Publicada no jornal A Tarde em 12 de dezembro de 1991 Novos caminhos

Tanto na Bahia como nos demais estados, o quadro político-partidário está completamente desorganizado, principalmente em relação às esquerdas. É natural. Até agora, esta corrente de pensamento tenta encontrar a identidade que perdeu com a derrocada dos sistemas de economia planificada do leste europeu. De repente, acabou o Segundo Mundo, e países como o Brasil atravessam um difícil período de transição e crise, onde se observam realidades constantes.

Nós conseguimos ser, ao mesmo tempo, bolsões primeiro-mundistas, com desenvolvimento acentuado, e também bolsões que extrapolam o Terceiro para ser, quem sabe, Quarto ou Quinto Mundos, tal o estado de miséria absoluta. Pior que esses contrastes acontecem não mais em regiões diferentes e distantes, mas no mesmo centro urbano. O entrelaçamento da riqueza com a miséria, no mesmo espaço geográfico, é chocante.

Os partidos de esquerda pretendiam dar uma alternativa para solucionar estes contrastes, mas se perderam, não só em razão dos acontecimentos registrados no Segundo Mundo como, também, em suas próprias contradições. O PT saiu na frente tentando se arrumar para atuar politicamente diante da nova realidade, não mais buscando uma via marxista, mas desejando agora atuar na esperança de chegar ao poder e humanizar a face do capitalismo. Em síntese, foi esta a conclusão do Congresso realizado pelo partido, embora cada petista possa oferecer mil análises, sobretudo se o interlocutor tiver a sorte – ou azar – de se defrontar com um teórico, um intelectual com muitas palavras e pouca ação. Não é difícil.

A partir do dia 15, com o recesso parlamentar, deve instalar-se no País uma espécie de vazio político. Normalmente acontece. É, no entanto, um bom momento para formulações e para a busca de uma identidade, de pontos de confluências das legendas que se situam à esquerda. Vai acontecer na Bahia. O Instituto Pensar, idealizado pelo ex-deputado Domingos Leonelli e por Lídice da Matta (afinal, em que partido ingressa?), realizará um grande seminário nos dias 3 e 4 de janeiro. O Pensar pretende trazer a fina flor da intelectualidade política vinculada à esquerda e as cabeças coroadas das correntes. Está confirmada a presença do senador tucano Fernando Henrique Cardoso, mentor de um encontro do PT com o PSDB, do comunista (ou ex) Roberto Freire, do presidente nacional dos tucanos, Tasso Jereissati, Sérgio Arouca, e do deputado federal José Serra.

Serão convidados Lula, Aloísio Mercadante, José Genoíno, Aloísio Nunes (vice-governador de São Paulo e, para quem não sabe, genro do escritor e jornalista baiano Walfrido de Morais), Waldir Pires e outros políticos.

Os objetivos são múltiplos. O principal deles, a união das esquerdas. Mas há alguns pontos considerados essenciais, como a discussão do papel do Estado, a questão do mercado, o resgate da igualdade e o que dominam “experiências administrativas positivas”. O pensar que, ainda, debater os novos caminhos do PT; o documento do novo partido que surgirá a partir do PCB; a situação das demais legendas de centro-esquerda etc.

Enfim, pretende-se discutir a modernização do pensamento das esquerdas, partindo-se do princípio de que a modernidade não é reserva de mercado dos neoliberais. A idéia é boa. Para um início de ano e pleno Verão de janeiro baiano, se não der certo, pelo menos dá praia.