Quinta, 02 de Junho de 2016 - 11:00

BN HQ: Pequeno Dicionário dos Quadrinhos de Super-Heróis (Parte 1)

por Edimário Duplat (edimarioduplat@bahianoticias.com.br)

BN HQ: Pequeno Dicionário dos Quadrinhos de Super-Heróis (Parte 1)
Foto: Divulgação
Nos últimos meses, fui questionado por novos leitores, ou apenas entusiastas dos super-heróis que passaram a conhecer os personagens pela séries e filmes, sobre alguns termos utilizados pelos fãs de quadrinhos em postagens, comentários e até em textos que explicam um pouco mais esse universo ficcional. Terminologias como Reboot, Sidekick ou Tie-ins tem tomado de assalto a vida destes novos admiradores, que admitem sempre conhecer novas palavras a cada vez que se aprofundam no tema.

Dessa maneira, tive a ideia de trazer um pequeno e modeste “dicionário” sobre o significado de algumas destas expressões no universo dos quadrinhos de super-heróis, que acabam também se tornando parte do cotidiano de seus fiéis leitores e são muitas vezes incorporados no dia a dia destas pessoas. Vale lembrar que em muitos casos não se trata só de uma tradução literal, pois podemos notar que estes termos se condicionam para aquele determinado tema e ganham um novo significado totalmente focado a esse nicho de admiradores. Então vamos lá:


Cronologia

Podendo muitas vezes ser chamado de continuidade ou continuísmo, a Cronologia se tornou o pilar fundamental para os grandes universos de personagens dos quadrinhos de super-heróis. Ela é a linha histórica que vai ajudar o leitor a entender (ou confundir) a determinada história de um personagem ou do local em que ele vive. Se for bem organizada, pode se tornar um grande trunfo para aqueles que gostam de tramas bem amarradas e referências de acontecimentos que acabam convergindo em uma trama maior. O problema é que se for descontinuada ou mal executada, se torna uma grande dor de cabeça que pode sepultar de vez o seu protagonista ou uma franquia inteira.

Exemplos: A Marvel pode ser conhecida como a editora que fundamentou a importância de uma linha cronológica mais rígida e referencial. Nos anos 60, o escritor Stan Lee (criador de personagens como Homem-Aranha, Homem de Ferro, Thor, Quarteto Fantástico, Hulk e X-Men) utilizou de referências e encontros entre os super-heróis da empresa para fidelizar o público e solidificar uma nova forma de se contar histórias.


Entretanto, na década de 40, foi a DC Comics (formada da fusão entre National e All-American Publications) que deu o primeiro passo nesta empreitada. Naquela ocasião, a empresa lançou o grupo da Sociedade da Justiça da América, que unia heróis já publicados em outras histórias separadas para se tornar o primeiro supergrupo dos quadrinhos. Com isso, fundamentava mesmo sem muita explicação que aqueles combatentes do crime viviam no mesmo universo ficcional.

Crossover

O Crossover é o grande encontro entre dois personagens distintos, que podem ou não fazer parte do mesmo universo ficcional. Antigamente era atribuído também para as supersagas, onde diversos heróis de uma editora se unem contra um inimigo em comum. Porém, nos tempos atuais, é um termo mais utilizado para encontros que envolvem protagonistas de empresas distintas ou até encontros que misturam personalidades da vida real com os da ficção. Por terem uma excepcionalidade de atiçar a curiosidade dos fãs, muitas vezes não são considerados parte da cronologia do personagem se não tiver algum “senso de explicação coerente” com o que foi contado antes sobre ele.

Exemplos: Como falado anteriormente, a união de personagens para grupos como Sociedade da Justiça, Liga da Justiça e os Vingadores eram considerados como um crossover anteriormente. Entretanto, hoje o termo se tornou mais específico quando se coloca de frente as franquias que não compartilham do mesmo universo.


Nos anos 70 e 80, Marvel e DC criaram três encontros marcantes para o mundo dos crossovers: Homem-Aranha vs. Superman (duas vezes), Batman vs. Hulk e Novos Titãs vs. X-Men. Entretanto, foi apenas nos anos 90 que veio o crossover Marvel vs. DC, que utilizou até de voto popular para definir alguns vencedores dos confrontos propostos. Depois disso, um grande número de embates tem sido estimulados não só pelas duas editoras como também por outras concorrentes e até por empresas de cinema e games.

Vale destacar alguns encontros marcantes com outros nem tanto. A lista extensa tem exemplos como Liga da Justiça vs. Vingadores, Alien vs. Predador, Street Fighter vs. X-Men, Marvel vs. Capcom, Batman vs. Juiz Dredd, Juiz Dredd vs. Alien, Alien vs. Superman, Superman vs. Predador, Predador vs. Archie, Archie vs. Justiceiro, Justiceiro vs. Batman, Batman vs. O Máskara, Meu Pequeno Pônei vs. Transformers, Transformers vs. GI Joe, Superman vs. Pernalonga, etc.

Retcon

A Continuidade Retroativa, ou Retcon, é um recurso bastante utilizado não só nos quadrinhos e livros como também no cinema e na TV, principalmente os seriados e algumas novelas. Nele, temos a alteração de fatos do passado dos personagens e que pareciam estar bem definidos na cronologia. Em muitas ocasiões é utilizado para explicar incongruências da continuidade ou até para adicionar uma nova dramaticidade para a franquia.

Vale ressaltar um detalhe bem importante: Retcon não é propriamente um flashback que você descobre no final de uma história. Se este recordatório foi criado originalmente pelo autor, pensado desde o início da trama e revelado apenas mais tarde, não é uma Continuidade Retroativa. Este caso só se aplica se após uma história bem fundamentada, onde tudo já parecia definido e finalizado, um novo autor ou uma pressão editorial perante o criador da obra original, faça com que seja introduzido um “gancho” dentro do que já estava definido.


Exemplos: O recente caso do Capitão América nos quadrinhos, onde até o momento uma história tem revelado que ele pode ser um espião da Hidra desde antes do soro do supersoldado, é o mais novo retcon que tem importunado a vida dos fãs do herói. Esta ideia nunca foi pensada pelos seus autores originais e nem por outros escritores que comandaram as aventuras do bandeiroso nos últimos 75 anos.

Entretanto, para aqueles que pensam que este tipo de recurso é apenas utilizado nos quadrinhos atuais, está levemente enganado. Desde os primórdios das HQs de Super-Heróis, o retcon funciona como um meio de consertar conflitos de roteiro ou até para dar mais dramaticidade a vida daquele personagem.

Conhecidos por muito tempo como filhos de Magneto, os mutantes Feiticeira Escarlate e Mércurio só vieram a saber desta paternidade nos anos 80, quase 20 de sua estreia nas HQs. Recentemente, a Feiticeira descobriu que Magneto não é seu pai biológico.

Arco de Histórias

Cada vez mais popular nas obras americanas, o arco de histórias é a união de várias edições de uma determinada revista, ou de séries distintas, para contar uma trama em comum. Ela pode ser considerada o espirito motor de uma cronologia, já que disseca a lógica da continuidade e esmiúça uma determinada aventura por vários números.  

Uma supersaga, união de diversos heróis contra algo em comum, é logicamente um arco de histórias. Contudo, este termo é mais utilizado quando envolve uma determinada franquia ou títulos que tenham temas próximos – como, por exemplo, Batman, Batgirl e Asa Noturna ou Superman, Supergirl e Superboy – e nos trazem uma história focada naquele micro-universo.


Exemplos: Nos últimos anos, mais de 90% das histórias dos heróis da Marvel e DC não conseguem ser condensadas em um número só e acabam se dividindo em quatro ou cinco edições, virando um arco. Meses depois, estes “capítulos” são compilados no que podemos chamar de Encadernados, que são muitas vezes impressos como livros de capa dura ou apenas publicações com uma quantidade maior de páginas. As coleções da editora Salvat e as recentes séries da Vertigo lançadas pela Panini são ótimos exemplos de encadernados.

Reboot

Um tema polêmico. Reboot a grosso modo é a reinicialização de um universo, ou até de uma franquia, dos quadrinhos de super-heróis. Utilizado em último caso, quando a cronologia acaba se tornando mais confusa do que esclarecedora ou quando determinada série não parece ter saída em meio a uma crise editorial, o reboot faz tudo que foi criado ser desconsiderado e uma nova cronologia acaba criada do zero.

Óbvio que na maioria destes casos, muitos editores e roteiristas acabam adicionando elementos antigos daquele personagem novamente. Mas, sem levar em conta histórias e tramas que já ocorreram, focando apenas em um novo ponto zero para se criar outra continuidade.


Exemplos: As reinicializações tem sido bastante recorrentes em algumas franquias. Transformers, por exemplo, teve sua primeira série de quadrinhos pela Marvel e depois acabou passando por outras editoras até chegar na IDW, que reinicializou tudo e passou a contar uma nova trama, com os mesmos personagens, em um universo ficcional totalmente novo. Mesmo assim, seus autores atuais utilizaram referencias dos antigos quadrinhos, das séries animadas e dos filmes para embasar a sua criação. Anos depois, a antiga continuidade voltou a ser publicada pela IDW, mas sem misturar com que o a própria empresa criou anteriormente.

Um caso mais famoso é o da DC Comics. Em 1985, com o advento da Crise nas Infinitas Terras, a editora zerou o seu universo e amarrou os velhos personagens em conceitos repaginados e uma nova cronologia. Séries mais famosas na época, como os Novos Titãs, iniciaram esse reboot com histórias que pareciam sequências diretas do que existia pré-crise. Entretanto, essa foi uma estratégia da DC para não perder os fãs fiéis da revista em um primeiro momento. Anos depois, por parte de retcons, ela criou uma nova origem para o supergrupo e o desvinculou da antiga continuidade.

Relaunch

Um termo novo e controverso em seu atual formato, Relaunch vem sendo aplicado para conceituar republicações ou reformulações que não sejam totalmente um reboot. Seriam doses menores de mudanças que não propriamente apagariam toda a cronologia de um personagem ou franquia.

Com o crescente temor e críticas sobre o termo reboot, algumas editoras apelam para o novo nome como forma de amenizar os fãs mais fervororos. Entretanto, em muitos casos em que relaunch é utilizado, pode ser considerado uma reformulação total “disfarçada”.

Exemplos: Depois dos eventos da Guerra Civil, o Homem-Aranha acaba sofrendo pelo assassinato da Tia May por parte de criminosos que utilizam da recente divulgação da sua identidade secreta para faze-lo sofrer. Desesperado, o aracnídeo faz um acordo com Mefisto e “vende” o seu amor com Mary Jane para ter a sua amada tia de volta. Sendo assim, tudo que aconteceu desde o casamento de Peter Parker com a ruiva foi desconsiderado e o personagem passou a viver outro status quo na sua cronologia.


Esse seria o melhor exemplo de relaunch, pois não desconsidera totalmente a sua cronologia pregressa, mas efetua reformulações marcantes em sua história. Personagens como Flash (Wally West) e Mulher-Maravilha também já sofreram relaunchs nos últimos anos.

Outro caso que pode ser considerado relaunch hoje são Os Novos 52, da DC Comics. Depois dos eventos da saga Ponto de Ignição, o universo da editora parecia ter sofrido um reboot por ter zerado toda a cronologia anterior. Entretanto, desde o lançamento da revista DC Rebirth, no último mês, um personagem do “antigo universo” reaparece e revela para o leitor que os atuais heróis ainda são o da antiga continuidade, mas com seu passado manipulado por uma entidade cósmica.

Acho que consegui trazer alguns termos importantes que são ouvidos e lidos em discussões sobre os quadrinhos de super-heróis norte-americanos. Mais dúvidas, opiniões e sugestões podem mandar pelo meu e-mail ou entrando em contato nos meus perfis de Instagram e Facebook

Até a próxima, pessoal!!
 

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