País de Pinochios - publicada no jornal 'A Tarde' de 16 de janeiro de 1980

Retorna-se ao estado democrático, mas os tempos do arbítrio deixaram profundas marcas neste país. A verdade já não se alinha entre as virtudes dos homens que preferem mascara-la com evasivas, distorções, até. Depois, lança-se a culpa sobre a imprensa como, há pouco, procedeu o ministro Delfim Netto, que contra ela investiu, acusando-a de estar “espalhando inverdades” em torno do seu relacionamento com o ministro da Fazenda.

Rischbieter, embora flagrantemente constrangido na equipe do governo, também negava que estivesse demissionário quando, na verdade, sabia-se que o Ministério de Figueiredo respirava a crise e vivia tenso com a animosidade entre os dois ministros da área econômica.

Em outros tempos era mais fácil ao governo. Simplesmente censurava, evitando que chegassem ao conhecimento público questões internas do Planalto e até fatos de grande repercussão na vida nacional. Sob a égide da mentira, construiu-se um “milagre econômico”; o Brasil virou potência; tornou-se uma ilha de paz e desenvolvimento neste conturbado planeta. Fechou-se o ciclo do arbítrio, revogou-se o AI-5 e estreamos dias de abertura política, patamar de instituições verdadeiramente democráticas, anseio e vocação do povo brasileiro. Mas, a mentira resistiu e ainda hoje permanece regra.

Desde que o ministro Delfim Netto assumiu o Ministério do Planejamento, a imprensa noticiava as suas divergências com Rischbieter, sempre negadas no dia subseqüente. A crise de relacionamento, no entanto, perdurava, mais nervosa e tensa num momento, mais branda em outro. A polêmica, porém, atingiu ao clímax quando Rischbieter colocou em xeque Delfim e sua equipe, declarando que eles deveriam demitir-se, se não conseguissem vencer a inflação.

Ganhou contornos mais profundos na semana passada, com a aberta divergência entre ambos sobre comércio exterior e a criação de uma corretora estatal proposta pelo gabinete do Ministério do Planejamento. Mais uma vez, houve desmentidos e, o mais contundente, no final da semana, com a investida de Delfim contra a imprensa, chamando-a de mentirosa, o que valeu uma energética nota do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, ontem distribuída, contra a estocada do irrequieto e gordo ministro.

Karlos Rischbieter que, afinal, entregou o cargo, negava que estivesse demissionário até o anoitecer de segunda-feira, quando, mais uma vez, declarou que “estava perfeitamente integrado no espírito e na equipe do governo Figueiredo, isto depois de missões pacificadoras, empreendidas pelo ministro Golbery do Couto e Silva, designado para mediar os desentendimentos e arrancar, de ambos, um pacto de boa vizinhança.

A renúncia do ministro da Fazenda em nada modifica o panorama econômico do país. Permanece tudo absolutamente no mesmo, menos para Delfim Netto, um homem com sede de poder, que agora afasta mais um obstáculo colocado no caminho da suas ambições políticas. Hoje, o ministro do Planejamento concentra em suas mãos os superpoderes da república, colocando-se como o senhor do bem e do mal.

Os desmentidos constantes às verdades divulgadas pela imprensa deixam o governo na incomoda situação de ver-se contestado, em seus próprios pronunciamentos, que são empurrados para a casa zodiacal do descrédito. O senhor Delfim Netto põe-se à frente com uma bagagem – esta, sim, merecedora de crédito – que remonta ao início dos anos 70.

Pois foi ele o pai do “milagre” e do ufanismo; o responsável pela manipulação de dados estatísticos, em 1973, que apontavam o custo de vida em torno de 12 por cento, quando na verdade era três vezes maior, ou, mais precisamente, 37 por cento. Este ministro, entretanto, é um homem obstinado pelo poder, que nele age como político tecendo, com uma equipe coesa, estratégias para afastar da cúpula que dele diverge, de forma inteligente, mas de resultados duvidosos.

Como duvidosos são os resultados do seu modelo de desenvolvimento e das medidas econômicas que acionou para contornar a crise em que o, pois está imerso, golpeado por uma inflação que atemoriza e que o povo não suporta.

Sem Karlos Rischbieter, Delfim Netto ganha mais espaço para as suas experiências no campo econômico, que ainda não convenceram. Se fracassar, deve aceitar o conselho do ministro renunciatório e se afastar da equipe ministerial. Pois, numa democracia, o povo não pode suportar o ônus do fracasso das idéias de um ministro. Isto, se o jogo democrático que se ensaia for, como se acredita, à vera.
 

* Coluna publicada originalmente na edição do jornal A Tarde de 16 de janeiro de 1980