimismo diante da tragédia que se abateu sobre nós. A gente não pode celebrar a tragédia, eu tenho dito isso também, mas eu acho que é o momento que a gente tem que olhar as coisas em sua perspectiva. O debate se reabriu a partir do fechamento da exposição, ele não será fechado, eu tenho sido em grande parte protagonista desse processo, infelizmente ou felizmente, até porque o Santander se recusou a falar sobre o assunto. Mas eu acho que é uma discussão de uma parcela muito considerável da população brasileira e que não será interrompida.


O senhor foi curador de mais de 50 exposições. Mas eu queria saber, quanto ao sentimento e análise na época, você realmente chegou a imaginar que a exposição seria fechada, quando a pressão do MBL começou e também foi endossada posteriormente pelo próprio prefeito de Porto Alegre?
Eu senti que nós estávamos num perigo iminente, mas também foi muito rápido. Nós tivemos apenas dois dias e algumas horas de muita pressão do MBL com ataques verbais intimidando as pessoas no espaço de exposição. Ali para mim inclusive já se caracterizava um processo de censura, porque, na medida em que você intimida as pessoas, você constrói uma situação para que as pessoas se sintam constrangidas a ter o acesso ao conhecimento, que é isso que no final a arte é. Eu acho que ali já estava configurado o processo de censura. Acredito que é fundamental entender isso muito rápido, até porque é um é um processo rápido que está em desenvolvimento. Eu não imaginaria, entretanto, que o prefeito de Porto Alegre, que tem aí como seus aliados o MBL, fosse ingressar neste tipo de investida da maneira que ele ingressou. E o seu recuo inclusive em seguida, quando ele faz um post no seu Facebook e o retira algumas horas depois, alí também a gente não pode dizer que foi uma surpresa. Mas eu acho que essas forças partiram de diversos lados, que nós estamos reconhecendo cada vez mais claramente. Há um certo obscurantismo que a gente ainda não desvendou, mas que está ficando cada vez mais claro. Mas também, por outro lado, a ação da população em geral, das pessoas que primam pela democracia, da classe artística e cultural, também tem sido muito grande.

 


Em cartaz no Santander Cultural, em Porto Alegre, exposição 'Queermuseu' foi acusada de apologia a podofilia e zoofilia | Foto: Marcelo Liotti Junio/Divulgação

 

Explorando esse obscurantismo,  já existem linhas que defendem que esse movimento de censura das artes na verdade é uma tentativa de aprovar projetos políticos. Você acredita realmente que mais do que o choque conservador, a ação do MBL foi motivada por questões políticas?
Eu diria que não há exatamente um erro nessa afirmação, mas ela não é tão simples assim. O projeto é muito mais complexo, acho que é uma tentativa. Nós precisamos entender que há várias forças agindo ao mesmo tempo, com interesses específicos, cada um com seus interesses. E todas, no final, convergindo para um objetivo comum. Nós precisamos entender que esse objetivo final é a instalação de um regime fundamentalista, e isso já começou lá quando a gente viu aquelas manifestações pré-impeachment, por exemplo. Eu sinto muito essa situação, em que o MBL veio a público com toda aquela campanha em torno da segurança, etc, e de outros aspectos que envolviam futuramente a introdução no imaginário da sociedade brasileira de que se um regime mais autoritário fosse instaurado isso entraria em uma normalidade. Agora eles ingressam na área dos costumes, fazendo esse ataque ao universo simbólico em que a arte existe. A gente também vê logo em seguida uma outra investida que eu já tinha inclusive alertado para as pessoas, que não seria tão surpreendente assim, que é essa investida do MBL para uma tentativa de desmoralização do universo acadêmico, que é o próximo passo já em curso. Então a gente tem que entender isso dentro de um panorama muito mais complexo do que simplesmente os benefícios circunstanciais, que seriam criar uma cortina de fumaça, por exemplo, que é uma coisa muito citada, ou aprovar projetos, que evidentemente fazem parte de todo esse projeto maior. Mas esses ataques têm um impacto enorme no imaginário da população e visam preparar esse imaginário da sociedade brasileira para uma investida muito forte na área de costumes, que é onde existe uma consolidação do fundamentalismo. Então é para isso que temos que nos alertar, é muito mais grave a perspectiva.

 

Você fala de uma mudança extremamente rápida, e eu trago alguns casos mais próximos, que ocorreram depois do fechamento do “Queermuseu”. Aqui em Salvador houve o cancelamento do espetáculo "O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu", que seria apresentado em um espaço gerido pela prefeitura, e um deputado baseou seus argumentos na moral e os bons costumes. No interior da Bahia, posteriormente, um outro deputado apresentou um projeto de lei para vetar o que ele chama “exposições públicas de imagens de conteúdo erótico e pornográfico”. Como é possível combater o avanço do conservadorismo, que agora parece apoiado pela Justiça?
Sim, há uma judicialização grande desse processo. As casas legislativas estão ficando inundadas de projetos que eu considero projetos censores, porque eles vão inevitavelmente resultar em censura. Eventualmente alguns deles têm sido aprovados, embora a gente tenha visto também alguns desses projetos, como o caso do Espírito Santo, que o governador vetou. Mas eu acho que existem dezenas desses projetos sendo já aprovados em casas legislativas, assembleias, Câmara de Vereadores, e eles inevitavelmente vão resultar em censura. Infelizmente, a notícia nesse campo não é muito animadora, porque nós temos que estar alertas não só em todo esse processo, mas temos que fazer várias investidas para tentar barrar esse tipo de situação. E acho que nós corremos o risco, e aí eu posso dizer para você que é parte dessa minha tarefa, que eu me impus de uma certa medida agora, de fazer esse debate, de aceitar esses convites e de levar essa mensagem para as pessoas, que nós não temos tempo para nos distrair.  Ou nós entendemos esse processo rapidamente, fazemos um esforço para compreendê-lo na sua gravidade, ou nós  iremos sucumbir muito rapidamente diante desse obscurantismo fundamentalista. Então eu acho que essa é a hora da gente entender, é hora da gente agir, eu acho que em todas as esferas, em todos os mecanismos de convencimento, da opinião pública, do diálogo com as pessoas que a gente tem acesso. E de manifestações também de indignação,  de protestos, todas aquelas maneiras de manifestações que a gente já conhece. Caso contrário, eu acho que a democracia, a jovem democracia brasileira, está correndo um risco enorme e nós estamos vivendo uma situação muito periclitante.

 


"Travesti de lambada e deusa das águas", de Bia Leite (2013), foi uma das obras que motivaram os protestos contra a mostra | Foto: Divulgação 

 

Então qual seria o objetivo final desse obscurantismo que você cita?
Esse projeto do fundamentalismo sempre é um regime que corrói a democracia, e aí ele responde sempre a interesses muito obscuros e de uma ordem que a maioria das vezes não é nem localizada, ela é universal. Eu não estou usando ela aí inadvertidamente, mas, de fato, nós precisamos entender que a gente tem que dedicar alguns segundos das nossas vidas para entender um pouco melhor o fundamentalismo, entender como ele se manifesta, entender que ele às vezes pode passar despercebido e é muito rápido. A instalação de um regime desse é muito rápida. Como eu falei para você, se você observar, nós vivemos já um outro mundo no Brasil em apenas cerca de 3 meses do incidente que deflagrou isso para a visibilidade pública. Veja bem, isso já vinha em processo, ele apenas tomou uma dimensão pública e ela está na sociedade. E aí eu acho até que nós devemos dar graças aos céus que havia uma exposição com essa grandiosidade e que teve a capacidade e o potencial para reagir a essa investida obscurantista.  porque ela foi utilizada como plataforma para colocar esta investida desse regime obscurantismo fundamentalista em curso,  mas ela é uma exposição tão potente artisticamente, que encontra na sociedade brasileira um reflexo para reagir, inclusive com impacto internacional. Porque as questões que dizem respeito à democracia e à liberdade de expressão não são de interesses localizados do Brasil, elas são de toda a sociedade, de todos os indivíduos que primam pelos princípios democráticos. Então essa exposição ela adquire essa dimensão global. Sorte nossa que isso aconteceu dessa maneira, porque se não tivesse esse potencial para reagir, essa investida poderia ter sido tão forte quanto, e nós poderíamos ter sucumbido, vamos dizer assim, na confusão e na imposição dessa investida difamatória e moralista, e que, como eu disse, tem outras finalidades. Eu acho que a exposição foi muito interessante,  não só ela, mas tudo que resultou dela. A sociedade se mobiliza, a classe artística e cultural, etc, porque ela consegue ser essa plataforma catalisadora. Eu acho que isso é muito interessante nesse momento e nós temos que aproveitar.

 

Você passou sete anos planejando o “Queermuseu”, montando, reunindo os 85 artistas que participaram. Eu imagino que você tinha uma relação até mesmo emocional com a montagem. Quais foram as primeiras sensações que você teve quando soube que a exposição seria encerrada?
Essa é uma pergunta muito interessante porque eu acho que é público, eu falei isso desde a primeira entrevista, que eu fiquei sabendo do cancelamento da exposição, não pelas redes sociais, porque eu não estou nas redes sociais, mas por uma mensagem de WhatsApp que um colega profissional me enviou. E quando eu li o texto fiquei absolutamente em choque. Inclusive eu li duas vezes para ver se realmente o que eu estava lendo era verdade,  mas não tive mais que cinco minutos para me recuperar da profunda tristeza que se abateu sobre mim,  porque imediatamente recebi inúmeras ligações, que nunca mais pararam, da imprensa me procurando para colaborar nesse esclarecimento. Eu falo isso, e eu falei várias vezes, faço essa ressalva com bastante tranquilidade, porque não estou fazendo simplesmente um elogio laudatório a imprensa. É importante a gente entender que esse processo foi tão violento para a democracia e para tudo que diz respeito à liberdade de imprensa inclusive, que eu acho que está em risco. E a imprensa então, como representativa de uma parcela considerável da sociedade, abre para o universo de outros indivíduos que se juntam a essa tarefa de esclarecer a opinião pública. Isso foi bastante difícil, penoso, exaustivo, eu dei mais de 150 entrevistas até o momento, continuo à disposição da empresa, a imprensa tem acompanhado isso, com preocupação, inclusive. Mas não houve muito tempo para refletir sobre isso, porque a luta era iminente, eu tinha que sair à frente nesse processo.

 


"Cena de Interior II", de Adriana Varelão (1994), foi outra obra criticada nos protestos | Foto: Divulgação


Muitas pessoas questionam que na arte pode-se tudo, que precisa haver limite para a arte, mas algumas pessoas confundem realidade com arte. Você considera que existe limite para o que deve existir num museu, como afirmaram as pessoas do MBL, ou que fora contra a exposição?
Não. Não existe, pelo seguinte, primeiro a gente tem que ver o que diz a nossa Constituição. E nossa Constituição é muito bem feita, e ela diz basicamente o seguinte, que a liberdade de expressão, com exceção das manifestações de ódio e racismo, em todos os níveis está contemplada. Ela só não contempla esses ítens, evidentemente, por razões óbvias. E a liberdade de expressão na arte, de um modo geral, ela não pode ser mensurada, porque se ela for nós, vamos estar entrando num outro território, e esse diz respeito exclusivamente à censura como está posta na Constituição, que é o seguinte. O que é a censura essencialmente sob o ponto de vista da Constituição brasileira e que responde em grande parte à constituição dos países democráticos no mundo ocidental? É de que a censura se instaura quando você impede o acesso ao conhecimento. Em grande essência é isso. E a arte é o quê? Ela é conhecimento. Antes de ser uma expressão da criatividade, da sensibilidade e tudo isso que a gente conhece, ela é uma profunda manifestação do conhecimento humano. E se você me pede e estabelece algum tipo de cerceamento ou algum tipo de limite para a constituição deste conhecimento,  que seria via Liberdade de expressão, você está impondo os mesmos limites que você estaria impondo na ciência, na tecnologia,  na medicina e assim por diante.  Então, isso precisa ser entendido. evidentemente que o MBL  e esses grupos estudantis eles manipulam essa concepção do que seja a liberdade de expressão,  como se liberdade de expressão fosse uma coisa Que propicia que as pessoas proclamem o ódio,  algumas coisas que seriam consideradas crimes e assim por diante,  inclusive  essas que foram imputadas a exposição,  como você mesmo falou,  zoofilia, pornografia, pedofilia, etc..  Aliás,  é importante dizer que o Ministério Público já no segundo dia visita à exposição e diz categoricamente,  e foi divulgado na imprensa,  que nada disso existia na exposição.  Então eu acho que evidentemente nós temos que entender essa complexidade e entender definitivamente que esse foi um processo de inflamatório,  falso,  e que só foi possível porque nós tivemos pela primeira vez no Brasil,  e  e olha, nessa grandiosidade talvez é a primeira vez no mundo em que uma exposição é posta como um dilema.  Na medida que ela é fechada você não tem mais como constatar a verdade.  Essa verdade só pode Advir da natureza material das obras,  você tem que ir lá constatar.  Nesse sentido a estratégia do MBL foi muito bem sucedida, mas, por outro lado, a reação também que houve e que eu acho que está sendo muito bem encaminhada, se materializando com força,  eu acho que eles não esperavam acho que eles não sabiam o potencial que a exposição tinha. 


Em Salvador você participa do Simpósio Internacional Arte na Educação Básica. De que forma educação e arte se comunicam para a formação das pessoas?
Um dos eixos dessa narrativa tem sido essa defesa, pela extrema direita e setores obscurantistas, dos supostos ataques que estariam acontecendo a crianças e adolescentes. Essa narrativa migrou daqueles que realmente são as pessoas que lutaram pela defesa de crianças e adolescentes, que militam nessa área e que são os especialistas, para uma narrativa apropriada pela extrema direita. Mas quando a gente observa isso a gente tem que ver que no cerne desse processo está a educação. Porque se nós tivéssemos uma sociedade bem informada, preparada, inclusive sobre a discussão de classificação indicativa... Essa imposição de censura sobre faixas etárias que eles querem impor à produção artística, para ver determinadas exposições, no cerne dessa discussão está sempre a questão de como essas obras teriam impacto sobre crianças e adolescentes. A verdade é que essa é a maior mentira que se inventou nesses últimos tempos. Porque a questão é a seguinte: primeiro que não há estudos de nenhum tipo que identifiquem a isso. A gente sabe que um dos acessos de crianças e adolescentes a imagens que podem ser prejudiciais à sua formação acontece justamente onde? Dentro de casa. Por exemplo, não há classificação indicativa para internet, para qualquer coisa que uma criança ou adolescente queira ter acesso na internet. Eu não estou advogando que deva haver, mas, veja bem, eu quero que haja o entendimento com clareza. No que diz respeito ao impacto das imagens sobre os indivíduos, e eu falo crianças, adolescentes e adultos inclusive, ela tem que ser vista dentro do aspecto do potencial de educação que esses indivíduos tiveram acesso. Se eles se formassem num ambiente que começa pelos pais e responsáveis, e que se estende para a escola, que dá a ela a estrutura emocional, capacidade, instrumentos, conhecimentos e educação para enfrentar esse universo de imagens e de violência que a gente vive, a gente teria que se preocupar menos com isso. E no entanto essa extrema-direita e esses grupos obscurantistas ficam fazendo essa campanha como se de fato as obras de arte fossem aquelas que tivessem essa capacidade de produzir esse impacto nos indivíduos. Mas não é no museu que isso acontece, a gente sabe e sempre soube.

 

Você enxerga que esses novos movimentos é uma retomada da censura da época da ditadura, ou os grupos se organizam de uma outra forma?
Olha, é bem difícil sempre para mim responder essa pergunta, porque é um risco de, ao falar sobre isso, dar a impressão de que a gente está minimizando a censura que a gente viu por exemplo na época da ditadura no Brasil, que era extremamente grave. Naquele período houve perseguição a artistas, intelectuais, profissionais da cultura, profissionais da área acadêmica, etc.,  e ali nós viamos uma censura que a gente conseguia identificar. A gente poderia chamar ela de uma censura, e grande, do gabinete onde se assinava documentos e se proibiam determinadas  obras, espetáculos, filmes, etc.. Mas a censura tem manifestações contemporâneas muito mais perniciosas e dissimuladas, e ela se dá no processo que lá pelas tantas se transforma numa outra coisa na sociedade, quase imperceptível, que é autocensura. Então, esse processo que é imposto pela censura vai se transformando num processo de auto censura e as pessoas, os indivíduos e a sociedade não percebem que isso está acontecendo e quando você perceber já terá passado um, dois, cinco, dez anos e essa geração que sofre essa imposição de censura e começa a se autocensurar, ela seguramente será mergulhada numa tragédia dentro de um processo democrático. A  a democracia é grandemente interrompida e eu acho que esse é o grande perigo, que nós temos que estar alertas. 

 


Gaudêncio Fidelis considera 'absolutamente autoritária' a convocatória por condução coercitiva à CPI dos Maus Tratos, no Senado | Foto: Marcos Oliveira / Agência Senado / Divulgação


Você falou que deu mais de 150 entrevistas e que tem rodado o Brasil para falar sobre tudo o que aconteceu, mas como foi o diálogo na CPI dos Maus Tratos?
Com a CPI eu não posso dizer que houve um processo de diálogo. Foi uma atitude absolutamente autoritária do senador Magno Malta, que emitiu o requerimento de condução coercitiva, o que me levaria a ser conduzido pela Polícia Federal para depor na CPI. Mas eu entendo que nós saímos daquele processo, que foi muito complexo, muito difícil, que demandou muita energia,  em meio a esse processo que já envolvia uma energia extraordinária, vitoriosa. Porque o que estava em questão para mim ali não era como eu chegaria na CPI, se eu chegaria na CPI, e em que condições, mas que nós teremos que vencer esse mecanismo autoritário que foi a condução coercitiva porque ele constituía um precedente absurdo e muito grave para a democracia brasileira, porque se constitui dentro do Parlamento. O que a gente tem visto, em grande parte, são conduções coercitivas por exemplo dentro da área jurídica. O parlamento, apesar de ter essa prerrogativa, não há tem usado. Eu não me lembro de terem usado anteriormente, e utilizar isso num processo que já era aprofundado de criminalização da produção artística, para levar um curador, não só eu, mas a tentativa de levar um artista e inclusive uma professora que mostrou o catálogo em aula, é uma demonstração de autoritarismo, estado de exceção, que foi muito importante a gente vencer, para que aquela condução coercitiva fosse cancelada. Apesar de eu ter sido obrigado, através de uma convocatória, a comparecer. Eu declarei isso inclusive lá, eu disse. "Eu não vim aqui prestar declaração voluntariamente, eu vim aqui para cumprir a lei". Então isso foi muito importante, a minha participação lá foi, pelo menos até onde eu vi, foi bem sucedida no sentido de enfrentar aquele momento com uma certa clareza política do que que ele significa e ainda aproveitar  essa infeliz oportunidade, porque não é uma oportunidade, foi uma obrigação, de  também, na medida do impossível, esclarecer novamente a opinião pública. Eu não me furto da minha responsabilidade como curador, e se parte da minha tarefa profissional como curador é responder a isso, eu vou responder a isso até o final.

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