'Tiro no pé a TV Globo ter tirado programa do ar', diz Domingos Meirelles sobre Linha Direta
Fotos: Paulo Victor Nadal

A geração que cresceu assistindo ao programa Linha Direta, da Rede Globo, não esquece do suspense que passava com as simulações de crimes não resolvidos. Parte do clima era causado pela narração do seu apresentador, na época o jornalista Domingos Meirelles. "Aquele programa foi muito mal entendido pela crítica e pelo mundo acadêmico", desabafou Meirelles, em entrevista ao Bahia Notícias na véspera do Dia do Jornalista, comemorado em 7 de abril. Uma das críticas era o uso da dramaturgia para contar histórias reais, ao que o jornalista rebateu com a segurança de 50 anos de experiência na imprensa brasileira. "Foi um tiro no pé a TV Globo ter tirado esse programa do ar. (...) Acho que tirou um pouco diante da campanha que foi feita pela Folha de S.Paulo contra o programa. Críticos, professores, até, não conheciam o programa, não sabiam a mecânica, como a coisa funcionava", protestou o jornalista. Ao longo dos 30 minutos de conversa, Domingos Meirelles, hoje presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e apresentador do Repórter Record Investigação, critica o modo como é feito o jornalismo digital e defende a cobertura da imprensa em casos de repercussão, como a Operação Lava Jato.

A internet é a grande novidade do jornalismo nos últimos anos. O que o senhor acha do impacto disso na produção da notícia? Melhorou, piorou, está menos consistente?
Sou um pouco crítico, acho que não melhorou. Acho que esse novo universo tem que ter algumas regras. Como é uma coisa ainda muito nova, ela não tem fronteiras. Esse território precisa ser demarcado, e como ele é um território muito novo, não tem fronteiras, acaba sendo vítima de toda sorte de loucuras, porque não tem ainda uma regra. Vou dar um exemplo que estava comentando: eu fui demitido oito vezes em dezembro da Record. Saiu em vários sites. Ninguém ligou pra perguntar se realmente era verdade. E meu contrato terminava em fevereiro. Se eles me demitissem em dezembro, teriam que me pagar indenização. Em nenhum momento se cogitou isso. Alguns até foram generosos, “uma pena que esteja saindo da Record”, “programa que ganhou tantos prêmios”. Mas esse é que é o perigo da mídia digital e pode ser que ele contenha o próprio veneno que a médio prazo vai até tirar um pouco da credibilidade que ela conseguiu conquistar. Como não tem regras, ninguém checa nada, é uma velocidade… Um erro de informação na mídia impressa era motivo de vergonha não só de quem cometeu o erro, o jornal se sentia envergonhado de ter cometido o que a gente chamava de barriga. Isso era motivo de uma vergonha coletiva. Hoje se erra a todo momento, porque não há preocupação de checar. Então a coisa viraliza e passa a ser verdade, quando é uma ficção, um delírio.
 

O senhor falou sobre demarcar limites no jornalismo digital. Quais seriam eles?
No caso, é o seguinte: você não pode olhar um site e partir da premissa que aquela matéria que está o site é a expressão da verdade. Você tem que checá-la. Ou ninguém checa? Você parte da premissa que aquela informação é correta, tanto que está no site. Isso jamais aconteceria na mídia impressa. O que está no papel tem que ser a expressão da verdade. E isso acaba gerando uma insegurança, do ponto de vista da qualidade da informação, que a gente não tinha na mídia impressa. É preciso checar. E uma outra coisa que é característica da mídia digital é fazer entrevistas por e-mail. Acho o seguinte: a entrevista tem que ser olho no olho. Há uma diferença fundamental entre você mandar dez perguntas para seu entrevistado responder e você sentar com ele com uma caneta, observá-lo, vai fazendo pergunta e observando detalhe no rosto, uma expressão, um fundo, ambiente onde ele se encontra. Isso, infelizmente, no tipo de jornalismo digital você não tem essa capacidade de identificar esses “aromas”, o ambiente onde a pessoa se encontra. Tem uma matéria que saiu na Folha de uma menina que entrevista um grande sociólogo que hoje foi reeleito prefeito de Curitiba, brilhante ele. Tão brilhante que quando ele foi prefeito teve a sacada de construir em cada praça um farol e agregou a cada farol uma biblioteca. A cidade que mais tem biblioteca no Brasil é Curitiba. Como foi a matéria: ela dizia “com os olhos muito apertados, como se estivesse permanentemente sorrindo”, porque ele é meio gordinho e ele comprime um pouco os olhos. Foi uma forma muito carinhosa com que ela começa a entrevista. Aquela informação ela só poderia ter se estivesse presente entrevistando. Quando você manda e-mail, você não tem essas informações, você não vê o seu entrevistado, então não tem como dar a ele uma dimensão humana, ele é apenas uma pessoa que fala. Mas por trás de cada entrevistado existe uma pessoa com emoções, com defeitos, tiques nervosos. Venho de uma outra geração, um outro tipo de jornal. Sou muito antigo, de uma época que jornalistas ainda falavam. Hoje ninguém fala, conversam por e-mail. As redações de antigamente seriam extremamente esporrentas. Jornalismo é paixão, entusiasmo.

No dia 7 de abri comemoramos o Dia do Jornalista. A gente tem o que comemorar?
Acho que a gente não tem muito o que comemorar, porque a imprensa vive esse momento de indefinição. Tem gente que diz que a imprensa vai acabar, o jornalismo vai ser uma outra coisa completamente diferente. Eu acho que ele vai sobreviver, vai se adequar às novas tecnologias, e o papel não vai acabar. O papel vai exercer uma outra função. Lembro da minha editora falando “Prepare-se porque sua próxima edição a gente vai fazer em E-book”, porque era coisa de momento, mais rápido. A biografia do Steve Jobs, que foi feita em E-book, foi uma tragédia, não vendeu nada. Algumas previsões são achismos. Acho que a mídia digital vai diminuir de tamanho, sofrer grande enxugamento, e vai adquirir seu tamanho, e o jornal vai seguir seu processo de transformação e seguir sua vida.
 

A cobertura do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e ainda hoje da Operação Lava Jato tem sido alvo de protestos nas ruas. As pessoas questionam, dizem que a imprensa está comprada. Como o senhor avalia isso?
A imprensa tem sido vítima de uma intolerância política muito ruim. Depois daquelas manifestações de 2013, a imprensa está sendo vítima de uma caça às bruxas que é uma coisa impiedosa. A sociedade se dividiu, as paixões estão tão exacerbadas. O jornalista não tem culpa nenhuma, ele está cobrindo, fazendo seu trabalho. “Ah, está cobrindo pra TV Globo”, “para o Jornal A Tarde”, ou porque “é contra o governo”, ou “a favor do governo”. A imprensa acaba de uma certa forma sendo crucificada por uma questão que ela não tem a menor responsabilidade, pelo contrário, ela está sendo vítima também. Vítima do preconceito. A TV Globo vai pra rua, e o SBT também, não usam mais o logo. O momento é muito difícil hoje. A imprensa não tem culpa, ela apenas reproduz. Agora, as mídias digitais exacerbaram as paixões e vira uma grande confusão. Está tudo muito à flor da pele. A imprensa, que vai ter que reproduzir os fatos, vai pagar um preço por isso.
 

Não só a população, mas agentes políticos envolvidos tanto na operação quanto no impeachment também culpam a imprensa. O senhor acha que existe algum tipo de censura pra imprensa não falar o que deveria?
Ela está cobrindo seu papel, tem que falar. Agora, incomoda. Uma coisa que eu acho é que há um desrespeito muito grande em relação ao papel do jornalista. Ele tinha uma expressão política e social que perdeu, como também perdeu salário, a precarização da remuneração salarial. O jornalista tinha o prestígio de um senador, o repórter político tinha expressão, era tratado com respeito pela classe política. Isso acabou. Ele é tratado hoje como um Zé Ninguém.

O que falta na cobertura jornalística hoje?
Acho que o jornalista tem que se preparar melhor. Tenho visto textos no Uol, no IG, que deixam muito a desejar. Se o jornalista se qualifica… Primeiro, uma coisa que o Fernando Morais diz: é impossível escrever bem se você não é um bom leitor. É fundamental que você se qualifique lendo, ou poesia, ou romance, ou novela policial. Fica a seu critério. Você precisa enriquecer o seu vocabulário, ter lastro pra poder construir narrativas. Hoje é tudo muito pobre, tudo muito sem tempero, os textos são construídos sem sal, são inodoros. Parecem de isopor, são incapazes de despertar uma paixão. O papel do texto é te provocar uma emoção - não precisa ter imagem, mas uma narrativa bem construída. É um embrulho em manta. Mas aí vocês [jornalistas] não têm culpa, é o tipo de formação que vocês sofreram. Os próprios professores dos cursos de comunicação deixam muito a desejar, muitos sequer pisaram numa redação, então provoca efeito cascata. Mas independente disso, vocês têm que se qualificar do ponto de vista de domínio da linguagem, ter um estoque de palavras no vocabulário que te permita construir um texto. E uma coisa que é fundamental para o jornalista: tem que pensar no outro, o que o meu leitor gostaria de saber sobre esse caso, o que a pessoa que vai ler a minha matéria vai achar. Começa a se julgar, seja juiz de você mesmo. Estou escrevendo mais um livro agora, sobre as minhas reportagens, e um capítulo sobre Pablo Escobar está com 34 laudas. Toda hora mexo nele, porque acho que não está legal, então estou com ele na minha sacolinha, era até pra mexer no avião. Lendo uma palavrinha que encontrei na Folha, vou usar essa palavra: “chucro”. Os assessores mais próximos do Pablo Escobar eram muito idiotizados, então para não usar essa expressão, vou chegar em casa e vou trocar por chucros. É uma permanente preocupação com a forma, com o conteúdo, dar sempre um brilho. Claro que na velocidade da mídia digital, nem sempre… Estou há 15 dias com 34 laudas, engraxando as palavras, frases e orações completas. Mas acho o seguinte: tem que ler. Impossível escrever bem se não for uma boa leitora.
 

Não dá pra falar com o senhor sem lembrar do Linha Direta. Gerações de jovens e adultos de hoje lembram de muita tensão daquela época. As pessoas ainda falam com o senhor sobre o programa? Como foi fazer jornalismo no Linha Direta?
Aquele programa foi muito mal entendido pela crítica e pelo mundo acadêmico. Se você entrar na internet e botar “Linha Direta dissertação de mestrado”, “Linha Direta tese de doutorado”, você vai encontrar um universo de trabalhos a nível acadêmico que foram publicados e produzidos em cima do programa. Digo a você que metade daquilo é lixo, porque aquelas pessoas cometeram um erro básico, começaram a emitir elucubrações sobre uma coisa que eles não conheciam. O melhor trabalho sobre o Linha Direta foi feito por um estudante de Comunicação do Paraná, o Tiago Cruz. Ele me ligou dizendo “Olha, queria fazer minha monografia, mas minha orientadora é contra o programa”. Eu disse: “Tiago, como você teve a coragem de ligar pra mim, vou te fazer um convite. Você não quer ficar uma semana aqu no Rio de Janeiro? Consigo que você acompanhe a gravação do programa”. Bom, ele escreveu uma monografia, que virou um livro, que já ganhou três prêmios internacionais. Porque uma coisa é você emitir um juízo de valor sobre um produto que você não conhece É muito do mundo acadêmico, né, o cara emitir um juízo de valor que ele não conhece, não sabe como foi feito. Você não tem ideia do que é uma mãe ligar pra redação, chorar e agradecer porque localizaram o assassino do filho dela. Isso não tem preço. Um cara que está fazendo uma tese desconhece essa rotina da redação. As pessoas ligavam muito sensibilizadas, queriam que eu fosse jantar na casa delas, não tinham palavras pra agradecer. Eu só cumpria o meu papel e, na verdade, quem localizou não fui eu, não, foi o público. Aí começou a dizer que o programa estimulava a delação, a delação está aí e virou um recurso jurídico na Lava Jato; que o programa estimulava a dedo-duragem, que o programa era isso e aquilo. Eu pessoalmente acho que foi um grande programa, tenho muito orgulho de ter participado e sempre defendo o programa quando se levanta questões. Foi um tiro no pé a TV Globo ter tirado esse programa do ar. Esse programa é cópia de um programa inglês que está no ar desde 1983, exibido em toda a comunidade britânica - Inglaterra, Irlanda, Escócia, todos os países onde a comunidade britânica tem algum tipo de influência política e cultural. A Globo comprou e adaptou o Linha Direta à realidade brasileira, mas já vi na internet e o nosso é melhor. O deles continua no ar. Acho que a Globo tirou um pouco diante da campanha que foi feita pela Folha de S.Paulo contra o programa. Críticos, professores até, não conheciam o programa, não sabiam a mecânica, os intestinos, como a coisa funcionava. “Ah, porque o programa condena o cara”, “ah, a dramaturgia”. Pô, dramaturgia é um recurso. Como você vai fazer um programa de televisão, vou contar que o cara chegou e deu três tiros. Mostra como foi. Com elegância, com habilidade. “Ah, então o cara saiu correndo…”, mas a pessoa contando como foi o crime ou você usando um recurso dramatúrgico pra reproduzir aquela cena? Televisão é imagem em movimento e isso foi feito com muita competência pela TV Globo. Esse menino Tiago Cruz defendeu essa tese, de que a dramaturgia é recurso legítimo para o discurso jornalístico. As pessoas acham que o programa estimula a dedo-duragem. A TV Globo tentou várias vezes acabar com o programa e eu ia lá defender, dizia assim: “Olha, a casa tem que ter a percepção que os futuros diretores de telenovela vão sair do Linha Direta, porque eles têm pouco tempo para produzir, pouco tempo para editar e é uma novelinha por semana”. Os grandes diretores hoje da televisão saíram do Linha Direta. 

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