‘Salvador vai ter um equipamento único no país’, diz arquiteto sobre requalificação do TCA
Foto: Estudio America

Em maio de 2016, a capital baiana reabriu as portas da Nova Concha Acústica, em um momento histórico que marcou a conclusão da primeira etapa das obras de requalificação do Teatro Castro Alves (clique aqui e relembre). Naquele momento, baianos e turistas puderam conferir o resultado do projeto realizado pelo Estudio América, escritório de arquitetura paulista vencedor do concurso público voltado para este fim (clique aqui e confira mais informações sobre o projeto). Em entrevista ao Bahia Notícias, o arquiteto Lucas Fehr, sócio da empresa, falou sobre os desafios do trabalho no TCA e em equipamentos culturais, em geral projetos que usualmente requerem esforços de profissionais de diversas áreas. “Nós tivemos cerca de 20 projetos complementares, só para a gente ter uma ideia. Só o projeto de arquitetura a gente tem mais de 500 pranchas. Então é uma equipe já potente pra fazer isso, tanto na fase do projeto, quanto na fase de obra, que precisa ter uma equipe acompanhando”, lembrou o profissional, que contou com especialistas de áreas como acústica, iluminação e cenografia, para tratar das especificidades da obra. Lucas lembrou que um dos principais desafios do projeto foi respeitar a complexidade do espaço multiuso. “Você tem que ter um cuidado acústico muito grande. Por exemplo, agora vai reformar a Sala do Coro e ela fica aberta pro mesmo espaço que a Concha. Então você tem que estar na Concha Acústica ouvindo Novos Baianos, Ivete Sangalo, e lá dentro ter um silêncio pra uma peça de outra característica”, pontuou. Lucas Fehr falou ainda sobre a próxima etapa das obras, agora previstas para a Sala do Coro, que segundo ele, terá seu acesso invertido e dará espaço para soluções diferentes da tradicional configuração palco e plateia. Sobre o acompanhamento destas obras, que será feito por meio de uma consultoria contratada sem licitação (clique aqui e aqui para mais informações), ele lamentou o fato de não ser feito pela própria equipe do Estudio America, desmentindo a versão da Secult, que atribuiu ao próprio escritório de arquitetura a indicação do profissional que tocará o trabalho. Confira a entrevista completa:


Existem na arquitetura peculiaridades e características específicas para projetos relacionados a equipamentos culturais?
Em termos, porque a gente tem um aspecto da arquitetura que é generalista. Na verdade você atende a programas diversos, diversas edificações. Então não é uma especialização em projetos culturais. Por outro lado, você vai fazer um tipo de projeto que tem sim algumas especificidades, então você vai ter que trabalhar com uma equipe que atenda a essas especificidades. No caso do teatro você tem uma série de especialistas, seja de acústica, cenotécnica, cenografia, iluminação, etc., e tal, que dão contribuições específicas da área deles. Mas eles não fazem o projeto completo. Então, o arquiteto que faz o projeto completo tem um caráter mais geral, e aí ele monta uma equipe que vá atender às especificidades da melhor maneira possível.
 
E o projeto de um equipamento cultural tão grande como o TCA exige também uma equipe maior?
Sem dúvidas exige uma equipe maior. Um projeto de teatro que nós tivemos cerca de 20 projetos complementares, só para a gente ter uma ideia. Só o projeto de arquitetura a gente tem mais de 500 pranchas. Então é uma equipe já potente pra fazer isso, tanto na fase do projeto, quanto na fase de obra, que precisa ter uma equipe acompanhando.

 


Nova concha acústica e passarela | Foto: Estudio America
 
 

Especificamente com relação ao TCA, quais foram os problemas mais difíceis que vocês tiveram que solucionar?
Tanto o aspecto da obra, quanto o aspecto do projeto não são exatamente complicados, mas são por outro lado instigantes. O primeiro deles é que o teatro já era uma obra emblemática em Salvador, um projeto extremamente arrojado, do arquiteto Bina Fonyat [José Bina Fonyat Filho], que é um marco na cidade e na história da arquitetura brasileira. Então, ele ainda não era tombado, coisa que aconteceu posteriormente, mas já era um patrimônio arquitetônico nacional. Então isso já influencia de cara uma postura de muito respeito a esse patrimônio. Isso foi uma das questões que nortearam o nosso trabalho, nosso projeto. Em função disso, todo partido, que é como a gente chama em arquitetura, foi adotado tentando preservar ao máximo as principais características do equipamento original, que são várias e muito interessantes. A própria forma dele, que é aquela cunha voltada para o Campo Grande. O desenvolvimento da plateia que dentro da capacidade dele é um caso, não diria único, mas raro. A inexistência de camarotes que também era uma coisa interessante, era uma postura do arquiteto original, tratar todo mundo de forma igual. E todas as instalações e bastidores que ele tem, que são fantásticas, um teatro com porte fantástico. As instalações de subsolo com todas as produções das equipes de teatro. A própria acomodação no terreno do teatro, que é bastante interessante. Então, tudo isso tinha que ser levado em consideração pra que o projeto não viesse macular isso. Então qual foi o partido que a gente adotou? Ele iria da cota do nível do Campo Grande para baixo com a ampliação, e não para cima. Então, na cota do Campo Grande, nós estabeleceríamos uma placa que interceptaria o teatro original, estando à mostra o edifício principal do teatro. E os acréscimos do programa eram uma dificuldade, porque que eram consideráveis, o teatro praticamente dobra de tamanho, isso daí exigia um certo malabarismo para acomodar pra baixo da cota do Campo Grande todas as infraestruturas que estavam sendo solicitadas. Essa foi, digamos assim, a grande complexidade que se colocava. Outras questões que foram extremamente importantes é que o teatro tem uma vida muito dinâmica, muita gente que trabalha ali, que atua todo dia. Tem corpo de balé, tem a Orquestra Sinfônica, tinha o Neojiba, e boa parte dessa movimentação não é conhecida do público, então nós propusemos que tivesse um circuito de visitação público, para que o povo pudesse conhecer todas essas atividades dos bastidores do teatro. Produção de figurinos, cenários, enfim, uma série de atividades. Então também tem uma circulação que atende tanto o funcional que não podia ser prejudicado, quanto possibilidade de visitação pública. Isso nos deu dois circuitos em circulação, o público e o funcional interligados. Em relação à obra, uma grande dificuldade, como se impunha construir um estacionamento, ele envolvia um corte do terreno junto ao prédio de teatro na área da concha acústica e isto requer uma certa ousadia. Tivemos que fazer um corte considerável em toda extensão para acomodar o edifício do estacionamento. Outra questão também é a substituição da cobertura do palco. Era uma estrutura com lonas, tinha seu valor, mas que não atendia aos requisitos que eles precisavam de manobras do palco, uma série de coisas do espetáculo mesmo. E aí nós propusemos aquela grande treliça que cobre o palco e permite uma série de manobras próprias do teatro. E tem uma outra coisa, da complexidade do projeto. Como ele é um teatro de vários usos e simultâneos, você tem que ter um cuidado acústico muito grande. Por exemplo, agora vai reformar a Sala do Coro e ela fica aberta pro mesmo espaço que a Concha. Então você tem que estar na Concha Acústica ouvindo Novos Baianos, Ivete Sangalo, e lá dentro ter um silêncio pra uma peça de outra característica. E lá dentro da Sala Principal permitir que a Orquestra esteja ensaiando. Então isso é uma complexidade grande pra se resolver também, porque acusticamente tem que ser bem solucionado.

 


Próxima etapa das obras acontece na Sala do Coro | Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias

 

Estamos aguardando o início da segunda etapa das obras do TCA, que será a parte da Sala do Coro. Com relação ao projeto que vocês fizeram, o que é que está previsto de modificações? A capacidade da Concha diminuiu um pouco para adequação às normas de segurança. Lá também haverá alguma mudança neste sentido?
Mínimas. Em termo de público, a Sala do Coro vai permitir agora mais flexibilidade na sua utilização. Então, a ideia é que ela seja um espaço mais flexível para vários tipos de espetáculo. Ela é uma sala pequena, tem a dimensão inferior à do palco superior, mas ela permite um outro tipo de espetáculo mais intimista, com uma interação diferente entre público e atores. Ela vai ter plateias mais flexíveis e o jogo de iluminação e cenários mais flexíveis, então você vai poder ter outras soluções do que apenas a tradicional de palco e plateia. Tem um detalhe que é também interessante do foyer dela, que avança sobre aquela Esplanada, sobre os estacionamentos e tem um desenho interessante. A gente inverte um pouco o acesso dela, mas o que é interessante é que com isso a gente dá também uma frontalidade àquela parte posterior que sempre teve um caráter de fundo. E a ideia é que ele passe também a ser uma frontalidade no conjunto, principalmente quando o projeto todo estiver pronto. O que hoje é fundo vira frente e o que era frente vira fundo, basicamente é isso. A ideia é dar mais conforto e uma acessibilidade melhor às pessoas.
 
Ainda não começaram as obras e agora está na fase burocrática, mas saiu no Diário Oficial do Estado a contratação de uma consultoria para o acompanhamento das obras da Sala do Coro (clique aqui e saiba mais). Vocês que orientam esta questão?
Não, infelizmente não. Ele tem contato com a gente, mas não somos contratados para fazer essa consultoria. Eu acho uma pena, mas, enfim, são os procedimentos.
 
Então não foram vocês que indicaram o arquiteto Yoanny Calvo que vai fazer esse acompanhamento?
Não, a consultoria não. Não fomos nós. Eu até conheço o arquiteto, o Yoanny Calvo, mas não somos fomos nós que indicamos.
 
E nesse tipo de obra o ideal seria a mesma equipe ter alguém para acompanhar o trabalho?
Ah, sem dúvida, eu acho. Na minha opinião, sem dúvida, sim, seria o ideal, porque você garante a integridade do projeto todo.
 
Após a etapa da Sala do Coro ainda faltam outras intervenções no teatro. O que deve vir por aí?
Foram três anos de projeto, deu bastante trabalho, mas foi muito prazeroso por outro lado. É muito legal ver a população utilizando, estive na inauguração, achei muito legal, foi uma experiência muito bacana. E Oxalá a gente consiga concluir ele inteiro, porque não chegou ainda nem à metade da obra dele prevista. Então quando conseguirmos completar o anel superior, e conto com a ajuda de vocês aí, acho que Salvador vai ter um equipamento único no país. Com a conclusão dele será uma coisa sensacional. Ele envolve uma fábrica de teatros, além daquela sala de concertos com 600 lugares, que está impecável, e também um black box, que é um teatro experimental. Eu acho que se a gente conseguir fazer isso seria fantástico. Ainda vai faltar todo o anel superior, aquela Esplanada que foi criada, que contém a Sala de Concertos, uma sala para 600 pessoas, que é um espaço bem interessante. Isso seria uma terceira e quarta etapa. Ainda tem posteriormente a Sala Principal. Não para reformá-la, mas recuperá-la. Esses são os desafios grandes aí, que tudo isso envolve recursos, então sempre é uma dificuldade. Mas o equipamento é muito bacana. Os baianos estão de parabéns por ter esse teatro. 

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