Novo modelo para sa˙de suplementar busca reduzir custos e priorizar medicina preventiva

Um novo modelo de funcionamento e operação para a saúde suplementar foi recentemente apresentado com o objetivo de sanar a grande perda de usuários que os planos de saúde vêm sofrendo. Apenas no último ano, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) registrou uma queda de 2 milhões de beneficiários. “O atual modelo peca no que eu chamo de defeito de origem. Em virtude desse tensionamento, para que um prestador de serviço possa obter resultado econômico e financeiro, ele precisa trabalhar com produtos muito caros, e isso está encarecendo o produto final para o usuário. O que se deseja é eliminar todo e qualquer tipo de ganho e deixar que nós nos transformemos em instituições de saúde”, afirmou o presidente da Federação Baiana de Saúde e vice da Confederação Nacional de Saúde, Marcelo Britto. De acordo com o gestor, o novo modelo terá como principal ponto a redução de valores dos planos de saúde, o que deve atrair novos usuários. O projeto piloto será testado na Bahia, estado onde surgiu a iniciativa. “O que existe atualmente é um modelo que está completamente defasado, em desuso, e que não visa criar uma relação equilibrada entre cliente e fornecedor”, completou o presidente da Associação de Hospitais e Serviços de Saúde do Estado da Bahia (Ahseb), Mauro Duran Adan. Os profissionais ainda questionaram o sistema de saúde brasileiro, que cuida da doença, não da saúde. “Isso é o que eu gosto de chamar de paradoxo universal da saúde: para que eu tenha resultado na minha empresa, recursos para pagar os trabalhadores, eu preciso ter uma população doente. Isso não é justo. Eu tenho que me focar na medicina na preventiva, porque isso será bom para a população e para as instituições”, ressaltou Britto. Em entrevista ao Bahia Notícias, os profissionais ainda comentaram o projeto de planos de saúde populares, que é atualmente avaliado pelo Ministério da Saúde. Leia a entrevista completa!

 

Foi apresentada essa proposta de um novo modelo de operação para a saúde suplementar. Quais são suas principais bases?

Marcelo Britto: Acredito que a base principal desse projeto, que chamamos de “capitation reverso”, para o usuário do plano. Acho que existem dois imensos ganhos para o usuário. O primeiro e indiscutível é no preço. O projeto significa uma redução muito significativa no valor do plano. Nós costumamos dizer no mercado que a perda de 2 milhões de vidas na saúde suplementar é em virtude da crise. Também é em virtude da crise, mas uma parte disso diz respeito ao alto custo dos planos de saúde, e o projeto contempla uma redução muito significativa desse custo. Com isso, nós esperamos recuperar esses 2 milhões de vidas e trazer novos usuários que não têm acesso por causa do valor. O segundo grande ganho que posso falar a respeito dos usuários diz respeito à burocracia. Hoje uma das maiores queixas que os usuários têm é cobertura, segundo dados tabulados pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Então ele tem dificuldade de pegar autorização para uma cirurgia, de obter uma guia para um exame de alta complexidade, de obter autorização para uso de um material de alto custo. O nosso projeto prevê que tudo isso desapareça. Não terá mais autorização, elegibilidade, guia... Ele terá que procurar diretamente o prestador de serviço, que estará pré-autorizado a fazer tudo que ele precise sem precisar contatar a operadora.

 

O senhor falou dos ganhos para os beneficiários, mas e no caso dos prestadores de serviço e das próprias operadoras?

Mauro Duran Adan: A relação estabelecida hoje no modelo de negócio existente no Brasil, que tem interveniência da ANS, é um modelo que leva o prestador de serviço e a operadora de saúde constantemente a uma situação de conflito, porque as posições são completamente antagônicas. No modelo que temos hoje, é recorrente nós termos as famosas glosas, que os prestadores de serviços sofrem com relação às operadoras, e as operadoras também têm suas queixas. Não tem um lado absolutamente certo ou errado. O que existe é um modelo que está completamente defasado, em desuso, e que não visa criar uma relação equilibrada entre cliente e fornecedor. Operadores e prestadores de serviço têm uma relação de cliente e fornecedor, mas o atual modelo da saúde suplementar no Brasil não contempla isso. É um modelo que tensiona as relações e deixa de lado o usuário, que deve estar em primeiro plano.

 

Além da queda no número de usuários, quais foram os fatores que apontaram para a necessidade dessa mudança?

M.B.: O atual modelo peca no que eu chamo de defeito de origem. Em virtude desse tensionamento, para que um prestador de serviço possa obter resultado econômico e financeiro, ele precisa trabalhar com produtos muito caros, e isso está encarecendo o produto final para o usuário. O que se deseja é eliminar todo e qualquer tipo de ganho e deixar que nós nos transformemos em instituições de saúde. Eu diria que hoje não somos instituições de saúde, mas de doença. Se alguém não estiver doente em algum momento, os hospitais e clínicas ficam vazios, os médicos ficam sem atendimentos. O que nós queremos agora, com o novo modelo, é beneficiar a medicina preventiva. Dar um incentivo para que eu possa, finalmente, trabalhar saúde. Eu gosto de fazer uma analogia, que é muito clara, com o seguro tradicional. Você tem um seguro de carro ou de incêndio. A seguradora de incêndio vai fazer uma análise dos produtos que você construiu a casa, se você tem sistema anti-incêndio... A depender, ele vai conseguir fazer uma redução muito significativa do preço do sinistro. A mesma coisa com o carro: se tem GPS e se fica em uma garagem fechada à noite, por exemplo. No nosso sistema de saúde, as operadoras não cobrem vacinas, mas cobrem se você ficar doente porque não tomou vacina. No entanto, custa muito mais caro tratar a doença do que fazer a vacinação. São paradoxos que vivemos na área da saúde e não podemos continuar assim. Nós somos médicos e instituições de saúde, não de doença.

M.D.A.: Em função um pouco dessas coisas, a inflação da saúde passa dos dois dígitos, chega a 20% ao ano, enquanto a inflação normal geralmente é metade ou 1/3. Isso se dá porque todo o sistema da saúde tem encarecido muito: equipamento, novas tecnologias, materiais utilizados, entre outros. Quando nós vamos para outros segmentos do mercado, percebemos produtos sendo lançados para atingir um maior número de consumidores. Nós temos no Brasil hoje aproximadamente 48 milhões de pessoas inseridas no sistema de saúde suplementar, mas nós temos mais de 200 milhões de habitantes. Será que o governo, o SUS está conseguindo atender a toda essa demanda? Nós sabemos que existe uma dificuldade muito grande de atendimento a essas pessoas e um grande número de queixas. Boa parte desse público poderia estar inserido no sistema de saúde privado se nós tivéssemos preços e custos mais acessíveis. Uma das nossas metas também é criar mais condições de inserir novas pessoas no sistema de saúde privado.

 

Os senhores citaram um investimento na saúde preventiva. No entanto, no Brasil a população tem uma cultura muito comum de apenas procurar médicos quando existe problemas na saúde. Isso não seria um impasse para esse novo modelo?

M.B.: A cultura você vai adaptando à realidade. Hoje, se você tiver um hospital sem nenhum doente, o faturamento vai chegar a zero. Cadê o incentivo para a medicina preventiva? O que nós buscamos hoje é uma mudança de modelo que incentive a prática da prevenção. Em tese, se você descobrisse a cura de todas as doenças, acabou todo o sistema de saúde, porque hoje ele tem como pilar a doença. Isso é o que eu gosto de chamar de “paradoxo universal da saúde”: para que eu tenha resultado na minha empresa, recursos para pagar os trabalhadores, eu preciso ter uma população doente. Isso não é justo. Eu tenho que me focar na medicina na preventiva, porque isso será bom para a população e para as instituições. Não é o que acontece hoje.

M.D.A.: Aproximadamente 80% dos usuários do sistema de saúde privado estão nos planos coletivos e empresariais. Esses planos empresariais mudam muito constantemente de operadora em busca de preço e reequilíbrio do contrato. Isso faz também com que essas operadoras não consigam fazer planos de prevenção porque o tempo médio dos usuários com eles é pequeno. É muito comum ver uma mesma empresa já ter passado por praticamente todas as operadoras do mercado buscando um equilíbrio. Fica difícil para as operadoras, assim como para os prestadores, investir em prevenção assim.

 

A Bahia foi um dos estados escolhidos para implantação do programa piloto desse novo modelo. Por que a Bahia e como funcionará nesse período?

M.B.: Esse é um projeto que começou a ser desenvolvido aqui na Bahia, provocado pela crise que o setor passa e por esse paradoxo universal da saúde, que também precisa ser resolvido. Nesses momentos de crise, as soluções começam a aparecer. Um grupo de aproximadamente 10 pessoas começou a discutir uma ideia original e chegamos à conclusão de lançar esse novo modelo para ser implementado acredito que a nível nacional. Já temos uma reunião marcada com a ANS para levar a ideia e mostrar o novo modelo. Agora vamos iniciar o projeto piloto. Uma operadora será escolhida, uma rede será montada em Salvador e outra em Feira de Santana – ou talvez a mesma em ambas – e vamos começar a oferecer planos mais baratos para os usuários, além de fazer com que nossas empresas possam trabalhar com os custos aceitáveis e sem a pressão pelo gasto. Como a Bahia foi o local em que o Brasil foi descoberto, talvez possamos fazer com que a Bahia também seja uma pioneira nessa inovação no sistema de saúde. Essa situação que vivemos aqui também perpassa por praticamente todos os outros países, tanto aqueles com uma medicina fortemente estatizada quanto aqueles fortemente liberais.

 

A ANS registrou, no último ano, uma queda de 2 milhões de usuários de planos de saúde. Além da crise, quais foram os fatores que levaram a isso?

M.B.: Posso lhe dizer que foi o custo. Nós temos planos hoje que estão custando acima de R$ 2 mil por pessoa no mês, e isso praticamente inviabiliza a compra desses planos. Nós precisamos hoje encontrar uma forma de baratear e acho que encontramos.

 

Há atualmente uma grande discussão com relação à proposta de planos de saúde populares. Os senhores acreditam que, se for aprovado, esse projeto terá impactos positivos ou negativos?

M.B.: Eu posso lhe dizer que estou acompanhando de perto, porque nós temos um assento na câmara que discute o plano popular junto ao Ministério da Saúde. Doutora Maísa Domenech que participa como representante da federação e é da Bahia. Acredito que nós temos um lado positivo e outro negativo. O negativo é o fato que pode ser que haja menos cobertura. Em um primeiro momento, isso se traduz negativamente. No entanto, eu prefiro fazer outra análise. Eu acho que aquele usuário que hoje não tem acesso a nada, apenas ao SUS, se ele consegue obter um plano que fique dentro de suas condições econômicas e sociais com cobertura para consultas e exames básicos, acho isso positivo. Primeiro, eu dou a ele direito de escolha. Hoje ele não tem esse direito: ou tem plano completo ou nenhum. Acredito que esse intermediário permitirá a ele fazer uma opção que seja mais adequada a sua realidade. A segunda grande razão é o fato de que as instituições também podem se desenvolver e criar produtos que podem atingir essa cobertura. Eu acho que todas as vezes que damos opções no mercado é positivo.

M.D.A.: A iniciativa é muito boa porque visa trazer pessoas que estão no SUS para o sistema privado. Agora o modelo é o tradicional, do fee-for-service, e cai mais ou menos no lugar comum do que tem hoje. Ainda assim, é positivo por oxigenar o sistema, que precisa de mais usuários.