Quinta, 06 de Julho de 2017 - 11:00

Bel Borba: ‘Os caras não sabem o valor dos artistas que nós temos na Bahia’

por Jamile Amine

Bel Borba: ‘Os caras não sabem o valor dos artistas que nós temos na Bahia’
Foto: Reprodução / Facebook

Com mais de 40 anos de carreira consolidada no Brasil, o artista plástico baiano Bel Borba tem trabalhado intensamente fora do país. De passagem pela Europa, desde novembro de 2016, ele esteve na Alemanha, onde faz itinerância com a exposição “Os Filhos do Brasil”; na Espanha, com a mostra em bronze “Regênesis”; e hoje integra um grupo de artistas multiétnico que se prepara para uma residência em Veneza, na Itália. Em entrevista ao Bahia Notícias, Bel Borba detalhou os trabalhos que tem desenvolvido no exterior e falou sobre as diferenças culturais do público e do mercado na Europa e no Brasil, destacando a importância da arte como atrativo do turismo. “Eu acho que na administração pública não se coloca ainda na ponta do lápis o que o investimento em arte pode gerar”, comentou o baiano. “Eu não estou dizendo que os administradores sejam obtusos, mas eu não vi ainda nenhum administrador público que dissesse: vamos investir em arte, para que seja um atrativo de peso para engordar o nosso repertório para oferecer ao turista. Eu conheço russos, gente do mundo inteiro que vão à Bahia por causa de Jorge Amado”, acrescentou Bel Borba, ressaltando a necessidade não apenas de comprar as obras, mas também de fazer a manutenção. Ele comentou também sobre o abandono do espaço dedicado a Mario Cravo Jr. no Parque Metropolitano de Pituaçu e destacou a relevância do artista, a quem considera o maior e mais importante da Bahia. “Às vezes a gente sente a impressão de que os caras não sabem o valor dos artistas que nós temos aí na Bahia”, disse Bel Borba, ressaltando ainda que “toda homenagem que se fizer a Mario hoje é pouca, porque ele merece muito mais”. 

 

Você está agora na Europa. Desde quando está por aí e que trabalhos tem desenvolvido?
Desde novembro estou aqui na Europa, agora em Veneza, na Itália. A exposição na Alemanha foi em um museu muito importante, chamado Neuffer Am Park, em uma cidade chamada Pirmasens. Eles fazem uma exposição por ano, e olha que chique. Eles tinham convidado Christo, aquele artista americano que embrulha tudo, mas ele adiou sua exposição, e aí eu fiquei com a pauta dele. O patrocinador escolheu o meu trabalho, para a minha sorte, e eu exponho em um lugar onde já estiveram grandes nomes, como Pablo Picasso, Salvador Dalí, Mark Kostabi. Então é um lugar muito importante, e essa mesma editora e galerista - a mais antiga da Alemanha - está fazendo minha itinerância no país. Comecei em novembro e já estou na minha terceira cidade, com uma exposição até final de agosto em Borken, na Galeria im Kettelhack Karree. Aí itinerância talvez vá para Colônia, mas ainda está em negociação. O que é certeza é que a quinta cidade vai ser Berlim. O nome original da exposição era “Os Sonhos do Brasil”, mas eu resolvi fazer um trocadinho e transformei em “Os Filhos do Brasil”, como se fosse em inglês. Como estava já um momento muito estranho no Brasil, eu comecei a pensar que tinha que fazer alguma coisa pensando no homem brasileiro, no cidadão humano e cotidiano. São gravuras que seguem pinturas. 

 


Bel Borba faz itinerância na Alemanha com uma exposição inspirada no cidadão do Brasil | Foto: Divulgação

 

Você também passou pela Espanha, o que fez por lá?
Eu fiz uma exposição também na Espanha, chamada “Regênesis”, na galeria Art Wanson Gallery Marbella, que é um lugar muito elegante, de praia, que já recebeu obras de Goya, Degas, Renoir, Cézanne, Monet, Picasso, Léger, Chagall, Magritte, Modigliani, Giacometti, é muito legal. E está um movimento muito bom lá, tanto que a exposição seguinte é uma de Andy Warhol, e eu havia feito um trabalho em homenagem a ele na minha exposição, e eles absorveram meu trabalho, junto com os originais de Andy Warhol até setembro. Eu fiquei muito contente, fiz uma homenagem e acabei sendo beneficiado. É a primeira vez que apresento uma exposição com uma coleção toda feita em bronze. Não são obras grandes, porque eu trouxe comigo, mas o bronze é uma coisa que pra mim é irreversível, não vou me afastar mais do trabalho de fundição. Eu subi para Pamplona, tinha marcado com uma pessoa da Secretaria de Cultura da prefeitura, aí visitei Bilbao, que eu não conhecia, e aproveitei e marquei uma exposição para o ano que vem, em maio, em duas salas grandes que tem em um parque chamado Cidadela, no centro histórico. Eu vou fazer um trabalho em uma comunidade, com um grupo comunitário, vou compartilhar um pouquinho da minha experiência e vou contribuir. Eu falei para eles que eu não quero mandar, não quero mudar, eu quero ajudar. Já sugeri a eles que a gente faça pintura em azulejo, para colocar nesse bairro. É uma "atençãozinha" social. E eu ganhei de presente agora em Pamplona um material que eu estou buscando há muito tempo. Então no final do ano ou no primeiro semestre do ano que vem eu vou fazer uma coleção com essa matéria-prima que eu consegui de um arquiteto lá em Pamplona. Eu não sei se vai ser isso que eu vou apresentar em Pamplona, mas a coleção vai ser feita lá. Essa matéria-prima é inusitada e muito especial, estou procurando há mais de 10 anos e achei aqui esse material.

 

E agora você fala de Veneza, na Itália...
Ainda hoje fui visitar uma empresa em Murano, onde trabalham com aqueles vidros coloridos. Nós tivemos uma reunião hoje, com um grupo de três suíços, um uruguaio e um baiano, que sou eu. Vamos fazer uma residência em 2018 e 2019. Estamos nestes cinco ou seis dias aqui com um suíço, que é o patrocinador inicial, que também é o captador. Mas ele terá outros parceiros, não vai bancar isso sozinho. Então estamos aqui, hoje mesmo arrematamos um barco velho para fazer uma instalação, fomos visitar o cara em Murano, tudo isso para o trabalho que faremos em dois anos. Esse é um terceiro braço de exposições e eventos. Nós vamos fazer uma exposição no museu náutico, com a chancela da Bienal de Veneza. Em uns dias, saindo da Itália eu vou finalmente participar da Bienal de Esculturas de Montreux, na Suíça Francesa. Vou fazer uma escultura logo agora, para não ter a obrigatoriedade de estar lá em agosto.

 

Confira imagens de "Regênesis", exposição realizada pelo artista baiano na Espanha:

 

E no Brasil, tem preparado algo para este ano? 
Na verdade não está muito fácil aí. Entreguei uma escultura no Horto e tem outra que é em Fortaleza...

 

Você é um artista conhecido internacionalmente. Acha que o Brasil e a Bahia valorizam os artistas da terra? 
Na realidade, eu não sou famoso internacionalmente, não sou nenhuma vedete. Tenho evento já há algum tempo fora, desde 2012, e nunca mais parei. Mas ainda é um caminho longo, não estou em nenhuma posição confortável. Cada coisa que conquisto é um passo, mas tenho mais luta. Está todo mundo lutando. No Brasil ninguém me representa formalmente, mas muitos quadros meus vão para São Paulo, que é o lugar que se tem o poder de compra que a Bahia não tem. A coisa acaba concentrando em São Paulo, no Brasil. Eu não sei como está no geral, mas acho que o mundo fora é muito maior, então é natural. Na Espanha, por exemplo, tem várias cidades polo, a coisa é mais espalhada. Lá, hoje as cidades disputam um artista que justifique o deslocamento dos turistas para ver aquilo, é algo que noto nas cidades daqui. Eles pensam: “vamos contratar um cara com uma arte de peso para aumentar nosso repertório”. Porque têm obras de arte que geram esse deslocamento, eu conheço muita gente que vai à Bahia por causa de Jorge Amado, muita gente vai para Barcelona por causa de Gaudi. Mas é isso, temos vários Brasis, tem o de São Paulo e o Brasil da minha terra Bahia, graças a Deus eu lutei muito para conseguir minha carreira consolidada. E por mais que eu tenha conquistado oportunidades aqui [na Europa], eu não tenho a menor intenção de dar as costas ao meu país, que é onde estão os meus amigos, e onde eu consegui um mercado que demorou quase 40 anos para conquistar. E hoje em dia pouco importa onde você esteja residindo, porque você se desloca com muita desenvoltura. Já é mais acessível, se você se programar com a antecedência adequada sai barato viajar.

 

E o público brasileiro, valoriza a arte?
A gente sabe que há uma valorização um pouco maior por aqui. Mas muito embora eu ache que o brasileiro reverencia muito a pessoa que tenha imagem pública, que tenha fama, que seja difundida na mídia, os brasileiros são bons fãs. Mas os estrangeiros convivem mais com a arte, estão mais habituados.
 

Como avalia as políticas culturais no Brasil e na Bahia, sobretudo com relação às artes plásticas?
Eu acho que na administração pública não se coloca ainda na ponta do lápis o que o investimento em arte pode gerar. Para se ter uma ideia, Bilbao é antes e depois do museu. Um museu pode salvar uma cidade inteira! Veneza é um lugar lindo, eu adoro, mas eu não ficaria vindo de dois em dois anos só para ver os bares, a paisagem, ou a cidade, ou para tomar um vinho aqui ou acolá. A bienal é o que garante um fluxo aqui. Tem a bienal de arquitetura, depois no fim do ano tem a de arte. Então, dois eventos importantes. Eu não estou dizendo que os administradores sejam obtusos, mas eu não vi ainda nenhum administrador público que dissesse: vamos investir em arte, para que seja um atrativo de peso para engordar o nosso repertório para oferecer ao turista. Eu conheço russos, gente do mundo inteiro que vão à Bahia por causa de Jorge Amado. Mas claro que você vê que na Europa se tem mais poder aquisitivo, a distribuição de renda parece que é mais horizontal, então acho que as pessoas acabam consumindo mais, e já há uma cultura. Tem tempo que eu ando dizendo que é arte na rua, que era pra já fazer parte do dia a dia. Nós não estamos na frente das cidades no mundo que contemplam arte na rua, e olhe que há 40 anos eu venho falando e fazendo isso, desde 1976 que eu estou na rua botando coisas. Não estou dizendo que ninguém desdenhe os artistas, eu sei que é uma coisa onerosa. Mas não é só comprar a obra de um artista, tem custo de manutenção, que não é uma coisa que custa barato. Eu sei que às vezes é uma coisa difícil de você priorizar, a não ser que você estabeleça em lei um percentual para os monumentos. Tipo: isso aqui é para nossa cidade, vamos reciclar nossos monumentos. Porque aí não vai se discutir, porque já é estabelecido em lei um "percentualzinho" para isso e não pode desviar. E essa "verbinha" pode ser usada para gerar turismo, porque o turista quer ver uma coisa exótica, que faça pensar, que tenha vontade de tirar um retrato do lado, fazer um selfie. Toda cidade hoje na Europa e algumas nos Estados Unidos estão querendo fazer sua feira de arte, que não tem a cara de feira, mas que tenha a cara de uma espécie de salão de arte contemporânea, mas pra isso tem que ter volúpia de mercado, de economia. Mas é delicado, porque também você fazer as coisas que não se pagam e não conseguem gerar receita, aí vai frustrando e vira um fardo. Não é tão simples, é complexo, e qualquer coisa que você queira fazer pra mudar incomoda, dá muito trabalho, e custa. Não adianta só botar uma escultura e não dar um jeito de fazer o mundo saber que aquilo está ali,  mas pra mim a indústria que melhor benefício traz, e tem lá seus excessos, é o turismo.

 

Recentemente fizemos uma denúncia sobre o estado de degradação dos espaços dedicados a Mário Cravo Jr. no Parque de Pituaçu (clique aqui e saiba mais). Você tem conhecimento sobre esta situação?
Eu não estou a par de todos os detalhes não, mas eu tenho acompanhado. É uma pena, a gente tem que dar graças a Deus que ele ainda está vivo e produzindo, com a idade que ele tem. Essas coisas que eu acho que faz falta… Respondendo à pergunta que você me fez lá atrás, às vezes a gente sente a impressão de que os caras não sabem o valor dos artistas que nós temos aí na Bahia. Eu não estou falando de mim não, mas acho que as pessoas às vezes não têm noção, porque veem ele ali todo dia. Acho que pensam que as coisas são pra sempre, e não são pra sempre. Eu sou fã, admirador, acho até que me inspirou, a maneira que ele conduziu a carreira dele e o porte de suas obras. Ele é um artista verdadeiro, que está vivo produzindo. Mas eu acho que se eu fosse ele, nunca colocaria minhas obras na beira da praia, porque dá o dobro do trabalho para fazer manutenção. Mas é o que eu falo, não adianta criar um espaço novo sem que tenha manutenção. É complicado fazer um museu e deixar acabar, acabar, acabar. Porque é assim, deixa acabar, aí um dia que seja, por questões políticas, qualquer que seja a decisão da administração da cidade ou até por patrocinador privado, vai lá e gasta uma fortuna para restaurar, que nem aquele museu no Recôncavo, que deixam acabar e aí daqui a pouco gastam uma fortuna pra refazer e deixar acabar de novo. É uma pena você ver o artista estar vivo àquela altura produzindo e ver sua obra, que de alguma forma está sob responsabilidade do estado, [degradada]... eu não sei como vai ficar isso. Eu não estou a par de todos os detalhes, mas olhando à primeira vista, como artista e colega desse grande mestre, eu me coloco no lugar dele. 

 


Bel Borba destaca o papel de Mario Cravo Jr, considerado por ele o maior e mais importante artista da Bahia | Foto: Jamile Amine / Bahia Notícias

 

Acredita que o poder público tem dado o devido valor ao artista? Qual a importância dele para a Bahia e para você, pessoalmente?
Mario Cravo, além de ser um grande artista, com uma história longa, profícua e admirável, é o nosso maior artista da Bahia. É o mais importante artista da Bahia vivo. Então, qualquer desdém ou qualquer negligência na atenção a esse cara que é o mais importante, é uma coisa que tem que se rever. Tem que se repensar, não pode deixar desta maneira o melhor e mais importante artista da Bahia hoje em dia, com uma obra riquíssima. Eu conheço bastante a obra dele, sou bem familiarizado. Mas tem uma coisa, vejo a economia falida, pior do que estava. E agora por diante, não consigo imaginar que vá melhorar em menos de cinco anos.


Conversamos com Tatti Moreno, que nos disse que alguns artistas pretendem lançar uma exposição na galeria Paulo Darzé, em homenagem a Mario Cravo (clique aqui e saiba mais). Você vai participar?
Já ouvi falar, acho justo. É o nosso principal e maior artista vivo. E não é só porque ele está vivo não, se tivessem todos os que morreram nos últimos 20 anos, ele continuaria sendo o maior. Toda homenagem que se fizer a Mário hoje é pouca, porque ele merece muito mais. Ele é um grande artista. É chato falar isso agora, mas imagine em outro país, ele ia estar sendo carregado, como se fosse uma procissão.

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