‘Esse será o ano da rampa de decolagem’, diz maestro Carlos Prazeres sobre Osba
Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

Encarando há seis anos o desafio de conduzir a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), o maestro Carlos Prazeres, nascido no Rio de Janeiro, contou detalhes sobre a trajetória que o conduziu à atual fase profissional. Em entrevista ao Bahia Notícias, ele revelou diversos convites para reger importantes orquestras no Brasil e no mundo, e falou ainda sobre os planos para a Osba, que recentemente passou por um processo de publicização. “Esses três meses que a Osba vai passar agora são meses de absoluta transição”, explicou Prazeres, pedindo paciência ao público, para que os músicos e gestores possam “arrumar a casa”. “No segundo semestre a gente sabe que finalmente vai ter uma orquestra pronta para fazer uma linda programação”, garantiu o maestro. Ao comentar o período difícil pelo qual a Osba passou no último ano, Prazeres destacou e agradeceu o apoio de artistas da música popular, como Luiz Caldas, Saulo, Daniela Mercury, Djavan e Paralamas do Sucesso. Carlos Prazeres revelou ainda que, além do prosseguimento dos eventos tradicionais que já fazem parte da agenda da orquestra, a Osba contará com duas novas séries, em homenagem a Mãe Menininha do Gantois e Myriam Fraga. “A gente fez questão de colocar o nome de mulheres, isso foi realmente proposital. A gente sabe que a Osba quer ser uma orquestra que está em voga com o pensamento crítico atual”, explicou.

 

Você é carioca e está à frente da Orquestra Sinfônica da Bahia desde 2011. Como foi esse convite e o processo para você assumir a Osba?
Na verdade eu vinha atuando como maestro assistente do Isaac Karabtchevsky, que é o principal maestro do Brasil e meu professor também. Eu atuei como assistente dele durante oito anos no Rio de Janeiro, junto à orquestra Petrobras Sinfônica, e com isso meu trabalho ficou muito conhecido também por dar uma nova cara à música clássica. A própria Petrobras Sinfônica, com isso, foi uma orquestra que sofreu um processo grande de renovação, e então eu realmente comecei a me tornar conhecido no Brasil. E teve um momento na gestão do professor Ricardo Castro que ele preferiu se dedicar somente ao Neojiba, então, tanto Ricardo Castro quanto alguns músicos da Orquestra Sinfônica da Bahia já haviam ouvido falar do meu trabalho e me fizeram uma proposta de enfrentar esse desafio, que na época tinha um milhão de problemas, como tem até hoje. Mas eu pensei que seria realmente uma coisa que pela primeira vez eu ia assinar, por uma orquestra com o meu nome e não atrás do nome do meu professor. Seria um momento de sair da barra da saia do meu professor, melhor dizendo. E aí eu topei o desafio de aceitar a Orquestra Sinfônica da Bahia e fiquei muito feliz com isso.


Você falou agora dessa questão dos diversos problemas. No ano passado nós acompanhamos um momento crítico da Osba. Mas este ano, finalmente, a orquestra pôde respirar de uma forma diferente. Eu queria saber sua avaliação para este momento e quais são as perspectivas para orquestra diante dessa nova realidade com a publicização.
É verdade, o Bahia Notícias sempre acompanhou e sempre soube perfeitamente pautar essas adversidades pelas quais a Osba passou e a agradeço vocês! Bom, quando nós dizemos que agora a orquestra já está respirando, é um processo complicado. A orquestra está sendo transferida para a Associação dos Amigos do Teatro Castro Alves no dia 2 de maio, que vai lhe administrar. No entanto, nós temos um grande processo agora de transformação, de ceder, realmente, esse organismo para toda uma outra equipe que vai tomar posse desse setor, para uma nova perspectiva de estatutos, por exemplo. Esse estatuto será apresentado pela via formal na semana que vem para músicos e para quem quiser ouvir. Ali estarão determinações de como orquestra pode funcionar, quantas horas um músico precisa trabalhar, com quantos atrasos ele recebe uma infração, esse tipo de coisa. Tudo isso vai mudar e tudo isso vai ser posto a público agora. Esses três meses que a Osba vai passar agora são de absoluta transição. Então, o mais engraçado é que talvez as pessoas agora, neste momento, esperem da Osba imediatamente um frescor e um viço assim: “Olha e aí, o que vocês vão apresentar nesse momento?”. E eu peço um pouquinho de paciência. É claro que a gente vai ser criativo, é claro que a Osba, com todas as dificuldades, sempre conseguiu ser uma orquestra criativa e inovadora. Ela não vai deixar de ser, mas eu acho que a partir do segundo semestre é que a gente começa. Esse remédio que o Governo está dando para orquestra agora começa a fazer efeito e a gente tira os aparelhos em agosto. Neste momento, é claro que a gente ainda consegue tomar aquela "sopinha de hospital". E tem a esperança, todo o grupo vai estar muito mais renovado, com muito mais empolgação para trabalhar, inclusive sabendo que não vai estar próximo do seu fim. E no segundo semestre a gente sabe que finalmente vai ter aí uma orquestra pronta para fazer uma linda programação. Eu acho que apesar disso tudo a gente ainda vai, no primeiro semestre, apresentar boas surpresas para público baiano.


Interessante você mencionar essa data, porque em setembro deste ano a Osba faz aniversário de 35 anos…
Exatamente, eu acho que esse ano vai ser muito especial para a Osba, embora ache que 2018 seja realmente o ano que a gente vai deslanchar e fazer exatamente aquilo que a gente quer. Mas esse ano vai ser o da rampa de decolagem. Eu pelo menos sou assim: quando programo uma viagem internacional que eu fico super feliz para fazer, que eu juntei dinheiro, quando avião está decolando já é aquele friozinho na barriga. Para mim já faz parte da viagem, não é só quando você chegar no lugar. Eu já aproveito aquele momento. Já brindo, já entro no avião todo feliz. Então essa entrada no avião é o que o público da Osba vai poder ver. Este ano a gente tem novidades que vai ficar muito feliz de colocar em prática. Já estamos formulando essa nova programação. A nova temporada é um exercício até engraçado, porque a gente estava tão acostumado a lidar com tão pouco recurso e tão poucas maneiras de conseguir fazer o nosso ofício, que agora está até sem saber como fazer (risos). E eu acho que o público baiano vai lucrar muito com esse investimento do governo do Estado. Acho que há que se ter coragem para ir no caminho contrário de todo o Brasil, que está acabando com orquestras, que está escolhendo o caminho mais fácil por um lado, o econômico, mas muito mais difícil por outro, porque na verdade a cultura também gera uma economia. Quando você demite uma orquestra, você tem um monte de músicos desempregados e você deixa de girar todo um escopo econômico em que ela está inserida. Eu acho que a Osba vai saber fazer juz a essa confiança e esse investimento do governo do estado. 

 


Maestro revelou novidades previstas para a Osba este ano | Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias

 

Você falou do ponto de vista de gestão. A Osba passou por uma publicização e não uma privatização. Qual é a diferença?
A Osba é um corpo gerido pela administração direta. O que é administração direta? É quando o governo administra diretamente o organismo. Sendo assim, nós ficamos à mercê de toda a lei do funcionalismo público. O problema é que não somos funcionários públicos, como por exemplo um ascensorista de elevador ou um deputado. Nós somos uma orquestra sinfônica, e a orquestra sinfônica tem nuances, tem peculiaridades. Por exemplo, compra de instrumentos de altíssimo nível, compra de partituras, aluguel de partituras, encomenda de novas peças para novos compositores, que mantêm a música clássica viva... tudo isso são nuances que não se encaixavam dentro da linha do funcionalismo público. Fora que a Osba era uma um organismo vinculado à Funceb [Fundação Cultural do Estado da Bahia], que, por sua vez, é vinculada à Secult [Secretaria de Cultura do Estado]. Ou seja, a Osba não tinha um CNPJ, e isso era uma coisa muito complicada para nossa instituição. Então agora a sociedade civil, através da Associação dos Amigos do TCA, vai passar a administrar a Osba. Isso se dá de uma via indireta, ou seja, o governo passa para a sociedade civil o dinheiro e a sociedade civil passa para Osba. É por isso que se chama administração indireta. O governo continua dando o dinheiro, mas, com essas leis que gerem uma organização social, a gente agora é capaz de captar recursos na iniciativa privada, o que era muito complicado quando a gente era um bem público. Então a gente tem hoje mais dinheiro do governo e ainda tem a possibilidade de arrecadar da iniciativa privada. O que a gente quer fazer, inclusive, é desonerar o governo, mas sempre com o respaldo governamental que é o necessário para a orquestra não acabar. Uma orquestra sinfônica é um bem muito frágil, muito caro, e que é impossível de competir com Ivete, com Harmonia do Samba, com Cláudia Leitte, porque não é um bem da indústria do entretenimento comercial, é uma indústria do entretenimento cultural. Não que os outros não sejam cultura, mas a Osba é um veículo cultural que não vai vender sabonete, não vai vender cerveja. Então a gente tem que ter a consciência de que, por exemplo, uma empresa que queira se aliar com orquestra faz isso porque sabe que a imagem dela vai estar muito bem vista. É nisso que a gente tem que começar correr atrás. Mas, como nós não temos como competir com a indústria do entretenimento comercial, não temos como ser uma orquestra privatizada. Porque uma orquestra privatizada, em uma crise, as empresas falam: “Olha, desculpe, é lindo o trabalho de vocês, mas a gente não tem como manter”. E aí a orquestra acabaria, então a gente não seria nunca louco de propor uma privatização, a gente propõe a publicização.

 

Você mencionou essa questão do lado comercial do entretenimento, mas a gente tem visto também que, apesar de não oferecer um produto voltado para a massa, a Osba tem tido um crescimento de público grande nesses últimos anos, principalmente através de projetos que aproximam a plateia da música clássica. Este ano vocês vão dar continuidade a esses projetos, como Cine Concerto?
Isso é uma pergunta muito interessante que você faz, porque nós nos vemos agora diante do seguinte dilema: estávamos com praticamente zero de recursos para a temporada, nós só tínhamos a folha salarial dos poucos músicos e Redas que estavam lá, mas mesmo assim, com a nossa criatividade e através de uma nova maneira de pensar a imagem da música clássica, nós conseguimos mais do que dobrar nosso público. E agora que temos dinheiro, voltamos a ser aquela orquestra super tradicional e careta que nós temos aí em quase 80% do território brasileiro? Essa foi uma grande pergunta que fizemos entre nós e optamos que não. A gente vai continuar seguindo nosso caminho, só que vai aperfeiçoar. Vamos fazer um Cine Concerto segunda edição, podendo comprar o material; vamos fazer um concerto de videogames; nós queremos fazer uma turnê pelo interior do estado, que isso é importantíssimo; nós vamos criar novas séries, inclusive uma série sensorial, que vai levar o nome da Mãe Menininha do Gantois. Então, vai ser uma série que vai se chamar "Mãe Menininha do Gantois" e outra série que vai se chamar "Myriam Fraga". A gente fez questão de colocar o nome de mulheres, isso foi realmente proposital. A gente sabe que a Osba quer ser uma orquestra que está em voga com o pensamento crítico atual, da importância da mulher na sociedade, o quanto a gente tem que valorizar isso. Se a gente for olhar, todas as nossas séries tinham nomes de homens: foi Manoel Inácio da Costa, Jorge Amado, Glauber Rocha... Então, na verdade, por que não agora a gente colocar nomes de mulheres? A gente quer conseguir ser uma orquestra atual, em voga com as lutas e com os anseios da sociedade que a gente vive. É possível que futuramente a gente construa até uma série que envolva discussões políticas, porque eu acho que é preciso nesse momento. Alguma que a gente pudesse misturar música com isso, não sei, a gente já mistura música com psicologia no Psi Concerto, quem sabe não faz com política também? Mas o caso é que a gente optou por continuar essa nossa busca por um caminho diferente, até porque, por mais que a gente tenha o apoio do Estado agora, a gente não vai ter o dinheiro da OSESP [Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo]. Eu acho que são 10 vezes menos, para você ter uma ideia do aporte financeiro. E nem vai ter o dinheiro da Filarmônica de Minas Gerais, nem do Teatro Municipal de São Paulo. Mas a gente crê que com esse aporte que o governo do Estado fez, a gente vai conseguir, de uma maneira super satisfatória, dar uma linda orquestra para Bahia e fazer com que ela tenha um caminho absolutamente criativo. Vocês vão ver a Osba de uma maneira.. Vão ficar ainda mais surpresos com essa orquestra, que vai conquistar a sociedade baiana.


Voltando para o aniversário da Osba, vocês estão preparando alguma coisa especial?
Vai ter o concerto de aniversário, que vai ser em setembro. A gente vai provavelmente lançar o nosso CD que foi gravado em 2013 e, inclusive, a gente deve escolher essa data pra lançar. Nós também pensamos em lançar uma hashtag comemorativa da Osba 35 anos. Não só #vivaosba, que foi uma hashtag muito importante para que a gente conseguisse essas reformas. Chegamos nesse momento em vias de continuar ou morrer, porque com esses 35 anos uma enxurrada de gente se aposenta, então perdemos não sei quantos músicos. Agora vai repor esses músicos da melhor maneira possível e estamos muito animados pra fazer um trabalho nesse segundo semestre já de uma forma incrível. Esse primeiro semestre a gente pensa até em lançar um selo que se chamaria OSBA em Conserto, porque a gente tá consertando. Não que tivesse quebrada, mas a gente precisa realmente arrumar a casa, então a gente nesse primeiro semestre vai fazer o mais criativo possível que a gente conseguir fazer. O público já tem um carinho, já acompanha as coisas, mas a gente pensa que o segundo semestre é quando o público vai poder esperar uma Osba completamente renovada, participativa no Carnaval, no Ano Novo, no Natal. Ano passado a gente não teve concerto de Natal, a gente teve um concerto de Natal na Assembleia Legislativa meio que pra agradecer por todas essas reformas. Mas a gente quer voltar a fazer o tradicional da Osba. A gente vai querer fazer um concerto no carnaval também. A gente fez o Baile Concerto, que foi inesquecível, todo mundo dançando “Chame Gente” lá na frente com a gente. 

 


Em setembro de 2017 a Osba celebra o aniversário de 35 anos | Foto: Paulo Victor Nadal / Bahia Notícias


Além desse momento interessante para a Osba, você também está tocando seus projetos pessoais. Quais são esses projetos. Vai ter algum cantando com Baby, como aconteceu improvisadamente no aniversário do TCA? 
Seria maravilhoso (risos). Não, por enquanto não tenho nada conversado de cantar com a Baby, mas adorei trabalhar com ela e com os Novos Baianos. A Osba pensa em lançar o Tropicália Sinfônico, um projeto que ainda é da Osba comigo, uma coisa que tem tudo a ver nos 70 anos da Tropicália. Mas sobre projetos pessoais, eu estou numa fase muito feliz em termos de carreira, estou regendo no Brasil todo: regi na Osesp recentemente, vou reger a Filarmônica de Minas Gerais semana que vem... isso quer dizer que eu estou sendo chamando para reger as principais orquestras do país, como em Brasília, Goiânia, a Orquestra Petrobras Sinfônica, onde eu estou sempre sendo chamado. Mas tem mais algumas legais, que foi Villa-Lobos em Movimento, um projeto bancado por uma indústria farmacêutica, quando a gente levou Villa-Lobos pro Rio e Salvador, com a Daniela Mercury cantando Villa-Lobos. Ou seja, a gente trouxe Daniela para jogar na nossa casa. E agora eu estou à frente do Prudential Concerts, um projeto que vai estar no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. Infelizmente ele não vem para Salvador, foi uma decisão da direção da empresa, que é uma companhia de seguros. Consiste em uma orquestra de câmara com oficinas sociais, e vai expressar o nosso ideal, que é mostrar que a orquestra pode ser uma coisa com formatos tão diferentes, uma coisa tão flexível, que, por exemplo, pode ir de Villa lobos, Johann Sebastian Bach, até Dona Onete ou “Prefixo de Verão”, do Netinho. Então, no programa que a gente tem no Rio de Janeiro agora tem Gilberto Gil cantando, no dia 9 de maio, canções que sempre canta com a gente - “Domingo no Parque”, “Estrela”, “Andar com Fé” -, exatamente aquelas músicas que ele cantou com a gente na Concha no show dele de 2012. A gente vai fazer também Vanessa da Mata e Daniela Mercury de novo, só que agora mais com o repertório delas. Até com Claudinho e Buchecha a gente vai tocar. Vamos fazer um passeio por todas as regiões do Brasil.

 

Com música popular, no caso...
Com música popular. Passeio por todas as regiões no Brasil. A gente vai pegar desde desde funk carioca até música clássica.

 

A escolha destes intérpretes foi a empresa que fez?
A escolha foi dada pela empresa, agora claro que passando pelo meu aval artístico. A empresa me liga e pergunta: “O que é que você acha?”. 

 

Dois cantores baianos e uma que tem uma relação próxima com a Bahia...
Exatamente, Vanessa da Mata também tem uma relação muito próxima com a Bahia, ou seja, eu fiz questão de entrar nessa linha. E eu tenho uma relação muito forte com a Bahia hoje, com a música baiana. Sou amigo pessoal do Saulo, Luiz Caldas, são dois grandes queridos, Gilberto Gil, Daniela Mercury. Sabe, tem uma coisa minha com a música baiana, porque eu acho que abri as portas também da Orquestra Sinfônica da Bahia, assim como Ricardo Castro já fazia, para que a orquestra pudesse receber música popular linda e ao mesmo tempo não substituísse o que ela faz. Porque, na verdade, vamos supor, se a Osba resolve só fazer música popular, a gente não tem nenhuma orquestra na Bahia, a gente só tem o Neojiba que é uma orquestra jovem, a UFBA que é uma orquestra de universidade. A Osba é o espaço para fazer música sinfônica na Bahia, então se a gente passa a só fazer música popular, a gente não consegue atuar como nossa missão. A gente não quer isso. Queremos fazer parte da cultura baiana e da sociedade baiana, e é impossível você dissociar a sociedade baiana da música popular. E assim, o que a gente puder colaborar, o que puder trocar para eles evoluírem e para a gente evoluir, a gente passa a ser uma orquestra mais flexível e eles passam a ser cantores também muito mais ricos, em contato com uma orquestra sinfônica, em contato com música clássica. 

 

É interessante também para o público ter essa possibilidade de transitar entre o popular e o clássico, não é?
Exatamente. O público vê a orquestra tocando com música popular, ele vê que a orquestra não é aquele organismo chato, careta, que ele não pode ir porque não tem dinheiro. Não! A orquestra faz parte da sua sociedade, é isso, ela é sua também.


E você, tem outros projetos pessoais aí alavancados também para esse ano?
Olha, o CD da Osba eu também acho que faz parte de um projeto pessoal. E fora isso, eu acho que o meu grande projeto pessoal hoje é o crescimento da Orquestra Sinfônica da Bahia. Ah, eu não contei, vou reger no México ainda esse ano, na Orquestra do Instituto Politécnico e, mais uma vez, a orquestra do Teatro Colón, em Buenos Aires, que é talvez a mais importante das Américas. Então, isso é muito importante em minha carreira, mas eu deixo claro para você que meu projeto de vida hoje é a Osba. Eu prefiro, às vezes, não pegar um grande projeto, porque estou focado em decolar com a Orquestra Sinfônica da Bahia. Se eu naufragasse com a Osba eu estaria naufragando junto. O dia que o governador assinou essa publicação [da publicização da orquestra] eu dormi com 500 toneladas a menos na minha cabeça. Eu chegava a não acreditar. Finalmente essa decolagem aconteceu eu jamais iria sair desse barco. Muita gente me perguntou, eu já dava sinais de cansaço, eu confesso, mas não ia sair desse barco enquanto ele não tivesse afundado ou reerguido. Eu falei assim: “Não! Eu vou lutar até o fim”. E a gente conseguiu, graças a Deus.


Contamos com vocês para saber das próximas novidades...
Vocês sempre foram super parceiros, sempre torceram pela Osba. A gente sabe que as pessoas ficam tristes com coisas que não dão certo, mas é o que a gente tem que fazer, a gente tem que lutar. E vocês foram parceiros maravilhosos nessa luta.


Que agora está tendo um final feliz...
É importante a gente dizer, nesta entrevista, a coragem e inteligência do Governo do Estado em investir numa Orquestra Sinfônica, fazendo o caminho contrário desse terrorismo cultural que se está fazendo no país. Onde o artista está sendo acusado de se utilizar de verbas públicas de maneira errada. Pelo contrário, a lei Rouanet é uma lei maravilhosa de fomento da arte, e da arte que não consegue disputar com o mercado. Não adianta, eu não vou conseguir disputar com a Ivete Sangalo, porque ela vai cantar um refrão e todo mundo vai cantar. Na hora que o refrão está na cerveja, todo mundo vai comprar cerveja.Já o nosso refrão às vezes dura 45 minutos, entendeu? Então é muito complicado a gente disputar. E nem a gente quer disputar e nem elas querem. Tanto que eu digo que a música popular, os músicos populares, eu devo a eles também. Grande parcela de hoje, da Osba estar salva, é porque eles nos deram a mão. Eles não precisavam, mas nos deram a mão. Saulo, Luiz Caldas, Carlinhos Brown, Daniela Mercury, todos se posicionaram a favor da Orquestra Sinfônica da Bahia. Djavan, que é impossível deixar de citar, os Paralamas do Sucesso... posso estar esquecendo alguém agora. Djavan foi à público na Concha falar. Carlinhos Brown foi ao Facebook dele e colocou lá. Saulo também. Luiz Caldas foi pedir para o governador pessoalmente. Essas pessoas colocaram a mão delas no fogo pela orquestra. E eles não precisavam disso, a carreira deles não precisa. A grande maioria das vezes que eles tocaram com a gente, eles tocaram de graça. Então, eu posso dizer que a gente tem muito a agradecer. E reiterando, o governo poderia ir na corrente de muitos governadores que têm utilizado de uma forma torpe esse discurso da economia, e uma economia porca. É uma economia que você vai economizar 0,00000001%, como por exemplo o prefeito lá em Curitiba, cancelando a Oficina de Música de Curitiba, que é um evento super tradicional que acontece há mais de 30 anos. O cara cancelou a oficina, falando que tinha que comprar seringa para hospital. Sabendo que o dinheiro de cultura não vai para hospital e que é um dinheiro tão pequeno. Dentro da secretaria é tão mais fácil ele falar assim: “vou cortar do salário dos políticos aqui de Curitiba, vou cortar de uma secretaria que tenha dinheiro, de um prédio que a gente possa construir", de uma coisa assim. E o governo da Bahia foi contra esse populismo, ele está indo na direção contrária, está ajudando um corpo que ele sabe que se não ajudasse, ia morrer. Isso foi muito bonito, é um gesto de coragem e tem que ser louvado.

Histórico de Conteúdo