'Divisor de águas': Com Instituto de Tecnologia da Saúde, Bahia promete impulsionar setor

Criado pela Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), o Instituto de Tecnologia da Saúde (ITS) usará os recursos técnicos e estruturais do complexo Senai/Cimatec voltados para a saúde. O professor Roberto Badaró (clique aqui), que coordena a instalação do ITS, explicou ao Bahia Notícias que o objetivo é impulsionar a produção brasileira na área. "O Cimatec tem amplas condições de prover esse tipo de serviço, eles já fazem para outras áreas. Hoje a gente sabe também que, com a utilização das impressoras 3D, nós podemos construir moldes e até imprimir células e tecidos humanos. A gente precisa desenvolver essa tecnologia. Na área de materiais, sabemos que há as tecnologias assistivas para a população dominante do século que vai vir, que são pessoas mais velhas. Podem ser construídos, por exemplo, exoesqueletos para ajudar essas pessoas a andar. Eu estou apenas dando exemplos, não quer dizer que produziremos todas essas tecnologias, mas eu vou transversalizar o que já existe com a área da saúde", afirmou. De acordo com o infectologista, além do uso dos recursos existentes, será construído um novo prédio, o Cimatec 5, dedicado apenas a novas tecnologias. Para isso, será necessário um investimento na faixa de R$ 150 milhões. Assim como todo o complexo Senai/Cimatec, o ITS será voltado também ao ensino. "Isso é a minha grande motivação como professor universitário para aceitar isso. Não é pelos equipamentos do Cimatec, mas pela estrutura educacional para criar uma mentalidade de fazer pessoas usarem a inteligência e a capacidade do Cimatec para recuperar o tempo que o país perdeu para desenvolver coisas para a saúde", pontuou. Badaró falou ainda sobre as parcerias com instituições internacionais, relação entre ITS e Bahiafarma e sobre sua continuidade no projeto.

 

Qual o objetivo do ITS e como funcionará esse projeto?

Quando falamos em Instituto de Tecnologia para a Saúde, nós temos uma visão que é primeiro da palavra tecnologia. Os cuidados com a saúde hoje deixaram de ser manuais. Quando aprendi medicina, eu só precisava de um termômetro, um estetoscópio e um aparelho de pressão. Quando eu usava a tecnologia, pedia um raio-X e um eletrocardiograma, não tinha mais do que isso. Obviamente que as limitações eram muito grandes. Com a evolução da tecnologia aplicada à medicina, tanto na área diagnóstica quanto na área terapêutica, o Brasil foi se distanciando dos grandes centros em produção de métodos e técnicas para auxiliar no cuidado dos doentes. Esses métodos e técnicas passam por uma interação muito grande com as áreas de engenharia, eletrônica, biomateriais, automação, supercomputação, entre outras. O processo evolutivo agora teve sua velocidade triplicada. Em cinco anos, a medicina que faço hoje não vai mais ser a mesma. A entrada da computação, da internet das coisas, da capacidade de simulação de um procedimento vai adicionar à medicina uma complexidade grande e é preciso que o país esteja preparado para acompanhar isso. O custo da medicina vai ficar muito alto se a gente não produzir essas coisas. É aí que entra o Cimatec, que é um centro de tecnologias de engenharia, com diversas áreas de competência. O Cimatec tem, por exemplo, um centro de supercomputação que é um dos mais modernos do país e figura entre os 150 maiores do mundo. Ele será utilizado na área da saúde. O Cimatec tem amplas condições de prover esse tipo de serviço, eles já fazem para outras áreas. Hoje a gente sabe também que, com a utilização das impressoras 3D, nós podemos construir moldes e até imprimir células e tecidos humanos. A gente precisa desenvolver essa tecnologia. Na área de materiais, sabemos que há as tecnologias assistivas para a população dominante do século que vai vir, que são pessoas mais velhas. Podem ser construídos, por exemplo, exoesqueletos para ajudar essas pessoas a andar. Eu estou apenas dando exemplos, não quer dizer que produziremos todas essas tecnologias, mas eu vou transversalizar o que já existe com a área da saúde.

 

Haverá integração com o centro de educação? Como vai funcionar?

O Senai/Cimatec é uma instituição sem fins lucrativos que tem por vocação a educação, o ensino técnico, ensino universitário e tecnologia. Está incorporado no DNA do Senai/Cimatec ensinar, educar e desenvolver novas tecnologias. A criação desse instituto entra nesse sistema. Nós teremos atividades em bioengenharia, em sistemas elétricos, sistemas computacionais, todos formando gente com capacidade para a área da saúde. Isso é a minha grande motivação como professor universitário para aceitar isso. Não é pelos equipamentos do Cimatec, mas pela estrutura educacional para criar uma mentalidade de fazer pessoas usarem a inteligência e a capacidade do Cimatec para recuperar o tempo que o país perdeu para desenvolver coisas para a saúde. A grande motivação é que não vai ser um projeto como um foguete, que sobe e depois cai, mas como uma fazenda que vai crescendo. Vão surgir pessoas que vão ajudar o país a produzir seus insumos. Nós não produzimos nada, importamos tudo. Até mesmo uma agulha usada no hospital é de fora. A massa crítica existente no país é muito pulverizada. Há pessoas de excelente qualidade no país. Se a gente pudesse juntar essas cabeças, a gente produziria qualquer coisa na área da saúde. O Cimatec tem essa estrutura, que é muito recente, 15 anos, mas já tem uma massa crítica e isso não é nem depoimento meu. Nós recebemos um cientista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT, que é um dos mais famosos do mundo em criar coisas. Ele disse que o Cimatec tem até mais do que eles têm em um universo único dentro do MIT. Eles têm bons vizinhos, mas não tudo isso em um único espaço. Ele acha que esse instituto é um objetivo tangível e acha que vai ser um divisor de águas na área da saúde para o país.

 

 

Qual foi o investimento para instalação do ITS e como será o financiamento?

Nós estamos ainda fazendo todo esse plano de investimento. Já estimamos que somente para a produção do novo prédio, o Cimatec 5, que será dedicado só para novas tecnologias – porque já começaremos a produzir com as tecnologias existentes – será necessário entre R$ 150 milhões e R$ 180 milhões. Nós estamos fazendo toda a estrutura para aquisição desses recursos com investimentos do governo. A gente vai ter respostas no ano que vem para a viabilização desse projeto. Alguns recursos já estão prometidos. Outros investimentos já estão sendo feitos pela própria Fieb, a exemplo de contratação de alguns líderes, destinação de engenheiros técnicos com competência para voltar sua atenção para isso. Eu não estou chegando lá de paraquedas. Estou associando outras pessoas, trazendo toda a minha experiência para, junto com eles, decidir como construiremos isso. O instituto já existe, mas agora vai tomar uma forma.

 

O senhor visitou uma série de instituições norte-americanas para captar possíveis parceiros. Já há resultados?

Já tem resultados. Nós tivemos a visita de um cientista de biologia molecular, doutor Steven Reed. Ele é um cientista microbiologista, um dos líderes no descobrimento de moléculas novas para aplicação na área de diagnósticos e vacinas. Ele tem uma estrutura em Seatle, um instituto de pesquisa na área de doenças infecciosas, que domina a tecnologia de produção de medicamentos biológicos. Ele vai nos ajudar a criar nosso laboratório de biologia molecular. Nós já temos um espaço no Cimatec 3 que é suficiente para isso. Já começamos com a assessoria dele a montar isso. Fizemos um memorando para contratar projetos específicos, um na área de educação. Estamos inicialmente com pós-doutorandos para treinamentos específicos e depois passaremos também para graduação. Também tivemos aqui um professor da Universidade de Harvard que dirige um instituto chamado Elucida, que se dedica à análise de componentes de medicamentos. Ele voltou a sua atividade para análise de medicamentos genéricos e de marca. A gente sabe que houve uma dificuldade na pureza dos insumos que são utilizados para produção. Quando a gente fala em genérico, fala em remédio barato e tem que ser mesmo, porque é a proposta, mas às vezes o insumo para tornar um medicamento barato está misturado com outras coisas. No processo de fabricação, mesmo por empresas da maior idoneidade possível, pode conter impurezas que reduzem a eficácia do medicamento. É preciso que haja institutos que façam fiscalização. O Brasil tem vários locais que fazem, mas nessa tecnologia mais específica de espectrofotometria de massa não temos. Depois de visitas com a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária], eles acharam a ideia interessante e estamos desenvolvendo em parceria com o Elucida e o Cimatec para controle de medicamentos em geral. Essa parceria está bem avançada. Nós vamos mandar um PhD nosso para treinar com eles. Nós tivemos também a visita de um cientista engenheiro de precisão e diretor da área de inovação do MIT, o Nevan Hanumara. Ele é uma pessoa chave no MIT para estruturar inovações e startups na área da saúde. Ele fez uma auditoria aqui para nós, com casos específicos que já existem na área. Nós estabelecemos um programa em que ele virá três vezes por ano, junto com sua equipe, para acelerar nossas descobertas e inovações. Essa é uma parceria muito eficaz que nós temos. Chegará também um outro cientista brasileiro para a área de tecnologia assistiva, com robótica aplicada na recuperação de deficiências. Virá ainda um grupo da Universidade do Sul da Flórida para viabilizar a implantação de um centro de simulação. O aprendizado médico não pode mais ser no vivo, mas em robôs e estruturas muito semelhantes ao homem. Isso reduz muito o erro. Um grupo da Universidade da Califórnia também virá para trabalhar conosco um programa de educação e treinamentos em bioengenharia. Há outras iniciativas já existentes. Passaremos ainda a fazer contato com as empresas da área de tecnologia para investir e fazer parcerias.

 

 

A proposta do ITS parece, em parte, similar com o que a Bahiafarma está se propondo a fazer. Isso representaria uma concorrência?

Não tem similaridade nenhuma com o que a Bahiafarma faz, porque não é centro tecnológico para começar. A Bahiafarma é uma indústria de insumos e medicamentos que sempre existiu no Brasil e foi desativada. Em 2008 foi ativada para começar a entrar nessa área de parcerias de desenvolvimento. Com a nova gestão, a Bahiafarma passou a reativar isso e capacitar a fábrica para fazer isso. Por enquanto, a Bahiafarma não produz nada. Ela faz parceria de contratos de venda: pega uma empresa de fora que produz e traz para cá. Para ter uma capacidade de produção, ela teria que virar um Cimatec, e não é essa a proposta. Eu estou à vontade porque fui eu que recomendei ao governador que reativasse. A Bahiafarma fará uma parceria com o Cimatec para transferência de tecnologia. É complementar, não é concorrência. Ela sozinha não terá essa produção porque não tem esse parque. Lá é produção, não é inovação. Eles não vão inovar em nada. Nós somos inovação, incorporação de tecnologia. O processo com o teste rápido, por exemplo, é apenas um contrato que a empresa produz, manda para cá e a gente vende. Isso é ótimo, mas a gente precisa fazer teste aqui na Bahia e, para isso, é necessário produzir. Na Bahiafarma não tem técnicos, massa crítica para isso. Ela tem uma capacidade gestacional e precisa ter parceiros.

 

O senhor foi escolhido para coordenar a criação do ITS e afirmou que sua permanência tem data para acabar. O senhor não acha que o atrelamento de seu nome ao projeto pode criar uma barreira no futuro, depois de sua saída?

Absolutamente não. Isso seria o fracasso, e eu não quero fracassar. Nunca fracassei. Eu criei uma divisão de medicina internacional do zero, na Universidade da Califórnia, em San Diego. Eu cheguei lá e só me deram uma cadeira. Quando saí, deixei um laboratório e um andar inteiro. Agora ele está três vezes melhor do que eu deixei. Eu não faço falta lá e não farei falta aqui também. É preciso criar competência nas pessoas para que elas façam isso. A visão do gestor que quer construir um kingdom para ele, essa visão de reinado não é muito boa, nem na Inglaterra. A rainha está lá, mas quem governa é o parlamento. Eu tenho tempo para começar e terminar. Acho que em 5 ou 10 anos o Cimatec estará absolutamente correndo com outras pessoas com muito mais capacidade que a minha, não tenho nenhuma dúvida disso. A gente tem massa crítica. Por exemplo, esse é o grande erro na universidade. Se você entrar no Hospital das Clínicas, teve diversos laboratórios de excelência, mas quando o professor se aposenta o laboratório fecha. Ele não cria as competências, não há incentivo. O processo é muito difícil e totalmente diferente da mentalidade do Cimatec. Lá a tecnologia é criada para que as pessoas fiquem em volta dela, não donas dela. Vão surgir outras pessoas com capacidade. Isso definitivamente não é um risco ou uma dificuldade. Eu sou mais um artesão.